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Quinta-feira, 2/8/2012
A mitologia original de Prometheus
Vicente Escudero

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Charlie Parker definiu com precisão seu processo criativo quando disse que primeiro é necessário dominar a técnica do saxofone para depois esquecê-la e seguir o ritmo do jazz com a banda no palco. Este mesmo processo de desenvolvimento da criação musical serve também para representar a evolução de artistas de outras áreas, sem menores reparos. Enquanto na música e na literatura a relação entre a identidade do artista e o domínio da técnica determina o valor da obra, no cinema - talvez a manifestação artística mais coletiva, entre todas- o valor mais importante para estabelecer a qualidade do trabalho define-se pela capacidade do diretor de criar um universo próprio, através de uma unidade estética ou temática, onde as peças se encaixam de forma a representar uma identidade exclusiva, sua impressão digital. Ridley Scott é destes poucos diretores que ainda são capazes de manter um universo artístico coeso, gravitado por outras obras de estilos diversos. Seu último filme, Prometheus, é o resultado da colisão entre os dois principais objetos de análise de sua carreira, depois do aprimoramento de sua técnica durante décadas produzindo em alto nível: a resistência do indivíduo em face a instituições opressoras e a estética da barbárie.

Ridley Scott analisou estes dois temas, de forma mais eficiente, dentro do gênero da ficção cientifica, definido pelo próprio diretor a partir de Alien (1979), seguido por Blade Runner (1982).Os dois filmes retratam distopias em que o futuro da humanidade é apresentado de forma decadente, onde os avanços tecnológicos estão a serviço de corporações gigantescas, restando à parcela da sociedade excluída viver clandestinamente ou condicionada aos desmandos do novo poder que, aos poucos, assume as funções do Estado.

Prometheus, criado depois de um hiato de trinta anos do diretor na ficção científica, é uma continuação da exploração desse universo na mesma palheta sem brilho e dark dos filmes anteriores, desta vez com tons diferentes, mas não menos assustadores e opressores. Blade Runner nasceu baseado no romance quase homônimo de Philip K. Dick e assemelha-se apenas na reprodução da cidade de Los Angeles coberta por uma fina camada de pó e castigada pela chuva. A arte em Alien também foi construída quase toda na escuridão, exceto pelas luzes de emergência da espaçonave, que aumentam o suspense iluminando de forma intermitente os traços biomecânicos criados pelo suíço H.R Giger. A principal diferença da arte de Prometheus em relação a estes filmes é de escala. Enquanto Alien e Blade Runner se desenrolam em ambientes fechados e limitados pela falta de luz, em Prometheus a ação é apresentada na escala natural, com paisagens observadas de uma perspectiva diferente, vistas do céu e exibidas até a linha do horizonte. Os efeitos especiais também são bastante cuidadosos, bastante diferentes da artificialidade borrada de Transformers. O auge desta técnica é alcançado na reprodução dos sonhos de um dos personagens através do pontilhismo e no contato das máquinas com pessoas e a paisagem natural. Apesar da aparência de cenário artesanal, as cenas de embarque e desembarque lunar foram criadas através de CGI (imagem gerada por computador), a partir de gravações na Islândia, incorporadas ao material produzido em estúdio. A naturalidade da fotografia, a produção do contato dos astronautas com o terreno extraterrestre, garante que o espectador esqueça por alguns momentos a premissa quase mística da visita de alienígenas à Terra em tempos remotos.

A maior parte do prazer em assistir filmes de ficção científica vem da capacidade da produção conseguir convencer o espectador, durante todo o filme, de que o universo apresentado corresponde à realidade ou, tratando-se de um futuro remoto, que esteja ancorado em princípios e regras reconhecidos pelo universo da física, química e outras ciências naturais. Trata-se de uma linha tênue e invisível separando o gênero da fantasia. Entretanto, se a ideia da produção for analisar questões metafísicas, distantes da simples transformações do cotidiano, o espaço criativo da produção (principalmente do roteiro) torna-se maior, já que a física e a química ainda não são capazes -talvez nunca serão- de identificar as origens da vida ou do universo de forma cabal. A arte, neste ponto, trabalha com a mesma ferramenta destas ciências, desenvolvendo uma tese que possui a vantagem de ser provada certa ou errada de acordo com o gosto do espectador. Prometheus apresenta no centro de seu roteiro uma tese estapafúrdia, que um dia já foi defendida por grandes nomes da química e, hoje, é estudada sobre outro ponto de vista, bastante distante da possibilidade de seres extraterrestres terem iniciado voluntariamente a vida em nosso planeta, contida no roteiro do filme. Trata-se da hipótese da panspermia dirigida.

A hipótese da panspermia dirigida foi defendida inicialmente em 1973 por um dos descobridores da estrutura do DNA, o biofísico inglês, vencedor do prêmio Nobel, Francis Crick. De acordo com sua tese, considerando a dificuldade do processo de duplicação do material genético nos seres vivos, que envolve vários processos extremamente complexos de reprodução de proteínas, os quais sempre estiveram presentes desde as fases mais primitivas da Árvore da Vida, o início da vida na Terra teria ocorrido através do envio ao nosso planeta, por seres alienígenas, de material genético pronto para se autorreproduzir. Crick abandonou esta tese, mais tarde, argumentando que havia sido muito pessimista sobre a possibilidade real do surgimento espontâneo da vida (abiogênese). Atualmente, a tese da panspermia ainda é considerada cientificamente, mas sem a poesia da mitologia alienígena. Em relação ao nosso planeta, estuda-se a possibilidade de que asteroides ou mesmo material expelido de Marte, devido a uma colisão com algum outro objeto, tenha enviado até aqui os blocos formadores da vida, o conjunto de aminoácidos presentes em nosso DNA. Marte é considerado um grande candidato, pois passou por um período de resfriamento anterior ao de nosso planeta e já possuiu água líquida em sua superfície.

Outro ponto caro ao filme é a mistura de elementos mitológicos com ciência e religião. Não fosse a maneira como a história foi apresentada, a cada momento sob o ponto de vista de um personagem diferente, pouco faria sentido misturar tudo isso numa espécie de Thunderdome espacial, sem possibilidade de vencedores. Mas o roteiro, apesar de deixar muitas perguntas sem respostas, acaba sendo bem dirigido porque costura todas as ambiguidades dentro de um contexto que envolve outras fontes, apenas encontradas depois de um pouco de pesquisa e paciência, na medida do interesse do espectador. Não é satisfatório para a plateia que espera um desenvolvimento linear da história. Prometheus é um filme que recompensa se assistido mais de uma vez pela vasta quantidade de detalhes. A maioria deles escapa à vista dos espectadores que não estão integrados no universo da série Alien, até mesmo Blade Runner, além dos não leitores de ficção científica, desacostumados com a ausência de linearidade no desenvolvimento das tramas.

Prometheus é um título interessante e que ilude na primeira análise porque não se refere ao fato da raça dos Engenheiros ter criado o homem, mas à tentação do homem em roubar a tecnologia de seu criador. Nossa espécie é seu objeto de estudo. Para compreender a essência do roteiro, antes, é necessária a apresentação deste titã, criado pela mitologia grega.

Prometeu, em sua origem na mitologia grega (século VIII a.C.), é apresentado como filho dos titãs Jápeto e Clímene, e um dos membros da segunda geração de titãs. É reconhecido como protetor dos homens, pois teria roubado o fogo dos deuses para entregá-lo aos mortais. Na tradição do poeta Hesíodo, Prometeu teria enganado Zeus durante uma refeição para o acerto de contas, celebração da paz, entre imortais e os mortais. Antes da refeição, Prometeu preparou duas refeições: um estômago de boi recheado com muita carne e ossos de boi cobertos por uma grande quantidade de gordura. Zeus escolheu os ossos, em vez do estômago de boi com seu exterior repugnante. A partir deste dia, os humanos, em vez de oferecerem a carne para o sacrifício aos deuses, passaram a oferecer os ossos cobertos pela gordura, em chamas. Zeus, então, retirou o fogo dos homens, mas Prometeu o roubou dos imortais para devolvê-lo. Como punição, Prometeu foi acorrentado a uma rocha no Cáucaso, onde uma águia comia seu fígado dia após dia, depois do órgão se regenerar durante a noite.

Prometheus, uma teoria baseada nas fontes

Prometheus, o filme, questiona certos valores que prevalecem dentro do desenvolvimento da humanidade. É correto que uma descoberta tão importante como a vida em outros planetas seja realizada por uma empresa privada, para seu próprio benefício? Até que ponto o desenvolvimento da tecnologia, cada vez mais próxima da singularidade (a criação de uma inteligência artificial) pode ser benéfico? Religião, ciência e desenvolvimento podem conviver no mesmo espaço? Até mesmo o androide David, interpretado por Michael Fassbender no filme, sabe que uma tese permanece apenas como uma mera hipótese enquanto não for provada. A verdade contida no filme permanecerá com seus criadores, o diretor Ridley Scott e o roteirista Damon Lindelof, ou será revelada numa sequência. Sem lançamento da continuação, a maior parte de Prometheus pode ser compreendida dentro de seu próprio universo e através das fontes que forneceram elementos para sua criação.

Um ser de pele azul e forma humana surge no horizonte do que parece ser o nosso planeta e se sacrifica através da ingestão de um líquido que desmonta a estrutura de seu DNA, o suficiente para começar o processo de desenvolvimento da vida no planeta, demonstrada pelas células se multiplicando dentro da água onde seu corpo foi dissolvido. Ele parece praticar um ato de reconhecido valor espiritual dentro de sua raça, pois a cerimônia é acompanhada por uma nave, do céu, que apenas deixa o local depois da conclusão do processo.

A cena é cortada para um grupo de arqueólogos. A dupla Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) estão explorando ruínas das Highlands, na Escócia, e acabam de descobrir pinturas rupestres dentro de uma caverna, assemelhadas a outras já encontradas em diversos continentes. Todas as figuras representam a mesma formação de objetos celestes, que parece corresponder a um mapa contendo o local de origem de uma figura humana gigante, cultuada por diversos povos da antiguidade. São os gigantes azuis, os Engenheiros.

Quem são os Engenheiros? Por que eles estiveram na Terra em vários momentos diferentes de nossa história? O filme não apresenta muitos detalhes sobre estes seres. Entretanto, se o papel deles for analisado de acordo com as expectativas dos personagens, as semelhanças com as criaturas da novela de H.P. Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura, fica evidente. Alguns personagens do livro, um diário de uma expedição à Antártida realizada por dois pesquisadores que se deparam com ruínas escondidas de uma civilização extinta há milhões de anos, assemelham-se muito aos exploradores do filme. O caráter descritivo da novela é exatamente o inverso da estrutura do filme. No livro, a raça extinta, também responsável pela criação dos seres humanos, é denominada de Grandes Antigos. As semelhanças com os Engenheiros são muitas: a raça é definida por um sexo único, com características semibiológicas que tornam desnecessária a ocorrência da fase de desenvolvimento dos mamíferos, além da existência de famílias; a maioria das instalações que habitam é estruturada pela centralização dos objetos no ambiente e suas paredes são utilizadas apenas para fins artísticos; suas camas e cadeiras têm forma cilíndrica. No filme, os Engenheiros também são de um único sexo, tem características semibiológicas (o traje de space jockey, vestido quando utilizam o aparelho navegador), possuem senso artístico (os afrescos no teto da tumba descoberta por David) e decoram seus espaços centralizando os objetos, com alguns móveis cilíndricos. Os Grandes Antigos, quando comparados aos Engenheiros, embora suas aparências físicas sejam bastante distintas (os Grandes Antigos são monstruosos, não se parecem com humanos), têm a mesma essência espiritual.

E ambos foram responsáveis pela criação da raça humana. No livro, os seres humanos são apenas mais uma espécie entre tantas outras criadas pelos Grandes Antigos. Em Prometheus, os seres humanos são resultado da criação dos Engenheiros à sua imagem e semelhança.

Uma nave cruza o espaço, ocupada por um solitário androide que gasta o tempo jogando basquete, treinando línguas extintas e bisbilhotando os sonhos dos outros passageiros enquanto estão em hibernação. David (Michael Fassbender) é a mistura de Hal 9001, do filme 2001: Uma Odisseia No Espaço, de Kubrick, com o protagonista do filme de David Lean , Lawrence da Arabia. David é programado apenas para interagir e obedecer os humanos, embora muitas vezes seu comportamento irônico e traiçoeiro, um bug programado pelos interesses de seu criador, seja mais assustador do que a carnificina do filme (méritos da ótima atuação de Fassbender). Na chegada à Lua denominada LV223, os demais tripulantes são acordados da hibernação. Mau sinal. LV é abreviação do terceiro livro do Antigo Testamento da Bíblia, o Levítico, que contém as regras religiosas e morais destinadas ao povo de Israel. Diz o capítulo 22, versículo 3, numa previsão catastrófica que está prestes a ocorrer na chegada da nave em LV223:

Dize-lhes: Todo homem dentre os vossos descendentes pelas vossas gerações que, tendo sobre si a sua imundície, se chegar às coisas sagradas que os filhos de Israel santificam ao Senhor, aquela alma será extirpada da minha presença. Eu sou o Senhor.

A simbologia do nome da nave, Prometheus, também é importante para estabelecer o caráter da expedição espacial. Quem está tentando roubar o fogo dos deuses? Os Engenheiros que criaram a vida na Terra ou os homens que partiram para uma jornada no espaço em busca de seus criadores? A última hipótese revela-se verdadeira durante a história.

Os outros personagens são apresentados. Meredith Vickers (Charlize Theron) é uma executiva inescrupulosa das Indústrias Weyland, responsável pelo cumprimento da agenda de interesses profissionais da missão. O capitão Janek (Idris Elba), comandante da nave Prometheus, toma conta da ação junto com outros personagens secundários, como o biólogo Milburn e o geólogo Fifield. Interessante que o caráter heterogêneo dos personagens e a importância dada ao ponto de vista particular que cada um possui de suas próprias funções dentro da equipe da expedição lembram bastante o desenvolvimento das tragédias de Shakespeare. Vickers é obcecada pelo poder dentro da empresa, Janek representa a reserva de caráter da equipe, Charlie Holloway e Milburn são os ingênuos, o primeiro ambicioso e romântico, o segundo quase um bobo da corte. Elizabeth Shaw é a heroína inocente, disposta a morrer lutando pelos seus ideais e em busca de suas respostas. David, o androide, pode ser considerado o traidor do grupo.

A partir do pouso da espaçonave, as portas do inferno se abrem e toda a expectativa da tripulação é destruída por uma mistura letal de desilusão e terror. LV223 não é a casa dos Engenheiros, mas apenas um depósito de material genético sem uma finalidade definida.

O que são os armazéns com as urnas de LV223? Os depósitos de material genético de LV 223 são uma espécie de laboratório dos Engenheiros, distante do planeta que habitam. Seguindo as informações da novela de H.P Lovecraft e os indícios da reprodução dessas ideias no filme, o material depositado nas urnas corresponde a uma espécie de vida superior derrotada pelos Engenheiros em épocas passadas e sintetizada durante seu período de existência numa arma biológica. Aparentemente, não se trata do mesmo líquido ingerido pelo Engenheiro que se sacrificou no início do filme.

Fifield e Milburn transformam-se em cobaias involuntárias. Milburn é morto por uma espécie de réptil criado a partir do contato de um verme do solo com o líquido de uma das urnas. Fifield é infectado pelo próprio líquido, assume a forma de um monstro que ataca os tripulantes da nave e acaba sendo morto. Charlie é infectado por David com uma gota do líquido de uma das urnas e acaba transmitindo a infecção durante o sexo para Elizabeth Shaw. Os efeitos da infecção em cada um são diversos: Charlie não tem seu caráter transformado pela infecção e aceita passivamente a imolação iniciada por Vickers, para salvar a tripulação, ao contrário de Fifield, que retornou à nave disposto a matar todos os tripulantes. De alguma forma, o líquido parece reagir de acordo com a essência moral do ser vivo infectado. Isso explica porque não produziu efeito quando entrou em contato com o organismo sintético de David.

A tripulação não encontra nenhum dos Engenheiros ainda vivo. Todos parecem ter morrido numa espécie de epidemia na base lunar, dois mil anos antes da chegada da nave terrestre. David descobre que na ocasião da epidemia os Engenheiros planejavam retornar à Terra carregando diversas urnas com o mesmo conteúdo que matou Fifield e Charlie.

Por que os Engenheiros planejavam retornar à Terra dois mil anos antes da chegada da expedição a sua base lunar? Os acontecimentos do filme ocorrem no ano de 2093. Dois milênios antes, a sociedade passava por uma transformação que mudaria tudo: o início da era cristã. Provavelmente, os Engenheiros pretendiam retornar à Terra para destruir a raça humana por sua traição em cultuar um novo Deus, o início de uma cultura monoteísta consistente e conflitante co seus interesses.

Por que eles não conseguiram retornar à Terra? Provavelmente, um Engenheiro rebelde, por piedade e para proteger os seres humanos, deflagrou uma epidemia no posto lunar na tentativa de impedir o ataque. Aliás, o próprio fato dos Engenheiros escolherem uma base militar como local para um encontro com os seres humanos demonstra o tamanho da confiança depositada nos seus irmãos terráqueos. Talvez esta escolha tenha sido realizada pelo mesmo Engenheiro que se rebelou para salvar os seres humanos. Neste instante da história, é possível fazer uma ligação entre Prometheus e o universo do primeiro filme Alien (a nave dos Engenheiros acidentada, encontrada pela Nostromo , comandada por Ripley). Depois de deflagrada a epidemia, um dos Engenheiros escapa, mas um dos xenomorfos criados em LV223 acaba se escondendo em sua nave e matando-o durante a viagem. Por isso o pouso forçado no planeta abandonado.

Em Prometheus, existem vários sinais indicativos de que a epidemia na base lunar foi causada através da infestação de xenomorfos. A parede da câmara onde Fifield e Milburn são mortos, antes de ser aberta, é inspecionada por David, que encontra o mesmo material pegajoso deixado pelos rastros do xenomorfo em Alien e as câmaras de hibernação da sala da nave em que se encontra o último Engenheiro vivo estão destruídas exatamente na altura do tórax dos ocupantes, mesma região de onde costumam sair os xenomorfos, depois da gestação.

Uma inesperada irmandade de sangue. Elizabeth Shaw acaba descobrindo que o material genético dos Engenheiros é equivalente e precede o dos seres humanos. Neste momento começa a grande crise entre religião e ciência, que acaba sendo definida, numa grande ironia, por conceitos morais e até mesmo éticos.

Peter Weyland revela-se como passageiro secreto da nave e prepara seu corpo centenário para suportar a caminhada pela superfície lunar, até o local onde David acabou encontrando um dos Engenheiros ainda vivo, hibernando. Entre as mortes de Charlie e Fifield, Shaw também teve seu purgatório ao passar por uma cirurgia de emergência para retirada do alienígena em gestação no seu útero. Num gesto de resistência sobre-humana, ela acompanha a pequena trupe de Weyland até o interior da nave dos Engenheiros, em busca de respostas, mesmo depois da cesárea improvisada. Ao ser acordado, o Engenheiro se depara com Shaw em desespero, questionando-o aos gritos sobre o motivo da tentativa de destruir a raça humana. Um dos capangas de Weyland a interrompe com um golpe no estômago, permitindo que David questione o Engenheiro sobrevivente sobre a possibilidade de tornar Peter Weyland imortal. O Engenheiro arranca a cabeça de David e mata Weyland com um golpe na cabeça.

Esta é mais uma semelhança com a raça dos Grandes Antigos da novela de H.P. Lovecraft, o desprezo pela inteligência artificial. No livro, os Grandes Antigos passaram por uma fase de seu desenvolvimento em que experimentaram a existência unicamente através da tecnologia, mas desistiram, pois a definiram como emocionalmente insatisfatória. Desta forma, retornaram ao seu estado biológico comum e evoluíram para desenvolvê-lo até o limite da prevalência do caráter biológico sobre o artificial. A reação do Engenheiro à presença de David, uma forma de inteligência artificial, e ao pedido de Weyland, para se tornar imortal, contrariam todo o conjunto de valores da raça dos Engenheiros. Daí sua reação violenta. Se os seres humanos foram criados a semelhança dele (poderoso, mas mortal) não faria sentido permitir à criatura sobrepujar sua raça, existir eternamente.

A partir deste momento, a história caminha para seu final com a mesma dimensão grandiosa do início. As questões que ficam em aberto são relativas ao conflito entre a inteligência artificial e a humana. Quem vai dar o próximo passo na cadeia evolutiva, a resistência imbatível de Elizabeth Shaw ou a capacidade de processamento de David? Os valores religiosos, cristãos, de Shaw, são trazidos à tona nos momentos de desespero. Existe algum uso para esta fé, incompatível com a nova realidade? É dentro dessa grande universo de questões relevantes que Ridley Scott e Damon Lindelof construíram Prometheus. Não existem respostas definitivas. Uma sequência, talvez, livre os espectadores da tarefa de procurá-las em um conjunto de referências que permeiam a história. Sem um novo filme, o consolo que nos resta, nas palavras do filósofo, é saber que ainda temos a arte para não morrermos da realidade. A investigação do grande conjunto de ideias sem respostas definitivas de Prometheus é sua maior recompensa.



Vicente Escudero
Campinas, 2/8/2012


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