Um oricterope no meio de humanos | Rafael Lima | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 25/5/2001
Um oricterope no meio de humanos
Rafael Lima

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No final de 1977 não havia grandes novidades nas bancas. A Marvel ainda vivia do impacto de sua estréia, 15 anos antes, mas pouco do que publicava era digno de interesse: Tomb of Dracula, Master of Kung Fu (gêneros que comprovavam o período de baixa dos super heróis) e Howard the Duck. Quem ainda se lembra do filme homônimo de George Lucas em 1986, faça o favor de esquecer. Howard era um perfeito pato de cartum, de bico laranja e temperamento irascível como Donald ou Patolino. Ou talvez nem tanto assim: usava paletó, fumava charutos e tinha sido acidentalmente transportado para a Terra via um portal dimensional. As histórias de Howard eram regidas pela lógica do absurdo, que explica um filme do Monty Phyton ou um episódio dos Simpsons, mas com um incomum subtexto de crítica social. Junto com Howard, o principal precedente para Cerebus seria o surgimento de um novo sistema de distribuição de quadrinhos, que permitia ao lojista comprar grandes lotes com mais desconto, sem o direito de retornar exemplares que não fossem vendidos.

Dave Sim era um canadense de 21 anos, com passagens por várias editoras pequenas e que se julgava bom o suficiente para tocar suas própria criações, e esperto o suficiente para se auto-editar e se auto-publicar. A maior novidade em termos gráficos da Marvel era A Espada Selvagem de Conan, adaptações das histórias de Robert E. Howard para quadrinhos em preto e branco de Barry Windsor Smith. Dave Sim também fora fisgado. Mas ele devia ser esperto mesmo, porque se fosse para fazer mais uma cópia ruim, seria mais fácil tentar desenhar as revistas do Hulk, e não criar Cerebus.

"Facilmente, a pergunta mais comum (e difícil) que me fazem sobre Cerebus é descrever sobre o que essa revista em quadrinhos é. Colocando da maneira mais simples, Cerebus é minha tentativa de documentar uma vida em 26 anos e 300 edições. Cerebus começa em dezembro de 77 e conclui em março de 2004, no número 300, com a morte do personagem título. É a minha tentativa de contornar um dos maiores erros dos quadrinhos: o fato de que os personagens nunca envelhecem ou mudam, e a maior parte das tentativas de mudança podem ser totalizadas como truques ou modificações temporárias introduzidas com o propósito de aumentar as vendas".

Como qualquer fã cujo maior objetivo é se tornar um profissional, Dave Sim tinha conhecimento enciclopédico e um liquidificador mental para juntar as mais improváveis influências em seu estilo. As primeiras histórias de Cerebus eram uma paródia do molho sword & sorcery de Conan (como também tinha acontecido com Howard). O que não seria de se espantar se Cerebus não fosse um "aardvark", ou seja, um oricterope, ou, para ficar mais claro, um mamífero parecido com um tamanduá - visualize um tamanduá bípede, no traço estilizado de, digamos, Walt Disney, com capacete de chifres e espada de gladiador. O que também não seria nada demais - tanto que ninguém deu muita atenção - se Dave Sim não tivesse avisado que a revista só ia durar 300 números.

Um das coisas mais interessantes ao se ler as primeiras histórias de Cerebus é notar que, embora desde o começo Sim fora um artista talentoso (ainda que faltasse alguma lapidação no desenho) e criativo, em algum momento - e o assombroso é que não dá para dizer exatamente quando - ele sorrateiramente abriu aquela portinha com a placa "apenas gênios" em cima e entrou na surdina. Não só seu desenho passa a encontrar soluções visuais muito mais originais, como o texto ganha densidade literária, nas caracterizações e nos diálogos. Surpreendementemente, a história como um todo enriquece em níveis de leitura e cresce em qualidade. E isso tudo antes do número 50.

"Algumas vezes, a história é engraçada. Algumas, ela é triste. Algumas, ela se arrasta mês a mês com muito pouco acontecendo e algumas, ela voa com velocidade de tirar o fôlego com tudo acontecendo de uma vez só. Eu crio a história conscientemente assim, porque esse é o modo como eu vejo a vida, minha vida e a das pessoas que eu conheço. Em algumas histórias, Cerebus é uma figura central e a força motriz por trás dos eventos em curso. Outras vezes, ele é uma figura secundária, observando mais do que participando. Novamente, isso é muito como minha própria vida e as vidas ao meu redor."

Para contracenar com Cerebus, Dave escalou uma inacreditável trupe de coadjuvantes: Red Sophia, uma paródia de Red Sonja, do mesmo Robert E. Howard; Elrod the Albino, uma mistura da aparência física do mago Elric (de Michael Moorcock) com a personalidade do Frangolino (exatamente, aquele frango pernóstico dos desenhos da Warner que sempre apanhava do pintinho de óculos); Lorde Julius e Duque Leonardi, principais figuras políticas, cópias fiéis de Groucho e Zeppo Marx, em carne e tiradas; The Roach, a sátira definitiva dos clichês de super heróis, que evolui de Captain Cockroach (Capitão América), a Moon Roach (Moon Knight), a Wolveroach (Wolverine)... Até o Sandman entrou na piada, como "Swoon".

Essa turma aparecia nas imensas - High Society tem 500 páginas; Church & State, 1200! - aventuras, enquanto Sim ia analisando a maneira como nos envolvemos com líderes religiosos, a estrutura política que elege um candidato, as relações entre economia e Estado. Com tempo e páginas de sobra para preencher, Sim experimenta cada fundamento de uma história em quadrinho (balão, diagramação, timming, caricatura, letreiramento) à exaustão. Para Alan Moore, "Cerebus é o átomo de Hidrogênio das histórias em quadrinhos". Em 1980 sai o primeiro dos phone books, como são conhecidas as edições que encadernam uma história completa. Sim já era um dos grandes expoentes criativos da época, falando de igual para igual com Frank Miller, ora em seu brilhante curso de revitalizar o Demolidor e, cuíca, mudar toda a maneira de se fazer super heróis nas décadas de 80 e 90. Uma pequena, porém, relevante diferença os separava.

Sim desde o começo, quando "teria ganho mais dinheiro fazendo baby-sitting", era seu próprio editor e empresário, e responsável comercial pelo que fazia, enquanto Miller vendia seu trabalho para a Marvel. Consciente desde sempre, ao nível da loucura, com relação aos seus direitos de autor, não aceitaria de outro jeito. Essa preocupação com liberdade criativa, respeito ao leitor, parceria com os lojistas se reflete no seu apelido ("The Godfather of independent comics") e na divisão editorial clássica da revista: a coluna 'Nota do Presidente' na segunda capa, com comentários, em geral jocosos, sobre o mercado editorial; 20 páginas de quadrinhos; 'Cerebus Preview', espaço para os iniciantes mostrarem seu trabalho (onde muita gente boa despontou); e a impagável 'Aardvark Comment', simplesmente a seção de cartas mais tresloucada do mundo. Gente debatendo se deveria ou não raspar os pelos pubianos, coisas do tipo.

"Você pode ficar curioso por que essa coluna é chamada 'Nota do Presidente'. Em parte é uma brincadeira com o fato de que eu sou o presidente da Aardvark-Vanaheim, a editora que eu possuo e que publica o gibi mensal e as reimpressões. Mas também tem muito a ver com minha percepção particular do papel ideal do criador de Hq: ter poder decisório sobre suas criações. Nada é feito com Cerebus como personagem, revista, história ou entidade comercial sem minha aprovação expressa. Eu não tenho um 'chefe' que me diz como as coisas são ou vão ser."

Passada a dureza inicial, Dave começou ganhar exposição, reconhecimento e prêmios, sem nunca largar as 20 páginas, preto e branco impresso em papel vagabundo. Continuou, fominha que nem Schulz, fazendo tudo, até as bordas dos quadrinhos, mesmo porque entregar o trabalho a um estúdio seria contraditório. A única concessão foi a entrada de Gerhard, por volta do número 70, fazendo os fundos, numa precisão de detalhes, texturas, cada ramo de trigo numa plantação, de arrancar os cabelos. Ficou rico, e até hoje ainda não parou para pensar no que vai fazer quando largar a atividade fim, norte e o funil de tudo em sua vida. Curiosamente, é muito difícil encontrar alguém que tenha ouvido falar de Cerebus, e quase impossível, alguém que tenha lido. Não encontrei até hoje quem tenha lido tudo, e olha que ja são quase 10 anos...

"Cerebus é uma história de 6.000 páginas, documentando os altos e baixos da vida de um único personagem (bem como as vidas dos que os rodeiam). Todo mundo, quem quer que seja, se sente único e, mais frequentemente do que nunca na segunda metade do século XX, se sente deslocado onde quer que esteja. Documentar isto, a melhor das minhas habilidades, pareceu (e ainda parece) em uso válido de 26 anos da minha vida. Cerebus não é um herói, um vilão, um anti-herói ou uma pessoa comum. Ele é capaz de ser cada um deles e, mais frequentemente, não é nenhum deles. Ele é Cerebus.

Um oricterope no meio de humanos."






















Rafael Lima
Rio de Janeiro, 25/5/2001


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