Famílias terríveis - um texto talvez indigesto | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
32696 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Plágio
>>> O filho eterno e seus prêmios literários
>>> Entrevista com Antonio Henrique Amaral
>>> Entrevista com Antonio Henrique Amaral
>>> Entrevista com Antonio Henrique Amaral
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> Espírito de porco
>>> Não Aguento Mais a Empiricus
>>> Nine Eleven
Mais Recentes
>>> Viagem ao Centro do Computador de Edith Modesto pela Ática (2000)
>>> A Rosa de Sarajevo de Margaret Mazzantini pela Companhia das Letras (2011)
>>> Um Pedaço de TI de Patricia Bittencourt pela Ledriprint (2017)
>>> Bala XXI - Casos, Crônicas, Piadas e Contos de Augusto José Vieira Neto pela Mandamentos (2000)
>>> Filhos Especiais Para Pessoas Especiais - O Milagre do Dia-a-dia de Neusa Maria pela Paulinas (2010)
>>> Pensées Étranglées de E. M. Cioran pela Gallimard (2014)
>>> Le Voyageur et son Ombre de F. NNietzsche pela Denoel (1979)
>>> Colder than Ice de David Patneaude pela Albert Whitman & Company (2003)
>>> Misericordiae Vultus / O Rosto da Misericórdia de Papa Francisco pela Paulinas (2015)
>>> Manual do Agricultor Brasileiro de Carlos Augusto Taunay pela Companhia das Letras (2001)
>>> O Ingenuo de Voltaire pela Dcl (2013)
>>> O Evangelho Segundo O Espiritismo de Allan Kardec pela Feb (1999)
>>> A Princesa de Babilonia de Voltaire pela Dcl (2013)
>>> A Campanha Abolicionista de Jose do Patrocinio pela Dcl (2013)
>>> Zollinger - Atlas de Cirurgia de E. Christopher Ellison, Robert M. Zollinger pela Guanabara Koogan; (2017)
>>> O Hobbit: A batalha dos cinco exercítos : guia ilustrado de Jude Fisher pela WMF Martins Fontes (2014)
>>> Radiografia da Alma de Pe. Hewaldo Trevisan pela Planeta (2010)
>>> Convênios e outros instrumentos de "Administração Consensual"na Gestão Pública do século XXI - Restrições em Ano Eleitoral de Jessé Torres Pereira Junior e Marinês Restelatto Dotti pela Fórum (2010)
>>> Estalos e Rabiscos - Mãos à Obra Literária de Walter Galvani pela Novaprova (2011)
>>> Distrito Federal Paisagem, População e Poder de Marília Peluso e Washington Candido pela Harbra (2006)
>>> Parto de Mim de Vera Pinheiro pela Pallotti (2005)
>>> Deuses americanos de Neil Gaiman pela Intrínseca (2016)
>>> A Ilha dos Prazeres de André Rangel Rios pela Uapê (1996)
>>> A pequena pianista de Jane Hawking pela Única (2017)
>>> Tradição e Novidade na Ciência da Linguagem de Eugenio Coseriu pela Presença- Usp (1980)
>>> Jovens Sem-Terra - Identidade em movimento de Maria Teresa Castelo Branco pela Ufpr (2003)
>>> Os Segredos das Mulheres Inteligentes de Julia Sokol e Steven Carter pela Sextante (2010)
>>> Lettres et Maximes de Épicure pela Librio (2015)
>>> Um Mundo a Construir de Marta Harnecker pela Expressão Popular (2018)
>>> Da RegenciaÀ Queda de Rozas (Rosas)/ Encadernado de Pandiá Calógeras pela Cia. Ed. Nacional (1940)
>>> Psicoterapia y Relaciones Humanas de Carl Rogers e G. Marian Kinget pela Alfaguarra (1971)
>>> O Vinho no Gerúndio de Júlio Anselmo de Sousa Neto pela Gutenberg (2004)
>>> Michel Foucault, Filosofia e Biopolítica de Guilherme Castelo Branco pela Autêntica (2015)
>>> Vidas Provisórias de Edney Silvestre pela Intrínseca (2013)
>>> Introdução À Arqueologia Brasileira: Etnografia e História de Angyone Costa pela Cia. Ed. Nacional (1938)
>>> A Glória de Euclides da Cunha ; Edição Ilustrada/ Brasiliana de Francisco Venancio Filho pela Cia. Ed. Nacional (1940)
>>> A Glória de Euclides da Cunha ; Edição Ilustrada/ Brasiliana de Francisco Venancio Filho pela Cia. Ed. Nacional (1940)
>>> Viñas, Bodegas & Vinos de Argentina de Austral Spectator pela Austral Spectator (2007)
>>> Alexandre, o Conquistador de Airton de Farias pela Prazer de Ler (2013)
>>> A Fiandeira de Ouro de Sonia Junqueira pela Positivo (2008)
>>> Feudalismo de Airton de Farias pela Prazer de Ler (2013)
>>> Alfabeto de Histórias de Gilles Eduar pela Ática (2008)
>>> As Obsessões de um Executivo Extraordinário: as Quatro Disciplinas... de Patrick Lencioni pela Record/ RJ. (2002)
>>> As Obsessões de um Executivo Extraordinário: as Quatro Disciplinas... de Patrick Lencioni pela Record/ RJ. (2002)
>>> As Obsessões de um Executivo Extraordinário: as Quatro Disciplinas... de Patrick Lencioni pela Record/ RJ. (2002)
>>> Marketing Nas Empresas Brasileiras: Organização de Vendas de Joaquim Carlos da Silva pela Record/ RJ.
>>> Dicionário da Língua Portuguesa de Malthus Oliveira de Queiroz pela Sucesso (2014)
>>> Salgueiro 50 Anos de Glória de Haroldo Costa pela Record (2003)
>>> Mitologia Grega de Pierre Grimal pela L&PM (2009)
>>> Além do Bem e do Mal de F. Nietzsche pela Escala (2005)
COLUNAS

Sexta-feira, 15/3/2019
Famílias terríveis - um texto talvez indigesto
Ana Elisa Ribeiro

+ de 2600 Acessos

Conheço filhos que viajam com os pais por toda a vida. Filhos, netos, genros, noras, periquitos, cães de estimação, todos de mala e cuia, juntos na aventura, por céu ou por terra. Acho digno, como diz a turma hoje. Irmãs que combinam passeios; primos que marcam idas à praia ou ao resort; netos que vão ao cinema com os avós ou tios. Conheço alguns que se abraçam depois de adultos, até os que andam de mãos dadas. Dia desses vi pai e filho andando abraçados no shopping. Meus olhos chegaram a marejar. Em seguida, desejei sorte a eles. É ter cuidado com a homofobia, que grassa por todo lado, agora em sua versão autorizada. E sempre que vejo essas famílias por aí, dando o ar de sua graça, com leveza e um amor infinitamente tolerante, gosto de me lembrar que os tempos mudaram e que nem sempre foi assim.

Faz poucas décadas, pais e filhos mal podiam se falar. Longas narrativas e confissões... nem pensar. Liberdade era confundida com folga. Autoridade e respeito confundidos com medo e subordinação. Fácil, fácil. Pancada era coisa certa, por qualquer motivo que fosse. Minha memória guarda bem os episódios de ver entes queridos apanhando de cinto, sob ameaças que hoje mereceriam um telefonema para a polícia ou o conselho tutelar. Amor não era coisa que se expusesse. E eu só tenho pouco mais de 40 anos. Então as famílias podem ser terríveis, como também sabemos.

Uma experiência ruim na vida – desemprego, divórcio, uma frustração qualquer – e vem logo a vontade do colo materno. Por que não, do paterno também, a depender de quem seja o progenitor e da sorte de tê-lo realmente participativo. Mas enquanto uma parcela das pessoas pode dar um telefonema para a casa dos pais e pedir um socorro, nem que seja de um jeito meio tímido, uma outra parcela não pode fazer isso, não consegue, não vê disponibilidade alguma ou intercompreensão. Enquanto há pais que conseguem ouvir, por mais estapafúrdia que possa ser a narrativa, há outros que vetam qualquer tentativa de aproximação. Não. É não. Ou os filhos estão sempre errados, seja lá a idade que tenham.

Famílias podem ser terríveis. Dos drásticos exemplos de abuso sexual, que também grassam pelo país – e pelo mundo, à sutileza das sabotagens e dos impedimentos de todo tipo. Das mães que se projetam nas filhas às que têm inveja delas, de sua juventude ou de sua coragem, talvez. Do massacre produzido por pais competitivos à insanidade das mães que adoram comparar os filhos aos rebentos dos vizinhos, dos colegas de trabalho ou mesmo dos parentes mais exibicionistas. Pode ser tudo isso terrível para uma pessoa. Quanto estrago uma família pode fazer.

Há pessoas que, claramente, substituem suas famílias de sangue pelos amigos. Alguns, uns poucos, que pintam vida afora e que ficam, com quem se pode ter afinidade nascida no coração mesmo. É raro, mas pode acontecer. Conheço amigos que se parecem mais com irmãos do que os irmãos. E irmãos que se parecem com inimigos. E pais que também parecem jogar no time adversário. Um comentário e pronto: a devastação se faz. As famílias podem não ser, mas podem também ser terríveis. E quando dão de sê-lo, são um massacre, muitas vezes insolúvel. De quanta terapia cada um precisa? E quanto tem a família a ver com isso?

Mesmo que seja ruim, que seja devastador, que a convivência seja nefasta, perder familiares é tristíssimo. Sabem-no bem os que perderam os pais, seja em que circunstância for. Conheço gente que mal conviveu com o pai, por exemplo, que é mais comum, mas sofreu quando da morte dele. As pessoas sofrem com essas perdas próximas ou aparentemente conectadas. Conheço quem tenha perdido a mãe no parto, no parto do próprio nascimento, e que sinta isso como se fora carregar uma cruz, uma culpa. E conheço quem ame profundamente aqueles que nem são seus pais. Famílias podem ser terríveis, mas ainda bem que podem ser adotadas, em qualquer caso.

Se eu fizer algum esforço, e será pouco, poderei me lembrar de episódios devastadores de entre as muitas experiências que tenho com a família. Uma frase lancinante, uma desconfiança, uma afirmação injusta, uma fofoca inoportuna, uma demonstração de raiva, um xingamento doloroso, e isso nem é tanto. Há pessoas que podem lembrar, com profunda dor, episódios de violência muito piores, muito mais contundentes. Cada um com seus processos. E continuo achando: fala-se tanto em família, não é? Ainda mais agora, diante desse discurso moralista francamente hipócrita... mas elas, as famílias, podem ser terríveis.

Qualquer um pode se lembrar de ter conhecido uma família convencional no seio da qual uma mulher sofria impedimentos e muita violência simbólica todos os dias. Ou quem sabe uma viúva chorosa, mas nos olhos da qual era possível divisar certo alívio. E lá nos comentários baixinhos, murmurados, ela dizia à amiga: “agora vou viver minha vida”. Ou uma mulher cujo pai jamais fora de fato seu pai; ou um homem que jamais aprendeu o que é cuidar de um filho e de uma casa. As famílias terríveis tendem a produzir repetições delas mesmas. Arremedos do pior que elas podem ser. Nem sempre e não só apenas as alegrias expostas nos porta-retratos da sala.

Conheço filhos que viajam com os pais e famílias que organizam festas de Natal realmente alegres e sinceras. Não sei avaliar se são raras. Nem poria minhas mãos no fogo por qualquer uma delas. Sejam de que casta forem, há famílias que se integram de fato, com mais afinidade e amor do que outras coisas. Mas é preciso admitir que, sim, as famílias podem ser terríveis e podem produzir dinastias de pessoas terrivelmente afetadas por uma convivência “complicada”, para dizer com a suavidade que a hipocrisia nos ensina.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 15/3/2019


Quem leu este, também leu esse(s):
01. 2 leituras despretensiosas de 2 livros possíveis de Ana Elisa Ribeiro
02. A menos-valia na poesia de André Luiz Pinto de Jardel Dias Cavalcanti
03. Lançamentos de literatura fantástica (1) de Luís Fernando Amâncio
04. estar onde eu não estou de Luís Fernando Amâncio
05. A barata na cozinha de Luís Fernando Amâncio


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2019
01. Treliças bem trançadas - 26/7/2019
02. 2 leituras despretensiosas de 2 livros possíveis - 22/3/2019
03. Crônica em sustenido - 5/7/2019
04. Manual para revisores novatos - 21/6/2019
05. Famílias terríveis - um texto talvez indigesto - 15/3/2019


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




FORÇA PARA VIVER
JAMIE BUCKINGHAM
BETÂNIA
(1987)
R$ 11,00



DICIONARIO OXFORD-ESCOLAR PARA ESTUDIANTES BRAS.
OBRA DA EDITORA
OXFORD DO BRASIL
(2016)
R$ 65,00



ICMS: TEORIA E PRÁTICA
JOSÉ EDUARDO SOARES DE MELO
DIALÉTICA
(2003)
R$ 10,00



HISTÓRIAS ALUCINANTES
MAURO JUDICE
PETIT
(1996)
R$ 4,90



COMO DESARROLLAR SUS PODERES PSIQUICOS
EVELYN M. MONAHAN
EDICOMUNICACÍON
(1990)
R$ 65,00



FISIOLOGIA DA RESPIRAÇÃO
AMEDEO HERLITZKA
FREITAS BASTOS
(1944)
R$ 41,16



A PRIMEIRA VISTA
NICHOLAS SPARKS
ARQUEIRO
(2012)
R$ 15,00



GARATUJAS
GLORINHA MOURÃO SANDOVAL
JOÃO SCORTECCI
(1996)
R$ 50,00



OS BEBÊS E SUAS MÃES - 3799
D. W. WINNICOTT
MARTINS FONTES
(2002)
R$ 30,00



NOS BASTIDORES DA TV
CARLOS HEITOR CONY, ANA LEE
GALERA RECORD
(2012)
R$ 20,00





busca | avançada
32696 visitas/dia
1,3 milhão/mês