Uma gentileza, por favor | Adriana Carvalho | Digestivo Cultural

busca | avançada
35900 visitas/dia
896 mil/mês
Mais Recentes
>>> Biblioteca Central da UnB recebe exposição artística 'Quem sou Eu, Quem somos nós'
>>> Feambra traz convidados para discutirem o tema "Museus e Sociedade"
>>> A Cultura do Subúrbio é tema do segundo debate #Colabora com Ideias
>>> Núcleo Viver estreia "Coração Supliciado...", no CRDSP
>>> Jikulumessu é a nova novela angolana que a TV Brasil estreia nesta quinta (25)
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O dia que nada prometia
>>> Super-heróis ou vilões?
>>> Seis meses em 1945
>>> Senhor Amadeu
>>> Correio
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> On the Road, 60 anos
>>> Viena expõe obra radical de Egon Schiele
>>> Dilapidare
>>> A imaginação do escritor
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
>>> Ebook gratuito
>>> Poesia para jovens
Últimos Posts
>>> Jano
>>> Diário
>>> Infinitamente infinito
>>> Encantarias da palavra, de Paes Loureiro
>>> Animus mundi
>>> A partilha
>>> Dobraduras e origames
>>> Andamento
>>> Branco (série: Sonetos)
>>> Coroa, só de flores
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A aridez de Beckett
>>> Jornalismo em tempos instáveis
>>> Nine Inch Nails e The Slip
>>> Por um corpo doente, porém, livre
>>> Iraque: plano de guerra
>>> A rocha que voa num labirinto
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> Ser escritor ou estar escritor?
Mais Recentes
>>> São Máximo, o confessor- Centúrias sobre a Caridade e outros escritos espirituais
>>> Teria Deus morrido?
>>> Operação Cavalo 4 De. Troia Nazaré
>>> Photoshop CS para Fotógrafos Digitais
>>> Viagens no Scriptorium
>>> Este Lado do Paraíso
>>> Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos
>>> Quinta Avenida, 5 da Manhã - Audrey Hepburn- Bonequinha de Luxo e o Surgimento da Mulher Moderna
>>> La Consolante
>>> Notre-Dame de Paris
>>> A Arte da Guerra
>>> A Sociologia de Norbert Elias
>>> Bhagavad Gita - Como ele é
>>> Bhagavad Gita - Como ele é
>>> Cântico dos Cânticos
>>> La femme de trente ans
>>> The Notebook
>>> Foe
>>> Os Versos Satânicos
>>> Terra Sonâmbula
>>> Caim
>>> O Evangelho Segundo Jesus Cristo
>>> O Monge e o Executivo - Uma História sobre a Essência da Liderança
>>> O Beijo Infame
>>> Antes da Coisa Toda Começar
>>> Estruturas da Mente - A Teoria das Inteligências Múltiplas
>>> Guia Politicamente Incorreto da América Latina
>>> O Contrato Social
>>> Tess of the D´Urbervilles
>>> O Grande Conflito
>>> Ágape
>>> Dicionário Enciclopédico Ilustrado Veja Larousse - Volume 1
>>> O Cantor De Tango
>>> 1.000 Lugares Para Conhecer Antes De Morrer
>>> Nietzsche para Estressados
>>> Estorvo
>>> Cozinheiros Demais
>>> A Outra Face Da Doença - A Saúde Revelada Por Deus
>>> L'approche par compétences dans l'enseignement des langues
>>> Pensar Por Conta Própria
>>> O Evangelho Da Meninada
>>> Sinal De Contradição
>>> Limites Sem Trauma
>>> Desta Vez Eu Emagreço!
>>> Alucinado Som De Tuba
>>> Cidade Partida
>>> A Dama Do Lago
>>> Meditação Ocidental
>>> O X Da Questão - Trajetória Do Maior Empreendedor Do Brasil
>>> Carne Trêmula
COLUNAS

Quinta-feira, 6/12/2007
Uma gentileza, por favor
Adriana Carvalho

+ de 4200 Acessos
+ 3 Comentário(s)

"Mamãe, gentileza é de comer?", pergunta o pequeno no restaurante. "Não, por que?", questiona a mãe. "É que eu ouvi o papai pedindo uma gentileza, por favor, para o garçom". Se a resposta da mãe fosse "sim, meu filho, é de comer", quais características teria a gentileza que o garçom traria em sua bandeja?

Com certeza não seria industrializada, nem condensada, tampouco pasteurizada ou prensada, não teria conservantes e nem corantes artificiais. A verdadeira gentileza, para ter seus delicados e voláteis princípios ativos intactos, deveria ser servida de modo bem natural. Quase dispensável é dizer que estaria entre os alimentos orgânicos, porque seria um paradoxo uma gentileza recheada de agrotóxicos, fazendo malcriações para o meio ambiente ou para os trabalhadores que a cultivassem.

As contradições da gentileza não estariam na sua forma de cultivo, mas sim no fato de que seria, como tudo que é bom e gostoso, extremamente calórica sem, contudo, entupir artérias ou provocar síndromes metabólicas. A cada mordida, a cada "Hummmm!" de prazer, os sucos nutritivos da gentileza elevariam os níveis dos hormônios e neurotransmissores relacionados com o prazer humano. Seriam, dessa forma, uma ameaça - com todo o cavalheirismo possível - ao império do chocolate, o grande curandeiro atual das carências de amabilidade. Alguns estudos investigariam inclusive sua relação com o aumento da presença de ocitocina, hormônio que dá uma força química aos vínculos entre mães e filhos, e entre casais.

Voltando ao restaurante, a gentileza não se demoraria em chegar à mesa, porque não seria delicado deixar os comensais esperando e com fome. Poderia ser servida à temperatura ambiente ou morna, nunca fria: gentileza fria é mera polidez, reflexo condicionado do ser "educado", e é cheia de falsidade.

O menino pequeno veria o garçom colocar à frente de seu pai um prato com um alimento de formas arredondadas e harmoniosas, como uma pêra em calda, talvez. Pediria para provar um pedaço e veria que ela seria suavemente doce. Não lhe caberia um sabor escandalosamente açucarado, muito menos amargo, ácido ou salgado, embora cada um deles tenha sua função, seu momento e sua graça.

Os médicos receitariam o consumo de gentileza para a manutenção de um estilo saudável de vida: "Você precisa incluir na sua dieta verduras, frutas e legumes. Diminua as frituras. Gentileza pode consumir à vontade". Poderia ser um alimento usado em desenhos infantis para incentivar bons hábitos e costumes. O marinheiro Popeye, se ao invés de espinafre enlatado, comesse umas gentilezas recém-colhidas do pé, não sairia por aí dando sopapos em ninguém. Encontraria umas maneiras menos macho-man de resolver seus problemas com o Brutus.

As empresas que incluíssem gentilezas no cardápio de seus refeitórios seriam de fato socialmente responsáveis com seus funcionários e deixariam de pedir nos processos de seleção candidatos "dispostos a trabalhar sob pressão".

Quem comesse gentileza nunca se esqueceria de dar bom-dia, até-logo ou pedir por favor. Faria isso de forma natural e não mecânica, como acontece com os atendentes moldados pela Blockbuster, McDonald´s ou Starbucks. Esses comem na firma a amabilidade padronizada e esterilizada, que provoca desagradáveis efeitos colaterais. Como o sorriso escancaradamente morto, igual ao que o Jack Nicholson, no papel de Coringa, inimigo do Batman, provocava em suas vítimas com um gás infame. Essa gentileza é sem graça como petit gâteau industrializado. Sem gosto como peixe preparado no microondas.

Gentileza seria ainda um alimento especialmente recomendado para quem sofre de algum dos seguintes problemas: dormir com a bunda descoberta, que provoca mal humor crônico e distúrbios da cortesia; compulsão por mágoas em conserva, ardidas como pequenas cebolas transparentes (cebolas são, sabidamente, vegetais que fazem muita gente chorar); consumo exagerado de verdade de colherinha na infância.

Tenho uma amiga que diz isso: "Fulana comeu muita verdade de colherinha quando era pequena, por isso ficou assim". Diferentemente da gentileza, a verdade de colherinha pode ser imaginada como um alimento com calorias vazias, tais quais os refrigerantes: deixam o indivíduo inchado de si e dão a falsa sensação de alimentação. Poderiam ser vistos também como papinhas de nenê de potinho. Sem sal, sem tempero, sem experimentação dos sabores e texturas originais. Comida morta. Pseudo-sabedoria.

Prática de consumir, a verdade de colherinha isenta o indivíduo de filosofar, pensar, ponderar ou mesmo considerar que pode estar errado. Não exige que se procure outras fontes de conhecimento, que aceite outras opiniões. Não é necessário nem sujar muita panela, nem mesmo lavar louça depois, porque a verdade de colherinha já vem, é claro, com uma colherinha de plástico descartável totalmente grátis.

Está escrito no pote que é Verdade, então não há mais o que discutir. E o rótulo ainda diz que é enriquecida com dez vitaminas e ferro, o que alivia a consciência de quem a come, mesmo que não saiba para que serve tanta vitamina exatamente. Quem se entope de verdade de colherinha sempre critica de maneira pouco cortês o que você ou os seus filhos comem, como se vestem, como se portam. Sempre tem um conselho que é para o seu bem, sempre lança seu olhar recriminador para as criaturas inferiores com quem acredita ser obrigada a conviver.

Novamente de volta à mesa, o menino pequeno aprovaria a novidade que acabara de provar. A mãe ficaria feliz e surpresa de vê-lo experimentando algo novo. O pai não pediria café e deixaria até mesmo para escovar os dentes bem mais tarde, só para preservar um pouco mais na boca o gosto da gentileza.


Adriana Carvalho
São Paulo, 6/12/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Como uma Resenha de 'Como um Romance' de Duanne Ribeiro
02. Oswald de Andrade e o homem cordial de Celso A. Uequed Pitol
03. Preparar Para o Impacto de Marilia Mota Silva
04. O bom e velho formato site de Fabio Gomes
05. Era uma vez um inverno de Elisa Andrade Buzzo


Mais Adriana Carvalho
Mais Acessadas de Adriana Carvalho em 2007
01. Minhas caixas de bombons - 14/6/2007
02. Meta-universo - 16/8/2007
03. Esses romanos são loucos! - 22/3/2007
04. Práticas inconfessáveis de jornalismo - 12/7/2007
05. Uma gentileza, por favor - 6/12/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
9/12/2007
13h02min
Seria mesmo bom se gentileza fosse algo comestível, fácil de obter. Nosso mundo é carente desse ingrediente, que torna as relações mais saborosas, mais apreciáveis. Na sociedade, gentileza, cortesia, é coisa de mulher, sinônimo de alguém bobinho, frágil, que requer cuidados, atenções, ou seja, é frescura. Não é pra macho, que deve ser grosso, ou irônico, sarcástico, pra perceberem que é inteligente, e as mulheres também estão aprendendo isso, pois não querem mais se submeter às grosserias dos homens, agora é tratamento de igual pra igual, em vez de tentar torná-los mais gentis, mais agradáveis, estamos nos igualando a eles em grosserias. Mas, há outro modo de mostrarmos que também somos inteligentes, sem usarmos os recursos da ironia e do sarcasmo? Uma mulher é valorizada, ou sequer escutada, se for apenas gentil, delicada? E por que inteligência tornou-se sinônimo de ironia, sarcasmo? Ser doce, gentil, não é ser inteligente? Em vez de uma, peçamos muitas gentilezas! Ótimo texto!
[Leia outros Comentários de Cristina Sampaio]
15/12/2007
11h24min
Oi Adriana. Que bom ler um texto como este, logo pela manhã. Pensei num link para o Blog Linha. Gosto muito destes assuntos. E muito mais quando escrito da maneira como fez. E num post anterior, escrevi sobre dálogo. Um assunto bastante ignorado pelas pessoas. Então, a partir dele, vamos reconhecer a presença do outro. E vamos ter prazer em distribuir, partilhar, fazer gentilezas, certo?
[Leia outros Comentários de Anna]
24/5/2012
02h42min
Ri muito, talvez especialmente com a "verdade de colherinha". Delícia de texto. Por que vocês não deixam endereço das contas de Twitter das escritoras do blog, quando tiverem, para quem quiser seguir? O da Adriana Baggio consegui achar fuçando, mas tem muuuiitas contas no Twitter com o nome de Adriana Carvalho, e nenhuma informação sobre a escritora neste site... como é que faz? Abs.
[Leia outros Comentários de Blog Ani Dabar]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A CULTURA DIGITAL - FOLHA EXPLICA
ROGÉRIO DA COSTA
PUBLIFOLHA
(2002)
R$ 8,50



HISTÓRIA DAS CRENÇAS E DAS IDEIAS RELIGIOSAS - PARTE I: DA IDADE DA PEDRA AOS MISTÉRIOS DE ELÊUSIS
MIRCEA ELIADE
ZAHAR
(2010)
R$ 35,00



NEW ENGLISH POINT 3 (COM CD)
ELIANA AUN, MARIA CLARA PRETE DE MORAES, NEUZA BILIA SANSANOVICZ
SARAIVA
(2008)
R$ 12,50



DIREITOS DE CIDADANIA - UM LUGAR AO SOL
PAULO MARTÍNEZ
SCIPIONE
(2002)
R$ 2,90



HOLY BIBLE
VÁRIOS AUTORES
ZONDERVAN
(1985)
R$ 50,00



ORGANIZE-SE EM UM MINUTO
DONNA SMALLIN
GENTE
(2016)
R$ 13,00



ASSASSINATO NA CASA DO PASTOR - MISS MARPLE
AGATHA CHRISTIE
NOVA FRONTEIRA
(1980)
R$ 6,00



REVISTA CASA CLAUDIA Nº 12
VÁRIOS
ABRIL
(1997)
R$ 7,00



UM CONTO DE BATMAN: GOTHIC: MINI SÉRIE EM 5 EDIÇÕES
N/D
ABRIL JOVEM
R$ 35,00



ARQUIVO X - 8 - O RAIO DA MORTE
EASTON ROYCE
CARAS
(1998)
R$ 5,00





busca | avançada
35900 visitas/dia
896 mil/mês