Thoreau, Mariátegui e a experiência americana | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

busca | avançada
27782 visitas/dia
955 mil/mês
Mais Recentes
>>> MANU LAFER APRESENTA SHOW NOBODY BUT YOU - TRIBUTO A KIKA SAMPAIO
>>> Sesc Belenzinho recebe a banda E a Terra Nunca me Pareceu Tão Distante
>>> Sesc Belenzinho recebe a atriz e cantora Zezé Motta
>>> Psicólogo lança livro de preparação para concurseiros usando a Terapia Cognitiva-Comportamental
>>> O Sertão na Canção: Guimarães Rosa
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Era uma casa nada engraçada
>>> K 466
>>> 2 leituras despretensiosas de 2 livros possíveis
>>> Minimundos, exposição de Ronald Polito
>>> Famílias terríveis - um texto talvez indigesto
>>> O Carnaval que passava embaixo da minha janela
>>> A menos-valia na poesia de André Luiz Pinto
>>> Lançamentos de literatura fantástica (1)
>>> Cidadão Samba: Sílvio Pereira da Silva
>>> No palco da vida, o feitiço do escritor
Colunistas
Últimos Posts
>>> Weezer & Tears for Fears
>>> Gryphus Editora
>>> Por que ler poesia?
>>> O Livro e o Mercado Editorial
>>> Mon coeur s'ouvre à ta voix
>>> Palestra e lançamento em BH
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
Últimos Posts
>>> Kleber Mendonça volta a Cannes com 'Bacurau'
>>> Nem só de ilusão vive o Cinema
>>> As Expectativas de um Recrutador e um Desempregado
>>> A Independência Angolana além de Pepetela
>>> Porque dizer adeus?
>>> Direções da véspera IV
>>> Direções da véspera IV
>>> A pílula da felicidade
>>> Dispendioso
>>> O mês do Cinemão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O Natal quase sempre é um problema
>>> O físico que era médico
>>> O historiador das idéias
>>> Maria Antonieta, a última rainha da França
>>> Gentili sobre o 7 a 1
>>> Convivendo com a Gazeta e o Fim de Semana
>>> Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo!
>>> O petista relutante
>>> Discurso de Isaac B. Singer
>>> O Carnaval que passava embaixo da minha janela
Mais Recentes
>>> Marca, Imagem e Reputação: a Trajetória de Sucesso de Pessoas e Empresas de Fernanda de Carvalho e Francisco Britto e Richard House pela Da Boa Prosa (2012)
>>> Clarice, uma Biografia de Benjamin Moser pela Cosac Naify (2015)
>>> Um Barril de Risadas, um Vale de Lágrimas de Jules Feiffer pela Cia das Letras (2008)
>>> Inelegibilidades no Direito Brasileiro de Joel J. Cândido pela Edipro (2003)
>>> Recursos em matéria eleitoral de Tito Costa pela Revista dos Tribunais (2004)
>>> Direito Eleitoral & Questões Controvertidas de Antônio Carlos Martins Soares pela Lumen Juris (2008)
>>> Langage et pouvoir symbolique de Pierre Bourdieu pela Editions Fayard (2001)
>>> Les Règles de l'art de Pierre Bourdieu pela Editions du Seuil (1998)
>>> Princípios Estruturantes das Agências Reguladoras e os Mecanismos de Controle de Alexandra da Silva Amaral pela Lumen Juris (2008)
>>> Homo Academicus de Pierre Bourdieu pela Les Editions de Minuit (2005)
>>> A criança e a mídia: imagem, educação, participação de Cecilia Von Feilitzen; Ulla Carlsson pela Cortez (2002)
>>> Circulação internacional e formação intelectual das elites brasileiras de Ana Maria Almeida; Letícia Canêdo, Afrânio Garcia; Agueda Bittencourt pela Unicamp (2019)
>>> Crimes eleitorais de Suzana de Camargo Gomes pela Revista dos Tribunais (2008)
>>> Delegação e Avocação Administrativas de Regis Fernandes de Oliveira pela Revista dos Tribunais (2005)
>>> Probidade administrativa. Comentários à Lei 8.429/92 e legislação complementar de Marcelo Figueiredo pela Malheiros (2004)
>>> Inquérito Policial & Competências e Nulidades de Atos de Polícia Judiciária de Anderson Souza Daura pela Juruá (2008)
>>> Agora e Para Sempre Lara Jean de Jenny Han pela Intrínseca (2017)
>>> Michael Kohlhaas de Heinrich Von Kleist pela Grua (2014)
>>> Perícias judiciais de engenharia. Doutrina. Prática. Jurisprudência de Francisco Maia Neto pela Del Rey (1999)
>>> A Lição do Mestre de Henry James pela Grua (2014)
>>> Chega de Plástico de Varios Autores pela Sextante (2019)
>>> Os Doze Mandamentos de Sidney Sheldon pela Record (2011)
>>> O Outro de Bernhard Schlink pela Record (2009)
>>> Até Eu Te Encontrar de Graciela Mayrink pela Novas Páginas (2013)
>>> Abaixo de Zero de Bret Easton Ellis pela Rocco (1987)
>>> Suítes imperiais de Bret Easton Ellis pela Rocco (2011)
>>> Porto Seguro de Nicholas Sparks pela Novo Conceito (2013)
>>> Ação de Impugnação de Mandato Eletivo de José Rubens Costa pela Del Rey (2004)
>>> O Milagre de Nicholas Sparks pela Agir (2010)
>>> Zona de Perigo de Shirley Palmer pela Best Seller (2003)
>>> Da anulação ex officio do ato administrativo de João Antunes dos Santos Neto pela Fórum (2004)
>>> O Misterioso Caso de Styles de Agatha Christie pela Abril Cultural (1983)
>>> Conexões de Varios Autores pela Abril (2016)
>>> A Quarta Vítima de Théo Iemma pela Scortecci (2005)
>>> Crianças da Noite de Juliano Sasseron pela Novo Século (2011)
>>> Macunaíma de Mário de Andrade pela Ciranda Cultural (2016)
>>> Noite na Taverna de Álvares de Azevedo pela Avenida (2005)
>>> Financiamento de campanhas eleitorais de Denise Goulart Schlickmann pela Juruá (2007)
>>> Terra de Sombras de Alyson Noel pela Intrínseca (2013)
>>> Os Degraus do Pentágono de Norman Mailer pela Expressão e Cultura (1968)
>>> Infinito de Alyson Noel pela Intrínseca (2013)
>>> Serena de Ian McEwan pela Cia das Letras (2012)
>>> Comentáros à Lei de Responsabilidade Fiscal de Ives Gandra da Silva Martins & Carlos Valder do Nascimento & Organizadores pela Saraiva (2009)
>>> Estrela da Noite de Alyson Noel pela Intrínseca (2013)
>>> Reflexo de Antonio José pela Grafica da Bahia (1979)
>>> O Sol da Liberdade de Giselda L. Nicolelis pela Atual (1988)
>>> Procedimento Administrativo nos Tribunais de Contas e Câmaras Municipais de Rodrigo Valgas dos Santos pela Del Rey (2006)
>>> Vito Grandam de Ziraldo pela Melhoramentos (2005)
>>> Lei Eleitoral Comentada (lei 9. 504, de 30 de Setembro de 1997) de Renato Ventura Ribeiro pela Quartier Latin (2006)
>>> Manual de Direito Civil - Vol 3 Contratos e Declarações Unilaterais de Roberto Senise Lisboa pela Revista dos Tribunais (2005)
COLUNAS

Terça-feira, 14/3/2017
Thoreau, Mariátegui e a experiência americana
Celso A. Uequed Pitol

+ de 2500 Acessos

Vistos à distância, Henry David Thoreau e José Carlos Mariátegui têm muito pouco em comum. Um é norte-americano, descendente de franceses, nascido em 1817 em meio às úmidas e frias florestas de Massachussets, formado sob a égide do pensamento transcedentalista e da moral puritana e influenciado pelos ideais da Revolução Americana, que havia ocorrido poucas décadas antes de seu nascimento; o outro é peruano, mestiço de índios e espanhóis, nascido em 1894 ao pé das montanhas peruanas e um dos mais importantes nomes do marxismo latinoamericano. Um é um defensor acerbo da individualidade, da confiança no homem, na resistência contra todas as formas de opressão estatal; o outro é um marxista, que acredita em soluções coletivas para os problemas dos homens. Um é um apóstolo da liberdade; o outro, da luta de classes. Não parece possível aproximar estes dois.

Há mesmo muitas diferenças. E aqui lembro de outra: um deles – Thoreau – é profundamente americano: acredita firmemente nos ideias que fundaram a nação onde nasceu e nas qualidades de seu povo. O outro – Mariátegui – é profundamente latinoamericano: vê seu continente explorado pelas grandes potências, sua população indígena massacrada, seu povo reduzido à miséria e governado por títeres dos grandes jogos comandados pela Europa, antes, e pelos EUA, hoje. Ou seja, Mariátegui ,um latinoamericano no sentido pleno, é, também, um crítico ferrenho da ação dos EUA onde nasceu Thoreau. A oposição parece, enfim, completa.

Será mesmo? É bom dar a voz aos autores. Atentemos, então, para o que diz Mariátegui no ensaio “El ibero-americanismo y el pan-americanismo”, publicado em 1925 :

"La historia de la cultura norteamericana nos ofrece muchos nobles casos de independencia de la inteligencia del espíritu: Roosevelt es el depositario del espíritu del Imperio; pero Thoreau es el depositario del espíritu de la Humanidad. Henry Thoreau, que en esta época, recibe el homenaje de los revolucionarios de Europa, tiene también derecho a la devoción de los revolucionarios de Nuestra América. ¿Es culpa de los Estados Unidos si los ibero-americanos conocemos màs el pensamiento de Theodore Roosevelt que el de Henry Thoreau? Los Estados Unidos son ciertamente la. patria de Pierpont Morgan y de Henry Ford; pero son también la patria de Ralph-Waldo Emerson, de William James y de Walt Whitman."

O trecho traz uma surpresa: Mariátegui, o latinoamericaníssimo Mariátegui, o anti-imperialista Mariátegui, o Mariátegui que parece tão diferente de Thoreau, revela-se aqui um admirador dos EUA. Mais: um admirador de Thoreau. Mas não dos EUA por inteiro, e sim do país que Thoreau, depositário “del espíritu de la humanidad", representa: este país, sim, merece “la devoción de los revolucionários de Nuestra América”, ao contrário do outro país, o dos mega-capitalistas que exploram os povos do mundo. Está aberto aí um canal de diálogo entre os dois americanos, representantes das duas Américas, que pareciam tão diferentes, tão distantes, talvez até mesmo adversários. Nosso propósito aqui é compreender como se dá este diálogo que parecia improvável.

Em 1849, Thoreau publicou “A Desobediência Civil”, provavelmente o seu livro mais conhecido. Era o tempo da Guerra com o México. Thoreau recebe em sua casa a visita de um coletor de impostos. Responde-lhe, então, que não pagará nada. O motivo: não está disposto a custear a guerra com o México, que lhe parece injusta e sem sentido. Como resultado, vai para a prisão. A partir daí, Thoreau inicia a famosa dissertação sobre o valor irredutível do indíviduo e a desobediência justa a um governo que um homem reputa moralmente errado.

No caso que Thoreau aborda, há um agravante (2016): "O que é este governo americano senão uma tradição, embora recente, que se empenha em passar inalterada à posteridade, mas que perde a cada instante algo de sua integridade? (...) E no entanto, este governo, por si só, nunca apoiou qualquer empreendimento, a não ser pela rapidez com que lhe saiu do caminho. Ele não mantém o país livre. Ele não povoa o Oeste. Ele não educa. O caráter inerente ao povo americano é que fez tudo o que foi realizado, e teria feito ainda mais se o governo não houvesse ás vezes se colocado em seu caminho"

Para Thoreau, os EUA - o país criado para ser a pátria dos livres, como ele dirá mais à frente – está cada vez mais corrompido. Quem o corrompe é o governo, que nada faz exceto impedir a ação do povo, portador único e intransferível dos valores americanos.

A seguir ele diz :

“Todos os homens reconhecem o direito de revolução, isto é, o direito de recusar lealdade ao governo, e opor-lhe resistência, quando sua tirania ou sua ineficiência tornam-se insuportáveis. Mas quase todos dizem que não é este o caso no momento atual. Mas foi este o caso, pensam, na Revolução de 75”

A Revolução de 1775 é a Revolução Americana, comandada por George Washington, que pôs fim ao domínio colonial britânico. Thoreau entende que, se os americanos celebram esta revolução contra a tirania, devem também celebrar a desobediência a outro tipo de tirania. E que tirania é esta?

"Em outras palavras, quando um sexto da população de uma nação que se comprometeu a ser o abrigo da liberdade é formado por escravos, e um país inteiro é injustamente invadido e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei militar, penso que não é demasiado cedo para os homens honestos se rebelarem e darem início a uma revolução."

Está delineada a traição: os EUA são tudo menos o país da liberdade. O Estado americano, criado para ser o bastião da liberdade, não o é: um sexto de sua população é escrava, promove guerras de conquista e escorcha sua população com impostos. Seu povo, segundo Thoreau, tem sentimentos de liberdade, que não se vêem representados pelos donos do poder. A solução, diz ele, é a desobediência civil – a mesma desobediência que animou os homens da Revolução Americana contra os ingleses. É a solução verdadeiramente americana para punir os traidores da América.

Em 1860, Thoreau publica outro livro, “The plea from John Brown”, recolhido de um discurso feito no ano anterior. O ensaio traz uma defesa do líder abolicionista John Brown, que propunha uma rebelião armada contra os donos de escravos do Sul dos EUA. Brown foi preso e, posteriormente, condenado à morte. Thoreau se entusiasma com Brown e outorga-lhe com um título honorifico: “the most american of us all”.

De acordo com um estudo de Jack Turner, Thoreau ressalta o americanismo de Brown para encorajar a transformação das posturas de seus concidadãos . Este americanismo é composto por quatro elementos.

Primeiro: Brown é um homem que põe os valores e ideais acima do conforto corporal. Somente uma vida onde os ideais da liberdade estão presentes merece ser vivida.

Segundo: uma recusa a reconhecer leis humanas injustas.

Terceiro: posicionamento a favor da dignidade da natureza humana Quarto: o indivíduo é o fim último de todo governo.



Em resumo: ser americano, para Thoreau, é ser um defensor da liberdade: da sua, dos outros, dos americanos, dos países vizinhos, de todos os países. Aí está a sua defesa profunda da experiência americana.

Mariátegui também busca na americanidade profunda de seu país natal a solução para a luta contra a opressão.

Primeiramente, devemos lembrar as particularidades do marxismo de Mariátegui, que o crítico Alfredo Bosi, em ensaio dedicado a ele, enfatize no trecho a seguir:

“A flexibilidade com que Mariátegui trabalhava a herança marxiana dava-lhe uma amplitude de olhar político absolutamente rara para o seu tempo. Ele percebeu, desde o início da sua carreira de organizador partidário, que não há um método único para corrigir o vale-tudo do mercado capitalista. É a história de cada formação social que irá inspirar as táticas de compensação” (BOSI, 1990)

Logo, o marxismo de Mariátegui não será o mesmo marxismo dos europeus; não será, também o mesmo marxismo dos norte-americanos. É um marxismo peruano e latino-americano. Como bem disse o filósofo Michael Lowy, “José Carlos Mariátegui integra-se nesta corrente numa forma original e em um contexto latino-americano, diferenciado dos da Inglaterra ou da Europa Central". (

Um marxismo peruano, de peruanos e para peruanos. Contra o europeísmo das elites limenhas, Mariátegui bate-se pelo que entende ser o autenticamente peruano, isto é, o índio:

"Em oposição a este espírito, a vanguarda defende a reconstrução peruana sobre a base do índio. A nova geração reivindica nosso verdadeiro passado e nossa verdadeira história. O passadismo contenta-se, entre nós, com frágeis lembranças galantes do vice-reinado. O vanguardismo, no entanto, busca para sua obra elementos mais genuinamente peruanos, mais remotamente antigos"

A valorização do autóctone faz Mariátegui encontrar qualidades insuspeitas na cultura e na organização política dos povos originários do Peru. Chega mesmo a ver na Justiça indígena, exercida nos pequenos povoados do interior do Peru, uma prova de que a organização dos incas foi uma organização comunista.

"Num regime de tipo individualista, a administração da justiça burocratiza-se. É a função de um magistrado. O liberalismo, por exemplo, a individualiza no juiz profissional. Cria uma casta, uma burocracia de juízes de diversas hierarquias. Num regime de tipo comunista, pelo contrário, a administração da justiça é função da sociedade inteira. É, como no comunismo índio, função dos yayas, dos anciões" (idem)

Tudo isto conduz à palavra decisiva: o nacionalismo. É um problema grave para os marxistas, que tendem a desaboná-lo e identifica-lo com os movimentos reacionários. Para estes, Mariátegui responde:

“ A ideia da nação - disse um internacionalista - é, em certos períodos históricos, a encarnação do espírito da liberdade. No Ocidente europeu, onde a vemos mais envelhecida, foi, em sua origem e em seu desenvolvimento, uma ideia revolucionária. Agora tem este valor em todos os povos que, explorados por algum imperialismo estrangeiro, lutam por sua liberdade nacional”. (idem)

Mariátegui é muito cuidadoso ao diferenciar o nacionalismo fascista e ultraconservador europeu daquele ligado à vanguarda revolucionária latino-americana. O primeiro é ligado diretamente ao imperialismo; o segundo, pelo contrário, é um ato de resistência ao imperialismo.

Voltemos ao ensaio sobre o ibero-americanismo e o pan-americanismo. Ali Mariátegui vaticina:

"“Los hombres nuevos de la América indo-ibérica pueden y deben entenderse con los hombres nuevos de la América de Waldo Frank. El trabajo de la nueva generación íbero-americana puede y debe articularse y solidarizarse con el trabajo de la nueva generación yanqui. Ambas generaciones coinciden. Los diferencia el idioma y la raza; pero los comunica y los mancomuna la misma emoción histórica. La América de Waldo Frank es también, como nuestra América, adversaria del Imperio de Pierpont Morgan y del Petróleo.”

" O recado é claro: Mariátegui convida seus conterrâneos a estabelecer contato com os americanos que comunguem os mesmos ideias. Em particular os “homens novos” de uma América e de outra. A América do líder socialista e hispanófilo Waldo Frank pode ser reinvidicada pelos homens da América meridional como portadora do mesmo espírito que ele, Mariátegui, defende como fundamental. A América de Thoreau pode ser, também, a América de Mariátegui – e o americanismo de Thoreau pode ser o de Mariátegui.

Thoreau, lembremos, opina que o povo americano é o artífice da nação, e que o governo de seu país nada faz além de escamoteá-lo. Quanto a Mariátegui, diz que o ibero-americanismo “ debe apoyarse en las muchedumbres que trabajan por crear un orden nuevo”. As multidões do povo serão as artífices do ibero-americanismo – assim como as multidões dos EUA devem ser as artífices da prometida terra da liberdade, que os governos americanos ultrajam com suas invasões movimentadas pelos pesados impostos cobrados de seus cidadãos. As multidões – não a pequena minoria europeizada. Mariátegui reinvidica o local, o peruano, o indígena e o mestiço contra as elites europeizadas, alheias ao local. Em seu texto “Nacionalismo e vanguardismo na ideologia política”, ele vaticina: “o futuro da América Latina”, diz ele, “depende do destino da mestiçagem”. Thoreau reinvidica o povo americano, portador das virtudes que fizeram a América, contra o governo de seu país e suas elites, também alheias ao local.

Vemos aí o trânsito deste conceito de americanismo de um para outro autor. O americanismo de Thoreau, personificado em John Brown, transmite-se a Mariátegui com as devidas modificações em tom, cor e origem. A mobilidade cultural – na definição de Sorokin – é um deslocamento de significados, normas, valores e vínculos. Ela existe de muitas formas. Uma delas é o chamado nomadismo intelectual, caracterizado como uma abertura em direção ao outro, “numa aceitação das alteridades e das diversidades”. A abertura de Mariátegui a Thoreau é a sua abertura a uma América diferente daquela que ele deplora: é uma América que, conquanto tão distinta, ele pode chamar de também sua. No fundo, o procedimento de Mariátegui é uma vindicação de uma americanidade profunda que integra os Estados Unidos da América num quadro maior, onde podem estar não como dominadores da América Latina mas como parceiros da construção de um Novo Mundo. Um Novo Mundo que os homens dos quinhentos e seiscentos viam como uma “Visão do Paraíso” (para lembrar Sérgio Buarque) e que ele, Mariátegui, vê como o mundo do socialismo, do novo homem.

Irmanam-se os dois – Thoreau e Mariátegui - na defesa do povo e a distância entre este e a elite dos países que governam. É a revolta dos povos – do autóctone, dos valores enraizados, dos ideais profundos - contra as elites; é a revolta da americanidade profunda contra aqueles que a traíram. Eis, aí, a mensagem de Thoreau e de Mariátegui.



Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 14/3/2017


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Algo de sublime numa cabeça pendida entre letras de Elisa Andrade Buzzo
02. Nos escuros dos caminhos noturnos de Elisa Andrade Buzzo
03. T.É.D.I.O. (com um T bem grande pra você) de Renato Alessandro dos Santos
04. As palmeiras da Politécnica de Elisa Andrade Buzzo
05. Como eu escrevo de Luís Fernando Amâncio


Mais Celso A. Uequed Pitol
Mais Acessadas de Celso A. Uequed Pitol em 2017
01. Oswald de Andrade e o homem cordial - 14/2/2017
02. Thoreau, Mariátegui e a experiência americana - 14/3/2017
03. O Wunderteam - 5/9/2017
04. O Natal de Charles Dickens - 10/1/2017
05. Seis meses em 1945 - 16/5/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




HISTORIAS PARA LER SEM PRESSA
MAMEDE M. JAROUCHE; ANDRÉS SANDOVAL
GLOBO
(2008)
R$ 10,00



ARMAMENTO E MILITARISMO
DIETER SENGHAAS
SIGLO VEINTUNO
(1974)
R$ 15,82



COMÉRCIO UM MUNDO DE NEGÓCIOS
LUIZ RATTO
SENAC
(2004)
R$ 7,00



OBRAS COMPLETAS DE FERNANDO PESSOA-POEMAS DE ALBERTO CAEIRO
FERNANDO PESSOA
ATICA
R$ 8,00



DO GROTESCO E DO SUBLIME
VICTOR HUGO
PERSPECTIVA
(2004)
R$ 15,00



LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL - GUIA DE ORIENTAÇÃO PARA AS PREFE
AMIR ANTÔNIO KHAIR
BNDES
(2001)
R$ 9,82



ANTIGUIDADES DE LOS JUDÍOS - TOMO 3
FLAVIO JOSEFO
CLIE
(1986)
R$ 90,00



CRIANDO CLIENTES
DAVID H. BANGS, JR
NOBEL
(1997)
R$ 12,00



VOCÊ PODE ENTEDER A BÍBLIA !
WATCH TOWE BIBLE AND TRACT SOCIETY
WATCH TOWE BIBLE AND TRACT SOC
(2016)
R$ 6,00



O NOVIÇO
MARTINS PENA
EDIOURO
(1999)
R$ 8,64





busca | avançada
27782 visitas/dia
955 mil/mês