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COLUNAS

Terça-feira, 3/7/2012
Memória externalizada
Wellington Machado

+ de 3600 Acessos

Vou propor um desafio ao leitor. Você seria capaz de memorizar 99 retratos, identificados por nome e sobrenome, num prazo de 15 minutos? Que tal decorar um poema inédito de 50 versos no mesmo tempo? Talvez você prefira guardar uma lista de 300 palavras aleatórias, também nesse curto espaço de tempo. Caso o desafio seja uma barbada, que tal decorar uma página com mil dígitos (25 linhas de 40 números) ou fixar a ordem de cartas de um baralho em cinco minutos? Sim, leitor, isso é possível.

As façanhas listadas acima fazem parte de um campeonato mundial de memorização, onde verdadeiros "atletas da memória" se digladiam anualmente em busca do prestigiado título. As modalidades da competição e as artimanhas dos competidores para memorizar tudo estão descritas no livro A arte e a ciência de memorizar tudo, do escritor e jornalista americano Joshua Foer (irmão do também escritor Jonathan Safran Foer). Durante uma viagem pelo interior dos Estados Unidos, Joshua se deparou com uma das etapas da competição e resolveu fazer uma matéria sobre o evento. Mas ele se envolveu tanto com os competidores que decidiu treinar para também competir no ano seguinte.

O livro é uma investigação - e aprendizado - do autor sobre as técnicas usadas pelos "atletas" para obterem melhor desempenho nos torneios. O que se pode concluir, genericamente, é que cada competidor desenvolve sua técnica. Mas a maioria utiliza a associação - de letras, números, cartas de baralho - com criações exóticas de pessoas, imaginadas num ambiente comumente chamado de "palácio da memória". A técnica consiste em imaginar celebridades praticando ações inusitadas que remetem ao objeto a ser memorizado, dispostas sequencialmente em um ambiente fictício (uma casa, um apartamento ou mesmo um enorme palácio). Seria como se, para memorizar as palavras "tesoura", "bicicleta" e "suspensório", por exemplo, o competidor se imaginasse entrando numa casa em cuja garagem está Michael Jackson cortando a própria perna com uma tesoura; na sala houvesse o Mick Jager comendo uma bicicleta de chocolate; e no quarto, a Madona comendo um "prato de suspensório" como se fosse um espaguete. Segundo os campeões da memória, o exotismo da situação auxilia a memorização. Memorizar não é repetir; memorizar é criar.

O início do ato de memorizar, segundo a pesquisa de Joshua Foer, se deu no século V a.C. Durante um jantar de notáveis (possivelmente filósofos), o teto de mármore do salão desabou sobre os comensais que estavam ao redor da mesa. Sortudo, o poeta grego Simônides de Ceos havia sido chamado à cidade para entoar uma ode. Durante o recital, o poeta foi interrompido por mensageiros que o comunicaram da catástrofe. Ao chegar no local, Simônides se deparou com um cenário catastrófico. Em meio à fumaça e pedregulhos de mármore, restos mortais irreconhecíveis eram retirados pelas equipes de resgate, para o desespero dos parentes. Como havia estado no salão pouco antes do desabamento, Simônides pode, assim, identificar os corpos de acordo com a posição de cada um na mesa, valendo-se da memória.

Lendas à parte, o fato é que o ato de memorizar teve seus momentos de reprimenda e prestígio ao longo da história. Antes de a escrita ser inventada - e difundida -, a memória era o único "papel" de que as pessoas dispunham para guardar os ensinamentos que recebiam e as histórias que lhes eram narradas. Com a difusão da escrita, a memória passou a ter, como dizia Platão, uma "muleta". Na Idade Média, Cícero já criava suas próprias técnicas para auxiliar os devotos a memorizarem sermões e orações. Até a chegada de Gutenberg, quando os livros começaram a ser produzidos em larga escala, a memória tinha seu prestígio.

Há estudos, ainda que sujeitos à controvérsia, que comprovam que o laureado vício de jogar xadrez, comumente associado ao "turbinamento" do raciocínio, não cumpre esta promessa. Descobriu-se que um bom jogador de xadrez nada mais é do que uma pessoa que estudou muitas partidas de campeões mundiais e as reteve na memória para repeti-las em partidas futuras.

Atualmente, vivemos dias de primazia do raciocínio em detrimento da memória. Há muito os vestibulares deixaram de lado a decoreba e colocaram os alunos pra pensar, tomar decisões com o que têm arquivado em mente. O tão propalado "exercício de memória", o ato de exercitar a memória como se fora um músculo (fazendo palavras-cruzadas, contas aritméticas etc.), não produz nenhum benefício, segundo especialistas.

A memória nos trai a cada minuto. Não se culpe, leitor, se meses depois de ler um livro, a sua memória lhe "devolver" pouquíssimas lembranças da história narrada. Isso acontece com todo ser mortal. Tal esquecimento atormentava tanto Montaigne, que ele decidiu fazer um breve resumo na contracapa dos livros que lia, para tentar salvar algo da história narrada.

O "declínio da memória" é ainda mais profundo se analisarmos nossos hábitos diários, munidos das "maquininhas" de que dispomos. Não se decora mais números de telefones dos entes queridos após o surgimento dos celulares, com suas agendas e aplicativos. Se antes tínhamos arquivados, em algum lugar do nosso cérebro, todas as capitais brasileiras, alguns dos principais presidentes do Brasil, o ano da Abolição da Escravatura, hoje isso tudo pode ser obtido com poucos cliques em celulares ou tablets. Estamos, aos poucos, "delegando a nossa memória", externalizando-a.

A extensa pesquisa de Joshua Foer para escrever o livro comprova que, nas nossas leituras, priorizamos a quantidade (de livros, reportagens, sites) em detrimento da qualidade. Enquanto lemos um livro, estamos já pensando em terminar logo a leitura deste para começar outro; pensamos em algum texto que está pendente na internet, vídeos no Youtube ou programas na TV. Perde-se aí dois dos fundamentos mais preciosos, utilizados por todos os "atletas da memória" em seus exercícios: a atenção e a concentração.

A "externalização da memória" segue a passos largos e velozes no desenrolar da nossa história. Começamos a "delegar" nossa memória para o papel; passamos a arquivá-la (com o surgimento dos computadores) em discos rígidos, disquetes, CDs, DVDs, pen drives. Agora já estamos soltando nossos pensamentos em "nuvens" espalhadas por algum canto da atmosfera. Outro dia um cientista disse que não precisaremos nem mesmo aprender outros idiomas, pois bastará a dois (ou mais) estrangeiros posicionarem seus tablets de frente para o outro, conversar normalmente, que os aparelhos vão produzindo legendas, em qualquer língua, para que os outros possam ler a tradução.

E ainda estamos falando de coisas, diria, "palpáveis". Sem mencionar as teorias dos futurólogos de plantão, que planejam implantar chips nos nossos cérebros ou injetar nanorrobôs nas nossas veias. Cenas dos próximos capítulos. Haverá um dia em que, com a permissão dos deuses, teremos todo o conhecimento do mundo na internet e tudo isso disponível em nossos cérebros. Talvez um "chip do conhecimento humano" implantado em cada terráqueo. A humanidade poderá, finalmente, se preocupar com coisas mais importantes, pois coisas simples poderão ser consultadas instantaneamente na nanoWikipédia ou no nanoGoogle. Coisas como descascar uma banana, por exemplo.


Wellington Machado
Belo Horizonte, 3/7/2012


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