Crônica em sustenido | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 5/7/2019
Crônica em sustenido
Ana Elisa Ribeiro

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Nenhum deles está morto. Falar com os verbos no passado é apenas uma questão de: passado. Os tempos são outros e já não convivemos mais. Não na mesma casa, sob o mesmo teto, à mesma mesa de tampo de pedra, sob o olhar duro do mesmo pai. Nos dias que correm, o que fazemos é tentar, sem muito esforço, que haja uma coincidência num dia qualquer, entre as chegadas e saídas de cada um, ou, noutro esquema, combinar detalhadamente o almoço de alguma data festiva.

No pretérito-quase-perfeito, éramos quatro irmãos: dois e duas, intercalados, com diferença de mais ou menos dois anos entre nossas datas de aniversário. Decorre disso que éramos uma farta "escadinha", até rara, já que ter mais três irmãos já não era comum entre os nascidos depois de 1970. Não nos centros urbanos. E tínhamos infância de interior, conforme diziam, imodestamente, uma vez que andávamos de velocípede na rua, desfrutávamos de quintal gramado, temíamos dois cachorros grandes e jogávamos vôlei sob redes armadas bem no meio da via, sem grandes preocupações.

Desses dias de convívio, em que a marcha da trupe era regida pelos horários de escola uniformes, pouco restou. Mas lembro bem dos comentários de minha mãe sobre nossas chegadas em casa, quando passamos a ficar cada vez menos sincronizados, à medida que nos tornávamos adultos.

Meu irmão, o segundo, foi sonoplasta, sempre. Ao enfiar a chave na porta da casa, uma porta enorme, de duas folhas, que rangia muito e propositadamente, ele vinha sempre fazendo algum som ou barulho com a boca, algo que se avizinhasse de um silvo, um pio, uma derrapada, um cavalo-de-pau, um motor de fusca ou de enceradeira, uma trilha de filme de terror, uma voz de desenho animado, uma sirene de polícia ou dos Bombeiros. De modo que minha mãe, lá da cozinha, um lance abaixo, sabia: Sé chegou. E era, sempre era. Mas não prestávamos mais atenção do que ela.

Minha irmã, a terceira em linha, abria a porta com determinado jeito de mexer na chave e fazia algum chamamento, de maneira que era possível, em especial à minha mãe, identificá-la. E dizia, com certeza: Ti chegou.

Eu, a primogênita, mira de todas as trovoadas desde criança, dizem que abria a porta sempre a cantarolar. Minha mãe chegou a descobrir que, na verdade, já adulta e de posse de uma gloriosa CNH, eu chegava cantando o restante da música que estivesse tocando no som do carro. E era. Nem eu sabia. Se fosse um rock, sucedia o barulho das minhas chaves a continuação do rock; se fosse uma bossa, mantinha-a; se fosse um jazz, era ele, afinal, que entrava em casa comigo. E assim minha mãe dizia a quem com ela estivesse: Li chegou.

Mas ao caçula isso não ocorria. E era a tristeza de minha mãe, uma delas. O caçula sempre em silêncio, difícil de identificar, calado feito um pingo d'água prestes. E minha mãe se entristecia e dizia: Bé chegou, mas nem um pio.

Um dia, no entanto, sabe-se lá por quê, o irmão mais novo cantarolou. Emitiu lá não sei quantos trechos de uma canção, nem sei qual. Provavelmente algo distante do meu próprio gosto musical. Mas a mãe percebeu. Ou ele assobiou? Não sei mais. Só sei que era música. E que minha mãe sentiu uma alegria impressionante. Ela se arrepiou, suspeito até. Mas eu vi: ela chorou. Ela ficou tão alegre, mas tão feliz com aquilo, com aquela cantarolada, que ela me disse: o Bé cantou! E ficou nessa alegria por muito tempo ou algum, não sei. E eu fiquei assim impressionada, como quem descobre uma coisa ótima qualquer. Eu, na verdade, nem reparava nisso, em nada disso. Mas uma mãe repara, na maioria das vezes e das mães. E ela ficou aliviadíssima. O caçula cantou ou assobiou, assim, como fazem as pessoas quando estão de bem com a vida ou quando estão absortas e conseguem então cantarolar. Aí eu descobri que para ela, minha mãe, música era coisa de gente feliz. E era. Era o que ela achava e ainda acha.

A senhora que trabalha em minha casa vem varrer e passar roupas enquanto eu trabalho e ensino redação aos filhos dos outros... porque nós, mulheres, estamos sempre a trocar de lugar, nós mesmas, e sempre meio reféns de quem não está direito nessa roda da vida ordinária... Ela canta sem parar. Ela assobia, mas ela cantarola muito mais, com letra e tudo. E nem faz isso mal. Ela tem um gosto musical que não me agrada, mas ela cantarola, ela faz isso ao varrer, ao lavar uma xícara, ao passar uma blusa e um pouco antes de falar qualquer coisa comigo, quando vamos combinar sobre a vida e o tempo. Ela canta. E recentemente ela me disse, muito-muito feliz, que entrou para o coral da igreja que frequenta. E que o pastor ensina a empostar, ensina as notas, ensina a cantar bem e que agora ela veste uma roupa especial para integrantes do coral. E a felicidade dela é inebriante. Minha mãe tinha razão, mas mais ou menos: música deixa a pessoa feliz.

Eu já fui cantora. Fui vocalista de banda de rock e ensaiava todo fim de semana. Passava horas e horas, em especial aos domingos, cantando as mesmas canções, repetindo até ficar bom. Eu chegava lá naquele terraço onde a banda se reunia e o mundo podia estar cinzento. Eu cantava, ensaiava e saía de lá de outro jeito. Fazia diferença sim. Eu parei de cantar porque a vida ordinária me engoliu e eu acho que tudo piorou sensivelmente. Não que os males se espantem com cantorias, isso nem é verdade direito, mas cantar me exigia certa paz.

Não sei mais direito se o Sé continua sonoplasta. Provavelmente, sim. A Ti provavelmente faz menos barulho, embora ela goste de falar, que também costuma espantar alguns males, uns poucos, e provocar outros. O Bé eu nunca mais ouvi cantarolar, mas ele nem mora mais aqui. E eu... continuo, já reparei, emendando a letra das canções que ouvi no carro, enquanto volto pra casa, tentando fugir da estupidez dos engarrafamentos. A vida é muito besta mesmo. Mas como é bom ter de quem gostar. Como é.

LeP



Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 5/7/2019


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