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DIGESTIVOS >>> Televisão

Segunda-feira, 23/11/2009
Televisão
Julio Daio Borges




Digestivo nº 442 >>> Bored to Death, por Jonathan Ames
Detetives existem aos montes, principalmente em subliteratura policial, que se diz baseada em Edgar Allan Poe, mas que, na maioria dos casos, não tem nada que remeta ao grande mestre do conto. Jonathan Ames, por sua vez, é um escritor pouco conhecido, em Nova York, com um trabalho não muito significativo na imprensa, que assiste a seu casamento desabar, quando, num surto de desânimo, e solidão, decide colocar um anúncio no Craigslist, o maior site de classificados da internet, dizendo-se detetive particular e cobrando barato. O que era uma brincadeira, ou uma private joke, acaba virando coisa séria, quando a primeira cliente liga e Jonathan tem, como missão, encontrar sua irmã desaparecida. O detetive iniciante, no entanto, é desajeitado, está deprimido, não sabe quase nada da profissão, a não ser por alguns livros, como os de Raymond Chandler, que leu distraidamente. Fazendo contraponto: seu chefe, um egomaníaco, capaz de arrastar Jonathan para uma cabine de banheiro, a fim de fazer-lhe confissões, ou de telefonar-lhe na calada da noite, para resolver um problema de pele, com um tratamento pouco convencional; também seu melhor amigo, um desenhista de quadrinhos igualmente loser, que tenta recuperar a relação com a mulher, enquanto prejudica o relacionamento de Jonathan e censura-o por sua nova aventura como investigador. O detetive improvisado soluciona o primeiro enigma quase que por acaso. Surge, obviamente, outro, e a porção cômica se sobressai, porque são maiores as trapalhadas – mas Jonathan, sem medo do perigo, sente-se renovado, vivendo uma existência que não é a sua, e que acaba de inventar, graças à internet... Esse é, mais ou menos, o “argumento” de Bored to Death, uma série de TV, assinada por Jonathan Ames (é seu nome verdadeiro), e que estreará na HBO brasileira em breve. Na première, à noite num cinema em São Paulo, havia, além de assinantes de TV a cabo, blogueiros que, por ironia, criaram, igualmente, uma personagem na internet, e que, algumas vezes, até vivem dela... A possibilidade de ser “outra coisa” está instalada e, ainda que Bored to Death não seja da maior profundidade, coloca essa discussão em pauta. [1 Comentário(s)]
>>> Bored to Death
 



Digestivo nº 439 >>> O novo show do U2 transmitido pelo YouTube
Quem assistiu a Frost/Nixon – que basicamente trata de um entrevista com um ex-presidente “impedido” dos Estados Unidos –, deve se lembrar do quanto era difícil, há algumas décadas, vender um programa para as grandes redes de televisão. No caso, uma entrevista que se tornou histórica e que foi importante para democracia norte-americana. E quem acompanha a decadência da nossa TV abertae da nossa TV a cabo –, deve imaginar o quanto é difícil “vender” uma atração que não seja de cunho popularesco, visando culturalmente a classe “Z”. Pois mesmo o U2, uma das maiores bandas de rock há algum tempo, deve ter passado por dificuldades parecidas, quando o mainstream televisivo vem ruindo e a indústria fonográfica perdeu seu poder de fogo, com as gravadoras virando pó há alguns anos. Solução: transmitir seu último show pelo YouTube. Portanto: o que inicialmente se colocou como um obstáculo, num segundo momento se converteu numa vantagem e em mais uma vitória... para a internet. Não é à toa que Bono Vox agradece, no encerramento, a Sergey Brin, um dos fundadores do Google – porque, sem essa plataforma, o U2 ficaria refém de excrescências como, no Brasil, o horário da telenovela ou do jogo de futebol. Sem contar que o espetáculo continua disponível, em altíssima qualidade, no mesmo YouTube. Graças à World Wide Web, eventos planetários aparecem em tempo real, com disponibilidade recorde, ecoando indefinidamente, para quem quiser assistir depois... Musicalmente falando, o U2 dividiu o set entre sua fraca produção na década de 2000 – Bono tem preferido fazer política (ou mesmo religião) – e os hits de outras décadas mais inspiradas, com pontos altos como “Where the Streets Have No Name” (1h49), “The Unforgettable Fire”, “Until the End of the World” (1h05) e “Mysterious Ways”. Enfim, como ocorre, muito frequentemente, hoje, a produção estava impecável, com o YouTube a todo o vapor e efeitos de palco impressionantes – apesar de, artisticamente, a banda parecer cansada e seu frontman se mostrar, inclusive, sem fôlego... Resumindo, o U2 pode não estar em seu auge criativo, mas, em termos de iniciativa, marcou época, como quando o Radiohead decidiu oferecer seu último disco a um preço que seus próprios fãs poderiam definir na WWW... [Comente esta Nota]
>>> U2 on YouTube - Live from the Rose Bowl
 



Digestivo nº 429 >>> Programação especial de 40 anos da TV Cultura
Que a televisão brasileira de hoje não vale nada, todo mundo já sabe. A onipresença de telenovelas, reality shows, programas de auditório e de “jornalismo constrangedor” (para todos os gostos), fora bispos eletrônicos, jogou o conteúdo da TV brasileira, que nunca foi muito brilhante, na quase irrelevância. “Quase” porque, por volta das 20 horas, diariamente, na TV Cultura, abre-se uma janela para o passado – e o que se assiste, de tão surpreendente, nem parece televisão. Num dia qualquer, é possível topar com uma História da Telenovela Brasileira (quando ainda era influenciada pelo teatro), de 1979. E eis que surgem Plínio Marcos, o dramaturgo, e Luis Gustavo, o ator, em Beto Rockfeller – produção a apresentar o primeiro anti-herói na telinha do Brasil. Num outro dia, topa-se com Chico Buarque, também em 1979 – um pouco ébrio, é verdade –, a falar sobre sua arte, e a ditadura militar (logicamente), que caminhava para uma “abertura”... E para fazer as perguntas: atrizes como Dina Sfat e diretores como Luís Antônio Martinez Corrêa (questionando incisivamente, e sem “homenagens” constrangedoras). Num terceiro dia, subitamente, Tadeu Jungle comanda a Fábrica do Som. E mostra o Língua de Trapo, quando ainda havia humor inteligente... na televisão. Músicos querendo tocar bem, mesmo sendo jovens – e não querendo só aparecer, sair em capas de revista ou “pegar” modelos de ocasião... Era uma outra sociedade, era uma outra televisão. Ou seria o contrário? O fato é que a TV Cultura presta esse serviço, ao telespectador, levando ao ar, justamente, o melhor de seu acervo, em 40 anos de atuação. Basta sintonizar o canal às oito da noite. (No site, é possível montar a própria grade de programação.) Que tudo isso caia no YouTube é a nossa esperança... para as gerações pós-televisão. [Comente esta Nota]
>>> TV Cultura - 40 anos
 




Digestivo nº 423 >>> Grandes Entrevistas do Milênio
Quando Paulo Francis era vivo, existiam dois programas obrigatórios na TV brasileira. Um era o Manhattan Connection, com ele, nos domingos à noite; outro era o Milênio, em que entrevistava personalidades, mundiais, no GNT. Em vez de jogadores de futebol, celebridades em ascensão e “gente de televisão”, verdadeiros artistas, importantes pensadores e grandes realizadores. É o que comprova a coletânea do Milênio, lançada agora pela Globo, com entrevistas feitas por Francis, Edney Silvestre e William Waack, entre outros. Paulo Francis comparece entrevistando John Updike (que também já se foi) e John Kenneth Galbraith (pena que não incluíram aquela outra com Norman Mailer). E Francis é, igualmente, entrevistado, por Geneton de Moraes, quando lançava seu Trinta anos esta noite. Grandes momentos com Eric Hobsbawm, falando sobre o Brasil de FHC; Oliver Sacks, rogando para nunca mais ser representado em tela grande; Christopher Hitchens, mais afiado do que em seu livro, Deus não é grande; Alain de Botton, sobre filosofia, óbvio; e Allen Ginsberg, em sua última aparição na telinha, antes de morrer. Algumas entrevistas não envelheceram bem, como a de Bill Gates, em que fala com segurança do futuro da Microsoft, nem sonhando com o Google... De qualquer forma, a TV brasileira, muito possivelmente, nunca foi tão profunda. Milênio é um alento para quem está cansado de ver pastores eletrônicos, reality shows e programas de auditório. [Comente esta Nota]
>>> Grandes Entrevistas do Milênio
 




Digestivo nº 420 >>> O Poeta Fingidor, com documentário de Claufe Rodrigues
Fernando Pessoa, quem diria, virou atração turística. É a primeira impressão do documentário de Claufe Rodrigues, exibido pelo GNT e agora encartado, em formato DVD, na nova antologia O Poeta Fingidor, pela editora Globo. Desde o mausoléu, entre reis de Portugal, até a estátua, fotografada à exaustão, passando pela casa, pela biblioteca e pelas relíquias da sobrinha-neta, Fernando Pessoa está exposto à visitação pública, embora, durante toda a vida, tenha fugido da realidade, e se enterrado no “sonho”, como seu heterônimo Bernardo Soares. É, à primeira vista, uma contradição – e nada indica que sua poesia será melhor compreendida por causa desse alvoroço. Enfim, tirando a curiosidade pela celebridade (da qual nem Pessoa escapa), o documentário vale pelas intervenções de José Blanco, Gonçalo Tavares, entre outros entusiastas da obra. A sugestão de que Pessoa teria superado Camões é exagerada, naturalmente. Ainda que o tenha feito, recentemente, em número de traduções. Conforme um depoimento, muito oportuno, aponta: Álvaro de Campos se media com Walt Whitman, Ricardo Reis se media com o latino Horácio e Alberto Caeiro se media com os gregos clássicos – mas nada indica nem sequer a intenção de superá-los... Carlos Felipe Moisés, no prefácio da antologia, justifica a popularidade de Fernando Pessoa por ele haver antecipado o “estilhaçamento do ego do homem moderno”. Não sabemos mais quem somos; somos, portanto, vários – um para cada situação. Daí, os “heterônimos” – e a conclusão, angustiante, de que uma personalidade, só, não basta. “Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me” é um verso de Campos em “Tabacaria”... Não faltam, claro, os clichês no documentário, como o pôr do sol, combinado à leitura de “Mar Português”. Ficam, contudo, as revelações, como a do slogan, maroto, criado para a Coca-Cola: “Primeiro, estranha-se; depois, entranha-se”. Fernando Pessoa pertence mais à nossa época do que à sua própria, mas essa aparente tragédia, de não ter sido quase publicado (e reconhecido) em vida, pode tê-lo salvado. [1 Comentário(s)]
>>> O Poeta Fingidor
 

Julio Daio Borges
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