Meu querido Magiclick | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
67999 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Teatro Sérgio Cardoso recebe As Conchambranças de Quaderna de Ariano Suassuna
>>> “Meus bichos do sertão”, da artista mineira Maria Lira, em exposição na AM Galeria
>>> Maurício Limeira fará parte do DICIONÁRIO DO PROFUNDO, da Ao Vento Editorial
>>> Longa documental retrata música e territorialidade quilombola
>>> De Priscila Prade, Exposição Corpo em Quarentena abre dia 4/10
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
>>> A história de Chieko Aoki
>>> Uma história do Fogo de Chão
>>> BDRs, um guia
>>> Iggor Cavalera por André Barcinski
Últimos Posts
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
>>> Indistinto
>>> Mais fácil? Talvez
>>> Riacho da cacimba
Blogueiros
Mais Recentes
>>> FLIPS
>>> Digestivo no Podcrer
>>> Casamento atrás da porta
>>> Aida, com Lorin Maazel e a Symphonica Toscanini
>>> 10º Búzios Jazz & Blues III
>>> A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb
>>> Tubo de Ensaio
>>> Caso Richthofen: uma história de amor
>>> Lei do Sexagenário
>>> Desglobalização
Mais Recentes
>>> O negócio dos livros: Como grandes corporações decidem o que você lê de André Schiffrin pela Casa da Palavra (2006)
>>> Jesus Cristo Veio na Carne é de Deus de Centro Bíblico Verbo pela Paulus (2019)
>>> Inexistência da Doença de Masaharu Taniguchi pela Seicho-no-ei (2015)
>>> Jesus a Vida Completa de Juanribe Pagliarin pela Bless Press (2012)
>>> Poemas para Ler na Escola de João Cabral de Melo Neto pela Objetiva (2010)
>>> O Juiz do Turbante Dourado e a Senhora das Agulhas de Francisco Fernandes de Araújo pela Pontes (2007)
>>> Juntando as Peças Liderança na Prática de Maércio Rezende pela Saint Paul (2010)
>>> Kundu de Morris West pela RioGráfica (1986)
>>> O Livro da Saúde - Enciclopédia Médica Familiar de Benjamin F. Miller pela Seleções (1976)
>>> After the Fall de Arthur Miller pela Bantam Books (1967)
>>> João Sendo João de João Guilherme pela Planeta (2016)
>>> Juquinha, Eterno de Fabiano Candido pela Autografia (2018)
>>> Josué e a Vida Depois da Virgula de Delcio O. Meireles pela Imprensa da Fé
>>> A Jornada - Devocionário de Vários Colaboradores pela Ed. Z3 (2010)
>>> A Jornada - Sabedoria e Cuidado de Deus Capa de Ricardo Agreste da Silva pela Zz3 (2014)
>>> Percy Jackson - Ladrão de Raios de Rick Riordan pela Intrinseca (2008)
>>> The Adventures of Tom Sawyer de Mark Twain pela Oxford Bookworms (2008)
>>> O fim dos tempos de Thomas M Campion pela Arqueiro (2019)
>>> Tex Coleção 471 - Morte no Rio de G. L. Bonelli pela Mythos (2013)
>>> Tex 386 de Bonelli pela Mythos (2015)
>>> Tex o Pueblo Escondido de G. L. Bonelli - A. Galleppini pela Mythos (2015)
>>> Dragon Ball Nº 13 de Akira Toriyama pela Panini (2012)
>>> Aventura no Império do Sol de Silvia Cintra Franco pela Ática (1989)
>>> Um Rosto no Computador de Marcos Rey pela Ática (1994)
>>> Um inimigo em cada esquina de Raul Drewnick pela Ática (2001)
COLUNAS

Sexta-feira, 12/2/2010
Meu querido Magiclick
Ana Elisa Ribeiro

+ de 9100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Acender fogão é desejo de toda criança. O entorno daquele objeto é sempre lugar proibido. Desde pirralhinha escuto minha mãe dizer que criança não chega perto de forno quente. Sai daí, sai pra lá, volta aqui. Nada disso impediu que eu espiasse um bolo assando e queimasse meu braço inteiro aos dois ou três anos de idade. Sofri caladinha, sem chorar nem gritar, para que mamãe não descobrisse minha façanha proibida. Mas quando foi me dar banho, ela viu a pele retorcida. Tive de tratar o machucado.

Mais do que o forno ou o fogão, o objeto que me encantava (como gosta de dizer o pessoal de vendas) era o Magiclick. Fogão com acendedor automático, coisa do capeta. Fósforo não tem charme. Minha avó usava cada bitela, Fiat Lux, nome bem apropriado, não? Minha mãe usava outro, da caixinha muito mais famosa, menorzinho, escrito Pinheiro no rótulo. Já vi até livro de publicidade brincando com essa embalagem. Já vi livro de poesia brincando com caixa de fósforo. Já vi convite de formatura. No fundo, a caixinha de palito de fósforo é parte de nossa cultura mais cotidiana. Todo mundo, de todas as classes sociais, reconhece.

Magiclick era um charme. Uma espécie de isqueiro muito grande que servia para acender o fogo nas trempes. Minha avó tinha um. Meu avô era muito tecnológico. Gostava de tudo fresquinho: Magiclick, videocassete, CD player, televisão de trocentas polegadas. O resto da família vinha a reboque, depois que perdiam o preconceito.

O Magiclick era um acendedor de forno e fogão, mas parecia uma arma. Quando eu e os primos conseguíamos furtar o aparelho da cozinha de vovó, brincávamos de polícia e ladrão, até alguma tia perceber a troca de tiros e o perigo de atearmos fogo na casa (e uns nos outros).

Alguns objetos povoam nossa memória e nosso imaginário para sempre. Alguns nos trazem lembranças carregadas de boas emoções e bons afetos. Outros trazem uma raivinha arrefecida, mas ainda um afeto negativo. Que o digam os proprietários dos primeiros carros VW modelo Fox. Uma tal argolinha no rebatedor do banco traseiro decepava dedos. Mas a marca alemã não é a única que presenteia o consumidor com más escolhas de design. Outras ocorrências já foram devidamente abafadas pelo tempo e pelo marketing a favor.

A torneira de aço da minha casa não é exatamente um primor de design, embora o seja de funcionalidade. Quando se vai fechá-la, os dedos de alguém do meu tamanho cabem entre o pegador (com a rosca) e a haste que conduz a água. Vez ou outra me pego tirando o dedo com pressa, com medo de apertá-lo.

Alguns designs são primorosos, pena que as pessoas insistam em se apropriar deles de um jeito engraçado. Maçanetas, puxadores, cabides e ferrolhos são aplicados em portas inadequadas. Outro dia, num livro do Donald Norman, li que, por motivos óbvios, toda porta de auditório deve se abrir para fora. Passei a fiscalizar todo lugar onde caiba muita gente, a começar pela escola em que leciono. Qual não foi minha surpresa! Porta de igreja, porta de teatro, porta de estádio. Mais adiante, Norman aponta que portas para serem puxadas devem ter pegadores verticais; portas para serem empurradas os devem ter horizontais. O shopping Pátio Savassi, da capital mineira, obedeceu direitinho, mas a cena mais comum é ver as pessoas brigando com as portas ou lendo os dizeres pregados lá: "puxe" e "empurre", antes de tomar alguma atitude. O briga é maior ainda quando os dizeres estão em inglês...

Por falar em salas, como ficam os interruptores? Todo eletricista deveria aprender a ligar os fios aos interruptores de maneira articulada com a posição das lâmpadas no ambiente. Morei na casa de meus pais por 26 anos (os outros dois foram em outra casa) e nunca soube acender as luzes da garagem, do jardim, do corredor interno e da entrada. Eram umas nove teclas que acendiam onze lâmpadas e eu sempre fazia isso por tentativa e erro. Sempre brinco com isso nas salas de aula onde entro, cujas lâmpadas são sempre duas ou três, daquele tipo cumprido e ecológico. Raramente a primeira lâmpada está na primeira tecla e assim por diante.

Para que simplificar se a gente pode complicar? Não é esse o nosso lema? Para que fazer um lustre bacana sem qualquer probleminha? Os da minha sala, por exemplo, são lindões, mas quando formos trocar as lâmpadas, teremos de contar com as mãozinhas do meu filho de 5 anos. O mesmo ocorre com apartamentos e casas com pé direito duplo em que se opta por colocar lâmpadas sem pendentes. Quem vai trocar? Lembre-se de comprar uma escada de alumínio bem grande e bem segura.

E não apenas o design do objeto ou do ambiente são importantes. O design do som também nos ajuda. É uma angústia quando digito minha senha numa máquina que não faz barulhinhos tu tu tu tu tu tu, para eu ter certeza de que estou digitando. Por que será que aparecem aqueles asteriscos ou aquelas bolinhas no lugar dos números? É por ali que monitoramos a ação que executamos. Qualquer criança percebe som de coisa boa e som de estrago. Buzina estridente em joguinho faz pensar que alguém perdeu a vez. Game over. De que lado eu entro? De que lado começa a fila? Por onde devo passar? Por onde começo a ler? Nossas mediações diárias quase imperceptíveis são, a bem dizer, uma espécie de anjos da guarda.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 12/2/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Errando por Nomadland de Elisa Andrade Buzzo
02. Eddie Van Halen (1955-2020) de Julio Daio Borges
03. O sublime Ballet de Londrina de Jardel Dias Cavalcanti
04. A maldição da internet no celular de Gian Danton
05. Caetano, não seja velho coronel de Humberto Pereira da Silva


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2010
01. O menino mais bonito do mundo - 29/1/2010
02. Por que a Geração Y vai mal no ENEM? - 30/7/2010
03. Meu querido Magiclick - 12/2/2010
04. Palavrão também é gente - 26/2/2010
05. Caçar em campo alheio ou como escrever crônicas - 11/6/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
16/2/2010
08h19min
Minha avó me assustava com seu Magiclick. Dizia que ia colocar fogo em meus cabelos. "A Coisa" me traumatizou.
[Leia outros Comentários de gerusa de souza]
10/5/2010
10h09min
Muito legal seu texto. Meu pai foi gerente da Magiclick por muitos anos, e ainda hoje temos produtos da empresa em casa. Apesar de muito antigos, todos ainda funcionam... só não tenho mesmo o tradicional acendedor kkk
[Leia outros Comentários de Fernando Tomazin]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Bê-a-bá do Consumidor: Dicas para Compras e Reclamações
Professor Rizzato Nunes
Método - Casa do Direito
(2006)



Contos de Vista
Elisa Lucinda
Global
(2004)



Olhar Estrangeiro New York
Lenira Fleck
Território das Artes
(2007)



Sucessão Trabalhista Conseqüências Nas Relações de Emprego
Patrícia Manica Ortiz
Thomson
(2005)



Administração de Sistemas de Informação
Ivo Soares Melo
Pioneira
(1999)



Direito do Trabalho Versão Universitária
Renato Saraiva
Metodo
(2008)



O Universo de Harry Potter de A a Z
Aubrey Malone
Nova Fronteira
(2013)



Guard Your Tongue
Chofetz Chaim
Benei Yakov
(1975)



Beleza para a Vida Inteira
Cristiana Arcangeli
Senac
(2002)



A Voz do Coração
Suzanne Marllit
Brasileira





busca | avançada
67999 visitas/dia
2,2 milhões/mês