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Quinta-feira, 27/6/2013
Machado de Assis, Huysmans e os rabos de gato
Eugenia Zerbini

+ de 3100 Acessos


Raoul Dufy(1877-1953)

Ao contrário de duas linhas paralelas, que se cruzam apenas no infinito, as obras de dois escritores do século XIX - o brasileiro Machado de Assis (1839-1908) e o francês J.K. Huysmans (1848-1907) - podem ter convergido, ao menos uma vez, para o mesmo ponto

Contemporâneos, embora com personalidades e estilos distintos, ambos lançaram mão de idêntico artifício - o apelo à presença doméstica de seus felinos - para resolver a tensão dos delírios de seus textos. Machado, na conclusão de um dos capítulos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra seminal na literatura brasileira. Huysmans, em Croquis Parisiens, volume de menor destaque no conjunto de sua obra, cuja peça central é o romance A Rebours (Às avessas, na magistral tradução para o português de Pedro Paulo Paes, publicada pela Companhia das Letras), a bíblia do decadentismo, livro que instiga até hoje.

Machado de Assis alcançou uma estatura nas letras brasileiras que ultrapassa os limites concedidos à Huysmans na literatura francesa. Não obstante, haverá sempre espaço para uma crítica mais afiada, no sentido de que o brilho do escritor francês encontrou limite na sombra projetada por melhores concorrentes. O autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, entretanto, só tardiamente teve seu talento reconhecido fora do Brasil. É Susan Sontag, discorrendo sobre Epitaph of a small winner (título da tradução inglesa) quem afirma, em ensaio reunido em Questão de ênfase, que "Machado seria mais conhecido se não fosse brasileiro e se não tivesse passado toda sua vida no Rio de Janeiro - se, digamos, fosse italiano ou russo, ou mesmo português".

Huysmans teve a sorte de ser francês, no tempo em que a França era o dínamo cultural do Ocidente. O livro que o imortalizou, Às avessas, publicado em 1884, nas palavras do próprio autor, "caiu como um meteorito na quermesse literária" e logo se projetou internacionalmente. Seis anos depois, Oscar Wilde, em O retrato de Dorian Gray, já se referiu à obra. Atrás do livro amarelo que Lord Henry Wotton coloca nas mãos do protagonista está o Against the Nature, como é conhecido em inglês.

A intersecção das linhas representada pelos dois criadores ocorrerá, como já adiantado no início, através das páginas de Memórias Póstumas, de autoria daquele primeiro, e de Croquis Parisiens, deste último. Croquis é uma coletânea de textos curtos e híbridos, alguns com um pé no naturalismo, outros fora dessa objetividade. Assim, de um lado, encontram-se perfis de tipos parisienses (como a clássica passante, o vendedor de castanhas); descrições de locais de Paris (tais como a Rue de La Chine e o rio La Bièvre, hoje oculto em sua passagem pela cidade); outros, ainda, lembrando esboços de uma obra maior (as oito partes dedicadas ao Folies-Bergère).

De outro lado, na seção final intitulada "Fleurs de narine" ("Flores de narina"), foram incluídas duas peças de tom diferente, uma delas sob o título "Les similitudes" ("As semelhanças"). Fugindo da dicção naturalista das descrições e adiantando o estilo transbordante e precioso de Às avessas, Huysmans comporá a cena de um turbilhão de sensações despertadas por perfumes, que se transmutam em mulheres, que em seguida evocam cores. Esse amálgama, que no início se insinua delicado, muda de aparência, tornando-se terrível, cruel, com figuras femininas titânicas, extra-naturais e até de outros planetas. É a orquestração de um portentoso delírio, que começa do nada e, como em uma peça musical, em ritmo sempre crescente, alcança o quase insuportável para, de modo brusco, ser interrompido por meio do despertar e do reencontro do prosaico do cotidiano. Essa âncora para o real é personificada em uma gata, Ícara. Feminino pouco usual para Ícaro - aquele que pagou com a morte a audácia de desejar alcançar o céu. De modo sintético, cita-se o início, dá-se uma amostra do meio e passa-se à conclusão desse texto:

"As cortinas ergueram-se e as estranhas beldades que se comprimiam atrás da janela avançaram em minha direção, umas em seguida às outras. Primeiro foram as mornidões vagas, vapores morrentes do heliotrópio e da íris, da verbena e do resedá que me penetraram com esse charme tão bizarramente queixoso dos céus nebulosos do outono, as brancuras fosfóricas das luas em suas plenitudes, mulheres de aparências indecisas, contornos flutuantes, cabelos de um loiro acinzentado, pele rosa azulado das hortênsias, e suas saias irisadas por luares que se apagavam.
...........................................
Depois vieram as aparições espectrais, os abortos de pesadelos, assombro das alucinações, destacando-se sobre fundos impetuosos, sobre fundos verde acinzentados e sulfurosos, nadando em brumas de pistache, em azuis de fósforo, belezas enlouquecidas e inspiradoras de infelicidades, mergulhando seus estranhos encantos físicos na surda tristeza dos violetas, no amargo brilhante dos alaranjados, mulheres de Edgard Allan Poe e de Baudelaire, de poses atormentadas, lábios cruelmente sangrentos, olhos marcados por ardentes nostalgias, aumentados por alegrias sobre-humanas, Górgonas e Titânides, mulheres extraterrestres
..................................................
Eu acordo - mais nada. - Sozinha, aos pés de meu leito, Ícara, minha gata, havia erguido a coxa direita e lambia com sua língua rosa seu vestido de ruivos pelos".

Pelo fato de Memórias Póstumas de Brás Cubas ser um clássico conhecido, leitura obrigatória nas escolas do país, dispensa-se a transcrição do capítulo VII, "O delírio". Cavalgando um hipopótamo, Brás viaja até as origens dos séculos, encontrando Pandora. Cada vez mais aturdido pela espiral do desfile dos séculos, o protagonista vê de repente sua montaria diminuir "até ficar do tamanho de um gato". Conclui o personagem: "Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova com uma bola de papel...".

O delírio de Huysmans é ligado aos sentidos, construído em cima da teoria das correspondências, tão cara aos poetas simbolistas. As semelhanças a que se refere são sensuais, ainda que de uma sensualidade trágica e dolorida. O sonho machadiano, focalizado na passagem do homem através da História, apesar de delírio, seria - diga-se - instrutivo, ao descrever as fragilidades da condição humana. Em ambos, porém, a presença do mesmo feminino terrível, Pandora, que se apresenta como mãe e inimiga.

Nessas duas grandes cenas fazem-se presentes os mesmos elementos estruturantes: paradoxos, idas e vindas, à maneira das variações musicais sobre o mesmo tema, com o aumento gradativo da pressão sobre o narrador que, acuado pelas visões, encontra uma válvula de escape inesperada, por meio de um elemento doméstico - Ícara, no caso de Huysmans; Sultão, no texto de Machado de Assis.

A esta altura, a única indagação pertinente recai sobre a possibilidade das datas.Memórias Póstumas, como é sabido, foi publicado em forma de livro em 1881. Mas, no formato de folhetim, foi objeto de publicação na Revista Brasileira, a partir de março do ano anterior. Seria impossível que Croquis Parisiens, saído da prensa em fevereiro de 1880, tivesse desembarcado no Rio de Janeiro a tempo de influenciar Machado. Ocorre que "Les similitudes", em forma mais curta e com outra introdução, fora publicado bem antes, em 6 de agosto de 1876, no semanário francês Republique des Lettres, de larga circulação internacional.

Pouco muda nessa primeira versão do texto, exceto que será um anão que irá levantar a cortina que dará acesso ao narrador ao mundo surreal dos sentidos e aparições, sendo mantida com todas as letras a cena final, protagonizada pela gata Ícara, símbolo da queda daqueles que almejam equiparar-se aos Divinos.

Doravante, portanto, aos textos que influenciaram o Bruxo do Cosme Velho e foram trazidos para o corpo de sua obra máxima, caberá fazer justiça à sua leitura dos escritos de Huysmans, seu contemporâneo em Paris. Conforme o prólogo de Memórias Póstumas, Machado confessadamente adotou a forma livre de Laurence Sterne e de Xavier de Maistre, assumindo depois também a influência de Almeida Garret. No capítulo VII - segundo Francisco Achcar, comentador de sua obra, "a primeira narrativa fantástica no Brasil" - inconfessadamente valeu-se da ideia daquele escritor francês.

Nota do Editor::
Leia também os textos "Sultão e Bonifácio", de Guilherme Pontes, e "Histórias de Gatos", de Carla Ceres.


Eugenia Zerbini
São Paulo, 27/6/2013


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