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Sexta-feira, 3/1/2014
Família
Marta Barcellos

+ de 3000 Acessos

E aí, como foi de festas de fim de ano? Nesta hora - se você não é o mala que não responde "tudo bem" à pergunta retórica "tudo bem?" - deve-se dizer: "Foi ótimo". No máximo, pode-se optar por um "foi tranquilo", para em seguida contar onde e com quem esteve nas tais datas-compromissos a serem preenchidos com zelo e felicidade protocolar entre um ano e outro de nossas vidas. Adoro Natal, alguém pode dizer. Eu prefiro o Ano Novo, e o interlocutor apresenta argumentos superficiais e comparativos sobre as festas.

Ninguém quer saber se você foi invadido por alguma espécie de angústia, solidão ou reflexão existencial nesta época suspensa entre dois anos. Não seja chato - simples assim. Se a viagem de férias se aproxima, vá treinando o pensamento para compilar os melhores momentos, relevar - ou minimizar - o que der errado, ignorar tensões e criar uma narrativa bem facebook para a sua experiência. Claro que, se você tiver um humor afiado, vale fazer piadas sobre alguns desvios do percurso da felicidade, tanto sobre as festas como sobre as férias. Mas mantenha o alto astral, pelamordedeus.

Convenhamos, não é fácil lidar com esse "preenchimento" do calendário off rotina-de-trabalho-e-ano-normal. Onze meses no automático, dando conta da vida corrida, e agora você precisa ser feliz de um modo pré-estabelecido mas que também exige algum planejamento - compras, comidas, bebidas, passagens e gastos, muitos gastos.

Tenho uma amiga-cúmplice que, como eu, repara nessas coisas. Durante as viagens ou reuniões de família, observamos, nos calamos (às vezes escrevemos sobre) e aproveitamos o momento da melhor forma possível. Depois, nos permitimos resumir uma para a outra: ufa, deu tudo certo. Dei conta. Passou. Ambas temos pequenos núcleos familiares razoavelmente bem resolvidos e divertidos, mas reconhecemos as ambivalências de uma convivência intensa e fora da rotina. E não conseguimos passar batidas pelos mal-estares presentes em todos (todos, desculpe a inconveniência) os núcleos familiares ampliados.

Naturalmente, família a gente inventa (e a vida a gente inventa; o amor romântico a gente inventa... tudo, como diz Cazuza, pra se distrair). Então, se você fizer a compilação dos bons momentos direitinho e acreditar depois na narrativa que construiu, perfeito. Você pode estar sendo sincero no Facebook e no relato entusiasmado sobre as festas ou as férias. No entanto, se é alguém que gosta de complicar as coisas, cuidado. Não estrague a festa alheia. Aliás, gostar e reparar na complexidade (ou na falta de sentido) da vida não é muito recomendável nesta época do ano.

Não à toa, de vez um quando uma dessas bombas-relógio explode. Conheço dois casamentos desfeitos no dia 24 de dezembro. No último Natal, soube de outro que quase foi para o brejo - vamos esperar para ver se a reconciliação em nome das crianças dura.

O curioso foi eu ter escolhido para ler, justo na época de festas, o livro O amor de uma boa mulher, da prêmio Nobel Alice Munro. Está tudo lá. As famílias felizes estão todas lá. Aparentemente banais e iguais como devem ser todas as famílias felizes, até que alguma tensão começa a se revelar - especialmente em momentos como festas e férias.

São oito contos primorosos. Em "Jacarta", a descontração da praia e de uma festa no estilo luau não é suficiente para apaziguar as diferentes expectativas que assombram os relacionamentos de dois casais felizes. O fantasma da infelicidade paira no ar, até porque o leitor já vislumbra, em narrativa paralela, o futuro no qual eles não mais estarão juntos. Mas por que não? Queremos ler, saber, porque não nos conformamos, não foi assim que aprendemos didaticamente que são e devem ser o casamento e a vida das pessoas de bem. E mesmo as narrativas atuais, de redes sociais e revistas de celebridades, insistem em nos impingir conceitos como final feliz e fracasso, perfeição e imperfeição.

No conto "As crianças ficam", o narrador insiste sobre o tempo - e tudo mais - estar perfeito durante as férias cuidadosamente planejadas pelo patriarca da família na costa de Vancouver. Perfeito e perfeito. Quando chove ("Finalmente, um dia de chuva."), e já estamos mais próximos da verdadeira protagonista (uma mulher que ousa ser imperfeita), respiramos aliviados. E sabemos - intuímos, porque já vivemos - que o equilíbrio se mantém por um fio. Em nome da família, inventada e agora real, ele precisa ser mantido a qualquer custo. Mas nem sempre acontece dessa forma. O perigo - a vida - é iminente.

O tênue equilíbrio das férias planejadas também desmorona - por um quase nada, uma frase que não deveria ter sido ouvida - no conto "Salve o ceifador". A avó aluga um chalé no lago e sustenta o quanto pode que as férias são "uma gostosura". A neta menor faz xixi na cama todos os dias, o maior reclama dos mosquitos, mas todos "se adaptam". Afinal, trata-se de "o" reencontro com a filha que agora mora distante, uma relação mãe-filha idealizada para ser resumida na cena em que as duas lacrimejam juntas assistindo ao DVD "As pontes de Madison". Só que... a vida não é bem assim. Na literatura, também não é bem assim. Ao leitor, é imposto o mal estar e o suspense de tentar descobrir de onde ele brota. Não será possível fingir que está tudo bem, que os finais - e Natais - são sempre felizes, porque Munro nos impinge o desconforto que se quer ignorar.

Um conto de terror não poderia conter mais suspense do que nestas histórias de família desveladas de forma intimista e perturbadora por Alice Munro. Quem quiser, ou puder, que se identifique. Mas se você preferir ficar só com os Natais do Facebook, tudo bem também. Eu entendo.

Nota do Editor:
Leia também sobre Alice Munro, aqui no Digestivo, os textos "A Escolha de Alice", de Marilia Mota Silva, e "2013: mulheres escritoras e suas artes", de Eugenia Zerbini.


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 3/1/2014


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