Poesia em zona de perigo: Donizete Galvão | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
74915 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Com 21 apresentações gratuitas, FLOW Literário aborda multi linguagens da literatura
>>> MASP, Osesp e B3 iniciam ciclo de concertos online e gratuitos
>>> Madeirite Rosa apresenta versão online de A Luta
>>> Zeca Camargo participa de webserie sobre produção sustentável de alimentos
>>> Valéria Chociai é uma das coautoras do novo livro Metamorfoses da Maturidade
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> Fio desemcapado
>>> Verbo a(fiado)
>>> Janelário
>>> A vida é
>>> (...!)
>>> Notívagos
>>> Sou rosa do deserto
>>> Os Doidivanas: temporada começa com “O Protesto”
>>> Zé ninguém
>>> Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Apresentando a Google TV
>>> Noite branca no cinema
>>> O cérebro espiritual, de Mario Beauregard
>>> Sobre escrever
>>> Os Axiomas de Zurique, de Max Gunther
>>> Sou diabético
>>> 3 de Maio #digestivo10anos
>>> O Joca me adora
>>> A volta das revistas eletrônicas
>>> As duas divas da moderna literatura romântica
Mais Recentes
>>> O Leao da Noite Estrelada de Ricardo Azevedo pela Saraiva (2004)
>>> História e Cultura dos Povos Indígenas no Brasil de Carmen Lucia Campos pela Planeta (2011)
>>> Quando é Preciso Partir de Zibia Gasparetto pela Vida e Consciência (2001)
>>> Branca de Neve - Clássicos Ilustrados de Maurício de Souza pela Girassol (2008)
>>> A Lei do Retorno: os Anjos Também Choram de Melissa Gimenes Costa - Espírito Zorram pela Madras
>>> Acordar Ou Morrer de Stella Carr; Rene de Francisco pela Moderna (1991)
>>> Redação como libertação de Hildo Honório do Couto pela Unb (1990)
>>> Quando a Vida Escolhe de Zibia Gasparetto; Lucius pela Vida e Consciencia (1997)
>>> O Falcão de Penas Salpicadas de Lucia Machado de Almeida pela Francisco (1986)
>>> Gramática : teoria e exercícios de Paschoalin & Spadoto pela Ftd (1996)
>>> Namoro e Virgindade de Paulo-eugène Charbonneau pela Moderna (1991)
>>> 9788565704724 de Daniele Farfus pela Daniele Farfus
>>> Pais e Filhos sem Aspas de Neumoel Stina pela Grafsol (2017)
>>> A Literatura Infantil e Juvenil - Abordagens Múltiplas de Thiago Lauriti e Wendel Cássio Christal (orgs.) pela Paco Editorial (2013)
>>> A Lei da Atração - O Segredo Colocado em Prática de Michael J. Losier pela Nova Fronteira (2007)
>>> Fui ao céu e voltei de Mary C. Neal pela Lua de Papel (2013)
>>> A esperança de Suzanne Collins pela Rocco (2010)
>>> Canção do Exílio de Marion Zimmer Bradley pela Imago (2000)
>>> O Meio Ambiente Em Debate de Samuel Murgel Branco pela Moderna (1997)
>>> A Escola e Seu Entorno Como Ferramentas de Ensino da História Local... de Aristides Leo Pardo pela Monstro dos Mares (2019)
>>> Mensageiros da Esperança de Ellen G. White pela Casa (2007)
>>> A Escola e Seu Entorno Como Ferramentas de Ensino da História Local... de Aristides Leo Pardo pela Monstro dos Mares (2019)
>>> A Origem das Espécies - Tomo II de Charles Darwin pela Escala (2008)
>>> Profundamente Sua de Sylvia Day pela Paralela
>>> Enquanto o Resgate Não Vem Precisamos Sobreviver de Paulo R. Pingituro pela Do Autor (2013)
COLUNAS

Terça-feira, 21/9/2010
Poesia em zona de perigo: Donizete Galvão
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 4500 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O novo livro de poesias de Donizete Galvão tem um tom grave. Diferente dos outros, onde o poeta buscava uma certa transcendência através da transfiguração dos elementos do mundo, o que se publica agora desvela perdas, retalhos, estilhaços. Mais doloridos, os poemas não são melancólicos como em outras safras. Aferram-se a uma certa brutalidade dos fatos.

Talvez uma resposta irritada a um estado de coisas que já o cansou. Decide, por isso, aceitar mais o fato (com nervos expostos, é claro) de que nós e, por que não, o mundo, temos como marca principal o fato de termos nos tornados seres inacabados, como sugere o título do seu livro O homem inacabado, editado pela Portal Editora.

Diferente da ideia de se tirar leite das pedras, agora Galvão decide dar ouvido às pedras por elas mesmas. Revela "o grão amargo do equívoco", mas sabe que "ninguém sai dele de mãos vazias", como sugere no poema "Saturação". E a ideia do próprio título do poema não revela o que eu disse acima? Saturado, o poeta deixa os estilhaços aparecerem na sua poética, às vezes em belíssimas imagens, plásticas, mas violentas, como no fantástico poema "A romã": "aberta/ ― cicatriz risonha ―/ a exibir dentes de rubis", mas sangrenta fruta como "ninfa deflorada".

Não há mais morada tranquila nessa poesia que é "cicatriz de um ninho quente", "infância onde o homem já não cabe", como no poema "(Abrigo)". O abrigo do título do poema se fecha em parênteses como proteção ou prisão? Ao terminar o livro com o poema "Um outro homem inacabado" não faz mais que concluir de forma dura o sentido da existência na cidade moderna, onde "cada homem é estilhaço,/ entulho jogado na caçamba".

Na incerteza do existir, na total ausência de concretude, tomado pelo mundo flutuante, o poeta anota a identidade entre a "cidade impermanente" e o fato de que ali o "homem jamais está inteiro". Retalhos, mutações, perdas, demolições, palavras que revelam a total irrelevância de se tentar construir um lar para si mesmo, que seria o mesmo que plantar uma "flor amarela que teima em brotar/ em zona de perigo".

O sinal mais trágico dessa poesia se revela na irrelevância da transcendência, ainda no poema "(Abrigo)", quando o poeta mira uma "casa branca" e "imaterial" como possibilidade perdida de guarida, pois "a vida/ já perdeu/ o seu sal". Resultado de uma depreciação do humano no mundo fetichista de uma existência falsa, apenas imagética, onde não se precisará da organicidade do suor do rosto, nem do rosto, posto que os seus músculos são apenas "um objeto em desuso".

Os poemas são, um após o outro, uma "guerra íntima", sem "nenhum indício de paz", já que a existência se concretiza apenas na negação, como no poema "Esquivo", onde a sombra do poeta é fora de foco, do eixo, da ordem, da forma, "vulcão de afeto,/ tua desavença/ com o mundo".

Retomando a ideia da alienação do trabalho, tal como Marx a via, o poeta denuncia o vazio sisifiano do existir: "Preso no círculo da repetição/ morre um pouco/ ao fim de cada dia". Não é um poema social, mas, ao contrário, uma percepção existencial da impossibilidade de se realizar inteiramente em qualquer tarefa, já que, como no poema "Uso", "o que o homem gasta/ em suas mãos/ adquire a aura/ de suas dores".

O que pensar do poema "Vida minúscula" se não que o poeta, esse ser descentrado, teve uma destinação traída, alimentado por "um veneno/ que o aparta dos seus", fazendo-o viver "num mundo/ que sempre lhe será estranho". Errado nos dois mundos, o da terra, da enxada, das tarefas e "da descoberta da língua" desordinária (da poesia), ele se condena à errância. A imagem que se adéqua a essa ideia pode ser lida em alguns dos versos do poema "Relento":

"na terra e no vento
no desamparo da queda
sem colo
ventre
útero
como último abrigo".

O poeta se conscientiza de sua total inadequação e também de sua total inutilidade. Poemas para quê? Metáfora disso está em "O cortador de bambus":

"Cortei bambu: para ti, meu filho
quando não precisamos mais de bambus
se temos cimento e tijolos?".

Um outro poema merece destaque, é "Night Windows". Talvez um dos mais pessimistas do livro, pois leva às últimas consequências a ideia do fracasso da existência deste "homem inacabado". Consumido na solidão das noites, "está por um fio" e poder vir a ser "um corpo que cairá no negrume da noite":

"O quarto está deserto
Uma das janelas está aberta.
O vento suga a cortina branca para fora da casa.
Alguém está por um fio.
Alguém aposta sua última ficha.
Um corpo cairá no negrume da noite".

Vários poemas no livro podem estar falando da condição do poeta, ou da condição humana como um todo, como uma condenação ao desterro. Em "Anedota japonesa" as imagens da vida negativa desfilam para um final no mínimo pessimista. Imagens de peixes mecânicos, terno de vidro quebrado, armários de espanto, corvos com bicos de ferro que furam o cérebro, vísceras de Mishima... imagens de uma solidão atroz pela qual "Nenhum cão na imensa Tóquio ganirá".

A orelha do livro, escrita por Reynaldo Damazio, relembra "a imagem do anjo de Klee, contemplando as ruínas do mundo, evocando a situação do poeta no tempo presente". E se o corpo, lugar da existência aos pedaços, é pura miséria na poesia de Galvão, as ilustrações do artista plástico Rogério Barbosa radiografam os destroços.

Donizete Galvão afina sua língua nesse novo livro com poesias agora mais ácidas e fruto de tormentos, mas se o que emite é "grito, gemido, uivo, corte, ferimento", o que se pode ver é que aqui é que sua poesia tem ainda mais "cabimento".

Nota do autor
Para comprar o livro acesse www.portaleditora.com.br.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 21/9/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Corot em exposição de Jardel Dias Cavalcanti
02. O bosque das almas infratoras de Elisa Andrade Buzzo
03. Notas sobre a Escola de Dança de São Paulo - I de Elisa Andrade Buzzo
04. Ação Social de Ricardo de Mattos
05. Bibliotecários de Ricardo de Mattos


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2010
01. Poesia sem ancoradouro: Ana Martins Marques - 23/3/2010
02. Rimbaud, biografia do poeta maldito - 10/8/2010
03. 29ª Bienal de São Paulo: a politica da arte - 12/10/2010
04. A letargia crítica na feira do vale-tudo da arte - 5/1/2010
05. Inhotim: arte contemporânea e natureza - 2/3/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
27/9/2010
11h07min
O bom da poesia é que o poeta aprende a juntar o concreto com o abstrato, ou até mesmo com o lúdico. E viaja na poesia, como quem busca o finito do infinito.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Exercício de Cidadania Política Junto ao Poder Legislativo
Comissão de Legislação Participativa
Centro de Doc e Infor (brasili
(2004)
R$ 10,00



Uma Nuvem num Pote de Barro
Miguel de Castro Henriques
Assírio & Alvim
(2002)
R$ 48,77



Revista Paulista de Medicina Vol. 55 Nª 6
Associação Paulista de Medicina
Associação Paulista de Medi
(1959)
R$ 11,05



Advances in Universal Web Design and Evaluation
Sri Kurniawan, Panayiotis Zaphiris
Igi Golbal
(2006)
R$ 200,00



Inquisição Em Minas Gerais no Século XVIII
Neusa Fernandes
Uerj
(2004)
R$ 36,30
+ frete grátis



Jogos e Jogantes - 2ª Edição
Fabían Mariotti
Shape (rj)
(2007)
R$ 19,28



Nos Gelos Polares
R. P. Duchaaussois
Vozes
(1943)
R$ 15,00



Vida, Forma e Côr
Gilberto Freyre
José Olympio
(1962)
R$ 62,91



Custos Planejamento, Implantação e Controle
George S. G. Leone
Atlas
(1989)
R$ 12,00



O Mapa do Tempo
Félix J. Palma
Intrínseca
(2010)
R$ 10,00





busca | avançada
74915 visitas/dia
2,3 milhões/mês