Saint-John Perse: o oxigênio da profundeza | Fabrício Carpinejar | Digestivo Cultural

busca | avançada
35344 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Ciclo de leitura online e gratuito debate renomados escritores
>>> Nano Art Market lança rede social de nicho, focada em arte e cultura
>>> Eric Martin, vocalista do Mr. Big, faz show em Porto Alegre dia 13 de abril
>>> Gabriel Cândido lança livro no Sesc São Caetano que aborda a aborda diáspora negra
>>> 'Estilhaços', o novo livro de Luís Fernando Amâncio
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Obra traz autores do século XIX como personagens
>>> As turbulentas memórias de Mark Lanegan
>>> Gatos mudos, dorminhocos ou bisbilhoteiros
>>> Guignard, retratos de Elias Layon
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Saudades, lembranças
>>> Promessa da terra
>>> Atos não necessários
>>> Alma nordestina, admirável gênio
>>> Estrada do tempo
>>> A culpa é dele
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Para amar Agostinho
>>> Discos de MPB essenciais
>>> Conceitos musicais: blues, fusion, jazz, soul, R&B
>>> O Passado, de Hector Babenco
>>> Curtas e Grossas
>>> Caneando o blog
>>> Arte é entropia
>>> Amor fati
>>> 50 anos da língua de Riobaldo
>>> Dando nome aos progres
Mais Recentes
>>> Introdução à Engenharia Ambiental: O Desafio do Desenvolvimento Sustentável de Benedito Braga pela Pearson Universidades (2005)
>>> Magia e cura Kahuna: Saúde holística e práticas de cura da Polinésia de Serge Kahili King pela Madras (2004)
>>> Dicionário De Filosofia de Nicola Abbagnano pela WMF Martins Fontes (2000)
>>> PNF: Facilitação neuromuscular proprioceptiva: Um guia ilustrado de Susan S. Adler pela Manole (2007)
>>> Teoria Do Estado E Da Constituição de Jorge miranda pela Forense (2009)
>>> Livro Completo De Etiqueta De Amy Vanderbilt de Nancy Tuckerman pela Nova Fronteira (2000)
>>> Faça Como Steve Jobs de Carmine Gallo pela Lua de Papel (2010)
>>> A Chave do Reino Interior Inner Work de Robert A. Johnson pela Mercuryo (1989)
>>> O Livro de Deus - a Bíblia Romanceada de Walter Wangerin Jr. pela Mundo Cristão (1998)
>>> Araribá Plus. Geografia - 9º Ano de Cesar brumuni dellore pela Moderna (2018)
>>> Araribá Plus Artes 9º Ano de Denis Rafael pereira pela Moderna (2018)
>>> Projeto do Submarino Nuclear Brasileiro de Fernanda das Graças Corrêa pela Capax Dei (2010)
>>> Um Futuro Moldado por Deus de Ron Phillips pela Graça (2013)
>>> Mudança de Mo Yan pela Cosac & Naify (2013)
>>> Cem anos de solidao de Gabriel Garcia pela Mediasat (1967)
>>> Quando uma Garota Entra Em um Bar de Helena S. Paige pela Novo Conceito (2013)
>>> História do Japão: Origem, Desenvolvimento e Tradição de um País Milenar de Associação Cultural e Esportiva Saúde pela Graftipo Ltda (1995)
>>> Minha formação de Joaquim Nabuco pela Topbooks (2004)
>>> 64 Contos de Rubem Fonseca de Rubem Fonseca pela Cia das Letras (2004)
>>> Processo de Enfermagem de Wanda de Aguiar pela E.p.u. (1979)
>>> Paganism: An Introduction to Earth-Centered Religions de Joyce Higginbotham pela Llewellyn Publications (2011)
>>> Fantasma - Edição Histórica nº 14 A invasão de Bengala e A vitória em Bengala de Vários Autores pela King Features Syndicate (1995)
>>> Penguin Minis, Legend: 1 de Marie Lu pela Penguin (2019)
>>> Sem Tesão não há Solução de Roberto Freire pela Sol e Chuva (1990)
>>> A Arte De Amar de Erich Fromm pela Itatiaia (1995)
COLUNAS

Sexta-feira, 9/4/2004
Saint-John Perse: o oxigênio da profundeza
Fabrício Carpinejar
+ de 5000 Acessos

Perse é um Rimbaud adulto; Rimbaud é um Perse jovem. O mesmo destemor oracular, as mesmas fagulhadas precisas, incisivas, simbólicas. Ambos chegaram tão próximo da verdade que ultrapassaram a loucura. O primeiro retratou o inferno; o segundo, o paraíso. Rimbaud denuncia; Perse celebra. Somando os dois, tem-se uma nova Divina Comédia.

Natural da ilha de Guadalupe, Prêmio Nobel de Literatura de 1960, Saint-John Perse (1887-1975) foi uma das expressões mais puras da língua francesa. Sua importância pode ser avaliada pela qualidade de seus tradutores: T.S Eliot em inglês (que confessou que seu conhecimento de inglês e de francês não abarcava o potencial do estilo), Ungaretti em italiano, Lezama Lima em espanhol, Walter Benjamin em alemão. O nome do poeta, na verdade, é Alexis Léger. O pseudônimo foi escolhido ao acaso e às pressas para sua estréia e gerou a independência de visão de mundo, diferenciando o escritor do diplomata.

Ninguém é capaz de repetir as miragens de Perse. O autor queima consigo as possibilidades de sua fórmula. Percebia a poesia como o território mais próximo do real absoluto, um real mítico, escapando de qualquer demarcação histórica, pessoal e geográfica. Não imita a realidade, mas a transfigura, recenseando as dimensões do sonho e do inconsciente. A manifestação lírica emerge avulsa, autônoma, como nascimento de um corpo, contra a abstração e tratando a métrica ora como movimento marítimo, ora como as dunas dos deserto. Sua fala se derrama em mágica oralidade e se desdobra em imagens alucinantes. A claridade disputa espaço com a clareza, como lâmpadas acesas durante o dia.

O escritor Bruno Palma devotou três décadas para traduzir Amers, obra central de Perse, com a experiência de ter trazido a lume Anábase, em 1979, pela Nova Fronteira, Prêmio Jabuti na época. Em 1971, pela editora Grifo, verteu excertos do livro em antologia do poeta francês com o título Marimarcas. Repensou a opção e escolheu para a edição o nome de Marcas Marinhas, favorecendo a leitura do sentido original em detrimento do neologismo. O trabalho é monumental, vencendo adversidades como a sucessão interminável de elipses, as orações intercaladas e a pontuação sistêmica do universo persiano. O resultado recompensa. Palma ressuscitou arcaísmos e se valeu do Glossário de Terminologia Marítima Internacional para preencher lacunas. Houaiss e Merquior ovacionaram os achados. "La Mer errante prise au piège de son aberration" passa a ser "O Mar errante apanhado na armadilha da sua aberração", mantendo a gravidade das aliterações e a fluência das vogais. Assim como a limpidez de "roueries d' ailes rétives" continua potável em português, "ardis de asas arredias", reforçando o recuo dos "erres". Há momentos em que a versão supera a matriz: "les vieux flocons d' écume jaunissante" vira "os velhos flocos de espuma amarelescente".

O escritor Saint-John Perse empreendeu Marcas Marinhas (Ateliê, 333 páginas, R$ 68) em oito anos, de 1948 a 1956, cinco longos poemas publicados separados que se juntaram com a febre. Apesar de escritos em épocas diferentes, possuem uma unidade ímpar, dando a impressão de que foram compostos ininterruptamente em um único dia. A obra é um poema dramático, girando em torno de três figuras: o mar, o poeta e a multidão, com nove vozes que aparecem de vez em quando e pontuam a narrativa das águas, expressas nos discursos dos oficiais e os trabalhadores do porto, do mestre de astros e de navegação, das Trágicas, das Patrícias, da Poetisa, das Profetisas, das jovens e dos Amantes. Seguindo o formato circular das tragédias gregas, o coro resume a história poética, avaliando e pesando as profecias. Trata-se de um livro em que a autoria é do Mar. "É o mar em nós que sonhará." O segredo da poética é incorporar o duelo entre homem e imensidão. Com inveja da extensão marinha, o homem não suporta permanecer na estreiteza do barco e do leito, assim como acaba esmagado na falta de limites. O que começa como desafio do amante frente às forças subterrâneas marinhas se encerra com seu despojamento humilde em Dedicação.

Diante do mar, não adianta sussurrar, cochichar, falar baixo. O mar pede o grito, a empostação da voz, a enxada do pulmão. "Há que gritar? Há que criar? - Quem pois nos cria neste instante? E contra a morte mesma não há senão criar?" Nesse sentido, o "oceano severo" exige o teatro proposto por Saint-John Perse, uma arena multifacetada que envolve tematicamente suas relações com o comércio, os amores, o alfabeto dos astros e com a religiosidade. "Há que gritar? Há que rezar?..." O mar é a seara escolhida entre o mundo físico e imaginário, capaz de revelar "o gosto de viver o homem, em toda a sua medida". Depois da Odisséia de Homero e antes de Omeros do caribenho Derek Walcott, Saint-John Perse é o que melhor explorou o arquétipo como epicentro de façanhas e dos desastres humanos, caos disciplinado, elemento que vai integrar o seu repertório simbólico preferido, ao lado do vento e do deserto (Anábase). Sua linhagem é do poeta criador, inventor fora de si. Não descreve as coisas ou a paisagem, funda o mundo verbal. Estranha o viver, rompendo os costumes. Acredita que a missão do poeta é ser a "má consciência do seu tempo", o que contesta a inércia visual. Nem que para isso custe sobrepassar o entendimento e conviver com as coisas ilícitas. Porque o mar que se abre à beleza é ainda o mar do transe e do delito. Perse não é maniqueísta, mostra a verdade sem apagar a crueldade e o mistério de sua busca, provando que o útil não é o verdadeiro.

Em sua cosmogonia, o poema é maior do que o escritor. Ao mesmo tempo em que apresenta uma liberdade metafórica excessiva, não abdica da construção formal rigorosa e exata. Instaura uma sensualidade líquida entre as palavras, canção derramada, marcha das marés, reproduzindo o fervilhar das correntes com a repetição das consoantes. Radicaliza o texto em vibrações, provocando uma leitura pela intensidade dos sismos. O poeta caminha em direção ao absoluto com a simplicidade de quem levanta a âncora. Barqueiro ébrio das metáforas, suas composições são desconcertantes, com uma solidez pictórica que materializa o fantasmagórico e o sobrenatural. "O relâmpago no mar busca a bainha do navio..." ou "até seus fins de vespas amarelas,/ O verão que perde memória nos roseirais brancos" são alguns exemplos de hiperatividade sensorial. O que para a maioria dos escritores seria gordura e excesso, em Perse é essencial como uma vértebra. A atmosfera suntuosa dosa ternura com ferocidade. A dificuldade de interpretação estimula a polissemia.

O escritor transforma o verso em versículo, em altissonante timbre profético. Exulta o mar como uma pátria autêntica. Uma monarquia onírica. Não é uma poesia que se define, mas que se multiplica na dúvida, no escoamento de hipóteses. Segundo ele, a poesia é filha da interrogação mais do que a filosofia. Perguntar para Saint-John Perse é se maravilhar. Desloca vogais, migra sílabas, acumulando anáforas, denotações e conotações. Em Marcas Marinhas, o mar é apanhado em frenética metamorfose. A toda hora, "muda de dialeto". Para acompanhar, o poeta habita a mutação, o fulgor. Do lento artesanato das ondas, o mar aparece em diversas roupagens, como "uma pele de búfalo", "cor de pedra de estábulo', "carne de romã, figo da África e fruto da Ásia". Fixa-se ao mudar, revirando as vagas, captando o insondável, das sandálias deixadas nas areias pelos afogados até as naus encalhadas das estrelas. Perse acorda as lendas, atravessando as águas e suas efêmeras vidas. Seu tema de meditação é a água salgada, selvagem, de início longínquo. Se a água doce é reflexo, a matéria viva persiana não permite a cristalização, espelhamento, cresce proporcional às distorções produzidas.

O mar trabalha no descanso. Surge como um ente incorruptível, cruel e generoso no julgamento, fazendo o homem sangrar como um galo ou se reencontrar na alga da mulher. Converte o medo em aventura, o receio em excitação. "Do mar também, sabias tu? Nos vem às vezes esse grande pavor de viver." O homem louva o mar, como um cego. Não existe uma condição de impotência humana, mas de respeito e reverência ao que não se entende o suficiente para opinar. Quem vive perto do mar, demonstra Perse, absorve o seu cheiro e a fome de eternidade. Torna-se para sempre cúmplice de seus crimes e desejos. "E de um odor de mar em nossa roupa e em nossos leitos, no mais íntimo da noite."

Repassar Saint-John Perse para o português é comparável a traduzir o cubano José Lezama Lima e o neobarroco Paradiso (missão cumprida pela poeta Josely Vianna Batista). Se a poesia é "fotografia da respiração" (Lezama Lima), respira-se com Perse o oxigênio letal da profundeza.

Nota do Editor
Fabrício Carpinejar é também poeta, autor de seis livros; entre eles, Cinco Marias (2004) e Caixa de Sapatos (2003). Este texto foi originalmente publicado na revista Storm, editada por Helena Vascocellos em Lisboa. (Reprodução autorizada pelo autor e pela editora.)

Para ir além






Fabrício Carpinejar
São Leopoldo, 9/4/2004

Mais Fabrício Carpinejar
Mais Acessadas de Fabrício Carpinejar
01. A vida sexual da mulher feia - 17/2/2006
02. A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima - 14/7/2005
03. Manoel de Barros: poesia para reciclar - 17/8/2006
04. Separar-se, a separação e os conselhos - 18/1/2005
05. Sobre a mulher que se faz de vítima - 18/1/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Evolucao dos Seres Vivos
Nelio Bizzo
Atica
(1994)



A Carruagem Alada: Memórias
Maria de Lourdes Teixeira
Pioneira
(1986)



Homeopatia: o Que é e o Que Não é
Gerson Rodrigues Marins
Nacional
(1986)



Outro Diálogo é Possivel na Cooperação Norte - Sul
Varios Autores
Peirópolis
(2003)



Nutrição e Atividade Física
Dilson Kamel / José Kamel
Sprint
(1998)



Bts - Reis do K-pop
Helen Brown
Astral Cultural
(2019)



Livro - Lúcifer - Volume um - a Infernal Comédia - Peço por Comida
Neil Gaiman, Dan Watters, Max Fiumara
Panini
(2019)



Uma Vida Tratando Águas - Memórias do Engenheiro Armando Fonzari Pera
Manoel Henrique Campos Botelho
Engenho
(2000)



Magia do Caminho Real
Anna Sharp
Rosa dos Tempos
(1994)



Guia de Restaurantes Japoneses 2010 (são Paulo Rio e Janeiro
Vários Autores
Jbc
(2010)





busca | avançada
35344 visitas/dia
1,6 milhão/mês