O romance sobre o nada | Eugenia Zerbini

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Segunda-feira, 28/5/2007
O romance sobre o nada
Eugenia Zerbini

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+ 5 Comentário(s)

Em uma das muitas cartas endereçadas a sua amiga Louise Collet, Gustave Flaubert (1821-1880) confessa um desejo: escrever um livro sobre o nada, que fosse capaz de se manter em pé a força unicamente de palavras e papel. Com essa idéia, passou a trabalhar em Madame Bovary, cujos 150 anos de publicação comemorou-se no ano passado. Contrariando o desiderato inicial do autor – apesar da escrita magistral –, eventos dos mais variados acontecem durante a trama.

O tiro certeiro no alvo de Flaubert será dado por outro escritor, nascido em Paris, Joris Karl Huysmans (1848-1907), cujo centenário da morte é lembrado neste mês de maio. Em A Rebours (Às avessas, tradução de José Paulo Paes, Companhia das Letras, 1987, atualmente esgotada), por meio de lembranças e divagações de seu herói decadente e solitário, Jean Floressas Des Esseintes, J.K. Huysmans escreveu finalmente o romance sem enredo, que flutua sobre o abismo do nada.

Publicado em 1884, A Rebours passou a ser considerado a bíblia do decadentismo. É a ele que Oscar Wilde (1854-1900) se refere em O Retrato de Dorian Gray, sem, entretanto, declinar o título. Atrás do livro amarelo que Lord Henry Wotton põe nas mãos do protagonista está o Against the Nature, como é conhecido em inglês. Este último, estupefato, confessa tratar-se do livro mais estranho que havia lido:

Teve a impressão de que os pecados do mundo, vestidos de maneira singular, desfilavam diante dele em mudo cortejo, ao som delicado de algumas flautas[...]. Era uma novela sem enredo, com uma só personagem, na realidade, um simples estudo psicológico de um jovem parisiense que passava a vida tentando concretizar, no século XIX, todas as paixões e maneiras de pensar de todos os outros séculos, com exceção do seu, e resumir em si mesmo todos os estados de ânimo que experimentava, amando, pela sua própria irrealidade, aquelas renúncias que os homens chamam tolamente de virtude, bem como aquelas rebeliões naturais que os homens sábios ainda chamam de pecado.

Como apontado por Blanchot (O livro por vir, São Paulo, Martins Fontes, 2005), Henry James (1843-1916) insistia que o assunto é tudo: “Quanto mais avanço, mais intensamente percebo que é sobre a solidez do assunto, a importância, a capacidade de emoção do assunto, e somente sobre isso, que me convirá estender-me”. Longe do enredo, Huysmans montou sua obra sobre assuntos. A Rebours é, assim, introduzido por uma nota, seguida por capítulos, nos quais o autor discorre sobre assuntos, como que montando vitrines exóticas.

Nessa introdução, ficamos sabendo das origens de Jean Floressas Des Esseintes, último descendente de velha estirpe francesa: a mãe sofria de dores de cabeça eternas, que a mantém confinada em um quarto escuro, enquanto o pai mergulha nos prazeres mundanos. Entregue à educação em um internato jesuíta, torna-se órfão na adolescência, apoderando-se de uma considerável fortuna quando alcança a maioridade. Após freqüentar salões literários, círculos políticos e o boudoir de diferentes cocottes, exausto e decepcionado tanto com a superficialidade como com a vulgaridade de tudo, Des Esseintes resolve se descartar do mundo objetivo, recolhendo-se em um universo só seu. Compra uma propriedade em Fontannay-aux-Roses, nos arredores de Paris, que lhe servirá de concha na recriação da pérola da perfeição estética.

A vida nova é celebrada com um jantar de luto, durante o qual, em suntuoso cenário todo em negro, caviar escuro é servido por negras caladas e semi-despidas. Des Esseintes, na seqüência, decide dar-se um presente: admira os labirintos coloridos de um tapete persa, mas lastima a imobilidade; por isso encomenda uma carapaça em ouro cravejada de pedras preciosas nas cores da trama para com ela vestir uma tartaruga. Ao se locomover devagar sobre o tapete, o animal daria a impressão de movimento aos desenhos. O prazer de Des Esseintes dura pouco porque a tartaruga sucumbe sob o peso de seu ornamento.

Esse herói ímpar vai, então, procurar consolo em um novo invento, por ele batizado de “orgue a bouche”. Certamente inspirado em Baudelaire (“Correspondences”, Les fleurs du mal), Des Esseintes cria correspondências entre o gosto de bebidas e o som de instrumentos. Enfileira pequenos tonéis cujos orifícios interligados passam a ser comandados pelos toques de um teclado, no qual passa a interpretar partituras que após executadas são bebidas. Decepcionado pelo gosto duvidoso dos resultados obtidos e das ressacas nauseabundas, pula para o cultivo de flores – as mais exóticas, até carnívoras –, mudando em seguida para divagações sobre perfumes para chegar nas recordações de suas aventuras sexuais. Lógico que não com mulheres comuns, mas com uma ventríloqua e com a mulher-borracha de um circo.

Sempre enfastiado, refugia-se na leitura. Apesar dos elogios que tece à obra de Baudelaire (1821-1867), Edgard Allan Poe (1809-1849) e Barbey d’Aurevilly (1808-1889), Des Esseintes deleita-se com a leitura dos autores latinos do período da decadência do Império Romano. Infatigável em sua busca, salta para os prazeres da pintura e dedica um capítulo à obra de Gustave Moreau, pintor que transpôs para a tela a aura ao mesmo tempo suntuosa, misteriosa, onírica e perversa de A Rebours. Huysmans discorre sobre dois retratos que Moreau fez de Salomé e de sua dança pela cabeça de São João Batista.

Mergulhando em um desconsolo cada vez mais atroz, em meio a crises de nervos, Des Esseintes recebe a prescrição médica de viajar. Resolve visitar Londres. Prepara-se lendo Dickens, vai até Paris onde pega o trem para Calais. Enquanto espera o embarque, entra em um café onde muitos ingleses também aguardam. Sempre ensimesmado, o bizarro personagem perde-se em seus sonhos londrinos até o momento em que, caindo em si, decide voltar para casa: a viagem real nunca seria superada pela imaginária que acabara de realizar.

Próximo do final do livro, em outra rara ida a Paris, Des Esseintes conhece um meninote por quem se encanta e com quem tem uma curta aventura, decepcionando-se rapidamente por não alcançar a perfeição do andrógino. De volta a sua tebaida, a nevrose torna-se cada vez mais virulenta. Nem comer mais ele consegue, e uma espécie de caldo ralo lhe é ministrado via clister. É a metáfora definitiva da absurda reversão. Nessa altura, o diagnóstico dos médicos que lhe assistem é dado: ou ele volta para uma vida normal em Paris, ou ele morrerá. Desta forma, o sonho de Des Esseintes se esvai. As últimas linhas do romance, escritas durante os preparativos da partida, soam como uma prece baudelairiana: “Senhor, tende piedade do cristão que duvida, do incrédulo que gostaria de acreditar, do condenado à galé da vida que embarca à noite sozinho, sob um firmamento incapaz de iluminar as lanternas consoladoras do véu da esperança” (tradução minha, como a seguinte).

Uma polêmica acalorada seguiu a publicação do livro: foi tachado de imoral e de sem sentido. Além disso, provocou a ira de Zola, ícone do naturalismo francês, que dera apoio a Huysmans quando da publicação de sua obra de estréia, Marthe, histoire d’une fille, em 1876, e cujo grupo Huysmans freqüentava desde então. Mais inspirada, e premonitória, porém, foi a opinião de Barbey d’Aurevilly, autor do livro de contos As diabólicas e do ensaio Sur le dandisme, além de amigo íntimo de Huysmans: “Depois desse livro, só vejo duas saídas para seu autor: a boca de uma pistola ou o pé de uma cruz”. Huysmans optará pela segunda. Mas antes disso, irá concluir uma sorte de tríptico iniciado com A Rebours, publicando En rade e Lá-Bas. A curiosidade é que este último se trata de caudaloso romance sobre mistérios e cultos satânicos em plena Paris da belle époque, analisado em época recente por Cláudio Willer. Será em 1891 que terá início sua conversão ao catolicismo.

Em 1990, depois da Queda do Muro de Berlim, em um dos corredores do metrô de Paris, lia-se o seguinte grafite: “Comunismo, o caminho mais longo para o capitalismo”. É um paralelo ao estranho percurso seguido por Huysmans. Nascido em uma família de classe média de origem holandesa, em 5 de fevereiro de 1848, às vésperas da queda de Luis Felipe – acontecimento que disparará uma movimentação de cunho social que irá chacoalhar toda a Europa –, seu pai pintava miniaturas, fato que induz os críticos a explicar o cuidado artesanal que Huysmans devotou sempre aos elementos de seu texto. Com 18 anos, ingressa na Faculdade de Direito e começa a trabalhar no Ministério do Interior, onde seu bisavô, seu avô e seu tio já haviam servido, e aí irá fazer carreira como funcionário exemplar por décadas, até a aposentadoria. Dessa forma ficou liberto do estigma do artista sem meios.

Em 1870, após a derrota da França na guerra franco-prussiana e a insurreição da Comuna em Paris, ele é designado para servir no exército e transferido para Versailles. Dois anos depois, apaziguada a situação, retorna para Paris com o rascunho de seu primeiro livro, Faim, inspirado nas experiências daqueles dias difíceis e nunca publicado. Passa a dedicar-se à crítica de arte, e seus ensaios sobre música e pintura são reunidos em um volume intitulado Drageoir d’Epices, publicado em 1874. Dois anos depois, seu primeiro romance, Marthe, histoire d’une fille, é editado em Bruxelas após ter sido recusado por várias editoras francesas, que o consideraram pornográfico. O enredo girava em torno da vida de uma prostituta, antecedendo Naná, de Zola. Huysmans, misógino até a medula, nunca se casou, admitiu que sua inspiração veio da vida de mulheres que ele mesmo freqüentara. Terá uma longa ligação com uma costureira, Anna Meunier, a quem dedicará Les soeurs Vatards, publicado em 1881, baseado na vida das operárias que trabalhavam no negócio que herdara dos pais.

Em 1882, ou seja, dois anos após a morte de Flaubert, Huysmans passa a sofrer de nevrose – misteriosa crise de nervosa que irá atormentar homens e mulheres na segunda metade do século XIX, inclusive o próprio Flaubert. A doença o leva a procurar repouso em Fontennay-aux-Roses, onde futuramente ambientará o retiro de Des Esseintes, sua grande obra. Para preparar cada um dos capítulos desse romance, Huysmans – que durante sua vida deu testemunho de escrever apenas sobre aquilo que conhecia de perto e bem – passa a pesquisar sobre os assuntos de que irá tratar.

Para discorrer sobre as leituras de seu personagem, ele devora textos dos pensadores da decadência latina (sécs. II ao V), em que se misturam filosofias grega, oriental e cristianismo, o que certamente o levou aos escritos gnósticos. A preparação da jóia que envolveria o casco da tartaruga o conduziu ao estudo de pedras preciosas e sua simbologia, o que, por seu turno, o guiou para a análise da simbologia dos vitrais das catedrais. Essa pesquisa errante desaguaria na leitura não apenas de textos sobre símbolos e ocultismo, como sobre satanismo, como retratado em Là-Bas. Tal catábase, todavia, é seguida por uma ascese, que o direciona na conversão à Igreja Católica. Huysmans dará seu último suspiro, em 1907, como oblato, na ordem da Trapa, de uma certa forma renegando A Rebours, mas reconhecendo que com essa obra havia colocado em marcha as engrenagens que o conduziriam, através do mais tortuoso dos caminhos, à redenção.

O estilo adotado por Huysmans, apesar de pungente, está fora de moda: períodos longos, subordinados e intercalados, em que termos e inversões preciosos são empregados. Persegue uma tensão quase barroca nas entrelinhas: lança uma idéia, passa a desenvolvê-la ao mesmo tempo em que insinua uma contradição. Em idas e vindas, como que em uma espiral, idéia e contradição se atraem e se divorciam, mantendo um crescendo constante até atingir um espasmo consolador.

No odor perverso dos perfumes, naquela atmosfera super-aquecida do templo, Salomé, com o braço esquerdo estendido em gesto de comando e com o direito, dobrado à altura do rosto, segurando uma grande flor de lótus, avançou lentamente sobre a ponta dos pés, ao som dos acordes tirados das cordas de um instrumento pinçado por uma mulher acocorada.

Com o semblante recolhido, solene, quase augusto, ela começou a dança lúbrica que devia despertar os sentidos anestesiados do velho Herodes: seus seios ondulavam e, ao roçar dos colares que lhe caiam aos turbilhões pelo peito, os bicos ficaram tesos; sobre a suave umidade de sua pele, os diamantes cintilavam; seus braceletes, suas correntes, seus anéis cuspiam fagulhas; sobre seu vestido triunfante, rebordado com pérolas, ramado de prata e recoberto de ouro, o peitilho trabalhado pelos ourives, em que cada um dos pontos era uma pedra diferente, entrou em combustão, cruzamento de serpentes em fogo, agitação sobre a carne mate e a pele rosa-chá, miríade de esplêndidos insetos de asas resplandecentes, irisadas de carmin, matizadas de amarelo-aurora, salpicados de azul-aço e mesclados de verde-pavão.

Concentrada, com os olhos fixos como os de uma sonâmbula, ela não via nem o Tetrarca, que estremeceu, nem sua mãe – a feroz Herodiades –, que a supervisionava, muito menos o hermafrodita, ou eunuco, que espreitava sob o trono, figura terrível, coberta por véus até quase as faces, cuja mama de castrado pendia, como a de uma calaceira, debaixo da túnica tingida de laranja.


Faulkner dizia que todo escritor é um leitor da Bíblia. Além da Bíblia, tudo indica que alguns já se deleitaram com Huysmans, um escritor para escritores. Sobra espaço para arriscar que, além de Wilde, Eça de Qeiroz deva ter considerado, em A cidade e as serras (1901), Des Esseintes na composição de Jacinto de Tormes, notadamente em seus dias parisienses. A angústia em A Rebours é sinônimo do desencanto do século XIX com relação às promessas não cumpridas do Iluminismo e da Revolução Industrial. Em nada difere da náusea existencialista dos personagens de Sarte e de Camus, estando muito próxima da falta de sentido que caracteriza o pós-moderno hoje. A vertigem de Des Esseintes é a mesma sobre a qual discorre Zigmunt Bauman (Mal-estar na pós-modernidade; Modernidade líquida, Amor líquido), marcada pelo fenecimento das utopias, estas recolhidas no precário sudário de relações líquidas.

Nota do Editor
Eugenia Zerbini é ganhadora do Premio SESC Literatura 2004, com o romance As netas da Ema. Atualmente escreve a biografia da Imperatriz Teresa Cristina, mulher de Pedro II, a terceira imperatriz do Brasil.


Eugenia Zerbini
São Paulo, 28/5/2007

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
28/5/2007
17h38min
Eugênia, perfeito o texto. Análise profunda e rica, muito bem contextualizada. Algo, no entanto, passou pela minha cabeça: Oscar Wilde já escreveu que o livro a que se referia em seu romance não existia. Ele estaria renegando Huysmans? Um abraço.
[Leia outros Comentários de Edson Junior]
28/5/2007
23h16min
Texto digno de uma grande escritora. Embora controverso, Huysmans consegue lançar uma flecha envenenada e sangrenta nos corações de quem o lesse e o entendesse, isso em pleno século XIX. O estilo rebuscado, mas pleno de significados subjacentes, faz de sua obra algo tentador e existencialista. Mas me parece que a sua vida foi mais interessante de que os seus livros. Por ser um estudioso de filosofias diversas, para estruturar a sua obra, devia ser alguém interessante para se tomar um café ou um bom vinho e discorrer sobre a vida, a despeito de sua misoginia. Parabéns pelo seu trabalho. Adriana (P.S.: A pergunta de Edson Júnior faz sentido. Qual será a resposta?)
[Leia outros Comentários de Adriana]
29/5/2007
01h15min
Eugênia, seu texto foi lindo. Eu li Huysmans por indicação de Wilde, digamos assim. Nunca imaginei que ele se relacionara com Zola. Tive muita vontade de ler "Ás Avessas" de novo. Abraços do Lúcio Jr.
[Leia outros Comentários de Lúcio Jr]
29/5/2007
19h03min
Olá pessoal, Adriana, Edson e Lucio (A Adriana pediu que a resposta à questão do Edson fosse compartilhada): Pois é, Wilde pode ter posteriormente afirmado que "o livro amarelo" não existia; porém, ficou mais ou menos público na época que se referia ao A Rebours. Em resposta paralela ao Edson, aventei a angústia da influência, tratada por Harold Bloom. Já pensaram que podia ser uma vaidade de autor? Além do trecho que eu cito, Wilde volta a comentar sobre o livro mais adiante, afirmando que o que lera não lhe saiu da cabeça durante anos. Eu estudei (Direito, pasmem), há tempos, em Dijon (França). Na biblioteca de Faculdade de Letras daquela cidade havia livros e algumas teses sobre Huysmans (onde me aprofundei sobre sua obra). Muitas delas abordavam essa questão.
[Leia outros Comentários de eugenia zerbini]
29/5/2007
19h10min
Aqui na USP (FFLCH), há alguns trabalhos sobre Huysmans, inclusive a tradução As Avessas, por J. P. Paes. Não deu para consultar esse material enquanto escrevia o ensaio porque a USP está em greve. Quando voltar ao normal, vale até uma consulta. Com relação às observações da Adriana: há décadas, sou uma admiradora de Huysmans, mais por sua vida do que por sua obra. A determinação com que ele procurou a sua verdade me comove. E ele "nunca deixou barato". Há uma aura de heroísmo em sua trajetória. Ele freqüentou o que havia de melhor em termos literários em seu tempo. Foi amigo íntimo de Prosper Mérimée e de Barbey d’ Aurevilly. Com uma turma de escritores foi ao enterro de Flaubert, em 1880, além de ser o testamenteiro dos irmãos Goncourt. Ele agitou. Não teve vida de autor maldito (embora suas obras justificassem esse título).
[Leia outros Comentários de eugenia zerbini]
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