Desejo do momento é o caramba | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

busca | avançada
36499 visitas/dia
1,2 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Sexta-feira, 25/4/2014
Desejo do momento é o caramba
Marta Barcellos

+ de 2500 Acessos

Depois de onze anos fora, morando em três países com culturas bem distintas, minha amiga estava voltando, feliz da vida, ao Brasil. Saudades do país, sim, mas feliz também porque nos últimos três anos estivera nos Emirados Árabes, com direito a todo tipo de experiência desagradável - para dizer o mínimo - que uma mulher ocidental vivencia por lá. "Vamos nos ver!", passou a escrever, logo que soube a data do retorno. No entanto, quando chegasse, imaginei, sua vida seria uma loucura: procurar apartamento e escola para a filha, além de emprego para ela própria - só o marido já tinha um trabalho em vista.

Mal se instalara, pediu-me dica de babá para poder sair com marido à noite, no estilo baby sitter ao qual estava acostumada. Telefonou para a ex-babá da minha filha, acertou tudo e imediatamente propôs uma data para jantarmos em um restaurante que ela queria conhecer em Ipanema. Nossa, que rápido, pensei. É raro as coisas serem tão descomplicadas. Mas ainda poderia acontecer um imprevisto de última hora - e me preparei para ter um plano B naquele sábado.

Quando chegamos ao restaurante, com a pontualidade da qual às vezes me envergonho, ela já estava lá com o marido. Fiquei surpresa. Tivemos uma noite ótima, cheia de histórias exóticas sobre morar em Abu Dhabi, bem diferente da Escócia, onde a filha nascera, e de Paris, cidade do marido. Carnaval chegando, ela comentou que gostaria de levar a menina a um bailinho infantil, e ficou contente quando contei que haveria um no clube do qual somos sócios. No Rio, às vezes também me envergonho de ser sócia de clube, e logo justifico que é por causa das quadras de tênis.

Minha amiga andava animada com a profusão de blocos carnavalescos, e, como a mãe dela estaria na cidade, disponível para cuidar da neta, achei prudente confirmar no domingo se ela ainda queria ir ao bailinho. No carnaval carioca, é normal se decidir por um bloco em cima da hora. Claro que vamos!, respondeu. Chegou com a menina no horário marcado, e no dia seguinte mandou e-mail comentando como tinha sido ótimo, que o clube era muito bom etc.

Nessas alturas, eu já estava achando tudo muito estranho. Tinha alguma coisa fora da ordem. Mas a gota d'água mesmo foi na semana passada.

Minha amiga ainda não conseguira, desde a volta ao Brasil, reencontrar uma colega que temos em comum. E lhe ocorreu oferecer um almoço em sua casa nova, quase sem panelas (isso eu saberia depois), para nós duas. Poderia ser na quinta ou na sexta-feira, ela propôs às duas por e-mail. A filha estaria na escola, de turno integral, ficaríamos à vontade e ela mostraria a moradia provisória. Seria ótimo.

Ao mesmo tempo em que retornei o e-mail dizendo preferir a sexta-feira, a outra convidada respondeu que só poderia na quinta. Pronto. Finalmente. Agora sim, as coisas começavam a entrar na normalidade. Ficaríamos alguns dias tentando acertar disponibilidades, horários, agendas, cada uma contando seus motivos, o quanto estamos todas tão ocupadas, e que o melhor talvez fosse um happy hour - para uma -, ou quem sabe marcar no fim de semana - diria a outra. Depois de uns vinte e-mails (se houvesse uma quarta amiga, este número dobraria, em um tipo de progressão matemática facilmente comprovável), uma data seria agendada sem convicção, até que uma indisposição ou questão familiar fizesse uma de nós três desmarcar. Ou simplesmente furar.

Foi quando meu celular tocou. "Marta, você não pode mesmo na quinta? E se a gente..." Bem, minha amiga teve o inusitado impulso de ligar para ambas e rapidamente acertar tudo. Na quinta-feira (sim, fui eu que dei um jeito), chegamos ao simpático apartamento quase sem panelas e comemos um delicioso almoço que nada tinha de improvisado. Eu estava tão sensibilizada que tinha vontade de chorar com cada detalhe. Ela não havia achado no supermercado os cogumelos certos e o único pirex havia quebrado, por isso fizera a quiche daquele jeito, e que bom que havíamos gostado (na verdade adorado). Sim, a trufa de chocolate branco era feita de modo um pouco diferente da de chocolate preto, mas aquela sobremesa precisava das duas, para contrastar com as framboesas e o bolo de laranja - a única coisa comprada pronta.

Rimos que era um absurdo ela não ter feito o bolo também, que estávamos indignadas com aquela "falta de consideração". E foi ótimo rir para não chorar, não chorar tardiamente por todos os "bolos" que já levei, compromissos desmarcados em cima da hora, atrasos sem justificativas, convites feitos pela metade ("vamos nos ver!"), pessoas que simplesmente "somem". Não chorar pelo pouco esforço para se promover encontros e gentilezas que se tornou regra.

Nada pessoal, bem sei. Tudo cultural, tento sempre me convencer, e lembro-me de um compromisso profissional que eu tive certa vez na Alemanha; na véspera todos em pânico à minha volta. Descobri que o problema era a entrevista marcada para 9h: além de jornalista, me explicaram, eu era brasileira. E ainda por cima... carioca! Não sou tão carioca assim, garanti, e todos puderam comprovar no dia seguinte.

Bem na semana de meu almoço, a Fifa havia publicado em seu site uma cartilha para turistas na Copa denominada "Brasil para principiantes" que causou o maior bafafá. Entre outros comportamentos atribuídos à nossa cultura peculiar estavam - descritos até com certo jeitinho - a falta de pontualidade e o descompromisso. Como todo brasileiro, ando irritada com a arrogância da Fifa, mas pensei cá com meus botões: é isso mesmo. É verdade. Quando a tal cartilha já havia sido retirada do site, achei curiosa a proposta do colunista do Globo Francisco Bosco: que aceitássemos o diagnóstico sobre nossos comportamentos, contudo notando "outros sentidos e valores desses mesmos fenômenos, que o etnocentrismo da Fifa não permite ver."

OK. Interessante. Vou tentar, pensei. O atraso, por exemplo, revelaria uma relação mais descontraída com o tempo. Bem, eu já vinha pensando nisso, tanto que nem me incomodo mais com atrasos alheios, acho melhor que toda aquela rigidez germânica. Não gosto nem consigo chegar atrasada, mas posso esperar sem problemas, ainda mais se o celular tem bateria e internet.

Quanto a prometer coisas e não cumpri-las, Bosco sugere que este comportamento teria a vantagem de "dar vazão a um desejo do momento". Sim, eu já percebi, diante de um almoço desmarcado uma hora antes, que o outro provavelmente estava dando vazão ao desejo do momento de fazer outra coisa, ou simplesmente de furar. Uma amiga minha, impontual mas do tipo que cumpre compromissos, me contou que teve um almoço de trabalho desmarcado 11 vezes. No décimo primeiro furo, o sujeito mandou a secretária lhe enviar flores. Quem pode ser tão "ocupado" assim?

Depois desta breve reflexão sobre o tal "desejo do momento", respirei fundo e retomei o texto, para tentar me convencer: "Prometer coisas e não cumpri-las é dar vazão a um desejo de momento, e preferir manifestá-lo a submetê-lo à prova de sua duração, como se a duração fosse a "norma" do desejo (há nisso a chave de toda uma economia pulsional diferente da dos europeus)." Reli duas vezes, cogitei sobre a nacionalidade de minha economia pulsional, mas só consegui concluir: depois desse almoço cheio de gentilezas, da próxima vez que alguém for dar vazão ao desejo do momento às minhas custas, juro que reajo. Com um xingamento bem carioca, que ainda nem entrou nessas cartilhas.


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 25/4/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Conservadores e progressistas de Gian Danton
02. A era e o poder do Twitter de Gian Danton
03. Verão, de J.M. Coetzee de Daniel Lopes
04. A estreia de Luís Henrique Pellanda de Luiz Rebinski Junior
05. Teoria dos jogos de Gian Danton


Mais Marta Barcellos
Mais Acessadas de Marta Barcellos em 2014
01. Esquerda x Direita - 24/10/2014
02. Escritor: jovem, bonito, simpático... - 5/9/2014
03. O turista imobiliário - 14/8/2014
04. Quase cinquenta - 14/3/2014
05. Philomena - 7/2/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




TARZAN -GREYSTOKE A LENDA DE TARZAN O REI DA SELVA Nº01-COLORIDO 9057
EDGAR RICE BURROUGHS
EBAL
(1984)
R$ 29,00



DESNUTRIÇÃO E APRENDIZAGEM
JOVELINA BRAZIL DANTAS
ÁTICA
(1981)
R$ 4,90



UMA ESCOLA PARA O POVO
MARIA TERESA NIDELCOFF
BRASILIENSE
R$ 10,00



ÁRVORE DA VIDA - CABALA, CIENCIA OU MISTICISMO?
SIMHON MOUSSA
CAMILA SIMHON
(2015)
R$ 40,00



A CONSTRUÇÃO NO ESPELHO
NILDO CARLOS OLIVEIRA
PINI
(1998)
R$ 20,00



PSICOLOGIA SENSORIAL
CONRAD G.MUELLER
ZAHAR
(1966)
R$ 10,00



MERCADO DE VALORES MOBILIÁRIOS - TEORIA E QUESTÕES
LEONARDO FACCINI
CAMPUS
R$ 34,80



GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO
CELSO CUNHA
BERNARDO ÁLVARES
(1971)
R$ 15,00



EN ACCIÓN3 CUADERNO DE ACTIVIDADES + CD
MARISA LOMO; CAROLINA O; ROCÍO S;
EN CLAVE ELE
(2007)
R$ 30,00



BRILHO - VOLUME I DE EM BUSCA DE UM NOVO MUNDO
AMY KATHLEEN RYAN
GERAÇÃO JOVEM
(2012)
R$ 12,00





busca | avançada
36499 visitas/dia
1,2 milhão/mês