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Terça-feira, 8/7/2003
O cinema mordaz de Billy Wilder
Maurício Dias

+ de 5500 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Billy Wilder nasceu no Império Austro-Húngaro em 1906, numa cidade que, após duas guerras mundiais, hoje faz parte da Polônia. Passou a infância morando em hotéis, pois seu pai era gerente de uma rede deste ramo de negócios.

Seu país esteve envolvido desde o início na 1a. Guerra Mundial. Por essa época sua família se mudou para Viena, e embora não tenha havido combates na parte Austríaca do Império, Wilder, ainda garoto, pôde sentir seus efeitos: "Nessa época ficávamos doze, dezesseis horas numa fila para conseguir duas batatas. Muitas vezes saíamos de mãos vazias."

Já adulto trabalhou como repórter policial em Viena. Se mudou para Berlim, em 1926, desejando ingressar como roteirista dos estúdios da UFA. Enquanto não conseguia trabalho, sobrevivia como "dançarino acompanhante" de senhoras de idade.

Esta era a época áurea do expressionismo alemão, de filmes como "A Última Gargalhada", Metrópolis e "A Caixa de Pandora". Apesar de ter sido influenciado por estes filmes, o diretor favorito de Wilder era Ernst Lubitsch, o mestre da comédia sofisticada. Este diretor, célebre na Alemanha, já desde 1923 se transferira para Hollywood, onde seguiu com sucesso.

Enquanto isso, em Berlim, começaram a surgir os primeiros trabalhos, os quais Wilder não assinava. A profissão de ghost writer já então era comum no cinema: um roteirista/escritor famoso pega mais serviço do que pode dar conta, e tem de contratar jovens ainda sem nome no mercado para, em maior ou menor grau, auxiliá-lo, em troca de uma fração dos rendimentos. Anos depois, ao escrever e dirigir "Crepúsculo dos Deuses" (Sunset Boulevard, 1950), Wilder prestaria contas com as lembranças duras de seu passado. Pois Joe Guillis, o personagem principal, é, ao mesmo tempo, o acompanhante de uma senhora e um ghost writer - em mais de um sentido, pois assim como em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, o personagem principal está morto desde o início da estória. E se, mesmo estando morto, é ele quem narra, então podemos considerá-lo um fantasma. Um escritor-fantasma.

Ainda na Alemanha, Wilder ganhou seus primeiros créditos como roteirista por dois filmes em 1929 e 1930. Filmes mudos. Ou seja, o mestre do diálogo, ironicamente começou escrevendo intertítulos - aquelas cartelas que narram a ação ou diálogos nos filmes mudos.

Vieram os filmes sonoros, a carreira de roteirista entrou nos eixos, Billy Wilder melhorou de vida. Por esta época pôde se dar ao luxo de começar sua primeira coleção de arte, hábito que manteria pelo resto da vida - na década de 70 tinha originais de Picasso e Egon Schiele, entre muitos outros.

E foi no cinema alemão que conheceu alguns dos nomes que fariam parte do cinema americano dos anos 40 e 50, como Robert Siodmack e Fred Zinnemman. O partido nazista subiu ao poder em 33, e Billy, judeu, se mandou para Paris. A primeira coleção de arte teve que ser vendida às pressas e à preço de banana. Na capital francesa co-dirigiu seu primeiro filme, Mauvaise Graine, sobre jovens criminosos tentando escapar do submundo. No final, os protagonistas encontram a liberdade indo para os EUA, da mesma forma que Billy faria na vida real.

Uma grande comunidade alemã se instalou em Hollywood, todos fugindo de Hitler. Diretores, escritores, dramaturgos, músicos, muitos com alto nível intelectual e de grande refinamento, contribuíram para arejar o provincianismo da Hollywood ainda meio caipira dos anos 30. Estes alemães também se ajudavam mutuamente, e Billy, apesar de enfrentar dificuldades com o idioma - mal falava o inglês, quanto mais escrever - conseguiu seguir com a carreira. O fato de ser judeu era uma desvantagem na Alemanha, mas algo muito útil em Hollywood. Em 1938 se juntou a Charles Brackett - que seria seu parceiro por mais de vinte anos - para escrever um filme para seu grande ídolo desde os tempos de Berlim, Ernst Lubitsch. O filme foi "A Oitava Esposa de Barba-Azul". No ano seguinte, o mesmo trio se reuniria a Greta Garbo para criar "Ninotchka", que concorreu ao Oscar - com filmes como "E O Vento Levou", "Nos Tempos Das Diligências" e "O Mágico de Oz".

Apesar de adorar o estilo de Lubitsch, Wilder e Brackett tinham que escrever para outros diretores menos talentosos, que arruinavam a concepção que os roteiristas tinham do filme (exceção feita a Howard Hawks, com quem Wilder pôde aprender muito sobre profissionalismo e timing.). Desejando maior controle sobre o material, os dois lutaram até conseguir uma chance de fazer um filme só deles: escreviam juntos, Brackett produzia e Wilder dirigia. Foi aí que surgiu "A Incrível Suzana" (The Major and the Minor, 1942), baseado numa peça de Edward Childs Carpenter e estrelado pela ex-parceira de Fred Astaire, Ginger Rogers. Ginger dois anos antes ganhara o Oscar de melhor atriz por Kitty Foyle, e o fato de terem-na conseguido para o papel mostra que o estúdio realmente achou válido investir poder no par de escritores. Isto se deve em grande parte ao sucesso conseguido pelo pioneiro Preston Sturges, que dois anos antes passara de roteirista a diretor, e conseguiu grande sucesso com suas comédias. "A Incrível Suzana" conta a história de uma mulher de vinte e cinco anos que se faz passar por uma menina de treze para pagar meia passagem num trem de volta pra casa. Só que algo dá errado e ela se vê presa numa escola de cadetes, com centenas de adolescentes que dão em cima dela descaradamente. Em 1955, Jerry Lewis protagonizaria a mesma história, trocando-se apenas o sexo do personagem principal, e a ambientação da escola de cadetes para uma escola de moças, em "O Meninão", de Norman Taurog.

Brackett-Wilder continuaram escrevendo para outros diretores, enquanto preparavam "Cinco Covas no Egito" (Five Graves To Cairo, 1943). Neste filme Wilder mostrava a 2a. Guerra no norte da África e a luta de um soldado inglês para derrotar os alemães. Aí Wilder já aproveitou para ridicularizar os nazistas, coisa que voltaria a fazer no futuro. Enquanto isso, na vida real, a guerra comia solta, e na Europa a mãe, a avó e o padrasto de Billy eram mortos num campo de concentração.

Wilder a seguir queria fazer uma adaptação do romance de James M. Cain, Double Indemnity. Brackett preferiu não tomar parte, e Wilder conseguiu a parceria do grande escritor de romances policiais Raymond Chandler. Chandler era alcoólatra, e a convivência entre estes dois talentos não foi exatamente o que se pode chamar de harmoniosa. Mas o resultado valeu à pena: o magistral "Pacto de Sangue", 1944, foi um grande sucesso, concorreu aos Oscars de melhor filme, direção, atriz, roteiro adaptado.

Chocado com o alcoolismo de Chandler, Wilder se uniu novamente a Brackett para escrever sobre a degradação que o álcool pode promover na vida de um homem que não tenha controle sobre a bebida. Rodado em locações (quando aproveita-se cenários naturais, como ruas ou construções verdadeiras) num estilo próximo ao que então se começava a realizar na Itália - e o qual mais tarde se chamaria neo-realismo - , "Farrapo Humano" (The Lost Weekend, 1945) conta com uma grande interpretação de Ray Milland. O filme ganhou Oscars de direção, filme, roteiro adaptado, ator, e consolidou o talento da dupla.

Wilder e Brackett uniram-se ao novato D. M. Marshman Jr. para concluir Crepúsculo dos Deuses em 1950. Este filme, uma das obras fundamentais da Arte (não apenas do cinema, de todas as artes) no século XX, é carregado com o cinismo e a misantropia de Wilder. O gosto do diretor pelo expressionismo alemão se evidencia na ambientação claustrofóbica da velha mansão da estrela - o Boulevard do título original - e temos aqui várias cenas inequecíveis: o corpo boiando na piscina, visto de baixo pra cima; o cortejo do enterro do chimpanzé; os ratos na piscina vazia; a paródia às banhistas dos filmes mudos de Mack Sennett; o holofote que ilumina a velha atriz quando esta visita o estúdio em que ela trabalhou durante anos, trazendo a equipe para admirá-la; no terrivelmente cruel tratamento de beleza a que a mesma é submetida - quase uma mumificação em vida -, na esperança de conseguir voltar a atuar. E a cena final, com a personagem descendo as escadas até o close é um dos momentos antológicos do cinema.

Após este filme a velha dupla separaria-se, e no futuro Wilder se juntaria ao romeno I.A.L. Diamond, num outro casamento artístico que duraria décadas. Juntos fariam "Quanto mais Quente Melhor" (1959, talvez a melhor comédia do cinema americano), "Se Meu Apartamento Falasse" (1960), Irma La Douce (1963), "A Primeira Página" (1974) e outros filmes.


Wilder - o de óculos - dirige Jack Lemmon. O ator protagonizou sete filmes do diretor, ao longo de vinte e dois anos de parceria.

Billy Wilder morreu em março de 2002. Antes de morrer ficou por 21 anos no ostracismo - uma triste ironia para com o homem que mostrou ao mundo como Hollywood criava ídolos e depois os esquecia. As companhias de seguro que cobrem os filmes desaconselhavam que um homem de mais de 70 anos dirigisse uma produção, e seus últimos projetos não haviam sido muito felizes, nem do ponto de vista artístico nem do retorno financeiro.

Mas os bons filmes superam numericamente os ruins, e obras como o ácido "A Montanha dos Sete Abutres" e "O Pecado mora ao Lado" serão apreciados enquanto houver vida inteligente no planeta.


Maurício Dias
Rio de Janeiro, 8/7/2003


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
8/7/2003
16h01min
Muito informativo, bem escrito, claro e objetivo. Gostei muito.
[Leia outros Comentários de Iara Sydenstricker]
12/7/2003
21h34min
Vish! Só por relembrar meu querido Billy já está valendo! E ainda por cima o texto esta bem interessante!
[Leia outros Comentários de Miguel Andrade ]
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