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Terça-feira, 11/10/2005
Não atirem no pianista
Jonas Lopes

+ de 4600 Acessos

Quem foi que disse que o jazz morreu? Se morreu, esqueceram de avisar Keith Jarrett, Brad Mehldau e Jason Moran. Os três lançaram em 2005 discos capazes de sustentar uma vida digníssima para o gênero. Radiance (de Jarrett), Day Is Done (de Mehldau) e Same Mother (de Moran) são discos diferentes, mas com algumas semelhanças. A coragem de fugir do óbvio e buscar novos elementos é a principal delas. Outra é o piano, o instrumento que une os três músicos.

Não é de hoje que se discute quais os caminhos para manter o ciclo evolutivo do jazz. As opções são muitas, embora todas esbarrem em uma saída: o flerte com outros gêneros. Os críticos apostam na eletrônica, que rendeu algumas coisas interessantes; o problema é que vários casos limitam-se a versões remixadas ou com samplers de clássicos do gênero. O pop é outra possibilidade. O sucesso é garantido (Norah Jones e Jamie Cullum não me deixam mentir), mas a credibilidade entre os fãs puristas nem tanto.

O que importa é misturar. Senão, termina-se como Wynton Marsalis, a regurgitar os tempos áureos em tom de nostalgia - e apenas isso, na maioria das vezes. Não é o caso de Jarrett, Mehldau e Moran. Os três têm formação clássica, além da jazzista, e com eles o preconceito inexiste. Cada um procurou, a seu modo, um caminho. O primeiro na música erudita, o segundo em canções de cerne pop sem abandonar o instrumental jazzy, e o terceiro em outros ritmos norte-americanos.

As notas ditadas pelas mãos

Keith Jarrett é o mais experiente dos três: 60 anos, completados em maio. Só de carreira já são quatro décadas - aos vinte já tocava nos Jazz Messengers do baterista Art Blakey. Prodígio? Normal para alguém que aos três anos já esmerilava o piano e aos sete já havia escrito um recital. Tanto talento impressionou um gigante do jazz, Miles Davis, que logo cooptou o pianista para algumas gravações históricas na virada da década de 60 para a de 70.

O duplo ao vivo Radiance, lançado pela ECM, sua gravadora há mais de 30 anos, está situado entre os trabalhos de piano solo de Jarrett. Para quem não sabe, sua discografia está dividida entre os álbuns com banda - um quarteto nos anos 70 e, desde os anos 80, o magnífico trio com o baterista Jack DeJohnette e o baixista Gary Peacock, outros dois ex-Miles Davis - e os concertos solo. Nestes, Jarrett transcende qualquer rótulo, passando livremente do jazz para a música clássica, indo e voltando quando bem entende. Não há músicas formais, apenas longos improvisos.

Entre esses momentos solitários estão Paris Concert, Solo Concerts: Bremen and Lausanne e o famoso The Köln Concert, o trabalho mais famoso de Jarrett, que já vendeu mais de um milhão de cópias. La Scala, o último deles, saiu em 1997. Jarrett sofreu então de síndrome de fadiga, que o deixou parado por algum tempo, quando gravou o caseiro The Melody At Night, With You, outro solo, com canções ao invés de improvisos.

A volta aos concertos solo, após um punhado de grandes discos na volta de seu trio, foi em 2002, em dois shows no Japão. Radiance, lançado apenas este ano, é o resultado das apresentações. Apesar dos paralelos com outros trabalhos do pianista, o álbum vai além. Os improvisos estão ainda mais esparsos, as melodias ainda mais rarefeitas. O estilo é fragmentário e Jarrett não faz concessões - o uso do silêncio é primoroso. No encarte do CD, ele diz que não tinha idéias de como as melodias se desenvolveriam; deixou que suas mãos ditassem o trajeto das notas. O resultado é majestático.

Nenhuma das "músicas" tem nome. As faixas são apenas numeradas, "Radiance Pt.1", "Radiance Pt.2", etc. Por isso é complicado escolher destaques. Alguns momentos de dissonância constante beiram o free jazz. No trecho seguinte, vem a paz. Admirador de Bach e Debussy, Jarrett engendra como poucos hoje (e digo mais: como ninguém) um momento de lirismo ao piano. Escolho então como pontos altos as "partes" 5 e 8, representantes dos dois lados, o virulento e o poético. Pura ilustração. Mais vale ouvir Radiance inteiro.

Não à toa Keith Jarrett é um dos modelos de Brad Mehldau, de 35 anos. Um de seus melhores discos, Elegiac Cycle, bebe na fonte jarrettiana de piano solo. Quando está com seu trio, entretanto, Mehldau lembra outro gênio, Bill Evans, embora deteste as comparações. Day Is Done traz a primeira mudança de formação em muito tempo na sua banda. Jeff Ballard substitui Jorge Rossy na bateria. Ballard é mais vigoroso que o antecessor, algo notável na faixa-título.

Como já é praxe na carreira de Mehldau, o repertório foge dos standards batidos e busca forças na música pop. Cabe aqui a única restrição: outra vez Brad gravou composições de Radiohead, Beatles e Nick Drake, todos já revisitados mais de uma vez por ele. Uma variada seria interessante. De qualquer forma não dá para reclamar, pois as versões estão excepcionais. "Knives Out", uma das pérolas do quinteto britânico, abre Day Is Done em interpretação longa (oito das dez faixas ultrapassam os cinco minutos) e impetuosa.

Do Fab 4, mais precisamente de Paul McCartney, Mehldau arquiteta uma delicada "Martha My Dear" sozinho ao piano e registra também a pouco regravada "She's Leaving Home" com o trio. "Day Is Done", de Drake, é o ápice: densa, poderosa, o baixo fazendo as vezes de vocal alternadamente com o piano, enquanto a bateria é socada.

Outros artistas que ganharam versões foram Burt Bacharach (a balada "Alfie") e Paul Simon ("50 Ways To Leave Your Lover"). Simon, aliás, também já teve composição gravada por Mehldau, "Still Crazy After All These Years", em Anything Goes, do ano passado. As únicas músicas originais do pianista são "Artis" e "Turtle Town", ambas excelentes. Seu lado compositor merece mais espaço.

Garoto prodígio

O jovem (30 anos) Jason Moran é uma das figuras mais celebradas do jazz nos últimos anos. Same Mother é seu sexto disco pela Blue Note. Moran virou a menina dos olhos da mítica gravadora. Como Mehldau e Jarrett, teve seu momento de solista em Modernistic (2002). Já gravou com lendas do selo, como o saxofonista Sam Rivers. O novo trabalho traz uma parceria com seu ídolo Andrew Hill, pianista que deixou para a história do jazz a obra-prima Point Of Departure, de 1964.

Em Same Mother Moran namora o blues, o outro gênero musical típico da América. Daí o título: segundo ele, o blues e o jazz vêm da mesma mãe, são duas manifestações de origem negra. Para dar o tom bluesy, Jason adicionou a seu trio habitual o guitarrista Marvin Sewell, da banda de Cassandra Wilson. Sewell sola bem em "Jump Up". "I'll Play The Blues For You", por outro lado, foge pouco do blues elétrico dos anos sessenta. Sua melhor intervenção está em "G Suit Saltation", o destaque maior do disco. São seis minutos quase que de improvisação ininterrupta de todos os músicos.

"Aubade", a parceria de Moran e Andrew Hill, é mais lenta do que se esperaria. Sewell surge com arpejos no violão, ao lado do piano. "Field Of The Dead", trilha imaginária para Alexander Nevsky, filme de 1938 do cineasta russo Sergei Eisenstein, começa devagar, com o slide de Sewell entornando notas de inflexão oriental enquanto Jason dialoga com a cozinha. O ritmo se mantém e ganha intensidade lentamente. O trio mostra ainda entrosamento em "Fire Waltz", cover do pianista Mal Waldron.

E para manter a tradição, duas faixas de Same Mother dão continuidade à série gangsterism, iniciada na estréia Soundtrack To Human Motion: a abertura "Gangsterism On The Rise" e o número de encerramento "Gangsterism On The Set". Dentro de uma obra tão circular, Same Mother é o disco mais coeso e fechado em uma proposta, ainda que não seja o melhor de Moran até agora.

A reverência a Keith Jarrett, Brad Mehldau e Jason Moran não é só minha. Na última eleição de melhores do ano da prestigiada revista Downbeat, realizada no meio do ano, Jarrett ganhou os prêmios de melhor pianista acústico e de melhor trio acústico. Moran levou várias das categorias "rising star", dedicadas aos jovens talentos: artista de jazz do ano, melhor banda acústica, melhor compositor e melhor pianista acústico. Como Day Is Done só está saindo agora, Mehldau não concorreu. Estará na próxima, sem dúvida.

Com uma nata desse naipe e uma safra que inclui ainda outro discaço de 2005, Overtime, da Dave Holland Big Band, dizer que o jazz morreu é pedir atestado de surdez. Ou de burrice mesmo. Os melhores remédios para os dois casos são Radiance, Day Is Done e Same Mother. Não tem erro.


Jonas Lopes
Florianópolis, 11/10/2005


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