A suprema nostalgia | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

busca | avançada
32715 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Sexta-feira, 15/10/2010
A suprema nostalgia
Marta Barcellos

+ de 4400 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Não se faz mais nostalgia como antigamente. A formidável frase do jornalista Geraldo Mayrink, resgatada em seu obituário no ano passado, me ocorre ao observar a reação dos espectadores ao filme A suprema felicidade, de Arnaldo Jabor, exibido no Festival do Rio. "Que saudade dos anos 50!", dizem os que sequer tinham nascido naquela década. Em um esforço para entrar no clima, tento encontrar em mim algum resquício da tal nostalgia que todos os meus amigos com mais de 30 anos parecem cultivar com algum orgulho. Mayrink vem ao meu auxílio, e me recordo com saudade dos tempos em que o jornalismo diário preocupava-se com o esmero de seus textos.

Quando cheguei ao jornalismo, além de profissionais admirados pela escrita caprichada, as redações tinham uma boa cota de nostálgicos a suspirar pelo fim das máquinas de escrever, das laudas coladas, do ambiente barulhento e enfumaçado. Como "foca", quase me envergonhava de ter começado a carreira em uma das primeiras redações informatizadas. Intimidava-me com o passado respeitável, mas percebia a confusão: os mais velhos tinham saudade da própria juventude, não dos empregos que certamente depreciavam antes de estarem afastados o suficiente para que suscitassem tanta nostalgia.

Assim como hoje evito criticar quem trata cachorro como filho (vai que na velhice preciso recorrer a tal afeto), esperei que o tempo me trouxesse a inevitável saudade das virtudes e dos valores de outrora. Comecei a desconfiar que a nostalgia não era regra quando a internet proporcionou os primeiros encontros de exs-algum-grupo-do-passado. Não conseguia me identificar. Havia os nostálgicos do colégio, que reencontravam a felicidade perdida e os apelidos de infância entre rodadas de chope, e também os nostálgicos da faculdade, ciosos do vínculo que os manteriam próximos para sempre da deliciosa irresponsabilidade juvenil. Depois da curiosidade inicial, e da constatação da pouca importância desse passado para mim, eu me desinteressava, percebia aquele ritual de recordações como um tanto excessivo.

Em conversas com amigos do presente, descobri outras pessoas que desconfiam da memória seletiva dos saudosistas e dessa constante celebração dos valores antigos, em geral desdenhando as conquistas do presente. A mania é especialmente estranha quando se trata de jornalistas que, por estarem superconectados com a atualidade, deveriam experimentar o estado de excitação diante de tanta novidade, da iminência de novas possibilidades, o mundo tão pequeno e próximo, tudo acessível por um clique.

Tanto assunto, e o meu cronista preferido só fica feliz discorrendo sobre o passado; o presente sempre tratado com azedume e rabugice. Viro a página do jornal, em busca de algum frescor verdadeiro, quem sabe um novo colunista, alguém que ainda perambule pelas ruas com curiosidade, e talvez escreva na internet.

Se o cronista ― talvez estimulado por seu talento para a ficção, mais utilizável no tempo pretérito ― perde-se com frequência em reminiscências, recorro ao ensaísta para organizar o meu pensamento. Roberto Pompeu de Toledo, escavando o conceito de felicidade, critica os pais que impõem esta pesada meta aos filhos e apresenta uma resposta à ardilosa pergunta: "Você é feliz?". Segundo ele, uma solução consequente para a questão exige que coloquemos na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura. A conclusão pode não ser clara, ressalta, mas eu concluo que a balança a favor do passado pode identificar nostálgicos em potencial.

Uma infância feliz, disse certa vez a psiquiatra Nise da Silveira, pode ser quase tudo na vida de uma pessoa, e quem sou eu para pregar as vantagens do sofrimento nas idades mais tenras. De qualquer forma, a tal balança mostra a armadilha de se instalar a felicidade em um tempo acessível apenas pela nostalgia, no caso das pessoas que tiveram uma infância e uma adolescência extremamente satisfatórias, repletas de momentos alegres que ficaram marcados na memória. Por sinal, Pompeu de Toledo começa seu ensaio com uma distinção providencial: "Felicidade é uma palavra pesada. Alegria é leve, mas felicidade é pesada."

O peso de ter a própria felicidade ― e não apenas as alegrias boas de relembrar ― irremediavelmente associada ao passado pode fazer a nostalgia transformar-se em uma doença. Não estou aqui exagerando, nem sugerindo que Arnaldo Jabor e os espectadores lamuriosos de seu filme devam procurar tratamento. Refiro-me à origem da própria palavra e de sua primeira utilização. Composto a partir dos radicais gregos "nóstos" (que significa regresso) e "álgos" (dor física ou moral), o termo nostalgia foi usado em 1678 para designar uma enfermidade a que os suíços seriam predispostos quando estavam ausentes do lar. Segundo a dissertação do médico suíço Johannes Hofer, a doença podia ter caráter mortal.

A melancolia capaz de matar tornou-se depois tema de muitos estudos médicos na Europa, que identificaram a doença em exércitos que se afastavam de seus países de origem. Mais tarde, seria aplicada também para explicar o "banzo", que levava os negros africanos escravizados, transportados para terras distantes, a um estado de nostalgia profunda que induzia à apatia, à inanição e, por vezes, à loucura ou à morte. Nos dias atuais, em que sentimentos são facilmente diagnosticados como patologias, não deve ser difícil associar a nostalgia à depressão.

Por tudo isso, recomendo aos amigos doses moderadas de nostalgia, inclusive na arte. Para mim, em pequenas porções ela pode ser especialmente saborosa, mais pela liberdade de ficcionar o passado do que pela tentação de desvalorizar o presente. Feita a advertência, vá ao cinema, ao teatro e aos livros, e descubra em que tempo (no futuro?) mora a sua suprema felicidade.

Nota do Editor
Marta Barcellos mantém o blog Espuminha.


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 15/10/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. It's evolution, baby de Luís Fernando Amâncio
02. A vingança dos certinhos de Marta Barcellos
03. Shakespeare e as séries na TV de Eugenia Zerbini
04. Obscura paisagem em peça de Mirisola e Oliveira de Jardel Dias Cavalcanti
05. O amor é um jogo que ganha quem se perde de Carina Destempero


Mais Marta Barcellos
Mais Acessadas de Marta Barcellos em 2010
01. Palmada dói - 6/8/2010
02. Com ventilador, mas sem educação - 12/3/2010
03. A suprema nostalgia - 15/10/2010
04. O futuro do ritual do cinema - 9/4/2010
05. Pelas mãos habilidosas dos grandes escritores - 17/9/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
18/10/2010
02h31min
Se não plantarmos atitudes, se não ilustrarmos a nossa vida de acontecimentos, de poesias, com certeza nossa memória amanhã será de um vazio contemporâneo ilustríssimo. E não estaremos reclamando da nostalgia. Mas do vento que plantamos, esperando as tempestades.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
18/10/2010
12h32min
A nostalgia é um sub-produto da experiência de vida de cada um. As travessuras infantis transmutam-se em transgressões e imprudências até que, aos 40, começamos a pensar no que não mais faremos ou veremos. É tão bom lembrar das goiabeiras no quintal, onde se subia sem medo. Não mais existem quintais ou goiabeiras. E quem é que aos 68 anos, escalaria goiabeiras em busca de frutas? Saudade é memória recente de coisas que talvez ainda possam ser repetidas. Nostalgia, não. Não veremos, sentiremos ou faremos mais o que virou nostalgia: tomar bonde andando quando se tem 13 anos: nem bonde existe mais; ir ao baile com música de conjunto e dançar "coxa a coxa"; comer uma feijoada de combuca no Papai da Aurora à meia-noite.; fazer um terno sob medida, um sapato no Motta e sair com a namorada. E os amigos? Alguns morreram, outros sumiram. Restou a nostalgia, a mumificação da saudade.
[Leia outros Comentários de Raul Almeida]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A CIDADE DAS MANGUEIRAS: AGRICULTURA URBANA EM BELÉM DO PARÁ
ISABEL MARIA MADALENO
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
(2002)
R$ 88,20



TREINAMENTO ELEMENTAR PARA MÚSICOS
PAUL HINDEMITH
RICORDI
(1975)
R$ 20,00



COLEÇÃO PRIMAVERA-VERÃO
JUDITH KRANTZ
RECORD
(1996)
R$ 4,00



DOR DIAGNOSTICO E TRATAMENTO
A C CAMARGO ANDRADE FILHO
ROCA
(2001)
R$ 35,00



O VERDE VIOLENTOU O MURO
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
GLOBAL
(1984)
R$ 7,00



MANUAL DE ECONOMIA E NEGÓCIOS INTERNACIONAIS
MIGUEL LIMA ENTRE OUTROS
SARAIVA
(2011)
R$ 15,00



A NOIVA É TAMANHO 42 - VOLUME 5
MEG CABOT
GALERA RECORD
(2014)
R$ 20,00



ASSASSINATO NO CAMPO DE GOLFE
AGATHA CHRISTIE
CIRCULO DO LIVRO
(1923)
R$ 9,20



SINUCA DE BICO
JOSH BAZELL
ROCCO
(2010)
R$ 4,90



A FORÇA ESTÁ CONOSCO
THOMAS WALKER
CULTRIX
(2012)
R$ 24,90





busca | avançada
32715 visitas/dia
1,4 milhão/mês