Desdizer: a poética de Antonio Carlos Secchin | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
35940 visitas/dia
1,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> CONGRESSO DE ENSINO/APRENDIZAGEM DAS ARTES NA AMÉRICA LATINA: COLONIALISMO E QUESTÕES DE GÊNERO
>>> FERNANDA CABRAL SE APRESENTA NA CAIXA CULTURAL BRASÍLIA
>>> Projeto Entrecruzados lança livro e videodança documental
>>> Inscrições Abertas || Residência Artística no Jardim Botânico de Brasília
>>> Gravação de videoclipe quase provoca prisão do irmão de Gabriel o Pensador
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> No palco da vida, o feitiço do escritor
>>> Um olhar sobre Múcio Teixeira
>>> Algo de sublime numa cabeça pendida entre letras
>>> estar onde eu não estou
>>> Nos escuros dos caminhos noturnos
>>> As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon
>>> T.É.D.I.O. (com um T bem grande pra você)
>>> As palmeiras da Politécnica
>>> Como eu escrevo
>>> Goeldi, o Brasil sombrio
Colunistas
Últimos Posts
>>> Por que ler poesia?
>>> O Livro e o Mercado Editorial
>>> Mon coeur s'ouvre à ta voix
>>> Palestra e lançamento em BH
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
Últimos Posts
>>> É premente reinventar-se
>>> Contraponto
>>> Aparições
>>> Palavra final
>>> Direções da véspera I
>>> Nada de novo no front
>>> A Belém pulp, de Edyr Augusto
>>> Fatos contábeis
>>> Jaula de sombras
>>> Camadas tectônicas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Melhores Podcasts
>>> Aqui sempre alguém morou
>>> A imprensa dos ruivos que usam aparelho
>>> Entrevista a Ademir Pascale
>>> Leitura vertical e leitura horizontal
>>> O Direito à Estupidez
>>> Simone de Beauvoir: da velhice e da morte
>>> Salinger: uma vida
>>> Pessach: entre o social e o existencial
>>> Entrevista com João Moreira Salles
Mais Recentes
>>> Qual e que e. de Lalau e laurabeatriz pela Cortez (2004)
>>> Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros (2 volumes) de Clarival do Prado Valladares pela Conselho Federal de Cultura - MEC (1972)
>>> Veja--1649--o silvio que voce nunca viu. de Editora abril pela Abril (2000)
>>> Veja--2219--voo af 447--panico na cabine. de Editora abril pela Abril (2011)
>>> Revista dos curiosos--3--tira-teima das copas. de Editora europa pela Europa
>>> Tadeu Chiarelli de A Fotografia e o Tempo, Prêmio Porto Seguro 2009 pela Matavelli (2009)
>>> Galileu--7--historia--por que israel nao tem paz. de Editora globo pela Globo (2006)
>>> As Mil e Uma Noites, Contos Árabes III Volume de Anônimo pela Vademecum
>>> Introdução à Antropologia Cultural de Mscha Titiev pela Fundação Calouste Gulbenkian (1969)
>>> Tempo Brasileiro 70 Em Torno de Freud de Joel Birman, Chaim Samuel Katz e outros pela Tempo Brasileiro (1982)
>>> Vivências de Hermann Hesse pela Record
>>> Vidas Paralelas (Rainhas do Romance 52) de Linda Lael Miller pela Harlequin (2011)
>>> Caminhos da Sedução (Harlequin Primeiros Sucessos Livro 53) de Diana Palmer pela Harlequin (2014)
>>> O Gosto Do Pecado - Coleção Harlequin Primeiros Sucessos. Número 37 de Diana Palmer pela Harlequin (2013)
>>> Desafio de uma Vida (Harlequin Primeiros Sucessos Livro 49) de Diana Palmer pela Harlequin (2014)
>>> Amor Eterno - Special 81 de Caroline Anderson pela Harlequin (2013)
>>> Negócios À Parte - Sabrina 1618 de Fern Michaels pela Nova Cultural (2010)
>>> Se houver amanhã - Julia 1354 de Suzanne McMinn pela Nova Cultural (2005)
>>> Um Novo Amor! - Sabrina 1617 de Jerri Corgiat pela Nova Cultural (2004)
>>> Sete anos de feitiço - Coleção Desejo Novo, N° 38 de Heidi Betts pela Harlequin (2006)
>>> Amor fora-da-lei - Série Mavericks - Os Indomáveis 06 de Pat Warren pela Harlequin (2008)
>>> Beijos & Desejos - Coleção Harlequin Desejo Clássicos. Número 5 de Charlene Sands pela Harlequin (2014)
>>> Paixão e Atração - Harlequin Paixão #151 de Lucy Monroe e Trish Morey pela Harlequin (2009)
>>> Uma Noite Inesquecível / Doce Proposta - Harlequin Desejo Livro 227 de Brenda Jackson pela Harlequin (2015)
>>> Paixão Total de Jackie Braun pela Harlequin Books (2009)
>>> A ilha dos deuses de Nora Roberts pela Harper Collins (2016)
>>> Bruxa da noite de Nora Roberts pela Arqueiro (2015)
>>> Um Amor Para Recordar de Nicholas Sparks pela Novo Conceito (2011)
>>> Crepúsculo de Stephenie Meyer pela Intrínseca (2005)
>>> Anjos à mesa de Debbie Macomber pela Novo Conceito (2013)
>>> Nunca diga adeus de Doug Magee pela Arqueiro (2012)
>>> O amor mora ao lado de Debbie Macomber pela Novo Conceito (2013)
>>> Melhor que chocolate: Uma história sobre amor, Paris e teimosia de Laura Florand pela Única (2015)
>>> O lago místico de Kristin Hannah pela Novo Conceito (2014)
>>> O Jeito que me Olha de Bella André pela Novo Conceito (2014)
>>> Não Posso me Apaixonar de Bella André pela Novo Conceito (2013)
>>> Quero ser seu de Bella André pela Novo Conceito (2013)
>>> Um Olhar de Amor de Bella André pela Novo Conceito (2012)
>>> Perto de Você de Bella André pela Novo Conceito (2014)
>>> A arte da ilusão de Nora Roberts pela Harper Collins (2015)
>>> O Presente do Meu Grande Amor. Doze Histórias de Natal de Stephanie Perkins pela Intrínseca (2014)
>>> Para Sempre de Kim e Krickitt Carpenter pela Novo Conceito (2012)
>>> Um Perfeito Cavalheiro de Julia Quinn pela Arqueiro (2014)
>>> Felizes Para Sempre de Nora Roberts pela Arqueiro (2014)
>>> Bem Casados de Nora Roberts pela Arqueiro (2014)
>>> Mar de Rosas de Nora Roberts pela Arqueiro (2014)
>>> Álbum de Casamento de Nora Roberts pela Arqueiro (2013)
>>> Á Primeira Vista de Nicholas Sparks pela Arqueiro (2012)
>>> Pode Beijar a Noiva de Patricia Calbot pela Essência (2012)
>>> Professional PHP4 Programming (Programmer to programmer) Importado de Deepak Thomas pela Wrox (2002)
COLUNAS

Terça-feira, 7/8/2018
Desdizer: a poética de Antonio Carlos Secchin
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3300 Acessos



A ampla criação poética de Antonio Carlos Secchin, publicada no livro Desdizer, pela editora Topbooks, em 2017, reúne sua produção dos anos de 1969 até 2017. É um bom momento para se acompanhar a trajetória de um poeta através das transformações de temas e formas porque passa sua poesia. Não cabe a esta resenha ter uma visão clara desse percurso, mas apenas chamar a atenção para algumas questões que envolvem sua poesia.

Ao adotar como título do livro a palavra “desdizer”, fica clara a opção por uma definição de poesia que talvez acompanhe o poeta constantemente. A poesia é aquele lugar da linguagem que se permite dizer contrariando o dito, por vezes até pervertendo o léxico. Como disse Barthes, a língua é fascista, pois ela obriga a dizer (e dizer de determinada forma), já a écriture não. Diferente da língua como poder, estrutura e regra, a escritura é a língua do escritor/poeta. O poeta é aquele que pode desdizer o dito.

No poema “Eu estou ali...”, Secchin torna evidente o valor da palavra que dá título ao seu livro, Desdizer, que funciona como uma espécie de porta de entrada ou aviso aos navegantes de sua poesia. Aqui vale a incerteza dentro da certeza, do espelhamento que reflete um outro que não aquele que se posta frente ao espelho: “Estou ali, quem sabe eu seja apenas/ a foto de um garoto que morreu. (...) Eu o chamo de meu filho – e ele é meu pai.” Vale a pena reproduzir o poema, aliás um dos mais belos do livro, para que se entre nesse espelho de incertezas.

ESTOU ALI...

Estou ali, quem sabe eu seja apenas

a foto de um garoto que morreu.

No espaço entre o sorriso e meu sapato

vejo um corpo que deve ser o meu.



Ou talvez seja eu o seu espelho,

e olhar reflete em mim algum passado:

o cheiro das goiabas na fruteira,

o murmúrio das águas no telhado.



No retrato outra imagem se condensa:

percebo que apesar de quase gêmeos

nós dois somos somente a chama inútil



contra a sombra da noite que nos trai.

Das mãos dele recolho o que me resta.

Eu o chamo de meu filho – e ele é meu pai.



No poema, a constituição do eu é levada ao paroxismo: o espelhamento contra a chama da noite reveste este eu de uma imagem vivida na penumbra do ser, solidificada num retrato que mistura reflexão e memórias sensoriais proustianas, como o cheiro das goiabas e o murmúrio das águas no telhado.

No texto “Escutas e escritas”, que finaliza Desdizer, Secchin expõe as desrazões do poeta, seu lugar específico como “não lugar”, enfim, traça a sua própria poética - e isso fica mais claro do que nunca em um dos poemas que ele cita, “Autorretrato”, que reproduzo abaixo. Aqui o poeta é esse gauche na linguagem, aquele que cria na contramão, que vê nascer sua obra nas incertezas da sombra e da neblina: “sabe que nasce do escuro/ a poesia que o ilumina”.



AUTORRETRATO



Um poeta nunca sabe

onde sua voz termina,

se é dele de fato a voz

que no seu nome se assina.

Nem sabe se a vida alheia

é seu pasto de rapina,

ou se o outro é que lhe invade,

numa voragem assassina.

Nenhum poeta conhece

esse motor que maquina

a explosão da coisa escrita

contra a crosta da rotina.

Entender inteiro o poeta

é bem malsinada sina:

quando o supomos em cena,

já vai sumindo na esquina,

entrando na contramão

do que o bom senso lhe ensina.

Por sob a zona de sombra

navega em meio à neblina.

Sabe que nasce do escuro

a poesia que o ilumina.



Embora aponte nas suas reflexões para uma ideia da poesia como “a insuficiência da palavra frente a um real que sempre lhe escapa”, ele sabe que a poesia é esse outro real constituído no avesso do próprio real. No poema “Fogo”, isso fica claro nos versos que cito a seguir: “O que faço, o que desmonto,/ são imagens corroídas,/ ruínas da linguagem,/ vozes avaras e mentidas. (...)”. É neste desmonte de um real constituído pela ruína da linguagem que o poeta respira: “Respiro o espaço/ fraturado pela fala/ e me deponho, inverso,/ no subsolo do discurso.”

O poema contradiz o mundo, sua linguagem estruturada e, ao não deixar por menos, contradiz o próprio poeta, como os versos de “Biografia” registra: “O poema vai nascendo/ sem mão ou mãe que o sustente,/ e perverso me contradiz/ insuportavelmente.”

O desdizer - espécie de estilhaçamento do sentido - que percorre a poesia de Secchin, também pode ser visto no seu espelhamento em outro poeta, como no poema “O espelho de Donizete”, espécie de lamento pelo poeta falecido Donizete Galvão, cuja epígrafe do mesmo toca profundamente Secchin: “Espalho cacos de um espelho./ Minha face por inteiro não verei./ Veja você por mim qualquer dia.” Registro do encontro de uma irmandade poética: “Os cacos da voz dispersos/ no jorro da sua poesia/ me tornam teu irmão urgente (...)”.

E não para por aí essa busca pelo poema que se contraria. Os exemplos poderiam se multiplicar ao vasculharmos todo o livro, mas fico com apenas mais um, que sintetiza muito do que se disse acima sobre a poética de Secchin em Desdizer:



RECEITA DE POEMA



Um poema que desaparecesse

à medida que fosse nascendo,

e que dele nada então restasse

senão o silêncio de estar não sendo.



Que dele apenas ecoasse

o som do vazio mais pleno.

E depois que tudo matasse

morresse do próprio veneno.



Os grandes poetas modernos tiveram consciência de que poesia é linguagem, sua própria e mais importante preocupação, que fez dela um mistério tão fértil e esplêndido. O que Secchin procura nesse lugar da poesia, o “silêncio de estar não sendo”, é a libertação do artista de si próprio, da arte em relação à obra de arte particular e em relação à história, da mente face às limitações perceptivas e intelectuais.

O silêncio de “Receita de Poema” é o próprio desdizer, é a relutância do poeta em se comunicar no registro da linguagem do poder. E aqui aproveito uma citação de Susan Sontag: “O silêncio é o último gesto extraterreno do artista: através do silêncio ele se liberta do cativeiro servil face ao mundo, que aparece como patrão, cliente, consumidor, oponente, árbitro e desvirtuador de sua obra”.

Encontrado o silêncio, a poesia de Secchin é a música que falta a um mundo que perdeu a capacidade de escutar no sentido pleno, um mundo onde falta a palavra poética, porque está atolado de palavras corrompidas.





Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 7/8/2018


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Promoarte 2001 de Adriana Baggio


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2018
01. Entrevista com a tradutora Denise Bottmann - 26/6/2018
02. Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos - 16/10/2018
03. Goeldi, o Brasil sombrio - 20/11/2018
04. A Fera na Selva, filme de Paulo Betti - 22/5/2018
05. O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro - 3/4/2018


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




BEBÊ - MANUAL DO PROPRIETÁRIO
LOUIS BORGENICHT E JOE BORGENICHT
GENTE
(2003)
R$ 10,90



PRETTY BABY
WILLIAM HARRISON
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(1977)
R$ 9,00



AGAPINHO - ÁGAPE PARA CRIANÇAS
PADRE MARCELO ROSSI
GLOCO
(2012)
R$ 10,00



EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - UMA VISÃO INTEGRADA
MICHAEL MOORE E GREG KEARSLEY
THOMSON
(2007)
R$ 39,00



SPY DOG 05 - NA COLA DO FOGUETE
ANDREW COPE
FUNDAMENTO
(2018)
R$ 12,00



O MUNDO DE JIA ZHANGKE
JEAN-MICHEL FRODON
COSAC NAIFY
(2014)
R$ 70,00
+ frete grátis



GRUNDISSE
KARL MARX
BOITEMPO
(2011)
R$ 59,00



VIVA COM ESPERANÇA
MARK FINLEY / PETER LANDNESS
AFILIADA
(2015)
R$ 10,00



DICIONÁRIO UNESP DO PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO - NOVA ORTOGRAFIA
FRANCISCO S. BORBA (ORG.)
PIÁ
(2011)
R$ 100,00



FORÇAS & FORMAS: ASPECTOS DA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA (DOS ANOS 70 AOS 90)
WILBERTH CLAYTHON FERREIRA SALGUEIRO
EDUFES
(2002)
R$ 25,00





busca | avançada
35940 visitas/dia
1,0 milhão/mês