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Terça-feira, 8/5/2018
A confissão de Lúcio: as noites cariocas de Rangel
Renato Alessandro dos Santos

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Quem gosta de cultura popular não pode deixar de conhecer o que escreveu Lúcio Rangel (1914-1979), cronista da música brasileira que, quando o relógio do século XX marcava por volta de meio-dia, registrou nas revistas A cigarra, Manchete, Senhor, Revista da Música Popular, e outras, o panorama do samba e do jazz que encantava toda a gente, que, do texto elegante dele, se aproximava.

É com esse estado de espírito que o leitor se dedica à experiência de leitura de Samba, jazz e outras notas, livro que o não menos admirável Sérgio Augusto organizou e que veio a lume em 2007, pelo selo editorial da Agir (mais tarde, comprado pelo grupo Ediouro). Obras assim deveriam surgir aos borbotões, em nosso mercado livresco, mas não é o que acontece, e quem perde são os leitores, que, à exceção de pesquisas isoladas em sites obscuros da internet e da escassa bibliografia disponível, ficariam à mercê do descaso à memória e à preservação de histórias que, se não fossem reunidas por jornalistas como Rangel, iriam se perder nas lianas do tempo.



Mas há este livro, e, nele, surge um Rio de Janeiro mítico, com consagradas boates em noites em que nefelibatas notívagos bebiam whisky como se fosse água de coco. Foram embora esses tempos e, hoje, moram naquela esquina onde o ônibus circular não chega, enquanto das sarjetas sambistas com seus cavaquinhos, violões e pandeiros parecem brotar feito geração espontânea, e as grandes estrelas deste livro são pessoas iguais a eles; gente como Noel Rosa (1910-1937), Nássara (1910-1996), Mário Reis (1907-1981), Chico Alves (1898-1952), Almirante (1908-1980), Pixinguinha (1897-1973), Moreira da Silva (1902-2000) e tantos outros que elevaram a música brasileira a uma categoria que poderia competir com o jazz americano, que na parte de cima do mapa vinha desafiando a espontaneidade dos músicos, não fosse a síndrome de cachorro vadio que a gente carrega nas costas, que nem uma corcova. Do calcanhar de Aquiles, uma das crônicas mais evidentes é a que retrata uma noite numa boate carioca em que a plateia, extasiada com os encantos vocais de uma cantora francesa, preservava um silêncio de monastério em que nenhum cigarro era fatalmente puxado, nenhum copo de whisky era à mesa pousado e nenhuma conversa era adiante levada, porque, entre acólitos, estava em jogo esse lado vergonhoso de não reconhecer a capacidade que a gente tem para ser grande e original, um passo além do ufanismo besta que, feito piolho, coça a cabeça, mas sem tirar nada de dentro dela, como uma lufada de vento que faz sacolejar de um lado a outro as franjas, para, em seguida, voltar ao mesmo estágio em que se encontravam antes, antes da brisa redentora.

Lúcio conta que tão logo a litografia mal feita de Piaf encerrou a cantoria, a garganta profunda a não suportar mais e a pedir arrego, a cantora, embevecida pela calorosa recepção carioca, retirou-se para repousar numa alcova à penumbra. Foi quando outra cantora pegou da pena para destilar sua poesia, mas havia um problema: era ela brasileira e, nem bem começou a cantarolar, o salão retornou da pausa e, como se alguém tivesse apertado a tecla play, a algaravia voltou a ecoar pela boate, por todo o show, num desrespeito que, hoje, faria corar qualquer um dos mais estúrdios políticos de nosso planalto. Vai Rangel:

Dois sujeitos disseram qualquer coisa e bateram palmas, numa mesa dos fundos. Foram as únicas. A cantora saiu discretamente e a orquestra tocou um fox-trot qualquer. No entanto, ela tinha cantado dois dos maiores sambas de um compositor chamado Noel Rosa, e é a maior intérprete do samba carioca. Chamava-se Aracy de Almeida.

Na imaginação de alguns o nome de Édith Piaf (1915-1963) deve acender umas luzinhas, já o de Aracy (1914-1988)... O texto chama-se, acertadamente, “Santo de casa” e foi publicado em 1956, no Jornal das Letras. Artigos como esse estão na seleção de Sérgio Augusto e vão apresentando o Lúcio Rangel boêmio, elegante, provocador, menos bairrista do que poderiam supor os mais atilados, porque o cronista, aqui, fala de outra de suas paixões, o jazz, e com a mesma ginga e segurança utilizadas em seus artigos sobre o universo do samba.

Mas nem tudo que reluz é alquimia para Rangel. Carmen Miranda fica atravessada no meio da sala, atrapalhando o trânsito, e, nela, o cronista vê menos a pequena notável do que a mulher que foi devorada pela indústria do entretenimento, que a alçou ao estrelado mundial com aquele chapéu tropical de frutas figurativas. Descomunal. E de gosto duvidoso. Sobra para Chico Viola também, nosso Francisco Alves, figura que causava admiração e, mais tarde, desconfiança em Rangel: onde fora parar o vozeirão de outrora? Mesmo assim, ele não se impediu de, por causa da morte do cantor, dedicar-lhe uma das mais belas crônicas do livro, dando conta de seu legado: Alves gravou mais de 1500 discos, numa época em que os LPs traziam apenas uma música de cada lado.



Rangel tinha convicção, como se nota em “Diário de Jazz”: “Aliás, é magnífica a orquestra de [Claude] Luter (1923-2006). Os músicos dão tudo, tocam o melhor que podem, ao contrário dos nossos que tocam lendo gibi.” Já em “Hugues Panassié em Nova York” afirma: “Como crítico, apesar de sua celebridade e de seus inúmeros livros, Panassié (1912-1974) continua um amador. Faz exatamente o que Michel Georges-Michel (1883-1985) fez em relação aos pintores. E não me consta que tenha alguém aprendido pintura nos livros desse outro francês, amigo de Cézanne e de Manet.” Era um facão afiado a abrir a trilha.

É um livro sobre o cancioneiro nacional, com a marca elegante de Rangel. Ressuscita textos publicados em páginas hoje amarelecidas pelo dobrar de década sobre década, e, em sebos on-line, pode ser encontrado pelo mesmo valor de três ou de duas garrafas de cerveja, a depender do ambiente. Samba, jazz e outras notas, o livro, feito água de mangueira num dia de sol, alegra a gente, com aquele arco-íris que se forma quando há crianças por perto.

Nota do Autor:
RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS é editor do site tertuliaonline.com.br


Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 8/5/2018


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