Virando as Latas: o atleta brasileiro e o esporte | Heloisa Pait | Digestivo Cultural

busca | avançada
30533 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Show com grupo Tambora faz um mergulho na obra de compositoras de diversos países da América Latina
>>> Pianista revelação, Juliana D'agostini mostra seu talento no Natal Musical do VillaLobos
>>> Ana Marson lança livro de crônicas em São Paulo
>>> Música, dança e boa conversa na "Semana Preta" do Centro de Referência da Dança
>>> Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição 'Tempos Líquidos'
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A poesia afiada de Thais Guimarães
>>> Manchester à beira-mar, um filme para se guardar
>>> Noel Rosa
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Rios inversos
>>> Você pertence a um não lugar
>>> Olho d'água
>>> A música da corrida
>>> Retalhos da vida
>>> Limbo
>>> Transmutações invisíveis
>>> Quem te leu, quem te lê
>>> Bom dia e paz
>>> O que sei do tempo II
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A alma boa de Setsuan e a bondade
>>> Steve Jobs sobre o mundo
>>> O Presidente Negro, de Monteiro Lobato
>>> Sobre o gênio que é Harold Pinter
>>> Gente que corre
>>> Caso Richthofen: uma história de amor
>>> Sem lero-lero
>>> A droga da felicidade
>>> Hilda Hilst, o IPTU e a Chave da Cidade
>>> Símbolos e Identidade Nacional
Mais Recentes
>>> Pensamento Complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável
>>> Dictionnaire D'Analyse du Discours (1ª ed.)
>>> Defenda seus direitos
>>> O momento da sua virada
>>> Uma Viagem Aos Reinos
>>> Trilha para os Jovens
>>> Titan - O mundo de aventuras fantásticas
>>> Sonhos Lúcidos
>>> Raiva. Seu Bem, Seu Mal
>>> O Shadowdale Vale Das Sombras
>>> O perdedor
>>> O livro secreto da maçonaria
>>> O livro da quituteira
>>> O caso Schreber
>>> O Caminho do mago
>>> Lobisomem O - Apocalipse - Rpg
>>> Livro do Mestre - Advanced Dungeons e Dragons
>>> Gurps. Modulo Básico
>>> Francisco de Assis e Francisco de Roma: Uma Nova Primavera na Igreja
>>> Forgotten Realms 3 Guia De Campanha Para Undermontain
>>> Cinema: O Divã e a Tela
>>> Até os Felizes Sofrem
>>> Assessoria de Imprensa
>>> As Virtudes da Casa
>>> Além do bem e do mal
>>> Aleister Crowley - A Biografia de um Mago
>>> A realização espontânea do desejo
>>> Belo Desastre
>>> Nao deixe para depois o que voce pode fazer agora
>>> Ecos Dos Mortos
>>> O pai sessenta minutos
>>> A Noite dos Quatro Furacões
>>> Caixa de Pássaros
>>> Qualidade em Serviços
>>> O Quarto Poder - Uma Outra História - 1ª Edição
>>> Sem Vestígios - Revelações de um Agente Secreto da Ditadura
>>> O Arroz de Palma - Edição Comemorativa
>>> Cisnes Selvagens - Três Filhas da China
>>> Sobre o Céu e a Terra - As Ideias do Papa Francisco
>>> Sobre Heróis e Tumbas - 2002
>>> O Homem de Beijing - 1ª Edição
>>> Compêndio de Análise Institucional e Outras Correntes - Teoria e Prática
>>> As Cartas Ácidas da Campanha de Lula de 1998 - 1ª Edição
>>> A Igreja Universal e Seus Demônios - Um Estudo Etnográfico
>>> Eugene H peterson ( o caminho de Jesus e os atalhos da igreja)
>>> Cadernos do nosso tempo Cinema Brasileiro
>>> Ciência Contemplativa
>>> O Absurdo e a Graça
>>> Farra no Formigueiro
>>> Picasso - Coleção Crianças Famosas
COLUNAS

Sexta-feira, 25/9/2015
Virando as Latas: o atleta brasileiro e o esporte
Heloisa Pait

+ de 1200 Acessos

Por um esporte brasileiro financeiramente independente, integrado ao saber e socialmente solidário.

Num artigo recente de jornal, o ex-deputado federal tucano Walter Feldman opõe nosso orgulho ludopédico ao reconhecimento do valor de práticas esportivas estrangeiras.1 Discordo.2

Acho que a compreensão da experiência americana no esporte pode ser muito útil. Assim como o Brasil, os Estados Unidos têm um público aficcionado pelo esporte, jovens dedicados como amadores ou profissionais e mercado capaz de financiar a prática esportiva. Cada vez mais, os jovens brasileiros querem desenhar suas carreiras de modo autônomo com o auxílio do esporte e não subordinado a ele. Os americanos conseguem integrar esporte e estudo, abrem oportunidades comerciais que financiam o esporte em vários níveis e estimulam a participação comunitária nos esportes de base, oferecendo opções aos jovens de acordo com suas prioridades de vida e interesses. Não é o que queremos?

Participação comunitária.  No esporte de base, o uso dos equipamentos públicos e privados pela comunidade é muito intenso. No verão, os parques das cidades americanas estão cheios de jovens jogando bola, com seus pais como primeira torcida da vida. As escolas do ensino fundamental não oferecem muitos programas, mas abrem as portas para que os pais organizem ligas e campeonatos. Acredito que a função do Estado  mais importante seja oferecer os caros equipamentos e deixar a própria comunidade organizar suas atividades. No Brasil, na atual situação de crise, equipamentos privados ociosos poderiam ser alugados caso o Estado não possa investir e os já construídos, como os CEUs, mais intensamente utilizados. Devemos olhar para a crise como um empurrão para a integração entre nossas crianças, com uso compartilhado de equipamentos. De qualquer forma, o que percebo nos EUA é que no esforço de organização conjunta das ligas, onde os próprios pais se voluntariam como técnicos, as crianças aprendem sobre a importância da atuação comunitária. No Brasil, ao contrário, o Estado promete tudo e ao final dá pouco, especialmente em exemplos.

Integração com os estudos.  Esse é o grande trunfo do esporte americano. Não vamos minimizar essa conquista, pois ela tem inúmeros significados tanto para o esporte como para a formação intelectual dos jovens. Não é à toa que brasileiros têm buscado nas faculdades americanas as chances de prolongar a carreira no esporte ao mesmo tempo em que obtém formação profissional. Hoje, jovens da nova classe média querem opções de vida, e não imposições.

No ensino médio, a oferta de esportes nos EUA já é bem maior que no fundamental. Mas é no ensino superior que as coisas realmente tomam corpo: as faculdades recrutam jovens atletas e elas mesmas os treinam. No basquete, a profissionalização de fato só ocorre depois da faculdade. Apenas o baseball, dos grandes esportes, não tem muito espaço nas universidades; mas a oferta de modalidades é muito grande. Muitos alunos escolhem onde vão estudar pelas condições oferecidas, sendo que as mulheres têm cada vez mais espaço no esporte universitário. O critério para a formação de ligas é o grau de apoio oferecido ao atleta. Faculdades que oferecem bolsas para atletas ficam numa liga mais competitiva e exigente; faculdades que não oferecem estão em outra. Cada liga tem seu público e suas competições, gerando receitas às faculdades ou prestígio.

Quem está nas salas de aula do ensino superior brasileiro, como eu, acaba conhecendo jovens que tiveram que interromper precocemente suas carreiras esportivas, gerando muita frustração. O outro lado, que não chega à faculdade, deve ser ainda mais melancólico: jovens que aceitam condições duras para continuar apostando no esporte, e acabam nem tendo o reconhecimento reservado a poucas estrelas.3 No Brasil, a integração entre esporte e estudo através de ligas universitárias ajudaria também a construir uma ponte entre classes sociais diversas, colocando em contato real, efetivo, jovens de distintas origens e instituições de ensino.

O negócio do esporte.  O esquema americano tem espaço para todos, cada qual com sua prioridade, seu público, seus apoiadores, e principalmente amparado por uma instituição de ensino, que é o que garante um futuro real na vida adulta. Será que o ensino privado brasileiro não teria interesse em entrar nessa atividade, de forma independente ou em conjunto com clubes, oferecendo assim uma oportunidade para que os jovens brasileiros continuem estudando enquanto se dedicam ao esporte, e também, claro, usando isso para sua promoção? Será que emissoras de TV não gostariam de transmitir jogos mais baratos, mas talvez mais próximos da comunidade? Esse esquema mais amplo daria oportunidade para que cada jovem tivesse suas conquistas, suas vitórias, não apenas reservadas aos grandes craques do futebol global. Mas também abriria oportunidades de negócios para organizadores de eventos, para os meios de comunicação, especialmente os locais, e para empresas patrocinadoras. O negócio do esporte não ficaria tão concentrado em grandes espetáculos: proporcionaria o lazer da comunidade, apoiado pelo comércio local e com seus ídolos locais. O esporte profissional se beneficiaria com atletas com melhor formação, que no futuro seriam melhores dirigentes...

O Estado brasileiro age em larga medida como concentrador de renda, apoiando negócios que podem andar com as próprias pernas, extraindo para isso recursos do conjunto da população que financiariam iniciativas menores e inovadoras. No futebol, não me parece diferente. Está na hora de o Estado deixar de financiar o esporte comercial e estimular de modo concreto, com equipamentos esportivos de boa qualidade em escolas e parques públicos, o pequeno esporte que enche de vida as cidades e dá objetivos aos jovens. O próprio Walter Feldman, com sua inegável capacidade aglutinadora, está hoje numa posição privilegiada para construir esse novo esporte brasileiro, financeiramente independente, integrado ao saber e socialmente solidário. É só botar a mão na massa. Sem receio de virar as latas.

1 Não acho que há complexo de vira-lata em buscar em outras experiências idéias para um futebol ou uma sociedade melhor. Países desenvolvidos são copiadores desavergonhados. O Japão é uma potência econômica e um exemplo de civilização, sem pudor de copiar, ontem e hoje. Os EUA nem culinária própria têm. Eles se referem a uma "experiência americana", mas não reclamam uma identidade nacional. Copiaram o sistema político e educacional, importaram a filosofia e as artes e não param de fazê-lo. E mesmo nós, o que temos de melhor, resulta do que Oswald de Andrade chamou de antropofagia. Com bom senso, a cópia é uma grande invenção humana, e aquelas piadas sobre as diferenças entre o inferno e o paraíso - o cozinheiro inglês, o amante suíço -  expressam isso de modo arguto. No Brasil de hoje, estamos obviamente nos dando conta de que algo está errado, seja na sociedade como um todo ou no futebol. Nesses momentos, é bom ver o que os outros fazem; cidadãos maduros quando há uma crise olham em volta para refletir sobre que opções temos e desconsideramos.

2 Sinto-me na obrigação de mostrar minhas credenciais para falar de futebol, que reconheço humildemente como espaço sagrado masculino. Aqui vão elas: na adolescência fui esportista "federada" por um clube privado, dei aulas nos EUA e estudei o ensino superior americano. Como professora aqui no Brasil, orientei pesquisas sobre o esporte, incluindo o estudo comparativo do esporte americano e brasileiro do jovem Rafael Martimbianco. Esse texto também traz informações e experiências do meu irmão, um fã do esporte e conhecedor da cultura americana, além de por breve período técnico de futebol feminino.

3 O antropólogo Roberto DaMatta já havia notado num estudo comparativo sobre a natação nos dois países que nos EUA cada nadador é um campeão, tantos os tipos de prêmios em disputa, enquanto no Brasil, há lugar para um punhado de vitoriosos e esquecimento para os demais.

Heloisa Pait
São Paulo, 25/9/2015



Mais Heloisa Pait
Mais Acessadas de Heloisa Pait
01. A Garota do Livro: uma resenha - 16/6/2016
02. Os Doze Trabalhos de Mónika. 1. À Beira do Abismo - 13/4/2017
03. Simone Weil no palco: pergunta em forma de vida - 11/8/2016
04. Diálogos no Escuro - 4/8/2016
05. Os Doze Trabalhos de Mónika. 4. Museu Paleológico - 13/7/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




TRUCS DE CUISINIER- BERNARD LOISEAU E GÉRARD GILBERT - IMPORTADO
BERNARD LOISEAU - GÉRARD GILBERT
MARABOUT
(1996)
R$ 22,90



COLEÇÃO CIEE 12 - AS ALTERNATIVAS DE EMPREGO PARA O MERCADO TRABALHO
WALTER BARELLI
CIEE
(1998)
R$ 10,00



A MALDIÇÃO DE ÉDIPO
LUIZ GALDINO
FTD
(1998)
R$ 20,00



OS HOMENS E A HERANÇA NO MEDITERRÂNEO
BRAUDEL
MARTINS FONTES
(1988)
R$ 30,00



VIVENDO COM A CONTRADIÇÃO - REFLEXÕES SOBRE A REGRA DE SÃO BENTO
ESTHER DE WAAL
MOSTEIRO DE STA CRUZ
(1998)
R$ 25,90



THE SEAT OF THE SOUL
GARY ZUKAV
SIMON & SCHUSTER
(1990)
R$ 10,00



THE ACTS OF THE APOSTLES
WILLIAM BARCLAY
THE SAINTANDREW PRESS
(1969)
R$ 29,00



PAVANA PARA UM MACACO DEFUNTO - ANTÔNIO GALVÃO NACLÉRIO NOVAES (TEATRO BRASILEIRO)
ANTÔNIO GALVÃO NACLÉRIO NOVAES
SNT/MEC
(1967)
R$ 25,00



CH'I ENERGIA VITAL
MICHAEL PAGE
PENSAMENTO
(1995)
R$ 8,00



O HEREGE DE SOANA - GERHART HAUPTMANN (LITERATURA ALEMÃ)
GERHART HAUPTMANN
DELTA
(1965)
R$ 8,00





busca | avançada
30533 visitas/dia
1,1 milhão/mês