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Sexta-feira, 15/3/2019
Famílias terríveis - um texto talvez indigesto
Ana Elisa Ribeiro

+ de 3200 Acessos

Conheço filhos que viajam com os pais por toda a vida. Filhos, netos, genros, noras, periquitos, cães de estimação, todos de mala e cuia, juntos na aventura, por céu ou por terra. Acho digno, como diz a turma hoje. Irmãs que combinam passeios; primos que marcam idas à praia ou ao resort; netos que vão ao cinema com os avós ou tios. Conheço alguns que se abraçam depois de adultos, até os que andam de mãos dadas. Dia desses vi pai e filho andando abraçados no shopping. Meus olhos chegaram a marejar. Em seguida, desejei sorte a eles. É ter cuidado com a homofobia, que grassa por todo lado, agora em sua versão autorizada. E sempre que vejo essas famílias por aí, dando o ar de sua graça, com leveza e um amor infinitamente tolerante, gosto de me lembrar que os tempos mudaram e que nem sempre foi assim.

Faz poucas décadas, pais e filhos mal podiam se falar. Longas narrativas e confissões... nem pensar. Liberdade era confundida com folga. Autoridade e respeito confundidos com medo e subordinação. Fácil, fácil. Pancada era coisa certa, por qualquer motivo que fosse. Minha memória guarda bem os episódios de ver entes queridos apanhando de cinto, sob ameaças que hoje mereceriam um telefonema para a polícia ou o conselho tutelar. Amor não era coisa que se expusesse. E eu só tenho pouco mais de 40 anos. Então as famílias podem ser terríveis, como também sabemos.

Uma experiência ruim na vida – desemprego, divórcio, uma frustração qualquer – e vem logo a vontade do colo materno. Por que não, do paterno também, a depender de quem seja o progenitor e da sorte de tê-lo realmente participativo. Mas enquanto uma parcela das pessoas pode dar um telefonema para a casa dos pais e pedir um socorro, nem que seja de um jeito meio tímido, uma outra parcela não pode fazer isso, não consegue, não vê disponibilidade alguma ou intercompreensão. Enquanto há pais que conseguem ouvir, por mais estapafúrdia que possa ser a narrativa, há outros que vetam qualquer tentativa de aproximação. Não. É não. Ou os filhos estão sempre errados, seja lá a idade que tenham.

Famílias podem ser terríveis. Dos drásticos exemplos de abuso sexual, que também grassam pelo país – e pelo mundo, à sutileza das sabotagens e dos impedimentos de todo tipo. Das mães que se projetam nas filhas às que têm inveja delas, de sua juventude ou de sua coragem, talvez. Do massacre produzido por pais competitivos à insanidade das mães que adoram comparar os filhos aos rebentos dos vizinhos, dos colegas de trabalho ou mesmo dos parentes mais exibicionistas. Pode ser tudo isso terrível para uma pessoa. Quanto estrago uma família pode fazer.

Há pessoas que, claramente, substituem suas famílias de sangue pelos amigos. Alguns, uns poucos, que pintam vida afora e que ficam, com quem se pode ter afinidade nascida no coração mesmo. É raro, mas pode acontecer. Conheço amigos que se parecem mais com irmãos do que os irmãos. E irmãos que se parecem com inimigos. E pais que também parecem jogar no time adversário. Um comentário e pronto: a devastação se faz. As famílias podem não ser, mas podem também ser terríveis. E quando dão de sê-lo, são um massacre, muitas vezes insolúvel. De quanta terapia cada um precisa? E quanto tem a família a ver com isso?

Mesmo que seja ruim, que seja devastador, que a convivência seja nefasta, perder familiares é tristíssimo. Sabem-no bem os que perderam os pais, seja em que circunstância for. Conheço gente que mal conviveu com o pai, por exemplo, que é mais comum, mas sofreu quando da morte dele. As pessoas sofrem com essas perdas próximas ou aparentemente conectadas. Conheço quem tenha perdido a mãe no parto, no parto do próprio nascimento, e que sinta isso como se fora carregar uma cruz, uma culpa. E conheço quem ame profundamente aqueles que nem são seus pais. Famílias podem ser terríveis, mas ainda bem que podem ser adotadas, em qualquer caso.

Se eu fizer algum esforço, e será pouco, poderei me lembrar de episódios devastadores de entre as muitas experiências que tenho com a família. Uma frase lancinante, uma desconfiança, uma afirmação injusta, uma fofoca inoportuna, uma demonstração de raiva, um xingamento doloroso, e isso nem é tanto. Há pessoas que podem lembrar, com profunda dor, episódios de violência muito piores, muito mais contundentes. Cada um com seus processos. E continuo achando: fala-se tanto em família, não é? Ainda mais agora, diante desse discurso moralista francamente hipócrita... mas elas, as famílias, podem ser terríveis.

Qualquer um pode se lembrar de ter conhecido uma família convencional no seio da qual uma mulher sofria impedimentos e muita violência simbólica todos os dias. Ou quem sabe uma viúva chorosa, mas nos olhos da qual era possível divisar certo alívio. E lá nos comentários baixinhos, murmurados, ela dizia à amiga: “agora vou viver minha vida”. Ou uma mulher cujo pai jamais fora de fato seu pai; ou um homem que jamais aprendeu o que é cuidar de um filho e de uma casa. As famílias terríveis tendem a produzir repetições delas mesmas. Arremedos do pior que elas podem ser. Nem sempre e não só apenas as alegrias expostas nos porta-retratos da sala.

Conheço filhos que viajam com os pais e famílias que organizam festas de Natal realmente alegres e sinceras. Não sei avaliar se são raras. Nem poria minhas mãos no fogo por qualquer uma delas. Sejam de que casta forem, há famílias que se integram de fato, com mais afinidade e amor do que outras coisas. Mas é preciso admitir que, sim, as famílias podem ser terríveis e podem produzir dinastias de pessoas terrivelmente afetadas por uma convivência “complicada”, para dizer com a suavidade que a hipocrisia nos ensina.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 15/3/2019


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