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Sexta-feira, 3/2/2012
Alice e a História do Cinema
Marcelo Spalding

+ de 3200 Acessos

Uma das minhas crônicas mais acessadas no ano passado foi a que recuperou a história das primeiras edições de Alice no País das Maravilhas (leia aqui). Hoje, dando sequência à publicação dos resultados de minha pesquisa de doutorado sobre o livro, escrevo sobre a história de Alice no cinema. E é uma história incrível, que se confunde com a própria história do cinema.

A primeira adaptação data do longínquo ano de 1903, apenas oito anos depois da primeira exibição pública do cinematógrafo pelos Irmãos Lumière. Trata-se de um curta com pouco menos de nove minutos, naturalmente em preto e branco e sem som. O filme, dirigido por Cecil M. Hepworth e Percy Stow, apoia-se em texto exibidos antes das cenas, funcionando as cenas, na verdade, como ilustrações.

A primeira cena mostra Alice (interpretada por May Clark) deitada e um coelho, nitidamente uma pessoa fantasiada, passando pela tela e entrando num buraco, onde Alice cai. A seguir os dois atravessam por uma espécie de túnel horizontal (que em nada lembra a verticalidade da queda descrita por Carroll), e chegam a uma pequena porta, menor que o coelho e que Alice. Como no livro, ela pega a chave, percebe que não passará pela porta, bebe um líquido e diminui. É surpreendente para um filme do começo do século XX, diga-se de passagem, o efeito de Alice diminuindo.

Na cena seguinte, muito rápida, talvez porque o microfilme original esteja danificado, Alice encontra um cachorro enorme. Adiante, temos uma cena muito interessante, de Alice dentro da casinha com a mão para fora. Esta cena procura reproduzir a ilustração original de Tenniel, numa tentativa de adaptação "fiel" claramente ingênua, de uma época em que o cinema ainda estava descobrindo sua linguagem e sua estética.

A cena seguinte reproduz o encontro com a Duquesa, com direito à cozinheira que joga pratos nas duas e ao bebê, que é retirado por Alice da casa. Já no pátio, o bebê transforma-se em porco diante dos olhos do espectador (graças aos já utilizados efeitos de edição, aqui com recortes literais nos negativos). A seguir, Alice encontra o Gato de Cheshire num esforço de efeito especial admirável, pois o filme de um gato é inserido em meio ao filme original, entre as árvores. Evidentemente não temos aqui a doçura do gato de Walt Disney, nem mesmo o sorriso do gato de Tenniel, mas a simples menção ao Gato demonstra a importância da cena para a obra e a tentativa de reproduzir o livro da forma mais "fiel" possível.

A cena seguinte é de Alice sentada com a Lebre e o Chapeleiro, no famoso Chá Maluco. Eles movimentam-se, parecem discutir, até que a menina deixa a cena. Um texto informa ao espectador que Alice encontrará as cartas da Rainha, e na cena seguinte surge uma fileira de crianças fantasiadas de cartas de baralho passando por Alice até ela encontrar o Rei e a Rainha. Alice discute com a Rainha, que gesticula para um garoto com um machado (referência ao "cortem a cabeça dela!") e a seguir as crianças vestidas de baralho correm atrás de Alice, numa alusão à ilustração final de Tenniel, quando as cartas voam em direção à protagonista.

Ainda antes da célebre versão em desenho animado de Walt Disney, há pelo menos duas versões dignas de nota. A primeira é um longa (em torno de uma hora de duração) digirido por W.W. Young ainda em 1915. Seria interessante, a propósito, um estudo comparando a versão de 1903 com esta, quando os conceitos de atuação, roteiro, edição e cenário estão muito mais maduros. A própria adaptação, aqui, não se limita ao texto "original" de Carroll, incluindo cenas como a de Alice conversando com a mãe antes de ir para o pátio com a irmã.

Tal evolução fica ainda mais evidente em 1933, numa nova versão de Alice, esta com som, dirigida por Norman Z. McLeod. Aqui cenários e figurinos são mais elaborados, bem como a presença da trilha sonora e de canções dá uma aparência mais "moderna", digamos assim, para o filme.

É interessante notar, ainda, que na obra de McLeod há uma mescla de filme com animação, como a desenvolvida para representar a história da Morsa e do Carpinteiro, contada por Tweedledum e Tweedledee. Vale ressaltar, aliás, que essa história, bem como a presença de Tweedledum e Tweedledee, remetem ao segundo livro, Através do espelho, mas neste longa já há uma junção das duas obras em uma só, com o título de Alice no país das maravilhas.

Esse filme é anterior ao primeiro longa de animação dos estúdios Disney, Branca de Neve, rodado apenas em 1937, mas já com cores, e anterior ao clássico longa Mágico de Oz, de 1939.

Assim, quando os estúdios de Walt Disney lançam sua versão de Alice quase vinte anos depois, em 1951, estão percorrendo uma trilha que já havia sido aberta por outros cineastas e produtores, especialmente nos anos 30. De qualquer forma, é justo afirmar que a animação dirigida por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske (foi o décimo-terceiro longa-metragem de animação dos estúdios Disney) tornou-se por si só um clássico, assim como o romance de Carroll, sendo assistida até hoje com poucos ajustes de cor e som.

Na versão da Disney, as personagens ganham muitas cores, rostos amigáveis, e Alice não tem a impassividade da Alice de Tenniell, sendo sempre muito expressiva e de olhos muito vivos.

Quanto ao enredo, o filme preserva as cenas nucleares de Alice no País das Maravilhas, mesclando algumas cenas de Alice Através do Espelho, como a conversa com as flores e o encontro com os irmãos Tweedledum e Tweedledee. Há, também, muitas músicas entre as ações, uma característica do cinema à época e do gênero até hoje, mescla de animação com musical.

A partir daí, diversas outras versões de Alice no País das Maravilhas foram sendo feitas ao redor do mundo, até pelo desenvolvimento do cinema comercial e da televisão, já que muitos filmes foram produzidos especialmente para TV. Podemos citar como exemplo uma versão inglesa, de 1972, dirigida por William Sterling, uma argentina, de 1976, dirigida por Eduardo Plá, uma adaptação espanhola chamada Alicia en la España de las maravillas, de 1979, dirigida por Jorge Feliu, e uma versão japonesa de 1983, dirigida por Shigeo Koshi. Além, é claro, de versões hollywoodianas, como uma dirigida por Harry Harris em 1985 e outra mais recente, de Nick Willing, de 1999. Esta, inclusive, conta com atores famosos como Whoopi Goldberg, Ben Kingsley e Christopher Lloyd.

No começo do novo século, porém, mais uma vez a história do cinema encontra-se com Alice a partir da versão de Alice no País das Maravilhas dirigida por Tim Burton. O filme, que começou a ser rodado em 2008, foi lançado no início de 2010 aproveitando as novas tecnologias de exibição em terceira dimensão. Com isso, Alice tornou-se, ao lado de Avatar, um ícone para a indústria cinematográfica, que desde então lança periodicamente filmes com essa tecnologia nas salas do mundo todo.

O ponto alto do filme, segundo os críticos, é a criação do cenário, dos figurinos e dos efeitos especiais, marcas de Burton (diretor de, por exemplo, Edwards Mãos de Tesoura, Batman Returns e Peixe Grande). Não por acaso a obra venceu os Oscar de Direção de Arte e Figurino, além de concorrer em Efeitos Especiais.

Percebe-se, nesse breve apanhado, o quanto o cinema evolui à medida que seus diretores criaram uma estética própria para eles, diversa da técnica narrativa do livro impresso, por exemplo. O primeiro curta, afora todas as limitações técnicas, tenta reproduzir na tela o que o leitor leu no livro, algo muito diferente do que a própria Disney fez em sua animação e, claro, do que Burton cria nessa mais recente versão. Adaptar, hoje, é utilizar a obra primeira apenas como referência, como universo simbólico e ficcional, criando a partir daí novas narrativas, novas representações, novos efeitos para novos leitores, no caso convertidos em espectadores.



Marcelo Spalding
Porto Alegre, 3/2/2012


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