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Quinta-feira, 6/5/2010
Uma chave para o longe
Elisa Andrade Buzzo

+ de 3100 Acessos
+ 2 Comentário(s)


foto: Sissy Eiko

Passa por este caminho já percorrido como se fora pela primeira vez. A primeira vez que pisou na terra do norte. Lembra do tom dourado de trigo dos prédios se descortinando como se fossem moedas de ouro lançadas para o alto. Existem apenas duas opções ― cara ou coroa. Assim também funciona com as passagens: ou se tem a chave, o segredo, ou elas se mantêm impassíveis, impossíveis de serem desvendadas. Uma cidade tem muitas portas, mas a chave só abrirá, ou não, a tranca de uma delas. A chave tem o contorno exato para uma reentrância, e esta é comprida, acobreada, quase entra nos dedos sua arruela. Agora respira este ar desconhecido. É como se respirasse o ar do nascimento, pois reabre os pulmões para uma nova experiência. O ambiente também é desconhecido, por isso vai tateando no escuro, ainda longe de entender o caminho prestes a ser percorrido. Aporta no velho novo mundo.

Água. A água límpida no espelho onde brincam crianças, caminham namorados, flutua o vapor no vento de verão. O espelho d'água está entornado pelo rio, pela praça de arquitetura colonial exuberante. Ao fundo, a torre da igreja, flecha empunhada contra o céu. Debaixo do espelho, o líquido escoa, para depois retornar murmurante. O gradeado subterrâneo esconde a verdade dos esgotos. Um Hércules de bronze em dezenas de pedaços é testemunha da colonização romana. Aqui continua a ser um jogo de montar peças: onde os pontos devem se encaixar para o encontro da forma ideal? A resposta está no museu da cidade, com a estátua de braços abertos, o peito recosturado, nada além do tronco pois metade do corpo se perdera. Um objeto distante de sua origem se recobre de mistério e parece ter perdido sua utilidade, como a chave dependurada na grade, quase despercebida. Fora de contexto, ela cria um ruído no ambiente, embora seja de uma simplicidade rasa, perfeitamente possível de ser compreendida. Ou mesmo outra peça, a chave comprida que encontra na mesa, pega entre as mãos e lê a identificação "grade da entrada".

Na igreja próxima ao espelho d'água há uma porta muito grande e antiga, cuja chave não a abre. A porta leva ao subterrâneo da igreja, frio, úmido, onde vivem caveiras sorridentes. Sobe as escadas de pedra escura e se depara com outra escada, clara, retorcida e estreita, que, desta vez, leva à torre da igreja. O ar adentra pelos poucos orifícios vertiginosos, por onde vislumbra a paisagem apequenar-se, e ainda que seja impossível passar por um deles, o corpo, magnetizado, insiste na possibilidade de lançar-se abaixo. Sobe os degraus altos com o mesmo vigor de outrem, gasta mais um pouco a superfície aparentemente dura, pois foi com a insistência de muitos que ela foi sendo moldada, deforma-a com seus pés. Sente-se preso ao jogo oprimente da construção, mas que o mantém ereto e em segurança nesta subida em que o corpo humano se encaixa à torre, da mesma forma que a chave se acopla à anatomia do segredo.

Do alto da sacada vê-se a cidade, amarela, disposta em fracionamentos ruidosos de vida, como utensílios em uma bandeja a tilintar; ouve-se tudo ao mesmo tempo, e então não há mais distinção entre as partes neste todo compacto, pois todas as opções engolfam-se nele, aleph; veem-se portas gigantes, sem maçanetas nem fechaduras, por onde o povaréu passa e repassa sem se dar conta do ato cotidiano de desvendar, de ter o segredo decomposto, pronto em suas mãos, o que lhes dá o direito de caminhar automaticamente, sem juntar as peças, sem a permissão da abertura ou o chaveamento. Avista um portão digno de rei ― é o do jardim público, com grades frescas em azul cujo topo recebe lanças banhadas a ouro. Onde está seu fecho? A chave, nua, por si mesma, servirá a qual propósito?

Mais distante ainda, o parque se espraia em uma paisagem esverdeada e compacta: a perspectiva infinita das vinhas, exército pacífico de Baco. Delimitando o início difuso que separa a cidade da corveia, há um outro gradeado alto, negro, portentoso, a partir de onde se avista a continuidade do vinhedo. Em cada ramo das fileiras recurvadas sobre si mesmas, grandes roseiras, eretas sentinelas, exibindo suas flores carnudas, escarlates, suas espinhas, vicejam a vida resguardada. Olha pelo buraco da fechadura do portão deste gradeado e lá vê mais um gradeado, onde há um outro portão, cuja chave o abre e leva ao caminho das estrelas.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 6/5/2010


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/5/2010
10h48min
"Fora de contexto, ela cria um ruído no ambiente, embora seja de uma simplicidade rasa, perfeitamente possível de ser compreendida." Adorei este trecho...
[Leia outros Comentários de nilt]
12/5/2010
14h50min
Gostei desse trecho: "A chave tem o contorno exato para uma reentrância, e esta é comprida, acobreada, quase entra nos dedos sua aruela. Agora respira este ar desconhecido. É como se respirasse o ar do nascimento, pois reabre os pulmões para uma nova experiência". Lindo!
[Leia outros Comentários de Junior]
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