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Terça-feira, 14/3/2017
Thoreau, Mariátegui e a experiência americana
Celso A. Uequed Pitol

+ de 3100 Acessos

Vistos à distância, Henry David Thoreau e José Carlos Mariátegui têm muito pouco em comum. Um é norte-americano, descendente de franceses, nascido em 1817 em meio às úmidas e frias florestas de Massachussets, formado sob a égide do pensamento transcedentalista e da moral puritana e influenciado pelos ideais da Revolução Americana, que havia ocorrido poucas décadas antes de seu nascimento; o outro é peruano, mestiço de índios e espanhóis, nascido em 1894 ao pé das montanhas peruanas e um dos mais importantes nomes do marxismo latinoamericano. Um é um defensor acerbo da individualidade, da confiança no homem, na resistência contra todas as formas de opressão estatal; o outro é um marxista, que acredita em soluções coletivas para os problemas dos homens. Um é um apóstolo da liberdade; o outro, da luta de classes. Não parece possível aproximar estes dois.

Há mesmo muitas diferenças. E aqui lembro de outra: um deles – Thoreau – é profundamente americano: acredita firmemente nos ideias que fundaram a nação onde nasceu e nas qualidades de seu povo. O outro – Mariátegui – é profundamente latinoamericano: vê seu continente explorado pelas grandes potências, sua população indígena massacrada, seu povo reduzido à miséria e governado por títeres dos grandes jogos comandados pela Europa, antes, e pelos EUA, hoje. Ou seja, Mariátegui ,um latinoamericano no sentido pleno, é, também, um crítico ferrenho da ação dos EUA onde nasceu Thoreau. A oposição parece, enfim, completa.

Será mesmo? É bom dar a voz aos autores. Atentemos, então, para o que diz Mariátegui no ensaio “El ibero-americanismo y el pan-americanismo”, publicado em 1925 :

"La historia de la cultura norteamericana nos ofrece muchos nobles casos de independencia de la inteligencia del espíritu: Roosevelt es el depositario del espíritu del Imperio; pero Thoreau es el depositario del espíritu de la Humanidad. Henry Thoreau, que en esta época, recibe el homenaje de los revolucionarios de Europa, tiene también derecho a la devoción de los revolucionarios de Nuestra América. ¿Es culpa de los Estados Unidos si los ibero-americanos conocemos màs el pensamiento de Theodore Roosevelt que el de Henry Thoreau? Los Estados Unidos son ciertamente la. patria de Pierpont Morgan y de Henry Ford; pero son también la patria de Ralph-Waldo Emerson, de William James y de Walt Whitman."

O trecho traz uma surpresa: Mariátegui, o latinoamericaníssimo Mariátegui, o anti-imperialista Mariátegui, o Mariátegui que parece tão diferente de Thoreau, revela-se aqui um admirador dos EUA. Mais: um admirador de Thoreau. Mas não dos EUA por inteiro, e sim do país que Thoreau, depositário “del espíritu de la humanidad", representa: este país, sim, merece “la devoción de los revolucionários de Nuestra América”, ao contrário do outro país, o dos mega-capitalistas que exploram os povos do mundo. Está aberto aí um canal de diálogo entre os dois americanos, representantes das duas Américas, que pareciam tão diferentes, tão distantes, talvez até mesmo adversários. Nosso propósito aqui é compreender como se dá este diálogo que parecia improvável.

Em 1849, Thoreau publicou “A Desobediência Civil”, provavelmente o seu livro mais conhecido. Era o tempo da Guerra com o México. Thoreau recebe em sua casa a visita de um coletor de impostos. Responde-lhe, então, que não pagará nada. O motivo: não está disposto a custear a guerra com o México, que lhe parece injusta e sem sentido. Como resultado, vai para a prisão. A partir daí, Thoreau inicia a famosa dissertação sobre o valor irredutível do indíviduo e a desobediência justa a um governo que um homem reputa moralmente errado.

No caso que Thoreau aborda, há um agravante (2016): "O que é este governo americano senão uma tradição, embora recente, que se empenha em passar inalterada à posteridade, mas que perde a cada instante algo de sua integridade? (...) E no entanto, este governo, por si só, nunca apoiou qualquer empreendimento, a não ser pela rapidez com que lhe saiu do caminho. Ele não mantém o país livre. Ele não povoa o Oeste. Ele não educa. O caráter inerente ao povo americano é que fez tudo o que foi realizado, e teria feito ainda mais se o governo não houvesse ás vezes se colocado em seu caminho"

Para Thoreau, os EUA - o país criado para ser a pátria dos livres, como ele dirá mais à frente – está cada vez mais corrompido. Quem o corrompe é o governo, que nada faz exceto impedir a ação do povo, portador único e intransferível dos valores americanos.

A seguir ele diz :

“Todos os homens reconhecem o direito de revolução, isto é, o direito de recusar lealdade ao governo, e opor-lhe resistência, quando sua tirania ou sua ineficiência tornam-se insuportáveis. Mas quase todos dizem que não é este o caso no momento atual. Mas foi este o caso, pensam, na Revolução de 75”

A Revolução de 1775 é a Revolução Americana, comandada por George Washington, que pôs fim ao domínio colonial britânico. Thoreau entende que, se os americanos celebram esta revolução contra a tirania, devem também celebrar a desobediência a outro tipo de tirania. E que tirania é esta?

"Em outras palavras, quando um sexto da população de uma nação que se comprometeu a ser o abrigo da liberdade é formado por escravos, e um país inteiro é injustamente invadido e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei militar, penso que não é demasiado cedo para os homens honestos se rebelarem e darem início a uma revolução."

Está delineada a traição: os EUA são tudo menos o país da liberdade. O Estado americano, criado para ser o bastião da liberdade, não o é: um sexto de sua população é escrava, promove guerras de conquista e escorcha sua população com impostos. Seu povo, segundo Thoreau, tem sentimentos de liberdade, que não se vêem representados pelos donos do poder. A solução, diz ele, é a desobediência civil – a mesma desobediência que animou os homens da Revolução Americana contra os ingleses. É a solução verdadeiramente americana para punir os traidores da América.

Em 1860, Thoreau publica outro livro, “The plea from John Brown”, recolhido de um discurso feito no ano anterior. O ensaio traz uma defesa do líder abolicionista John Brown, que propunha uma rebelião armada contra os donos de escravos do Sul dos EUA. Brown foi preso e, posteriormente, condenado à morte. Thoreau se entusiasma com Brown e outorga-lhe com um título honorifico: “the most american of us all”.

De acordo com um estudo de Jack Turner, Thoreau ressalta o americanismo de Brown para encorajar a transformação das posturas de seus concidadãos . Este americanismo é composto por quatro elementos.

Primeiro: Brown é um homem que põe os valores e ideais acima do conforto corporal. Somente uma vida onde os ideais da liberdade estão presentes merece ser vivida.

Segundo: uma recusa a reconhecer leis humanas injustas.

Terceiro: posicionamento a favor da dignidade da natureza humana Quarto: o indivíduo é o fim último de todo governo.



Em resumo: ser americano, para Thoreau, é ser um defensor da liberdade: da sua, dos outros, dos americanos, dos países vizinhos, de todos os países. Aí está a sua defesa profunda da experiência americana.

Mariátegui também busca na americanidade profunda de seu país natal a solução para a luta contra a opressão.

Primeiramente, devemos lembrar as particularidades do marxismo de Mariátegui, que o crítico Alfredo Bosi, em ensaio dedicado a ele, enfatize no trecho a seguir:

“A flexibilidade com que Mariátegui trabalhava a herança marxiana dava-lhe uma amplitude de olhar político absolutamente rara para o seu tempo. Ele percebeu, desde o início da sua carreira de organizador partidário, que não há um método único para corrigir o vale-tudo do mercado capitalista. É a história de cada formação social que irá inspirar as táticas de compensação” (BOSI, 1990)

Logo, o marxismo de Mariátegui não será o mesmo marxismo dos europeus; não será, também o mesmo marxismo dos norte-americanos. É um marxismo peruano e latino-americano. Como bem disse o filósofo Michael Lowy, “José Carlos Mariátegui integra-se nesta corrente numa forma original e em um contexto latino-americano, diferenciado dos da Inglaterra ou da Europa Central". (

Um marxismo peruano, de peruanos e para peruanos. Contra o europeísmo das elites limenhas, Mariátegui bate-se pelo que entende ser o autenticamente peruano, isto é, o índio:

"Em oposição a este espírito, a vanguarda defende a reconstrução peruana sobre a base do índio. A nova geração reivindica nosso verdadeiro passado e nossa verdadeira história. O passadismo contenta-se, entre nós, com frágeis lembranças galantes do vice-reinado. O vanguardismo, no entanto, busca para sua obra elementos mais genuinamente peruanos, mais remotamente antigos"

A valorização do autóctone faz Mariátegui encontrar qualidades insuspeitas na cultura e na organização política dos povos originários do Peru. Chega mesmo a ver na Justiça indígena, exercida nos pequenos povoados do interior do Peru, uma prova de que a organização dos incas foi uma organização comunista.

"Num regime de tipo individualista, a administração da justiça burocratiza-se. É a função de um magistrado. O liberalismo, por exemplo, a individualiza no juiz profissional. Cria uma casta, uma burocracia de juízes de diversas hierarquias. Num regime de tipo comunista, pelo contrário, a administração da justiça é função da sociedade inteira. É, como no comunismo índio, função dos yayas, dos anciões" (idem)

Tudo isto conduz à palavra decisiva: o nacionalismo. É um problema grave para os marxistas, que tendem a desaboná-lo e identifica-lo com os movimentos reacionários. Para estes, Mariátegui responde:

“ A ideia da nação - disse um internacionalista - é, em certos períodos históricos, a encarnação do espírito da liberdade. No Ocidente europeu, onde a vemos mais envelhecida, foi, em sua origem e em seu desenvolvimento, uma ideia revolucionária. Agora tem este valor em todos os povos que, explorados por algum imperialismo estrangeiro, lutam por sua liberdade nacional”. (idem)

Mariátegui é muito cuidadoso ao diferenciar o nacionalismo fascista e ultraconservador europeu daquele ligado à vanguarda revolucionária latino-americana. O primeiro é ligado diretamente ao imperialismo; o segundo, pelo contrário, é um ato de resistência ao imperialismo.

Voltemos ao ensaio sobre o ibero-americanismo e o pan-americanismo. Ali Mariátegui vaticina:

"“Los hombres nuevos de la América indo-ibérica pueden y deben entenderse con los hombres nuevos de la América de Waldo Frank. El trabajo de la nueva generación íbero-americana puede y debe articularse y solidarizarse con el trabajo de la nueva generación yanqui. Ambas generaciones coinciden. Los diferencia el idioma y la raza; pero los comunica y los mancomuna la misma emoción histórica. La América de Waldo Frank es también, como nuestra América, adversaria del Imperio de Pierpont Morgan y del Petróleo.”

" O recado é claro: Mariátegui convida seus conterrâneos a estabelecer contato com os americanos que comunguem os mesmos ideias. Em particular os “homens novos” de uma América e de outra. A América do líder socialista e hispanófilo Waldo Frank pode ser reinvidicada pelos homens da América meridional como portadora do mesmo espírito que ele, Mariátegui, defende como fundamental. A América de Thoreau pode ser, também, a América de Mariátegui – e o americanismo de Thoreau pode ser o de Mariátegui.

Thoreau, lembremos, opina que o povo americano é o artífice da nação, e que o governo de seu país nada faz além de escamoteá-lo. Quanto a Mariátegui, diz que o ibero-americanismo “ debe apoyarse en las muchedumbres que trabajan por crear un orden nuevo”. As multidões do povo serão as artífices do ibero-americanismo – assim como as multidões dos EUA devem ser as artífices da prometida terra da liberdade, que os governos americanos ultrajam com suas invasões movimentadas pelos pesados impostos cobrados de seus cidadãos. As multidões – não a pequena minoria europeizada. Mariátegui reinvidica o local, o peruano, o indígena e o mestiço contra as elites europeizadas, alheias ao local. Em seu texto “Nacionalismo e vanguardismo na ideologia política”, ele vaticina: “o futuro da América Latina”, diz ele, “depende do destino da mestiçagem”. Thoreau reinvidica o povo americano, portador das virtudes que fizeram a América, contra o governo de seu país e suas elites, também alheias ao local.

Vemos aí o trânsito deste conceito de americanismo de um para outro autor. O americanismo de Thoreau, personificado em John Brown, transmite-se a Mariátegui com as devidas modificações em tom, cor e origem. A mobilidade cultural – na definição de Sorokin – é um deslocamento de significados, normas, valores e vínculos. Ela existe de muitas formas. Uma delas é o chamado nomadismo intelectual, caracterizado como uma abertura em direção ao outro, “numa aceitação das alteridades e das diversidades”. A abertura de Mariátegui a Thoreau é a sua abertura a uma América diferente daquela que ele deplora: é uma América que, conquanto tão distinta, ele pode chamar de também sua. No fundo, o procedimento de Mariátegui é uma vindicação de uma americanidade profunda que integra os Estados Unidos da América num quadro maior, onde podem estar não como dominadores da América Latina mas como parceiros da construção de um Novo Mundo. Um Novo Mundo que os homens dos quinhentos e seiscentos viam como uma “Visão do Paraíso” (para lembrar Sérgio Buarque) e que ele, Mariátegui, vê como o mundo do socialismo, do novo homem.

Irmanam-se os dois – Thoreau e Mariátegui - na defesa do povo e a distância entre este e a elite dos países que governam. É a revolta dos povos – do autóctone, dos valores enraizados, dos ideais profundos - contra as elites; é a revolta da americanidade profunda contra aqueles que a traíram. Eis, aí, a mensagem de Thoreau e de Mariátegui.



Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 14/3/2017


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