Dando nome aos progres | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

busca | avançada
73958 visitas/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Projeto Camerata Filarmônica Brasileira apresenta concerto comemorativo no dia 15 de maio em Indaiat
>>> Ação Urgente Contra a Fome - SescSP
>>> 3ª Mostra de Teatro de Heliópolis recebe inscrições até 31 de maio
>>> Minute Media anuncia lançamento da plataforma The Players’ Tribune no Brasil
>>> Leonardo Brant ministra curso gratuito de documentários
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
>>> PoloAC retoma temporada de Os Doidivanas
>>> Em um tempo, sem tempo
>>> Eu, tu e eles
>>> Mãos que colhem
>>> Cia. ODU conclui apresentações de Geração#
>>> Geração#: reapresentação será neste sábado, 24
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Irredentismo
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> O assassinato de Herzog na arte
>>> Hitler, de Ian Kershaw, pela Companhia das Letras
>>> Livrarias em tempos modernos
>>> O que é a memética?
>>> O dinossauro de Augusto Monterroso
>>> Sobre o Jabá
>>> Você viveria sua vida de novo?
>>> Suicídio, parte 2
Mais Recentes
>>> Viagens de Gulliver de Jonathan Swift e Cláudia Lopes pela Scipione (1970)
>>> Líderes e Lealdade - as Leis da Lealdade de Dag Heward-mills pela Central Gospel (2011)
>>> Revista Manchete , Nº 1 , 907 - Novembro de 1988 de Varios pela Bloch (1988)
>>> A Droga da Obediência de Pedro Bandeira pela Moderna (1984)
>>> Álbum de família de Mercedes Teixeira João pela Gente (1993)
>>> O Amor Verídico de Tânia Leite Motta pela Própria (1999)
>>> Martelo: uma salada literária de Selma Horta pela Própria (1999)
>>> O Alquimista de Paulo Coelho pela Rocco (1990)
>>> Milagres e Aparições de Nossa Senhora de Bridget Curran pela Fundamento (2010)
>>> Bible Time Bible readong era de Sociedade Bíblica do Brasil pela Sociedade Bíblica do Brasil (2000)
>>> El puñal magico de Vários Autores pela Ediciones en lenguas extranjeras beijing (1980)
>>> Epitaph of a small winner de Machado de Assis pela Bard (1979)
>>> The Peter Principles de Dr. Laurene J. Peter e Raymond Hull pela William Morrow and Company (1969)
>>> Mistery behind the wall de Gertrude Chandler Warner pela Scholastic inc (1991)
>>> Trotz allem ein Stuck Himmel de Max Ronner pela Gotthelf Verlag (1979)
>>> There is a tide de Agatha Christie pela Dell (1970)
>>> Cantora Revelação de Roberto Belli pela BrasiLeitura (2015)
>>> He - A Chave do Entendimento da Psicologia masculina de Robert A, Johnson pela Mercuryo (1987)
>>> She - A Chave do Entendimento da Psicologia Feminina de Robert A. Johnson pela Mercuryo (1987)
>>> Samuel Hazzan e José Nicolau Pompeo de Matemática Financeira pela Saraiva (2007)
>>> Jogos para a Estimulação das Múltiplas Inteligências de Celso Antunes pela Vozes (1998)
>>> Ao ponto da tristeza de Aaron Appelfeld pela Kinnet, Zmora-Bitan, Dvir (2012)
>>> Conhecer & Aprender - Sabedoria dos Limites e Desafios de Pedro Demo pela Artmed (2021)
>>> Stiletto de Harold Robbins pela Record (1980)
>>> Tudo Pela Vida de Danielle Steel pela Record (2003)
COLUNAS

Terça-feira, 9/12/2014
Dando nome aos progres
Celso A. Uequed Pitol

+ de 2600 Acessos

Miguel de Unamuno era um grande defensor do intercâmbio entre as nações ibéricas. Contrariando a tendência dominante em Espanha naquela época, convidava o leitor espanhol a estudar Portugal e a língua portuguesa, não para buscar algo novo e diferente, mas para conhecer algo melhor de si mesmo. No campo linguistico, o estudo do português - dizia-nos Unamuno - seria capaz de perfeccionar o próprio uso do idioma castelhano por parte dos espanhóis, pois iria revelar-lhes novas maneiras de usar expressões e enriquecer-lhes o vocabulário. Dizia ele que "en el portugués encontraremos rincones y recovecos de nuestro idioma que no los descubrimos directamente. Aprender portugués es un buen recurso para enriquecer nuestro castellano". A atitude de Unamuno estava fincada na sua firme crença de que a Ibéria era, na verdade, uma e só cultura com duas faces - a portuguesa e a espanhola - e que cabia a um lado conhecer melhor o outro.

Compartilhando, como compartilhamos, da atitude de Unamuno, fomos à Espanha fazer o caminho contrário, mas com o mesmo espírito: em busca de enriquecimento, de conhecer o outro lado, de "rincones y recovecos" . E voltamos, desta vez, com uma palavra nova, que, acreditamos, será de imensa valia para os brasileiros de hoje: a palavra "progre".

Antes de mais nada, quero dizer que, embora seja um entusiasta da relação intercultural, sou um crítico da incorporação desmedida de palavras e expressões com equivalentes em português, mesmo das de uma língua irmã como o castelhano. O enriquecimento de que fala Unamuno, e do qual falo aqui, só pode existir quando há uma incorporação de significados novos ao nosso idioma. E este é, precisamente, o caso de "progre".

Que significa, então, esta curiosa expressão? Importa antes de tudo dizer que ela é relativamente nova: seu surgimento é localizado nos últimos anos do franquismo, e fazia referência aos jovens de classe média e classe média alta com simpatias por certos tópicos, como o comunismo cubano, Che Guevara, maio de 68, uma sociedade mais justa, mais igualitária e menos preconceituosa - tudo isso, é claro, mais no discurso do que na prática. Como sói acontecer a essas expressões populares, trata-se de uma contração: da palavra "progressista", entendida aqui no seu sentido político do termo, isto é, como quase sinônimo de "esquerda". Progressista é aquele que acredita no progresso da História e seu inimigo é o "reacionário", que se opõe a esse progresso. Progressistas são Lula e Dilma, Lenin e Trotsky, Olof Palme e Willy Brandt, cada um à sua maneira, mas todos sem a menor dúvida progressistas.

Sendo contração, ocorre aqui uma redução do sentido original da palavra progressista. O progre não é um progressista como os outros. Ela acredita, de certa forma, no progresso da história, numa sociedade "melhor", num mundo "melhor", mas não possui o mesmo discurso da esquerda mais antiga e não adota os mesmos canais de comunicação desta. Não tem muito interesse na organização quase militaresca dos antigos partidos comunistas, nem no estilo de vida difundido pela antiga URSS. Muitas vezes nem mesmo é marxista; em alguns casos, é até mesmo anti-marxista. A expressão que mais próxima temos no Brasil é "esquerda caviar", mas não define exatamente a mesma coisa. O esquerdista caviar médio (assim como o progre dos anos 70 da Espanha) pode gostar de luxo, mas defende Cuba, a URSS e outros países, mesmo que da boca para fora. Já o progre moderno nem sempre o faz. "A los jóvenes de ahora no les interesa la política de los partidos, que con su estructura y burocracia son entidades cerradas. Se sienten más satisfechos y encuentran más gratificaciones en otro tipo de plataformas, como las ONG, las redes sociales, donde creen que su acción acaba siendo más efectiva" , explica Julián Santamaría, professor de Ciencia Política da Universidad Complutense de Madrid.

Tão difundida está essa palavra em Espanha que mereceu até mesmo um verbete na última edição do prestigiado dicionário da Real Academia Espanhola. Em artigo dedicado ao tema, Piergiorgio M. Sandri aponta que "las nuevas generaciones se parecen poco al progre de la transición. Aunque puedan haber heredado su antiguo espíritu de lucha, sus reivindaciones ahora se centran en otros temas, como el ecologismo, la igualdad, el pacifismo -esencias del nuevo progresismo- y se llevan a cabo a través de plataformas muy diferentes, más espontáneas y menos organizadas" . A estes temas poderíamos adicionar outros, como as ações afirmativas, o aborto, o casamento gay, a igualdade da mulher e outros. Questões estruturais de ordem econômica, que eram de primeiríssima ordem para os antigos socialistas, comunistas e social-democratas, ficam muitas vezes relegadas a segundo plano diante destas reinvidicações comunitárias, minoritárias e grupais dos progres.

O crítico espanhol Juan Manuel Prada aponta uma característica psicológica fundamental do "progre": "ser progre consiste en tener siempre razón, si la realidad te lleva la contraria, peor para la realidad". É o que os ingleses, outro povo criador de excelentes expressões idiomáticas, chamam de "self-righteouness". Não é difícil imaginar, assim, a atitude de hostilidade de muitos esquerdistas de antigamente - além, é claro, dos direitistas em geral - , formados no velho discurso marxista-leninista. Um exemplo da própria Espanha é Julio Anguita, ex-secretário-geral do PCE, ex-prefeito de Córdoba e uma das mais respeitadas lideranças políticas da esquerda espanhola, que disse, para quem quisesse ouvir: "yo soy rojo, no progre. Si quiere insultarme llámeme progre" . E para diferenciar do progressimo, ao qual ele adere, Anguita criou um novo adjetivo, a "progresia", para definir a atividade dos progres. "La progresía es, ni más ni menos, el sumidero por donde se han ido las ideas de la izquierda. La progresía es quedarse en la reforma de una serie de aspectos sociales, como los matrimonios homosexuales o las medidas de discriminación positiva de la mujer, mientras que se deja intacta una realidad económica injusta" . A definição de Anguita parece plenamente de acordo com o credo marxista que ele professa, e serve para quem quiser entender bem o fenômeno.

A adoção do termo entre nós ajudará, e muito, a qualificar o nosso reconhecidamente desqualificado debate político. Dentro do rótulo de "esquerda" os brasileiros costumam aglomerar leninistas, trotskystas, social-democratas, liberais de esquerda e anarquistas, como se todos fossem a mesma coisa. Com esse aporte vindo diretamente da banda hispânica do nosso mundo ibérico, passaremos a identificar uma força que, mais do que simplesmente existir entre nós, tem grande relevância em vários partidos e na condução das políticas públicas do país.


Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 9/12/2014


Mais Celso A. Uequed Pitol
Mais Acessadas de Celso A. Uequed Pitol em 2014
01. Miguel de Unamuno e Portugal - 12/8/2014
02. Entrevista com Dante Ramon Ledesma - 9/9/2014
03. A vida exemplar de Eric Voegelin - 10/6/2014
04. Émile Zola, por Getúlio Vargas - 6/5/2014
05. Ler Oswald Spengler em 2014 - 25/3/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A Estrutura do Tesão. Melissa
Claudia Riecken
Universidade Quantum
(2012)



Beleza para a Vida Inteira
Cristiana Arcangeli
Senac
(2002)



Comigos de Mim
Rachel Gutiérrez
Massao Ohno
(1995)



A Morte da Justiça do Trabalho
Sylvia Romano
Minelli
(2002)



Mistura de Palavras
Silvia Cristina de Oliveira
Do Autor
(1989)



O Benefício da Dilatação de Prazo para a Fazenda Pública
Revista de Processo, Nº 1 - Ano 1
Revista dos Tribunais
(1976)



Por uma Política de Ciência e Tecnologia Em Saúde no Brasil
Marília Bernardes Marques (org.)
Fund Oswaldo Cruz
(1998)



Direito Constitucional 2ª Edição
Gustavo Barchet
Impetus (niterói Rj)
(2004)



Gente Que Você Não Deveria Conhecer !!!!
Fátima Deitos
ícone
(2007)



Dune Guerre a Lautre: 1914-1945
J P Brunet e M. Launay
Hachete Universite
(1974)





busca | avançada
73958 visitas/dia
2,5 milhões/mês