O Natal de Charles Dickens | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

busca | avançada
37091 visitas/dia
862 mil/mês
Mais Recentes
>>> Bangalafumenga recebe amigos e ex batuqueiros para um encontro de felicidade no Carioca Club, dia 25
>>> SISEM-SP disponibiliza vídeos com conteúdo do 9º Encontro Paulista de Museus
>>> Em agosto, o Largo do Machado receberá a segunda edição do Hoje é dia de comer na rua
>>> ÀTMA - De que tamanho é o teu deserto?
>>> Vivo EnCena traz Paulo Betti a São Paulo com Autobiografia Autorizada
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel
>>> Apontamentos de inverno
>>> Literatura, quatro de julho e pertencimento
>>> O Abismo e a Riqueza da Coadjuvância
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 4. Museu Paleológico
>>> Um caso de manipulação
>>> Brasil, o buraco é mais embaixo
>>> Nós que aqui estamos pela ópera esperamos
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 3. Um Jogo de Poker
>>> Retratos da ruína
Colunistas
Últimos Posts
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
Últimos Posts
>>> Maturidade
>>> Ponto cruz
>>> Elevador divino
>>> Na hora do rush
>>> Cubica(mente)
>>> Adentrando o mundo humano - Pensamento
>>> Modelar(mente)
>>> Trans(corrente)
>>> Quanto às perdas III
>>> O pão nosso de cada dia
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O País da Fila
>>> Edvaldo Pereira Lima
>>> Editar bem, com Matinas Suzuki Jr.
>>> Palhaço
>>> Ópera fora do circuito
>>> Muito barulho por nada
>>> Leitura, curadoria e imbecilização
>>> Legião Urbana 1994
>>> Um menino à solta na Odisseia
>>> Gratitude
Mais Recentes
>>> A crítica de arte: como entender o contemporâneo
>>> Autoridade Espiritual
>>> Os botões de Napoleão
>>> O mestre das iluminuras
>>> Mensagem - 2ª ed. Texto Integral
>>> A catedral do mar
>>> Amanhecer
>>> Lua Nova
>>> Crepúsculo
>>> Fundamentos da Logoterapia. Na clínica psiquiátrica e psicoteraêutica (Vol. I)
>>> A história do conceito de "Latin America" nos Estados Unidos
>>> Os Lusíadas
>>> O faroeste (1860-1890)
>>> O herege
>>> A Moreninha (Clássicos Saraiva)
>>> Rio das flores
>>> Edição em Jornalismo - Ensino, Teoria e Prática -1ª ed.
>>> Comentários à lei sobre Desportos 2ª ed.
>>> Dicionário Descartes
>>> Dicionário Rousseau
>>> Discurso do Método. Comentários: Denis Huisman
>>> Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Comentários: Jean Francois Braunstein
>>> Cadernos do nosso tempo Fascínio e Repulsa
>>> Apresentação do mundo. Considerações sobre o pensamento de Ludwig Wittgenstein
>>> Condições da Liberdade. A Sociedade Civil e Seus Rivais
>>> Destinação Antropológica
>>> Antropologia. Ousar para reinventar a humanidade
>>> Tempus Fugit
>>> Abençoai o suborno!
>>> O Pós Guerra Fria No Mundo
>>> Os Iguais Sob O Arco-Íris
>>> Quem Mexeu No Meu Queijo?
>>> Estratégia Para O Sucesso
>>> Faz Escuro Mas Eu Canto
>>> Pai Rico Pai Pobre
>>> Bases Para Sua Conduta
>>> O Apanhador no Campo de Centeio
>>> Busca do Campo Espiritual pela Ciência
>>> O Pensamento de Assis Chateaubriand
>>> A História Íntima do Beijo (Sociologia/Antropologia Cultural)
>>> Noites Agradáveis - Straparola (Contos Renascentistas Italianos)
>>> Haverá uma ciência da Alma?
>>> Dias Melhores Virão
>>> O Desafio de nosso Tempo ( Change and Habit)
>>> Hobbes e a Moral Política
>>> Hobbes Leviathan. Uma Visão Teológica
>>> Brevilóquio Sobre o Principado Tirânico
>>> De Cive. Elementos Filosóficos a respeito do cidadão
>>> O Problema do Ser e outros ensaios
>>> Antropologia Filosófica
COLUNAS

Terça-feira, 10/1/2017
O Natal de Charles Dickens
Celso A. Uequed Pitol

+ de 1500 Acessos

Os natais da infância de Charles Dickens não eram feitos de grandes comemorações. Filho de família de classe média baixa, conheceria a pobreza degradante das classes trabalhadoras aos doze anos, quando seus pais foram presos por dívidas. Foi então obrigado a trabalhar, e trabalhar duro, para poder sobreviver na Inglaterra dos começos da Revolução Industrial, quando leis trabalhistas, sindicatos, medidas de proteção social e outras coisas não eram sequer sonhadas pelos trabalhadores. Seus natais eram cheios de incertezas, dívidas não pagas, dinheiro faltando e perspectiva de um ano duro – os seus e os de todos os trabalhadores ingleses de sua geração.

O Natal das classes sociais mais abastadas era, é claro, muito mais luxuoso e tranquilo. Mas não necessariamente mais alegre: as regras estritas do cristianismo protestante dos séculos XVIII e XIX não via celebrações efusivas com bons olhos, e reunir a família e os amigos para comemorar ao som de música, boa comida e bebida tinha um intolerável ar pagão. Por essa razão, o duríssimo Oliver Cromwell chegou a proibir a sua celebração no século XVII. Na época de Dickens a proibição ja não vigorava, mas um escritor seu contemporâneo, Leigh Hunt, descrevia-o como um evento irrelevante, indigno de ser mencionado. Além disso, a grande burguesia britânica associava o Natal à rudeza das tradições rurais, que a racionalização do tempo da era industrial deveria passar por cima. Aos pobres, a frugalidade era imposta pelas condições econômicas; aos demais, pela rigidez dos costumes.

Quando Dickens decidiu ser escritor, já adulto, transformou as experiências de perda e desamparo em tema literário . Seus primeiros livros falam da situação degradante em que viviam os trabalhadores da Inglaterra, a indiferença para com o próximo em necessidade e o vale-tudo para subir na social, típico daquela época de intensa competição estimulada pelo governo. A Inglaterra em que ele viveu, e que retratou com maestria em seus romances, era um país de solitários, depressivos, cínicos, hipócritas, extenuados pelo trabalho e embrutecidos pelo individualismo atomizador. Era o mundo de “Oliver Twist”, de “As aventuras do sr. Pickwick” e de “Loja de antiguidades”; e era, também,o mundo de “Canção de Natal”, lançado em 1843.

Será difícil encontrar quem não conheça a história. O protagonista é o empresário Ebenezer Scrooge, que acha o Natal uma festa sem sentido e abomina as tentativas das instituições de caridade em obter donativos nesta data: “Não há mais prisões?”, pergunta ele. “Seria melhor que os pobres todos morressem. Assim, reduziriam a população excedente!”. Ao seu lado trabalha um caixeiro, Bob Cratchit, que lhe pede um dia de licença para poder celebrar o Natal com a família. Muito a contragosto, Scrooge permite – não sem resmungar, é claro, que se trata de perda de tempo. À noite, quando está sozinho, recebe a visita do espírito do seu falecido ex-sócio, Jacob Marley, que, em vida, compartilhava o mesmo ponto de vista de Scrooge. Condenado a vagar pela eternidade com uma cadeia de correntes, em punição por uma vida de egoísmo e materialismo, Marley diz ao sócio que ele receberá a visita de três espíritos de Natal, o do presente, o do passado e o do futuro, que tentarão fazê-lo mudar de vida. É o que acontece: Scrooge recebe os três espíritos e, atordoado pelas revelações que lhe fazem, passa a amar o Natal. Um homem novo nascia ali – justamente na celebração maior de um nascimento.

Canção de Natal teve nada menos do que trinta adaptações para o cinema, incontáveis versões em quadrinhos e figura na lista de qualquer biblioteca infantil que se preze. Foi traduzido para quase todas as línguas conhecidas. Sua força e influência ombreia com as parábolas bíblicas, com as quais tanto se parece. Em estudo sobre o impacto da obra, o sociólogo James Barnett aponta que “Canção de Natal” a combinava atitudes religiosas e não-religiosas de celebração de união dos homens: repudiava o egoísmo e o individualismo e exaltava as virtudes da fraternidade, compaixão e generosidade. Por isso, serve bem às diversas leituras: os socialistas viram em Dickens um companheiro de luta contra a exploração do trabalhadores pelos capitalistas, e os cristãos, um pregador contra o egoísmo e em favor da fraternidade, à maneira do “Sermão da Montanha”. Ninguém escapou ao impacto de “Canção de Natal”.

E nem mesmo os burgueses, representados tão negativamente no sr. Scrooge: uma reportagem de 1844 da “Gentleman’s Magazine”, revelou um aumento gigantesco no valor de doações para a caridade feita por milionários e atribuiu o fenômeno à imensa popularidade do romance. O feriado para o Natal foi instituído, as legislações do mundo todo incluíram o “indulto de Natal” em seus códigos e a gratificação de Natal (chamada, no Brasil, de “décimo-terceiro”) passou a ser um direito de todo trabalhador. O Natal, o dia do nascimento do Salvador da cristandade, passou a ser, também, o dia onde os Scrooges do mundo podem tentar a redenção – e nada representa melhor essa tentativa do que a peregrinação noturna do velho ranzinza e egoísta pelas ruas de uma Londres coberta pela neve, atormentado pelos pecados do passado e recebendo, na manhã de Natal, a chance de mudar de vida e redimir-se.

Por isso, e por muito mais, seguimos escutando, com atenção, à canção entoada por Dickens há 173 anos. O Natal de Dickens é, hoje, o nosso: hoje todos somos convidados a celebrar com alegria, junto dos amigos e familiares, com boa comida, boa bebida, canções e presentes. Mas o mundo de Dickens, o mundo dos Scrooges e Cratchits, dos meninos sem Natal e dos adultos que o desdenham, também é o nosso. Um mundo que precisa de redenção.


Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 10/1/2017


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Um parque de diversões na cabeça de Renato Alessandro dos Santos
02. Aquarius, quebrando as expectativas de Guilherme Carvalhal
03. Amy Winehouse: uma pintura de Jardel Dias Cavalcanti
04. Revolusséries de Luís Fernando Amâncio
05. Thoreau, Mariátegui e a experiência americana de Celso A. Uequed Pitol


Mais Celso A. Uequed Pitol
Mais Acessadas de Celso A. Uequed Pitol em 2017
01. Thoreau, Mariátegui e a experiência americana - 14/3/2017
02. Oswald de Andrade e o homem cordial - 14/2/2017
03. O Natal de Charles Dickens - 10/1/2017
04. Seis meses em 1945 - 16/5/2017
05. Um caso de manipulação - 11/7/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




AS CULTURAS EUROPÉIAS E EUROPEIZADAS
ARTHUR RAMOS
CASA DO ESTUDANTE DO BRASIL
(1975)
R$ 10,00



SABER VIVER PROFISSIONALMENTE
LAIR RIBEIRO
LEITURA
(2003)
R$ 11,00



UM GUIA PARA OS PAIS PRESERVANDO UMA SEMENTE DE JUSTIÇA
JOYCE THOMPSON
THOPSON
(1999)
R$ 1,00



BRECHT - A ESTÉTICA DO TEATRO
GERD BORNHEIM
GRAAL
(1992)
R$ 52,00



MÃES DA BIBLIA
MARCOS VERÍSSIMO
ÁGAPE
(2014)
R$ 13,90



ÍLIADA E ODISSÉIA - 2 VOLUMES (CAIXA EDIÇÃO ESPECIAL)
HOMERO
EDIOURO SARAIVA
(2009)
R$ 70,00



REVISTA EM QUADRINHOS - CICLOPE E FÊNIX
MARVEL COMICS
ABRIL
(1996)
R$ 10,00



PLANETA 52
VÁRIOS
TRÊS
(1977)
R$ 13,00



A DECADÊNCIA DO OCIDENTE
OSWALD SPENGLER
UNB
(1982)
R$ 59,00



A PORTUGUESE GRAMMAR
E. C. HILLS J. D. M. FORD
D C HEATH
(1944)
R$ 25,00
+ frete grátis





busca | avançada
37091 visitas/dia
862 mil/mês