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Sexta-feira, 4/1/2013
O tipo que faz promessa
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4100 Acessos

Vai dando o fim do semestre e a inquietação toma conta. É geral. É vontade de arrumar a casa, os quartos, os armários, a despensa, a sapateira, embaixo das pias dos banheiros, as prateleiras, as estantes inteiras, os nichos de bibelôs e, principalmente, a minha cabeça. Mas esta não se arruma, não se ajeita. Não se aproveita.

Vontades caladas o ano inteiro põem as manguinhas de fora. Aquela viagem que não rolou se vinga. Aquela promessa não cumprida se levanta. Aquele beijo perdido se adianta. Todas as pessoas não procuradas aparecem na imensa lista de faltas graves. É assim que as coisas não andam. Mas o ano vai virar (digo, a folhinha do calendário) e o tempo não é postiço. Vai que ele não passa só pra mim? Era preciso fazer as coisas pensadas e impensadas.

Mas sou do tipo que jura andar mais arrumadinha no próximo ano, mas não consigo. Compro não sei quantas camisas ajeitadas e uns tantos vestidos de mocinha, mas eles ficam no armário. Adoro usar roupa velha, alegando estilo e conforto, e deixo as novas envelhecendo no armário. Quanta peça já perdi antes de usar, porque engordei ou porque o gosto mudou. Dei roupa pros outros até com etiqueta e preço pendurados. Vizinhança adora. A moda agora é recuperar parte da grana no bazar das amigas. Mas e o tempo?

Sou do tipo que jura que vai andar de cabelinho solto em janeiro, mas o mês passa e as desculpas vencem a parada. O cabelo atrapalha; os fios enojam; os olhos ardem; a boca atrai; a cabelada cai. Acaba que o ano passa e os cabelos ficaram escondidos. Ninguém reparou.

Não sou do tipo que jura dieta ou não comer chocolate. Vê se sou besta? Essas são as coisas que sei que não têm cura. Prometo aquelas que, talvez, quem sabe, me anime a cumprir. Mas cadê o desejo? Está nos livros, nos discos e nos relógios de pulso. Mas roupinha fina que é bom não anda comigo.

Não estreio nada. Gostava sempre quando essa palavra saía da boca da minha mãe. É uma dessas palavras-memória que deixam a infância relevante. Minha mãe dizia "vai estrear a sandália", "vai estrear a jaqueta" e qualquer outro item, mas minha personalidade é de guardar. Um dó de usar coisa nova que me fazia não querer desgastá-las. E assim ia a vida sendo guardada em armários fechados.

Vai virando o ano e me dá sanha de ajeitar o escritório. É o espaço onde mais fico, em que mais me enterro, afogo e ressuscito. Minha cabeça borbulhante faz festa nesse lugar. Ninguém entra, ninguém sai sem ser revistado. E me dá uma vontade de reorganizar as obras todas nas estantes, classificando-as de um jeito que só eu saiba resolver. Dá angústia para rever todos os papéis. Reordená-los em caixas bonitas compradas só pra isso: guardar papéis que juro que vou reusar, mas nunca vou.

Há décadas guardo recortes de jornais e revistas. Que sentido isso tem, hoje? Em tempos de web, meus recortes virtuais somem nos discos rígidos. Não gastam espaço na sala, diante dos meus olhos, e por isso são esquecidos mais cedo e mais irreversivelmente.

Vai virando o ano e me dá vontade de reapreciar as coisas. Queria mesmo era sentar num chão frio e curtir, que nem cachorro com calor. Só que não dá tempo. Vai tendo festa e confraternização e reunião e eu nunca olho ao redor. Vou ao churrasco da empresa com o jeans velho que me cai bem. A calça nova é pra ocasião melhor. E não há. Então a calça nova fica pra próxima. Do jeito que vou engordando, provavelmente a perderei. Vá lá.

Sou do tipo que faz pouco compromisso comigo mesma. Os poucos que há são grandes, enormes, pesam bastante e mantêm o alinhamento o ano inteiro. Vai virando o ano e levo sustos. Oh, até que fiz bastante, cumpri aqui e ali, coisa fina. Vamos lá. Agora é ver de novo as roupinhas pro ano que vem, nem que seja pra elas servirem de parâmetro pra manutenção do shape.

Quantos livros eu comprei? Nem sei. Quantos eu li? Só os incontornáveis. Os outros estão que nem as roupas, lá na prateleira, esperando a poeira assentar. Vai que dá? Quantos anéis? Muitos mais que os dedos. Preciso me lembrar é de exibi-los. E quanta perfumaria. Tudo aqui é só excesso. Queria mesmo era esbanjar saúde e ter menos atropelo. O que mais me desgastou, no entanto, disparado, foi a falta de aconchego. Sai pra trabalhar, todo dia, numa cidade-morte pra ver que cansaço dá. Dizem pra eu comprar uma bike, mas preciso, antes, de um espaço pra guardá-la, que é o que mais vou precisar. Não é uma pena? E o tempo? Está lá, e não nos relógios. Onde ele se escondeu este tempo todo? Vamos chamar os bombeiros? Quem o pode procurar? Arrisco que o tempo está escondido atrás dos meus cabelos. Pela forma revolta como os fios brancos me crescem, só pode ser ali que o tempo empina as patas. E mesmo assim fico doida pra comemorar. Quero espumante na virada do ano, de preferência pra dividir com quem me fez dois cafunés nos momentos de enfado. Quero também uma fatia de doce pra dedicar à pessoa mais querida. Entre amigos e parentes salvaram-se todos. Vai virando o ano e percebo poucas baixas.

Aquela história da cor da calcinha não faz sentido. Amarela, vermelha, rosa ou branca. Vamos logo na furta-cor, que é pra garantir abundância. E o tempo? Só ele vai saindo de fininho, fingindo que encheu a bacia. Pra uns, vazia; pra outros, deixa o ano virar.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 4/1/2013


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