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Terça-feira, 8/2/2005
Os Clássicos e a Educação Sentimental
Fabio Silvestre Cardoso

+ de 4800 Acessos
+ 3 Comentário(s)

A discussão é recorrente. Sempre que o assunto é literatura, muita gente quer saber a respeito da influência das obras clássicas na formação do leitor. A propósito disso, criou-se inclusive o termo “romance de formação” a fim de designar as obras que seriam capitais tendo em vista o desenvolvimento intelectual. E não há como negar: a leitura dos clássicos é, por excelência, uma experiência a ser testada por todos aqueles que querem aprofundar seu conhecimento livresco. Pensando bem, arrisco dizer mais: trata-se de uma experiência tão rica que sua profundidade não se restringe apenas àqueles que buscam conhecimento e/ou erudição. É também uma forma de diversão franqueada a todos aqueles que decidirem (re)descobrir os limites do prazer da leitura.

Para o bem e para o mal, no entanto, o significado da palavra clássico assusta mais do que atrai os leitores de uma maneira geral. Com efeito, há quem não se considere preparado para encarar obras do calibre de Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, ou Crime e Castigo, de Dostoievski, posto que são livros cuja complexidade (quem leu sabe disso) está acima da leitura que fazemos do mundo real – quando digo isso, me refiro aos jornais e às revistas. Ora, é justamente por ser mais complexa que a literatura clássica se mantém como tal, perene. As temáticas, os cenários e o contexto podem até parecer datados (uma situação como a apresentada por Henrik Ibsen em Casa de Bonecas seria impensável hoje, mas, ainda assim, a peça resiste como obra magistral), assim como sua linguagem muitas vezes é rebuscada ou arcaica, porém é seu páthos, o incômodo por ela provocado à primeira vista, que faz com que esses livros permaneçam e se renovem a cada leitura. Por outro lado, há aqueles que, malgrado essas dificuldades, encaram as obras e simplesmente não encontram aquela qualidade que a alta literatura supostamente teria, desestimulando este leitor a encarar outras obras “recomendadas pela crítica”. Nesse caso, frustração não é o sentimento mais adequado, mas sim o prazer. Umas das riquezas da literatura é que sua interpretação nunca é a mesma para todos. Cada um faz sua leitura de acordo com o momento em que vive e com o mundo que o cerca. Como exemplo, posso não sentir a mesma reação que um amigo teve ao ler a Odisséia, porém isso não impede que eu venha a aproveitar o livro num outro momento.

Dois autores abordaram essas idéias de uma forma aprofundada, cada qual à sua maneira. Para Italo Calvino, a leitura dos clássicos é imprescindível porque “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha de dizer”. Ou porque “um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos sobre si, mas continuamente as repele para longe”. Essas são duas das 14 razões que o autor expõe no ensaio Por que ler os clássicos, um livro que pode ser considerado um clássico sobre o assunto. De uma maneira ainda mais sentimental e personalista, o crítico francês Roland Barthes explica que o prazer do texto está justamente na variedade de impressões que um clássico pode provocar no leitor, desde a repulsa até a admiração, porém um sentimento único e inalienável no que se refere à experiência de cada um.

De minha parte, posso afirmar que vivi um pouco de cada uma dessas versões no que se refere às minhas experiências com os clássicos. Houve uma época, logo quando comecei a me interessar por literatura, que os meus únicos interlocutores eram... os livros. Mais precisamente, a Enciclopédia Britânica, cujo último volume é um índice de assuntos com guia de estudos. Desse modo, autores como Kafka, Bergson e Kierkgaard apareceram naturalmente. E estes me levavam a outros autores, proporcionando uma descoberta fantástica a cada leitura. Tudo isso a partir de um verbete. Tempos depois, esse autodidatismo deu lugar para um outro tipo de educação, agora mais sentimental. E foi graças a professores e a amigos que conheci obras tão fascinantes quanto inesquecíveis.

Relatos

À primeira vista, o dia 31 de Dezembro de 2000 seria um réveillon fora do comum. Sem o agito dos outros anos, uma vez que, no dia seguinte, eu iria trabalhar como se fosse outro dia qualquer. Para piorar a situação, eu me recuperava de uma gripe fortíssima. Sozinho em casa, segui assistindo os filmes que havia alugado até que, por acaso, vi na estante o volume do Dom Casmurro. Comecei a ler sem qualquer pretensão, até porque, como muita gente, eu já havia lido esse livro no colegial. Ocorre que, desta vez, havia algo de diferente naquele romance. Alguns anos depois, as passagens se tornaram menos rebuscadas e mais requintadas, fazendo com que eu me reparasse em inúmeros detalhes que eu não havia notado na minha primeira leitura “adolescente”. E então uma leitura descompromissada tornou-se uma das mais significativas de toda uma trajetória intelectual.

Pude compreender como Machado de Assis tratou, num romance que narrava um triângulo amoroso, de questões tão subjetivas quanto fundamentais não somente para a sociedade da época, mas também para o Brasil dos nossos dias. Tomando mais uma vez o exemplo de Ítalo Calvino, atestei como a leitura de um clássico traz interpretações novas a cada instante, como se fosse, de fato, uma nova leitura.

Dois anos mais tarde, após indicações incessantes de um colega, tive a mesma impressão de ler um livro inesquecível, ao encarar, pela primeira vez, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez. Foi no Carnaval de 2003, quando, novamente, fiquei em São Paulo. Folia melhor não houve. Tenho até hoje a sensação de ter sido absorvido pela história e, até hoje, me recordo de passagens inteiras como se acabara de ler o livro há pouco. As frases iniciais, que vez por outra reaparecem ao longo da história, como se iniciassem a obra outra vez, assim como o nome das personagens que se repetem. Detalhes que fazem a diferença e determinam a obra como peça fundamental a saga dos Aureliano Buendia, revisitando os acontecimentos da América Latina de maneira nostálgica, apaixonada e, sobretudo, literária.

Mais do que uma obrigação, a leitura dos clássicos deve ser encarada como uma outra forma de educação. De novo, não se trata apenas de erudição e diletantismo, mas também é o caminho que se tem a trilhar para conhecer mais este verdadeiro “universo” do ser humano. E a base de conhecimento desse novo mundo não é outro senão a literatura.


Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 8/2/2005

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/2/2005
22h42min
O termo "romance de formação" não se refere às obras capitais para o desenvolvimento intelectual -- uma das qualidades atribuídas aos "clássicos". Romance de formação, ou de aprendizagem, é um subgênero do romance -- é como dizer, numa comparação meio boba, mas enfim, romance de aventura, ou de capa e espada... A característica principal desse tipo de romance é ter por tema o desenvolvimento de seu protagonista. A obra que "inaugura" o termo é o "Wilhelm Meister", de Goethe -- daí outro nome para a coisa ser alemão: "Bildungsroman". Outros exemplos conhecidos são "O retrato do artista quando jovem", de Joyce, e, no Brasil, obras como "Encontro marcado", de Fernando Sabino.
[Leia outros Comentários de Francesca ]
25/2/2005
10h58min
Bildung, expressão alemã que se traduz em português por "formação", é um conceito assaz complexo que envolve discussões sobre cultura, política, economia etc. A propósito, Kant, em Reflexões sobre a educação, entende que Bildung, como subdivisão da educação, abrange a instrução e a "conduta". Desse modo, faz sentido o significado atribuído ao termo de "romance de formação", isto é, o de desenvolvimento intelectual.
[Leia outros Comentários de Fabio S. Cardoso]
23/12/2005
05h19min
Dos chamados clássicos da literatura brasileira, eu recomendaria a Trilogia do Tempo e do Vento, do nosso Érico Veríssimo que, por alguns, é erroneamente denominado romance regionalista mas, a meu ver, é de todos os romances históricos brasileiros o que se pode considerar o mais universal pelos problemas ainda atuais que aborda e pelos tipos os mais inesquecíveis que constrói.
[Leia outros Comentários de R. Bogliolo Sirihal]
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