Nós que aqui estamos pela ópera esperamos | Renato Alessandro dos Santos | Digestivo Cultural

busca | avançada
78320 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Sesc 24 de Maio apresenta novos episódios do projeto Música Fora da Curva
>>> Quarador de imagens partilha experiências em música, teatro e cinema
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Temporada Alfa Criança estreia Zazou, um amor de bruxa dia 24 de abril
>>> Operilda na Orquestra Amazônica Online tem temporada grátis pela Lei Aldir Blanc
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Estreia: Geração# terá sessões virtuais gratuitas
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
>>> O zunido
>>> Exposição curiosa aborda sobrevivência na Amazônia
>>> Coral de Piracicaba apresenta produção virtual
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> A morte da Gazeta Mercantil
>>> A hora certa para ser mãe
>>> Blogging+Video=Vlogging
>>> In London
>>> Mil mortes de Michael Jackson
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Dalton Trevisan revisitado
>>> Who killed the blogosphere?
Mais Recentes
>>> Metanoia - A Chave Está Em Sua Mente de JB Carvalho pela Chara (2018)
>>> 8 Hábitos Do Líder Eficaz De Grupos Pequenos de Dave Earley pela Ministério Igreja em Células (2013)
>>> Final Da Tempestade de Deive Leonardo pela Quatro Ventos (2020)
>>> Enquanto Isso (journal) de Fernanda Witwytzky pela Quatro Ventos (2020)
>>> A caminho do Sótão de Denis Mattar pela Livraria Cultura (1978)
>>> Devocional Simplificando O Secreto (Capa Dura) de Vários pela Quatro Ventos (2020)
>>> A santa sem véu de Tibério Vargas Ramos pela Age (2013)
>>> Danuza & sua visão de mundo sem juízo de Danuza Leão pela Agir (2012)
>>> Fora de mim de Martha Medeiros pela Objetiva (2010)
>>> Contos de Voltaire pela Abril Cultural (1983)
>>> O assassino de Evelyn Anthony pela Martins (1974)
>>> O condenado de Gabriel Lacerda pela Lacerda Ed. (1998)
>>> Curso de Aperfeiçoamento Em Betão Armado - livro de J. Darga e Lima e Outros pela Lnec (1969)
>>> O dinheiro de Arthur Hailey pela Nova Fronteira (1975)
>>> A insurreição de Antonio Skármeta pela Francisco Alves (1983)
>>> Era Uma Vez o Amor, Mas Tive Que Matá-lo de Efraim Medina Reyes pela Planeta (2006)
>>> Dominó de Ross King pela Record (2010)
>>> Jogos Surrealistas de Robert Irwin pela Record (1998)
>>> Revista Planeta 11 - Julho 1973 - a Psicologia Pode Melhorar o Mundo de Ignácio de Loyola Brandão pela Três (1973)
>>> O Último Cabalista de Lisboa de Richard Zimler pela Companhia das Letras (1997)
>>> Livro Alegria e triunfo de Lourenço Prado pela Pensamento (2021)
>>> Perigos Que Rondam o Ministério de Richard Exley pela Ucb (2003)
>>> Revista Planeta 12 - Agosto 1973 - Para que serve a Ioga de Ignácio de Loyola Brandão pela Três (1973)
>>> Predestinação e Livre-arbítrio de John Feinberg pela Mundo Cristão (1989)
>>> Cartas de João Guia de Estudos Práticos de Laudir e Sonia Pezzatto pela Sepal (1989)
COLUNAS

Terça-feira, 4/7/2017
Nós que aqui estamos pela ópera esperamos
Renato Alessandro dos Santos

+ de 2500 Acessos


A primeira vez foi na biblioteca. Mas, por favor, se não quiser saber de nada disso, pule este e o próximo parágrafo. Estava no campus da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Havia passado em Ciências Sociais, mas seis meses depois abandonei o curso. Nada de sociologia, de política, de antropologia; descobri que queria mesmo era fazer Letras; então, fiquei na biblioteca do campus, pelejando para o próximo vestibular. Tinha 19 anos e, veja você, disciplina para estudar. Mas dentro de uma biblioteca daquelas não dá para não ir até a estante de literatura e não descobrir um autor novo, um livro acabado de chegar, ou uma edição em capa dura de A dama das camélias, de Alexandre Dumas, filho (1824-1895), romance que em manhãs de indolência ia lendo. Foi a primeira vez.

20 anos depois, a Ópera começou a passar toda hora diante de casa, olhando furtivamente para dentro, reparando nas coisas. Chamava a atenção. Havia comprado duas coleções de CDs e libretos que, juntos, formam um mosaico de tenores, barítonos, sopranos, e foi La traviata (1852), de Giuseppi Verdi (1813-1901), que segurou meu rosto com as duas mãos, e me olhando nos olhos, que giravam em meio à correria, “Olá, prazer; sou a Ópera, e daqui em diante vamos passar muitas horas juntos” ― ela me disse, e em seguida perguntou, “Você vem?”, e eu fui. Minha mulher não gostou nada disso e jura que ainda há de acertar o nariz da outra, enquanto compreende como as coisas funcionam nesta vida moderna que toda a gente leva. Não me lembro se sabia que La traviata é uma versão de A dama das camélias, mas certo é que da literatura para a música a ópera de Verdi deu certo, e hoje a história de Violetta gira o mundo. É o que nos traz até aqui.

Não é que em Batatais (3h58min. de São Paulo), cidadezinha onde tenho um CEP, notícias deram conta de que uma montagem de La traviata iria acontecer? Suspeitas de que se tratasse de um engano ― por que em Batatais e, não, em Ribeirão, onde um dos maiores teatros do Brasil poderia recebê-la com maior estrutura? ― não se confirmaram: um dos tenores, natural daqui, estava contente porque tudo começaria em sua terra, e assim nós que aqui estamos pela ópera esperamos, e quando ela chegou, foi uma apresentação honesta, a aguardar ajustes em um ou outro parafuso, expediente a que se presta toda estreia, mas nada que deixasse a plateia insatisfeita com o que viu na noite de 21 de maio de 2017.

Dias antes, não conseguia comprar os ingressos, e você pode, desculpe, mais uma vez pular este parágrafo e ir para o próximo, por favor. Não vai acontecer de novo. Promessa. É que ia ao teatro quando a moça da bilheteria não estava, e lá nenhum funcionário existia a informar se outro lugar havia para comprar os ingressos; à deriva, enfim. Até que, na véspera, encontro um aluno, o Etore, e por causa dele e de outro amigo telefono ao tenor Alan Faria, um dos responsáveis pelo contato com a mídia, neste caso, toscamente representada naquela ligação por mim, e, com uma voz de locutor ao vivo na rádio FM local, ele me oferece dois convites, pelos quais agradeci. No dia da ópera, compraria outros dois ingressos e, finalmente, tudo seria resolvido. A coluna já vai tarde, mas as coisas têm o tempo que têm, e a paciência e a correria são só dois lados da mesma moeda... um pião girando... até que para.


Chega o domingo. Chega a hora de ir ao Fausto Bellini Degani, que segundo um humorista é dos maiores teatros do Brasil e, por isso, nunca lota. Mal sabiam o comediante e seu alaúde que La traviata da Cia. Sol ‘Ópera seria capaz de reverter essa má fama. Ou quase, porque com o teatro 99,9% lotado nos sentamos. Desde que moro aqui, é a primeira vez que uma Cia. apresenta uma ópera na cidade.


De onde estamos, vêm até nós notas tocadas por uma flauta, por uma clarineta, por uma porção de cordas. É que o palco do teatro tem um fosso, e os músicos estão lá dentro, feito Jonas, tocando, incidentalmente, temas da ópera. Vale mencionar que ter sido recebido dessa forma foi um ponto a favor dos instrumentistas. Chega o sinal de que o espetáculo vai começar e, lá fora, alguém ao celular faz questão de falar alto ao telefone, acompanhado pelos espectadores que, sem outra coisa que fazer, aguardam... A conversa acaba, porque a paciência do público chega ao fim, alertando a criatura que feria o código de conduta para uma ópera. Não deve ser fácil ser artista. O maestro Nazir Bittar é aplaudido. A luz esmaece e, sem que o público perceba, o espetáculo já começou: uma moça da produção vem acendendo velas e velas de dois candelabros sobre duas mesinhas, que estão separadas por um sofá ou uma namoradeira; mais afastada, há uma mesa com algumas cadeiras e, do lado oposto, sem necessidade alguma, uma pequena mesa. É a mobília que há; é a mobília que basta para compor o palco: é um quarto, mas logo será um salão de festa.

A moça já acendeu todas as velas; o palco é ocupado por personagens famosos da ópera secular de Verdi, e a música surge. Magnífica. Um coração com uma pedra em cima. Pesarosa, como se dissesse a nós: "preparem-se para a triste história que eu vou contar", e o que ela traz é um cabo-de-força, desses que arrebentam do lado mais fraco. Do ambiente privado do triste “Prelúdio” passa-se ao cenário público de “Dell’Invito trascorsa é già l’ora”, que antecede o festim de “Libiamo ne’ lieti calici”, a ode a todos os que, flamejando, celebram a sístole e a diástole que nos mantêm vivos. A tradução é de Mariana Portas: “Bebamos destes alegres cálices, que a beleza cobre de flores; e que este pequeno instante se embriague de prazer. Bebamos nas doces emoções que despertam o amor, porque seu olhar ao coração é onipotente. Bebamos, amor, que o amor entre os cálices encontrará beijos mais ardentes.”

Uma luz amarelecida ficará em nossa memória, permanecendo por quase todo o espetáculo, quando, ao fim, se apagará, ou melhor, se tornará branca, escandalosamente branca. Enquanto esse lume, idêntico à iluminação de postes de ruas, estiver acesso, manterá viva a heroína desta história, a triste história de Violetta.

A cenografia e o figurino trazem aquele charme de filme B, e o canto lírico esparrama-se pelo teatro, ancorado pela presença de outras vozes que compõem o palco: Géisia, Fernando, Paula, Daniela, André, Letícia e Michael. Agora, se você já conhece os bastidores de La traviata, imagine a responsabilidade de Carla Barreto: é ela que encarna Violetta e que, a cada interpretação, vê-se obrigada a encarar uma comparação injusta; da mesma forma que o Hamlet decisivo esteve nas mãos de Laurence Olivier (1907-1989), sir, ninguém menos que Maria Callas (1923-1977) deu corpo e voz definitivos à camélia com nome de outra flor, violeta, estabelecendo o antes e o depois na trajetória de La traviata, e depois de Callas fica difícil a qualquer mortal encarar o desafio dessa ópera de exigências vocais sobrenaturais. Mas Carla soube contornar a coisa toda, emprestando sua voz à tuberculosa Violetta, com empatia suficiente para estabelecer com o público um compromisso em que ambos saíram recompensados.


Já Alan Faria, o amante de Violetta, Alfredo Germont, de Batatais para o mundo, surpreendeu com um vozeirão encorpado, de roubar a cena. Ele é tenor de tessitura e de fraseado límpidos, temperados por uma presença de palco que se impõe. Carlos Gonzaga, seu pai na peça, no papel de Giorgio Germont, carrega nos graves com o louvor e a harmonia de uma escola de samba, e como tem de acontecer em La traviata entre os três rola a maior química. Walter White was here.


O público, comovido, aplaude cada vez que pode, sem perder nenhuma oportunidade. Muitos julgam de mau gosto tal comportamento, mas, se pensarmos bem, a música é aplaudida porque ilumina as pessoas ― é o idioma do coração, certo? –, então, está tudo bem. Com os diálogos em português, outro acerto da Cia., nós, o público, vamos nos acertando com o enredo. Pelo teatro, pessoas de todas as idades, de crianças a sesquicentenários amoráveis. Os três atos vêm em apenas um, e em duas horas o espetáculo termina, aplaudidíssimo, com superlativo absoluto sintético e tudo. Vamos cumprimentar os tenores, o maestro, os músicos, e eles estão em estado de graça. Lá fora, quando saímos, cai uma chuva digna, como se os céus resolvessem também lamentar o triste destino de Violetta Valéry, essa personagem das desgraçadas sarjetas da música, da literatura, do cinema, da vida, enfim.





Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 4/7/2017


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A verdade somente a verdade? de Adriane Pasa
02. Thomas Bernhard com espírito curitibano de Franco Caldas Fuchs
03. Adolescente lê, sim, senhor! de Ana Elisa Ribeiro


Mais Renato Alessandro dos Santos
Mais Acessadas de Renato Alessandro dos Santos em 2017
01. A imaginação do escritor - 25/4/2017
02. Manchester à beira-mar, um filme para se guardar - 3/10/2017
03. Um parque de diversões na cabeça - 30/5/2017
04. Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá? - 1/8/2017
05. Nós que aqui estamos pela ópera esperamos - 4/7/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Política X Técnica No Planejamento Perspectivas Críticas
Ray Bromley / Eduardo S. Bustelo Orgs.
Brasiliense
(1982)



Acesso aos Direitos Socias: Infância, saúde, educação, trabalho
Paulo Sérgio Pinheiro e Regina Pahim Pinto
Contexto
(2010)



O Segundo Círculo
Patsy Rodenburg
Best Seller
(2009)



Bons Mots & Facéties des Pères Du Désert
Piero Gribaudi
Oeil
(1987)



Justiça, Direito e Cidadania
Marcelo Ribeiro Uchoa
Lumen Juris
(2014)



Teatro Mexicano: Teatro Mexicano del Siglo XX
Antonio Magaña-Esquivel
Fondo de Cultura Económica
(1970)



Matar por Prazer
Linda Howard
Bertrand Brasil
(2019)



Pedagogia e Comunicaçao no Registro da Liberdade
Sandra de Fátima Pereira Tosta
Puc Minas
(2006)



Quando a vida escolhe
Zíbia Gasparetto
Vida
(1997)
+ frete grátis



O livreiro de Cabul
Asne Seierstad
Record
(2006)





busca | avançada
78320 visitas/dia
2,6 milhões/mês