Desdizer: a poética de Antonio Carlos Secchin | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
37883 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Impressões sobre São Paulo
>>> Lobato e os amigos do Brasil
>>> A Promessa da Política, de Hannah Arendt
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Luciano do Valle (1947-2014)
>>> Por que as velhas redações se tornaram insustentáveis on-line
>>> Ação Social
>>> Dá-lhe, Villa!
>>> forças infernais
>>> 20 de Abril #digestivo10anos
Mais Recentes
>>> Fantasma Equilibrista de Tânia Alexandre Martinelli pela Positivo (2009)
>>> A História de Cada Um de Juciara Rodrigues pela Scipione (2010)
>>> Exercícios de Admiração de E. M. Cioran pela Rocco (2011)
>>> A Baleia de Cláudio Feldman pela FTD (2006)
>>> Teoria do Drone de Grégoire Chamayou pela Cosac Naify (2015)
>>> Uma Temporada no Inferno & Iluminações de Arthur Rimbaud pela Francisco Alves (1982)
>>> Viagem a Portugal de José Saramago pela Companhia das Letras (2011)
>>> Para Uma Revolução Democrática da Justiça de Boaventura de Sousa Santos pela Cortez (2011)
>>> Dicionário de termos ambientais de Antonio Leal pela Letras & Magia (2007)
>>> Casa de Praia com Piscina de Herman Koch pela Intrínseca (2015)
>>> Natureza Humana, Justiça vs. Poder de Michel Foucault e Noam Chomsky pela Martins Fontes (2014)
>>> A Arvore dos Anjos de Lucinda Riley pela Arqueiro (2017)
>>> A Herdeira da Morte de Melinda Salisbury pela Fantastica Rocco (2016)
>>> Uma Gentileza por Dia de Orly Wahba pela Benvira (2017)
>>> Eu sou as Escolhas que Faço de Elle Luna pela Sextante (2016)
>>> Coroa Cruel - Série a Rainha Vermelha de Victoria Aveyard pela Seguinte (2016)
>>> Sade em Sodoma de Flávio Braga pela BestSeller (2008)
>>> Curso de Filosofia em Seis Horas e Quinze Minutos de Witold Gombrowicz pela José Olympio (2011)
>>> O pequeno Principe de Antoine de Saint Exupery pela Agir (2009)
>>> Zoloé e Suas Duas Amantes de Marquês de Sade pela Record (1968)
>>> Expressões Diante do Trono de Ministério de Louvor Diante do Trono pela Diante do Trono (2003)
>>> A separação dos amantes - uma fenomenologia da morte de Igor Caruso pela Cortez (1989)
>>> Os Titãs / A Saga da Família Kent (Volume V) de John Jakes pela Record/ RJ.
>>> A Universidade em Ritmo de Barbárie de José Arthur Giannotti pela Brasiliense (1986)
>>> A Mulher Só de Harold Robbins/ (Tradução) Nelson Rodrigues pela Record/ RJ.
>>> Dependência e desenvolvimento na América Latina - ensaio de interpretação sociológica de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto pela Zahar (1970)
>>> Tubarão de Peter Benchley pela Nova Cultural (1987)
>>> O Titã de Fred Mustard Stewart pela Record
>>> O Beijo da Mulher Aranha de Manuel Puig pela Codecri/ RJ. (1981)
>>> A Traição de Rita Hayworth/ Capa Dura de Manuel Puig pela Circulo do Livro/ SP. (1993)
>>> Boquitas Pintadas/ Capa Dura de Manuel Puig pela Circulo do Livro/ SP. (1988)
>>> Kit De Estudo Para Concursos: Só concursos (3 CDs + Folheto) + Guia do Concurseiro + Redação para Concursos de Equipe Mundial Editorial pela DCL - difusão cultural do livro (2016)
>>> Numa Terra Estranha de James Baldwin pela Rio Gráfica (1986)
>>> 1934 de Alberto Moravia pela Rio Gráfica (1986)
>>> Mil Platôs Vol. 1 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela 34 (2011)
>>> A Menina que Roubava Livros de Markus Zusak pela Intrínseca/RJ. (2007)
>>> Mil Platôs Vol. 2 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela 34 (2011)
>>> Mil Platôs Vol. 3 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela 34 (2012)
>>> Ajin - Demi-Human #01 de Gamon Sakurai pela Panini (2016)
>>> Ajin - Demi-Human #02 de Gamon Sakurai pela Panini (2016)
>>> Ajin - Demi-Human #03 de Gamon Sakurai pela Panini (2016)
>>> Incendio de Troia (capa dura couro) de Marion ZimmerBradley pela Circulo do Livro/ SP. (1994)
>>> Ajin - Demi-Human #04 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #05 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #06 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #07 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #08 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> Ajin - Demi-Human #09 de Gamon Sakurai pela Panini (2017)
>>> The Buenos Aires Affair de Manuel Puig pela Nova Cultural (1987)
>>> Ajin - Demi-Human #10 de Gamon Sakurai pela Panini (2018)
COLUNAS

Terça-feira, 7/8/2018
Desdizer: a poética de Antonio Carlos Secchin
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3600 Acessos



A ampla criação poética de Antonio Carlos Secchin, publicada no livro Desdizer, pela editora Topbooks, em 2017, reúne sua produção dos anos de 1969 até 2017. É um bom momento para se acompanhar a trajetória de um poeta através das transformações de temas e formas porque passa sua poesia. Não cabe a esta resenha ter uma visão clara desse percurso, mas apenas chamar a atenção para algumas questões que envolvem sua poesia.

Ao adotar como título do livro a palavra “desdizer”, fica clara a opção por uma definição de poesia que talvez acompanhe o poeta constantemente. A poesia é aquele lugar da linguagem que se permite dizer contrariando o dito, por vezes até pervertendo o léxico. Como disse Barthes, a língua é fascista, pois ela obriga a dizer (e dizer de determinada forma), já a écriture não. Diferente da língua como poder, estrutura e regra, a escritura é a língua do escritor/poeta. O poeta é aquele que pode desdizer o dito.

No poema “Eu estou ali...”, Secchin torna evidente o valor da palavra que dá título ao seu livro, Desdizer, que funciona como uma espécie de porta de entrada ou aviso aos navegantes de sua poesia. Aqui vale a incerteza dentro da certeza, do espelhamento que reflete um outro que não aquele que se posta frente ao espelho: “Estou ali, quem sabe eu seja apenas/ a foto de um garoto que morreu. (...) Eu o chamo de meu filho – e ele é meu pai.” Vale a pena reproduzir o poema, aliás um dos mais belos do livro, para que se entre nesse espelho de incertezas.

ESTOU ALI...

Estou ali, quem sabe eu seja apenas

a foto de um garoto que morreu.

No espaço entre o sorriso e meu sapato

vejo um corpo que deve ser o meu.



Ou talvez seja eu o seu espelho,

e olhar reflete em mim algum passado:

o cheiro das goiabas na fruteira,

o murmúrio das águas no telhado.



No retrato outra imagem se condensa:

percebo que apesar de quase gêmeos

nós dois somos somente a chama inútil



contra a sombra da noite que nos trai.

Das mãos dele recolho o que me resta.

Eu o chamo de meu filho – e ele é meu pai.



No poema, a constituição do eu é levada ao paroxismo: o espelhamento contra a chama da noite reveste este eu de uma imagem vivida na penumbra do ser, solidificada num retrato que mistura reflexão e memórias sensoriais proustianas, como o cheiro das goiabas e o murmúrio das águas no telhado.

No texto “Escutas e escritas”, que finaliza Desdizer, Secchin expõe as desrazões do poeta, seu lugar específico como “não lugar”, enfim, traça a sua própria poética - e isso fica mais claro do que nunca em um dos poemas que ele cita, “Autorretrato”, que reproduzo abaixo. Aqui o poeta é esse gauche na linguagem, aquele que cria na contramão, que vê nascer sua obra nas incertezas da sombra e da neblina: “sabe que nasce do escuro/ a poesia que o ilumina”.



AUTORRETRATO



Um poeta nunca sabe

onde sua voz termina,

se é dele de fato a voz

que no seu nome se assina.

Nem sabe se a vida alheia

é seu pasto de rapina,

ou se o outro é que lhe invade,

numa voragem assassina.

Nenhum poeta conhece

esse motor que maquina

a explosão da coisa escrita

contra a crosta da rotina.

Entender inteiro o poeta

é bem malsinada sina:

quando o supomos em cena,

já vai sumindo na esquina,

entrando na contramão

do que o bom senso lhe ensina.

Por sob a zona de sombra

navega em meio à neblina.

Sabe que nasce do escuro

a poesia que o ilumina.



Embora aponte nas suas reflexões para uma ideia da poesia como “a insuficiência da palavra frente a um real que sempre lhe escapa”, ele sabe que a poesia é esse outro real constituído no avesso do próprio real. No poema “Fogo”, isso fica claro nos versos que cito a seguir: “O que faço, o que desmonto,/ são imagens corroídas,/ ruínas da linguagem,/ vozes avaras e mentidas. (...)”. É neste desmonte de um real constituído pela ruína da linguagem que o poeta respira: “Respiro o espaço/ fraturado pela fala/ e me deponho, inverso,/ no subsolo do discurso.”

O poema contradiz o mundo, sua linguagem estruturada e, ao não deixar por menos, contradiz o próprio poeta, como os versos de “Biografia” registra: “O poema vai nascendo/ sem mão ou mãe que o sustente,/ e perverso me contradiz/ insuportavelmente.”

O desdizer - espécie de estilhaçamento do sentido - que percorre a poesia de Secchin, também pode ser visto no seu espelhamento em outro poeta, como no poema “O espelho de Donizete”, espécie de lamento pelo poeta falecido Donizete Galvão, cuja epígrafe do mesmo toca profundamente Secchin: “Espalho cacos de um espelho./ Minha face por inteiro não verei./ Veja você por mim qualquer dia.” Registro do encontro de uma irmandade poética: “Os cacos da voz dispersos/ no jorro da sua poesia/ me tornam teu irmão urgente (...)”.

E não para por aí essa busca pelo poema que se contraria. Os exemplos poderiam se multiplicar ao vasculharmos todo o livro, mas fico com apenas mais um, que sintetiza muito do que se disse acima sobre a poética de Secchin em Desdizer:



RECEITA DE POEMA



Um poema que desaparecesse

à medida que fosse nascendo,

e que dele nada então restasse

senão o silêncio de estar não sendo.



Que dele apenas ecoasse

o som do vazio mais pleno.

E depois que tudo matasse

morresse do próprio veneno.



Os grandes poetas modernos tiveram consciência de que poesia é linguagem, sua própria e mais importante preocupação, que fez dela um mistério tão fértil e esplêndido. O que Secchin procura nesse lugar da poesia, o “silêncio de estar não sendo”, é a libertação do artista de si próprio, da arte em relação à obra de arte particular e em relação à história, da mente face às limitações perceptivas e intelectuais.

O silêncio de “Receita de Poema” é o próprio desdizer, é a relutância do poeta em se comunicar no registro da linguagem do poder. E aqui aproveito uma citação de Susan Sontag: “O silêncio é o último gesto extraterreno do artista: através do silêncio ele se liberta do cativeiro servil face ao mundo, que aparece como patrão, cliente, consumidor, oponente, árbitro e desvirtuador de sua obra”.

Encontrado o silêncio, a poesia de Secchin é a música que falta a um mundo que perdeu a capacidade de escutar no sentido pleno, um mundo onde falta a palavra poética, porque está atolado de palavras corrompidas.





Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 7/8/2018


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A Copa, o Mundo, é das mulheres de Luís Fernando Amâncio
02. Paris branca de neve de Renato Alessandro dos Santos
03. Um olhar sobre Múcio Teixeira de Celso A. Uequed Pitol
04. Nos escuros dos caminhos noturnos de Elisa Andrade Buzzo
05. As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2018
01. Entrevista com a tradutora Denise Bottmann - 26/6/2018
02. Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos - 16/10/2018
03. A Fera na Selva, filme de Paulo Betti - 22/5/2018
04. Goeldi, o Brasil sombrio - 20/11/2018
05. O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro - 3/4/2018


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




PÉROLA
MAURO RASI
RECORD
(1998)
R$ 19,90
+ frete grátis



MATEMÁTICA FINANCEIRA E ANÁLISE DE INVESTIMENTOS
SILVIO TEIXEIRA COELHO
CIA EDIT NACIONAL
(1979)
R$ 4,99



MEMÓRIAS DO MARECHAL DE CAMPO VISCONDE MONTGOMERY DE ALAMEIN
MONTGOMERY OF ALAMEIN, K. G
IBRASA
(1960)
R$ 14,00



PROVA DE FOGO (2ª ED.)
PEDRO BANDEIRA
ÁTICA
(1997)
R$ 11,90



PIXOTE INFÂNCIA DA MORTE
JOSÉ LOUZEIRO
EDIOURO
(2000)
R$ 4,00



FALCÃO - MULHERES E O TRÁFICO
CELSO ATHAYDE E MV BILL
OBJETIVA
(2007)
R$ 23,00



AMENDOIM A TARTARUGUINHA ENCANTADA
PALMIRA HEINE
GARCIA
(2015)
R$ 16,90



LES POLITIQUES INDUSTRIELLES: LIBÉRALISME OU INTERVENTION DE LÉTA
A. DAVIE
HATIER (PARIS)
(1989)
R$ 19,28



DIÁRIO DE UM BANANA: SEGURANDO VELA
JEFF KINNEY
V&R
(2013)
R$ 14,00



MARKETING PARTICIPATIVO
ROBSON PANIAGO
PLÊIADE
(2010)
R$ 25,00





busca | avançada
37883 visitas/dia
1,3 milhão/mês