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COLUNAS
Segunda-feira,
5/2/2001
Dize-me o que comes e eu te direi quem és
Vera Moreira
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Boa notícia: o consumo de produtos orgânicos está crescendo aceleradamente no mundo todo. No Brasil movimentou cerca de US$ 200 milhões no ano passado (10% da receita mercado interno e 90% exportação), segundo a Gazeta Mercantil. As projeções são de crescimento de 30% para 2001 (foi de 10% em 1996 e 24% em 1998). No mercado alemão, os orgânicos correspondem a 2% do PIB e na Inglaterra estima-se que, até 2005, 20% das propriedades rurais deverão cultivar produtos limpos.
Números crescentes na economia, em geral, são indicadores positivos e a torcida óbvia, como neste caso, é de que a curva ascenda, mas... Produtos orgânicos não são saudáveis por obra e graça do destino - em época remota não precisariam de batismo - dependem de solo, água e ar saudáveis, agricultores responsáveis e consumidores conscientes. O problema com solo, água e ar é sério. Já faz muito tempo que a natureza vem sendo depredada sem dó nem piedade e as conseqüências estão aí para o terror de todos.
Nos anos 90, difundiu-se definitivamente a cultura de "usar o solo até esgotá-lo" e a agricultura abusou de todas as químicas disponíveis para transformar o alimento numa espécie de clone mal acabado de si próprio. Dia 22 de janeiro passado, em horário nobre da Rede Globo, a previsão do aquecimento global foi anunciada entre 1,4 e 5,8 ºC. Um dia antes, um documentário do National Geographic Channel, mostrava que apenas 1 ºC de aquecimento das águas com o El Niño, em 98, se encarregou de matar mais de 90% dos corais nos oceanos, e que eles levariam milhões de anos para se recompor, isso se as águas não esquentassem nunca mais... A frágil camada de ozônio, em breve, não vai segurar mais nada e soluções que beiram a ficção científica estão sendo anunciadas para "resolver" o problema.
Apesar do homem já ter exaurido grande parte do planeta, afortunadamente, o caminho de volta começou. O genial Arthur C. Clarke, hoje à bordo da sua ficção científica 2001, Uma Odisséia no Espaço, mora no Sri Lanka e defende que ao se afastar da natureza o homem perde a alma. Tem uma coisa de inconsciente coletivo que funciona mesmo e um movimento de retorno a terra, à natureza, a casa, ao cidadão, que se deflagrou no final na década de 90, deverá ser a tônica deste novo século. O consumo crescente dos orgânicos comprova, e não é só em alimentos. As pessoas estão procurando por produtos naturais em cosméticos, remédios, limpeza, brinquedos, vestuário, etc.
Na comida, só quem já provou uma abobrinha colhida da horta de terra virgem, sempre regada por água da chuva e respirando ar puro, para saber a diferença daquela do supermercado: é simplesmente tudo! O alimento orgânico é mais nutritivo, possui menor quantidade de água em sua composição (aproximadamente 20%) comparado com um produto convencional. Isto significa que os nutrientes estão mais concentrados, assim como o conteúdo de açúcar e de vitaminas. Por isso, o sabor é todo mais acentuado, o que faz o delírio do verdadeiro gourmet.
Mas atenção, precisa de condição de solo, água e ar. Imagine uma lavoura às margens do pobre "rio" Tietê... Assim, não basta apenas ascender a curva do consumo, é preciso saber o que está se consumindo e exigir qualidade. Já foi criada uma regulamentação de inspeção e controle de qualidade de produção e processamento de alimentos orgânicos e certificadores, órgãos como o IBD (Instituto Biodinâmico) e a AAO (Associação dos Produtores Orgânicos), estão atuando. Compre mesmo, exija o selo e faça sua boa ação, em benefício próprio e de toda a humanidade: a cultura dos orgânicos regenera o solo e mantém a vida dele intacta. Salve sua alma!
Vera Moreira
Gramado,
5/2/2001
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