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Segunda-feira, 5/8/2002
Juditha Triumphans, de António Vivaldi
Ricardo de Mattos

+ de 8400 Acessos

Entre os livros do Antigo Testamento encontra-se o de Judith. Com o progresso da arqueologia, da história e da filologia, entre outras ciências que auxiliam o entendimento dos textos sacros, tem-se cada vez mais o Livro de Judith como obra de ficção, escrito como forma de definir o modelo da mulher perfeita para o seu tempo e lugar - " ... trazendo um cilício sobre seus rins, jejuava todos os dias da sua vida ...". "Nabucodonosor", "Arfaxad" e outros nomes parecem ter sido usados simbolicamente, para entendimento dos contemporâneos da obra, entendimento este que acabou por fugir aos leitores e intérpretes posteriores. Desta forma, solidifica-se o carácter religioso em detrimento do histórico, permanecendo a mensagem: "Nos momentos de maior necessidade o Senhor vem em auxílio dos que observam fielmente Sua lei e n'Ele confiam".

Os factos narrados no Livro de Judith passam em Betúlia, cidade da antiga palestina, da tribo de Zabulão. Começa a narrativa com a guerra entre Arfaxad, rei da Média, e Nabucodonosor, da Assíria. Com a vitória e decorrente soberba deste, são enviados mensageiros à diversas províncias, requerendo sua submissão ao rei vitorioso. Evidente que as embaixadas são frustradas, e isto leva Nabucodonosor a enviar suas numerosas e riquíssimas tropas contra aqueles que o desautorizaram, à frente delas colocando seu general Holofernes. Este avança conquistando cidades e recebendo outras em submissão - o que não o impede de destruí-las também.

Com a aproximação do exército assírio, os israelitas alertam-se do perigo que correm, prevendo e temendo a destruição de Jerusalém e consequente cativeiro. Iniciam os preparativos para a defesa, e Holofernes tem notícia deste planejamento da resistência.

Apesar de buscar informações sobre os judeus com Aquior (chefe dos amonitas, povo já rendido), Holofernes faz pouco do alerta sobre eventual protecção divina e marcha. Betúlia é a primeira cidade hebreia a ser cercada. Surge a figura de Ozias, apresentado como o principal entre os anciãos da cidade. Com o cerco, o povo cobra-lhe providências, pois ele quem se negou a negociar a rendição e a paz. Este transe todo é acompanhado por Judith, viúva exemplar e pessoa querida em Betúlia. Ela revolta-se contra Ozias por ter pedido ao povo o prazo de cinco dias, visto que este seria um acto de impiedade contra Deus (estabelecer-lhe prazo para manifestação de Sua misericórdia e, em caso contrário, entregar a cidade). Apesar da crítica, propõe-se a fazer algo em favor da cidade, recebendo para tanto, a autorização de Ozias. Antes de partir, Judith profere uma oração na qual se destacam as seguintes palavras: "Faz, Senhor, que a sua soberba seja cortada com a sua própria espada; seja ele preso ao laço dos seus olhos, fixos sobre mim e fere-o com as doces palavras dos meus lábios" (Jdt. 9,12).

Judith, ao sair de Betúlia, é presa pelos assírios e levada à presença de Holofernes. Perante o general, Judith expõe-lhe como sua função ensinar-lhe a melhor forma de tomar Betúlia, cidade que a teria decepcionado com sua fraqueza. Para eficácia de seu ardil, Judith alia à beleza o convencimento, ao tecer discretas loas a Nabucodonosor (Jdt. 11,5).

No livro, esclarece-se que Judith fica quatro dias entre os assírios. No quarto dia, Holofernes requer sua presença junto a si, pois seria ofensivo ela abandonar intacta o acampamento. Aceitando o convite do general, e chegando aos seus aposentos, nota a paixão como dominante de seu espírito. "Holofernes alegrou-se diante dela e bebeu vinho em demasia, tanto quanto nunca tinha bebido em sua vida" (Jdt. 12,20), e adormece em decorrência de sua embriaguez. Assegurando-se de que sua escrava vigia a entrada da tenda, Judith profere uma breve oração de encorajamento e cumpre a missão a si mesma imposta, decapitando Holofernes. A própria espada do general é utilizada nos dois golpes que separam a cabeça do corpo. Judith sai do acampamento assírio como se fosse fazer suas orações diárias - pois tinha autorização para tanto - e foge para Betúlia, onde é triunfalmente recebida. Os assírios apavoram-se, os judeus ameaçam ir em seu encalço, aqueles fogem e o povo de Israel é vitorioso.

O episódio da decapitação de Holofernes foi não poucas vezes explorado pelas Artes. Não sei de escultura, mas em pintura, vários os mestres que imaginaram Judith ou decapitando Holofernes (Tintoretto, Caravaggio), ou, mais comumente, tendo em mãos a cabeça já desligada do corpo (também Tintoretto, Botticelli, Giorgione, Palma, o Velho, Lucas Cranach, o Velho, e Klimt - embora suas "Judiths" sejam também chamadas "Salomé", talvez com maior razão). É uma cena discretamente narrada no livro vetero-testamentário, mas talvez por sua mistura de sanguinolência e santidade atraiu tanta consideração. Não só de pintores o episódio de Judith prendeu a atenção, mas também de um compositor ao menos, e este foi Antonio Vivaldi (1.678 - 1.741).

Em 1.703, Achmet III sobe ao trono (sultanato) da Turquia, e inicia a reorganização da marinha e do exército turcos, visando à reconquista da Dalmácia e da Moreia (nome dado na Idade Média à península do Peloponeso). Estas províncias foram entregues pelos turcos aos venezianos por força do Tratado de Carlowitz, tratado este que encerrou várias guerras anteriores entre os dois países (a Itália ainda não era unificada), e foi firmado em 1.699 nesta cidade jugoslava, às margens do Danúbio.

Em 1.715, alegando que os venezianos insuflavam os montenegrinos à revolta, os turcos invadem a Moreia. Estando os venezianos em desvantagem tanto em terra quanto em mar, pedem auxílio à Áustria e ao Papa Clemente XI, sendo que este apenas retransmite o apelo aos reis de Espanha, Portugal e França. Dos três soberanos, apenas D. João V, de Portugal, atende. Em 1.716 inicia-se a guerra contra os turcos. Dela, basta informar que já em 1.718, estando a situação indefinida para ambos os lados, a Inglaterra acaba por oferecer-se como medianeira e a Paz é assinada em Passarowitz, no dia 21 de julho de 1.718, conservando Veneza a Dalmácia, mas perdendo a Moreia para os otomanos (para maiores detalhes sobre esta guerra, cf. http://www.edinfor.pt/anc/anchistoria-comb-1717.html).

Entre os preparativos da guerra, além do relacionado às batalhas, criava-se todo um clima, gerava-se toda uma euforia bélica entre civis e militares. Em 1.716, Veneza contratou com Vivaldi a composição de um oratório, o qual resultou em "Juditha Triumphans - Oratório Sacro Militar", com texto em Latim de Casseti, baseado no texto sagrado. Necessário dizer que Judith é a frágil Veneza, que com sua "esquadrinha" vai ao encontro da forte Turquia, representada por Holofernes? O resultado da guerra já se sabe, de forma que sua única utilidade foi ter dado a Vivaldi a oportunidade de compor um dos mais bonitos e impressionantes oratórios da música barroca italiana. Pode estar ao lado de muitos, mas nenhum o supera, seja qual for.

Há que se diferenciar um oratório de uma ópera, pois quem ouvir Juditha Triumphans desavisadamente pode confundir os géneros. Oratório é uma obra musical de origem religiosa, com a presença de um narrador interligando suas partes, e sem qualquer encenação. Já a ópera tem na origem profana a intenção de "emular os dramas gregos clássicos" (leque a ser aberto pelo tempo), tem como pressuposto a encenação, e apesar dos recitativos, o narrador é ausente. Ópera e oratório vinham seguindo caminhos distintos, até os séculos XVII e XVIII, quando experimenta-se o encontro entre eles. Não é com Vivaldi que ópera e oratório se misturam, mas Juditha Triumphans é paradigmático. Neste, os recitativos atenuam-se e as árias são melhor e virtuosisticamente elaboradas na forma da capo. ["Recitativo" é o trecho declamatório de uma ópera ou oratório, de orquestração simplificada, com duas principais funções: ligar as peças principais (árias, coros ...) e informar brevemente sobre o progresso da narrativa. Ária é uma peça musical a ser cantada por uma só voz (com duas deixa de ser ária e passa a ser dueto), acompanhada de orquestra, mesmo que pequena. Peça vocal acompanhada de um ou alguns poucos instrumentos chama-se "Lied". Diz-se que uma ária foi composta na forma da capo quando a peça se divide em três partes e a última é uma versão ornamentada da primeira.]

São personagens de Juditha Triumphans: a própria Judith (contralto), sua serva Abra (mezzo soprano), Holofernes (contralto), seu imediato Vagaus (soprano) e Ozias (contralto). Repare-se que mesmo os papéis masculinos são interpretados por mulheres. O porquê disso encontra-se no facto de Vivaldi, na época, ser mestre de violino no Pio Ospedale della Pietá, internato religioso feminino (análogo ao de Saint Cyr, fundado no século XVII por Madame de Maintenon na França, retractado no filme "As Filhas do Rei"). Inclusive foram suas internas as responsáveis pela primeira execução da obra.

O oratório aqui tratado pode tanto ser ouvido atentando-se à história de Judith, quanto procurando-se elementos que situem o ouvinte, retomem ao clima anterior à guerra turco - veneziana. Nesta última face, repare-se na ária "Si fulgida per te propitia - Se por ti fulge a propícia luz", cantada por Abra após a decapitação de Holofernes.

Ao contrário do texto sacro, o oratório inicia-se já pelo cerco de Betúlia, com o exército assírio armando acampamento nas redondezas. Isto infere-se ao ouvir-se o portentoso coro de abertura:

Arma, caedes, vindictae,
Furores, angustiae, timores
Precedite nos.
Rotate, pugnate,
O bellicae sortes. Mille plagas,
Mille mortes, adducite nos
.
(Armas, carnificina, vingança
Furores, angustias e temores
Precedam-nos.
Movimentai, Lutai
Ó belicosos soldados! Mil pragas
E mil males acompanhem-vos!)

Holofernes monta acampamento e encoraja seus soldados, exaltando-lhes a bravura. O primeiro coro, somado ao primeiro recitativo e à primeira ária, forma coesa apologia épica. Todo um colorido de expressões e sentimentos que parecem esmaecidos no texto sagrado são revitalizados pela música de Vivaldi. No começo do oratório, por exemplo, Holofernes é retractado como um general acostumado á vitória e que vê a tomada de Betúlia como mera questão de tempo, no que percebemos sua perdição. Cheio de si, não cuida para as diversas formas pelas quais o perigo apresenta-se.

Judith é trazida à presença de Holofernes por Vagaus. No texto vetero-testamentário, ela simula trair os betulianos; no oratório, age como embaixadora enviada a negociar a paz. A ária de apresentação de Judith por Vagaus é a minha preferida. As estrofes da soprano são repetidas pelo coro alternadamente (solo - coro - solo - coro), sendo que na segunda parte solo a voz é acompanhada pelo oboé em uníssono.

Holofernes, cheio de si, dá cada vez menos atenção à tomada de Betúlia, e sua autoconfiança apenas facilita a aceitação da missão pacificadora de Judith como verdadeira. Ela argumenta que a clemência tem tanto valor quanto à glória, além do seguro reconhecimento por parte do vencido (tal argumento parece ser extraído do "Tratado Sobre a Clemência", de Sêneca. Sendo o libreto não copiado, mas baseado no livro sagrado, e como neste não aparece tal fala de Judith, não se duvida que realmente sejam dizeres do filósofo latino referido). Holofernes está mais preocupado em ter Judith do que com alguma batalha. Além disso parece tê-la recebido mais como mensageira da rendição do que como embaixadora da paz, pois começa a condicionar o atendimento ao pedido dela (cf. recitativo "Magna, o foemina, petis - Grandes (coisas), o mulher pedes"). A tentativa de sedução é vã. Nem adianta argumentar que os rigores das mulheres judias podem ceder a costumes mais leves, livres. Saliente-se que o libreto do oratório é fiel neste ponto ao texto sagrado, pois não representa Judith como obstinada, apaixonada, e sim, como mulher de sólida formação de carácter, desejosa apenas de desincumbir-se de uma tarefa.

No Livro de Judith, é claro que ela fica quatro dias no acampamento assírio. No oratório, tudo passa-se de um dia para o outro. Dispensada Judith, Vagaus reaparece organizando a ceia de Holofernes. A primeira parte está chegando ao fim: após alguns recitativos, o foco sai do acampamento e volta-se para Betúlia, transição feita por Abra, quando afirma ouvir ao longe o canto das virgens (o coro "Mundi Rector de Caelo micanti - Regente do Mundo, em luminoso Céu" dá bem esta impressão de distância).

Iniciada a Segunda e última parte, é a vez de Ozias falar. Pede aos astros luzes para a última noite de Holofernes. Tem certeza de que sua prece foi escutada e da vitória da enviada. Todo o solene respeito esperado deste ancião transparece na ária "O Sydera, o stellae cum luna - Ó Céus, ó estrelas com a Lua".

Volta-se ao acampamento. Holofernes e Judith ceiam. O crescente entusiasmo daquele significa a proximidade do êxito desta, vantagem explicita no recitativo "Haec in crastinum serva: Ah, nimis - Adie este discurso, serva". Na ária imediata, Holofernes enfim declara-se, e sua "conquista" é comemorada pelo coro, e só assim é aceita a paz para Betúlia:

Tormenta mentis tuae fugiant
A corde, et calicem sumendo
Vivat gloriae Judithae, et belli face
Extincta, amor per te viva in pace
.
(Os tormentos de seu espírito fujam
Do seu coração. E digo elevando o cálice:
"Viva a glória de Judith, e a face da guerra
Extinta, o Amor por ti viva em paz!")

Judith comemora a parcial obtenção de seu intento, pois tem ciência de que a consumação da vitória não advirá de seu casamento com Holofernes, e sim da concretização de seu plano. A paz ela já tem garantida, resta impedir que se volte atrás. Holofernes adormece embriagado, e desta vez a embriaguez é fatal. Tudo transcorre de forma fiel ao texto sagrado, sendo a única diferença o número de golpes da espada (dois no texto sagrado, um no oratório). Toda a cena e sua tensão, desde o sono do general até a fuga das mulheres com sua cabeça, é musicalmente descrita com perfeição por Vivaldi. Em certos trechos, os instrumentos parecem personagens da trama, e até sabemos pelas cordas o momento exacto da decapitação.

Por fim, no último coro do oratório, com o qual Judith é recebida em Betúlia, temos referência expressa à guerra turco - veneziana. Veneza é banhada pelo Mar Adriático, e diz o coro final:

Salve invicta Juditha formosa
Patriae splendor spes nostrae salutis.
Debellato sic barbaro Trace
Triumphatrix sit Maris Regina.
Suma norma tu vere virtutis
Eris semper in mundo gloriosa.
Et placata sic ira divina
Adria vivat et regnet in pace
.

(Salve invicta e formosa Judith
Esplendor da Pátria e esperança da nossa salvação!
Derrotado o bárbaro Trácio
Triunfante seja a Rainha do Mar!
Suprema lei, tua veraz virtude
Seja sempre gloriosa no mundo!
Assim aplacada a ira divina
(A) Adriática viva e reine em paz!)


Ricardo de Mattos
Taubaté, 5/8/2002


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01. Um Cântico para Rimbaud, de Lúcia Bettencourt de Jardel Dias Cavalcanti


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