Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé | Marilia Mota Silva | Digestivo Cultural

busca | avançada
30533 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda Silibrina apresenta Jazz brasileiro no Teatro Brincante
>>> Festival Ferrock movimenta a Ceilândia
>>> Dragão7 apresenta-se em Bauru, Lencóis e Garça nos 10 Anos do Circuito Cultural Paulista
>>> Show com grupo Tambora faz um mergulho na obra de compositoras de diversos países da América Latina
>>> Pianista revelação, Juliana D'agostini mostra seu talento no Natal Musical do VillaLobos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A poesia afiada de Thais Guimarães
>>> Manchester à beira-mar, um filme para se guardar
>>> Noel Rosa
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Rios inversos
>>> Você pertence a um não lugar
>>> Olho d'água
>>> A música da corrida
>>> Retalhos da vida
>>> Limbo
>>> Transmutações invisíveis
>>> Quem te leu, quem te lê
>>> Bom dia e paz
>>> O que sei do tempo II
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Lula e o Genocídio Negro
>>> Para entender Paulo Coelho
>>> Souza Dantas, Almoço e Chocolate
>>> Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor
>>> Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor
>>> Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor
>>> Proxxima: primeiro dia
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Ária da Rainha da Noite
>>> Let us protect you in the labyrinth
Mais Recentes
>>> Não Morda A Isca: Como Escapar Da Pornografia
>>> Ensino de Ciencias e Cidadania
>>> Temas Transversais e a Estratégia de Projetos
>>> Sagarana
>>> Justiça e Esperança para Hoje
>>> Atlas Geográfico Escolar
>>> Trocando a Negação pela Graça de Deus
>>> Passagem para o Poético
>>> Atlas Geográfico Melhoramentos
>>> Morri para Viver Meu Submundo de Fama, Drogas e Prostituição
>>> Em Manhattan do terceiro Mundo
>>> Dança do fogo estudo sobre o Desejo
>>> Itinerário Espiritual de Santa Tereza de Ávila
>>> O Demônio e a Sra. Prym
>>> Inimigo Rumor 20
>>> Viena, Guia visual da Folha
>>> A Cura
>>> Pensamento Complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável
>>> Dictionnaire D'Analyse du Discours (1ª ed.)
>>> Defenda seus direitos
>>> O momento da sua virada
>>> Uma Viagem Aos Reinos
>>> Trilha para os Jovens
>>> Titan - O mundo de aventuras fantásticas
>>> Sonhos Lúcidos
>>> Raiva. Seu Bem, Seu Mal
>>> O Shadowdale Vale Das Sombras
>>> O perdedor
>>> O livro secreto da maçonaria
>>> O livro da quituteira
>>> O caso Schreber
>>> O Caminho do mago
>>> Lobisomem O - Apocalipse - Rpg
>>> Livro do Mestre - Advanced Dungeons e Dragons
>>> Gurps. Modulo Básico
>>> Francisco de Assis e Francisco de Roma: Uma Nova Primavera na Igreja
>>> Forgotten Realms 3 Guia De Campanha Para Undermontain
>>> Cinema: O Divã e a Tela
>>> Até os Felizes Sofrem
>>> Assessoria de Imprensa
>>> As Virtudes da Casa
>>> Além do bem e do mal
>>> Aleister Crowley - A Biografia de um Mago
>>> A realização espontânea do desejo
>>> Belo Desastre
>>> Nao deixe para depois o que voce pode fazer agora
>>> Ecos Dos Mortos
>>> O pai sessenta minutos
>>> A Noite dos Quatro Furacões
>>> Caixa de Pássaros
COLUNAS

Sexta-feira, 21/10/2011
Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé
Marilia Mota Silva

+ de 8100 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé. Produção caprichada da Editora Leya. Li o livro, instigada pelo título e uma resenha elogiosa.

São ensaios que falam da transitoriedade da vida, do envelhecimento e morte como fim sabido e irrecorrível; da agonia, do beco-sem-saída da condição humana:

Se serei derrotado ao final, pouco importa o que eu faça (pág. 137), lamenta-se o filófofo. E protesta contra a idiotice dos que lutam por um mundo melhor, a impostura da felicidade, dos que fingem ou tentam ser felizes:

Cético, conservador, niilista (pág. 141), o autor reflete sobre o momento em que vivemos: Não acredito em nenhum sistema de valores disponível. Ando como quem anda num deserto, sem direção e sem discernimento porque a paisagem é toda igual, feita da mesma matéria efêmera e sem forma"? . Caminhamos por ruínas.... Habitamos o abismo. :

Conheço um casal que se enquadra entre os idiotas descritos no livro: Os dois vivem com gosto, tentam e são felizes. Já percorreram a Europa de moto, viajaram de Ushuaia à Nova Zelandia, do Alaska ao Porto, ano passado foram de carro do Rio ao Pacífico, Deserto do Atacama, Salares bolivianos e Argentina. Quando ambos ainda estavam nos trinta, perderam um filho para a leucemia, depois de uma longa e sofridíssima batalha. Viram o abismo, viveram a tragédia minuto a minuto, por mais de um ano. Sem metafísica. Outro dia, esse amigo me dizia de seu espanto quando vê pessoas graves, que caminham taciturnas como se levassem nos ombros o peso de nossa miséria. Não as julga idiotas, mas acha graça das pessoas que se levam muito a sério.

Trágico ou tragicômico. Niilismo, existencialismo, epicurismo. São escolhas de cada um e, talvez, simples humores, química do cérebro. Mas não foi esse tema básico que me chamou a atenção no livro. Foi o ensaio que trata da frustração dos homens em relação ao que o autor chama de Mulheres Obsoletas. A velha guerra, a primeira e última da nossa espécie, provavelmente:

O problema é que sentimos que tudo o que queremos (atenção, cuidados, delicadeza, dedicação, 'a janta') é opressão para as mulheres, enquanto tudo que caracteriza o desejo da mulher (ser meio paranóica com tudo, exigir mil coisas, ou mais, para se sentir amada suficientemente, fazer-nos esperar por elas, sermos capazes de saber de antemão o que elas querem que saibamos, darmos presentes todos os dias) é direito da natureza feminina. Este é um nó que, com o tempo, desgasta a relação no cenário cotidiano.

Esse pequeno parágrafo contém tantos absurdos que se passa da estupefação ao riso. A janta! O homem fica indignado se não encontrar a janta na mesa. É direito natural do grande patriarca! E não apenas isso: Exige também mais atenção, cuidados, delicadeza, dedicação!

Quem não quer isso? Eu quero! Não. Para mim bastaria o jantar na mesa, o que pressupõe compras de supermercado, feira, preparação, limpeza - horas de trabalho. E pressupõe que a pessoa seja de toda a confiança. Além de minha gratidão, ela teria, é claro, o pagamento combinado.

Mas tem mais. O resto da frase é um disparate: O que caracteriza o desejo da mulher é ser meio paranóica etc, etc. Como assim? De onde ele tirou isso? Não sei como a revisão deixou passar esse trecho. Não faz sentido!

A mulher descrita acima não está com desejo. Está desesperada. Ela certamente acreditou que seria possível ter um relacionamento amigável, sensual, prazeroso com um homem adulto, maduro. E se deparou com um homem absorvido em si mesmo e que espera receber tudo dela.

Por quê? Porque sim. Porque antigamente era assim. Ele era rei e tinha todos os direitos, desde que sustentasse, mal ou bem, a mulher.

Se ficou alguma dúvida sobre o significado da "janta" (algum leitor de coração sensível talvez preferisse entender o termo como representação de um amor que nutre o ser amado) o autor, logo adiante, esclarece seu pensamento, de maneira inequívoca: quer a mulher na cozinha e na cama. (Pág. 37):

Essa realidade, essa sensação de injustiça cometida contra os homens, produz comportamentos de baixo investimento afetivo porque muitos de nós caímos na fobia. Medo de investir e receber de volta uma petição de direitos que vai do direito a deixar a cozinha vazia até o de deixar a cama desinteressante e o afeto desorientado, mas com a manutenção da exigência de alta renda por parte dos homens. Isso nos estimula à canalhice por razões sociopolíticas: 'hoje em dia a mulher tem não os mesmos direitos, mas mais direitos, logo, de mim, elas nao tirarão nada'. O cinismo, como sempre aparecerá na sua face profunda: ressentimento agressivo.

Petição de direitos!

Pois é! Os senhores de escravos também ficaram desorientados quando viram a cozinha vazia e a lavoura descuidada. Atendia-lhes bem a servidão do outro. Eles também se julgavam com todos os direitos. Sentiram-se traídos, exigiam ser indenizados! Afinal, compraram o escravo! E davam-lhe comida e teto. Escravos ingratos! Como ousavam não amar seus senhores? Mas não teve jeito. Tiveram que aceitar os novos tempos.

Um professor, especialmente de filosofia, não deveria se permitir o uso de estereótipos e sofismas com tanta desenvoltura: Mulher fala demais e se perde em detalhes, os homens são silenciosos e mantêm o foco. Só rindo. As mulheres são paranóicas e mercenárias e merecem homens canalhas porque a "injustiça" "gera comportamento de baixo investimento afetivo.

Baixo investimento acontece quando falta capital. É melhor admitir que se tem pouco ou nenhum capital afetivo e lidar com isso. Pouco a dar, pouco a receber. É coerente com o tema do livro e parte de uma visão mais realista.

Também não me parece lúcido justificar o comportamento canalha do homem, quando contrariado no que julga ser seus direitos. A pessoa é canalha por índole. O normal é ser inseguro, mentiroso, covarde, o autor afirma em outro ponto. É por aí. Encarar a realidade sem atirar a culpa em outros ombros é um primeiro passo para a maturidade.

O ensaio fala ainda da fragilidade feminina, que seria falsa; outra discussão comum nos anos 60. Diante do óbvio, acabou surgindo um consenso: Mulheres e homens são fortes e fracos, cada um de seu jeito. Agora, força física? Outro dia, estava jogando boliche, e minha filha me chamou a atenção para um dado no placar: a velocidade dos lançamentos das mulheres era, em média, um terço da velocidade dos lançamentos dos homens. Éramos quatro casais. Somos mais fracas fisicamente? É óbvio! Os hormônios exigem muito de nós em todas as fases da vida? Sim. A maternidade é uma carga tremenda que se prolonga por muitos anos e, muitas vezes, toda sua vida? Sim, de novo. Essas são razões para choramingar se a mulher não se submete ao grande patriarca? É razão para exigir mais cuidados, sexo interessante, mais dedicação, mais atenção e a janta?

E aqui a conclusão do ensaio: Talvez o resumo da ópera seja: o homem precisa aprender a dizer 'não', assim como a mulher aprendeu. Ela diz 'não' para a cozinha, para a maternidade, para a virgindade, para a fidelidade, sob as palmas da cultura pós-moderna. Como uma liberta das amarras do passado, ela caminha solta em meio aos escombros de seus velhos papéis sociais. O homem precisa aprender a dizer 'não' para a mulher que se oferece sexualmente, para a suspeita sobre ele lançada de que não seja capaz de sustentá-la (em todos os sentidos da palavra).

Esse texto, se tivesse sido escrito em meados do século passado, revelaria uma mente blindada pela absorção em si mesmo, limitada pelos conceitos e pressões de seu tempo e cultura, confuso, perdido, com pouca sensibilidade. Hoje, a tudo isso soma-se o anacronismo. Os homens dizem "sim" a toda mulher que se oferece sexualmente? Só se ainda estiverem na puberdade. E não é isso que os homens teriam que aprender! Não é nada disso, não é esse seu trunfo (a não ser para garotos-de- programa). Esse não é um jogo de dominação, de poder, de patrão e empregada.

Também não é verdade que a "liberta" recuse as amarras do passado e seus velhos papéis sociais, inclusive o de mães. As mulheres ainda dizem sim à maternidade. Crianças por toda a parte dão prova disso. Quando disserem "não" a humanidade acaba.

Se um homem procura uma mulher para formar uma família, na expectativa de estar adquirindo seus serviços sexuais e domésticos, além de sua dedicação, delicadeza, cuidados e carinho, melhor que pense antes no que tem a oferecer a ela. A moeda de troca é a mesma. Se não, só lhe resta mesmo o Ressentimento Agressivo contra as mulheres, de que sofre o autor. E nada mais corrosivo do que envelhecer com essa amargura: faz mal a si mesmo e a todos em volta, especialmente quando se trata de um filósofo e professor. Para ir além






Marilia Mota Silva
Rio de Janeiro, 21/10/2011


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Nós que aqui estamos pela ópera esperamos de Renato Alessandro dos Santos
02. Essas moças de mil bocas de Elisa Andrade Buzzo
03. Thoreau, Mariátegui e a experiência americana de Celso A. Uequed Pitol
04. O quanto podemos compreender de Guilherme Carvalhal
05. Eu blogo, tu blogas? de Fabio Gomes


Mais Marilia Mota Silva
Mais Acessadas de Marilia Mota Silva
01. Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé - 21/10/2011
02. Proposta Decente? - 20/8/2014
03. Defensores da Amazônia - 19/2/2014
04. Nem Aos Domingos - 2/5/2012
05. Nuvem Negra* - 8/2/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
22/10/2011
17h50min
Maravilhosa essa critica! No ponto. Sem tirar nem por. Pura filosofia de real pensadora.
[Leia outros Comentários de Aline Brito]
7/11/2011
13h14min
Excelente resenha. O argumento dos senhores da escravaria parte ao meio a coluna do Pondé e expõe toda a sua (dele) cegueira, parcialidade, irresponsabilidade e leniência intelectual consigo mesmo.
[Leia outros Comentários de Jair F. dos Santos]
22/12/2011
07h37min
Muito bom. Pondé me atraiu, às vezes, pela coragem (aparente) de alguns de seus argumentos, até que percebi um ranço pessimista/comodista em seus artigos que começou a me afastar de sua leitura. A articulista aqui acertou em todos os alvos - esse machismo revestido de auto-indulgência filosófica parece ranço do pior Schopenhauer e prega o ressentimento, lamentando a servidão feminina perdida. Excelente.
[Leia outros Comentários de francisco lopes]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




ENEIDA - VIRGÍLIO (LITERATURA LATINA)
VIRGÍLIO
ABRIL CULTURAL
(1983)
R$ 18,00



MULHER E LITERATURA
LÚCIA HELENA VIANNA (ORG.)
UFF- ABRALIC
(1992)
R$ 23,90



MIMO - EL ARTE DEL SILENCIO
PETER ROBERTS
TTARTTALO
(1990)
R$ 55,00



REVISTA BRASILEIRA DE ALERGIA E IMUNOPATOLOGIA VOL 18 Nº 2 MARÇ/ABRIL
NÃO INFORMADO
S.B.A.I
(1995)
R$ 3,00



ALÉM DO VÉU E FORA DO ARRAIAL
DONG YU LAN
ÁRVORE DA VIDA
(1999)
R$ 6,10



SIMÃO PEDRO E OS PRIMEIROS CRISTÃOS
LÉA CARUSO - ESPÍRITO JOSÉ
IDE
(2015)
R$ 29,15



RESPOSTA A JÓ
C.G. JUNG
VOZES
(1986)
R$ 32,00



LÁGRIMAS DE COMPAIXÃO
PIERRE WEIL
PENSAMENTO
(2005)
R$ 10,80



OS HOMENS E A HERANÇA NO MEDITERRÂNEO
BRAUDEL
MARTINS FONTES
(1988)
R$ 30,00



REVISTA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA - 1 (CADERNO ESPECIAL)
VÁRIOS
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(1967)
R$ 4,00





busca | avançada
30533 visitas/dia
1,1 milhão/mês