Meshugá, a loucura judaica, de Jacques Fux | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 17/1/2017
Meshugá, a loucura judaica, de Jacques Fux
Jardel Dias Cavalcanti

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No final de “Meshugá: um romance sobre a loucura”, de Jacques Fux, editado em 2016 pela editora José Olympio, encontramos as seguintes colocações: “Ele enlouqueceu junto com seus personagens. (...) Busca alguma forma de redenção e de suplício através da escrita. (...) Ele não foi salvo pelas suas palavras.”

O romance (não esperem um romance tradicional) tem relação direta com as três frases citadas acima. Primeiro porque trata da loucura dos personagens e uma possível identificação do narrador com os mesmos dramas; segundo, porque, ao mesmo tempo que busca uma redenção na escrita, o narrador parece se chicotear ao escolher tema tão desnorteado como a loucura; terceiro, porque sua fé na escrita banha-se, no fim das contas, numa melancólica não redenção, a última possível, a da escrita, depois da descrença absoluta nos valores espirituais do povo judaico.

O romance, então, estrutura-se a partir da narrativa da loucura que acometeu alguns judeus ilustres e termina com um narrador autoconsciente que avalia a sua relação com essa tradição de loucos judeus. Inclusive, fica tão contaminado com a narrativa da loucura, essa que o habita também, que “durante a escrita acha que vai morrer”.

Não são poucos os loucos escolhidos e as façanhas de sua loucura avaliadas pelo escritor. Embora queira, inicialmente, se divertir com “os mitos, as crenças e as falácias atribuídas ao louco judeu – meshugá”, segundo o narrador, “se enganou redondamente”. Buscou o distanciamento, usando as armas racionais da pesquisa: “Biografou, pesquisou e esmiuçou a vida, os medos e os escritos de cada um dos personagens que inventariou”. Não escapou de encontrar a loucura dentro de si, como se ao olhar os personagens que escolheu se olhasse num espelho. “Ele se tornou seus fantasiosos personagens. E enlouqueceu junto com eles”. Eis a saga que lemos no livro de Fux, a loucura como ferida aberta na existência dos biografados que foi se consubstanciando com o narrador.

A ironia autodepreciativa (principal elemento do humor judaico) é a ponte que liga o narrador aos loucos que revisita de forma bastante livre, recriando e/ou reinventando suas biografias, remexendo em seus dramas mais obscuros, quase como se os colocasse num divã psicanalítico. E ao fazer isso, como já dissemos, faz seu próprio inconsciente emergir. A escritura do romance une esses dois elementos para a configuração da narrativa.

Dentro do próprio romance aparecem dados que são procedimentos parecidos ao adotado pelo escritor de Meshugá. O primeiro caso extremo narrado é o de Sarah Kofman. Seu caso torna-se idêntico ao do narrador, que ao escrever sobre outros escondia de si mesmo sua própria loucura. Mas eis que um dia desaba a barreira psicológica que a protegia de si mesma: “Sempre escreveu sobre o discurso dos outros, buscando recalcar ao máximo suas dolorosas palavras. Mas elas finalmente eclodiram, transbordando sentimentos tão adormecidos e escondidos, que ela não mais conseguiu suportar, tampouco sustentar e resistir ao pavor de suas reminiscências”.

O suicídio de Sarah depois do encontro consigo mesma, com aquela verdade que negava para manter-se viva, é relatado em sua circunstância objetiva e filosófica: “Ela toma um banho. Coloca sua camisola. Pega mais uma vez a sua autobiografia. (...) Está prestes a exorcizar tudo. Ela então toma todos os remédios que consegue. (...) Engole com prazer e angústia. Com desprezo e afobação. Nesses 20 minutos antes de apagar definitivamente, lembra-se mais uma vez de suas duas mães. Do pai. De Auschwitz.” E agora o resultado filosófico final, para o exame da humanidade: “Não, não há salvação para Auschwitz. Não, não há nada além da maldade humana. Não, não existe espécie alguma de arte ou de vida entre nós. ´Todos somos demasiadamente humanos e cruéis. Por isso eu escolho meu fim`, ela teria esbravejado diante do espelho, já sob efeito dos remédios.”

Uma das epígrafes do livro de Jacques Fux é o seguinte ditado iídiche: “S´iz shver tsu zayn a yid” (É duro ser judeu). As narrativas seguintes do livro não deixam por menos. Antes de elencar casos específicos, o narrador expõe casos dos absurdos relativos à crença de que os judeus são uma espécie de povo amaldiçoado. Leprosos, envenenavam as águas causando doenças e loucuras; de feiticeiros a bruxos, passaram em tempos modernos a sofrer com explicações científicas que insistiam na insanidade judaica. Povo sujo e tarado, como masturbadores viciados envelhecem cedo, pois não guardam o sêmen “para uma vida próspera”. Da antropologia recebem o veredito de que são mais loucos que as outras populações. Histeria e neurastenia torna-se coisa de judeu. Sua loucura deriva da consanguinidade e o incesto. Sexualizados e depravados, especialistas em cunnilingus, são tachados de pervertidos. O comportamento inato dessa “raça” gera as doenças e que o povo se afaste desse mal.

Seguindo os exemplos narrados por Fux, parece que a piada funciona.

1- Woody Allen e seu escandaloso caso “incestuoso” e pedófilo com a ninfeta coreana Soon-Yi, filha adotiva de sua esposa Mia Farrow;

2- Ron Jeremy, famoso ator pornô, com seu falo flamejante e encantador, um dos maiores pênis do cinema pornô, que transou com infinitas mulheres mas nunca encontrou o amor;

3- O matemático, Grisha Perelman, com sua obstinação em não receber os prêmios e cadeiras acadêmicas pelas suas fulgurantes resoluções de problemas matemáticos, inclusive resolvendo a conjectura de Poincaré, recusando o prêmio Clay no valor de um milhão de dólares e Bobby Fischer, ex-campeão mundial de xadrez, símbolo do patriotismo americano, que bateu palmas para a derrubada das torres gêmeas no 21 de setembro e deu uma entrevista a uma rádio dizendo que “já é hora de os malditos americanos terem suas cabeças chutadas. É hora de acabar com os EUA de uma vez por todas!”;

4- Otto Weiringer, suicida judeu e homossexual, que se matou aos 23 anos. Misto de gênio e louco, com ideias muito avançadas para a modernidade vienense, abusado pelo pai diante da mãe que não reagia, transferiu para sua teoria os desvios que escondia de si mesmo. Havia sido chupado pelo seu pai e obrigado a chupá-lo: “o judeu seria o grande especialista nas práticas do sexo oral: annilingus, fellatio e cunnilingus.” Autor de “Sexo e Caráter”, livro que Freud achava inconcluso e raso, Weiringer decidiu se suicidar na casa de Beethoven, onde alugou um quarto, ouvindo Richard Wagner. O suicídio como obra de arte. Desolado, anotou antes sua visão pessimista do homem: “O homem está sozinho no mundo, vivendo em um terrível e eterno isolamento. Não há objeto algum além dele; ele vive para nada; (...) ele está sozinho.” ;

3- A vida tresloucada de Daniel Burros, judeu fanático, suicida e antissemita transformado no maior intelectual da Ku Klux Klan;

4- Chegando, finalmente, em Sabbatai Zevi, judeu fanático que acreditava ser a encarnação do messias, vivendo no século XVII, deturpou o Torá, as palavras sagradas, para adaptá-las ao seu credo insano, chegando a dizer que flutuava e isso só não era visto pelas pessoas porque elas eram judeus impuros. Encontrou-se com outro fanático, Neemias, também crente em ser o messias, mas discordou de sua teoria da existência de dois messias. Acusado por Neemias de ser um judeu lascivo foi preso e pressionado a fazer algum milagre. Se fracassasse seria punido, só sendo salvo se se convertesse ao islamismo. Converteu-se à fé islâmica e viveu-a com a mesma paixão.

Esses casos, e outros, relatados em profundidade e com erudição por Jacques Fux, são atravessados por reflexões sobre a possibilidade da provável loucura dos judeus, ou de sua propensão a tal.

Entre os debates que intercalam os casos citados, há, por exemplo, a questão do humor e da neurose do povo escolhido. O humor serve para ofender e subjugar sem punição, com ele se debocham os colonizados dos colonizadores, os empregados dos patrões, os esquerdistas dos direitistas e por aí vai. No caso dos judeus, povo perseguido, “o humor é usado para se autodepreciar, tornando a própria situação inferiorizada ainda mais ridícula e miserável. O tal do ´humor do sorriso entre lágrimas`, como mencionou Freud.”

Segundo ainda Freud, haveria algo de proibido sendo dito no humor judaico, revelando a tensão entre judeus e sua revolta contra a eterna “questão do abandono, das constantes perseguições e extermínios, da loucura e da neurose”. É algo assim que produz um humor como o seguinte: “Prezadíssimo Deus, por 5 mil anos, nós orgulhosamente temos sido Seu povo escolhido. Agradecemos de coração esse presente. Mas, Você não acha que já chega? Escolha outro povo, por favor!”

Outra questão relacionada à loucura do judeu é sua obsessão por dinheiro, sua ganância. Talvez essa ideia tenha feito Freud relacionar o caráter anal ao acúmulo de capital. Mas ainda o cientista Krafft-Ebing tentou demonstrar cientificamente que por usar o cérebro incansavelmente para obter grandes lucros os judeus tornaram-se neurastênicos. O “tempo é dinheiro” alterou o paradigma e fez da “vida algo que não tenha mais tempo para ser vivida”.

Esses mitos e outros, tornados quase verdades absolutas, permeiam o livro de Fux, relacionando o comportamento alterado para o extremo com essas “pestilências”. Ao fim, o narrador se despede. “Ele aceita a dor e compreende humildemente todos os supostos loucos, suicidas e judeus”. Experimenta ao criar o romance as mesmas vertigens que assolaram outros criadores, está pronto para “pertencer” e sair por aí, inventando insanidades que só a literatura possibilita, sem se deixar morrer por elas. Nasce o escritor.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 17/1/2017


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