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Sexta-feira, 31/8/2001
State of the art
Rafael Azevedo

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Yara Mitsuishi

A arte acabou. É uma afirmação realista, vinda de uma pessoa pessimista por natureza, e que sem dúvida enervará leitores mais incautos e otimistas quanto ao estado e ao papel da cultura em nossos dias. Adianto-me à fúria deles, e explico.
Claro que por muitas gerações, enquanto ainda houver um único ser humano que tenha tido uma educação e criação razoáveis, e que consiga afastar-se por tempo suficiente deste mundo brutalizante de negócios e poder, entrincheirado nas valas da sensibilidade e da introspecção, as obras eternas de pessoas iluminadas como Mozart, Bach, Beethoven, Picasso, Shakespeare, Michelangelo et alii continuarão a ser apreciadas da mesma maneira como são hoje, e o vem sendo através dos séculos. Minha afirmação não se refere ao que já foi feito, e sim ao que será. Ou melhor, ao que não será. Pois não se faz mais arte, e não temos nenhuma perspectiva em país algum do mundo que um dia ela será feita de novo, pelo menos não na intensidade e na qualidade que um dia já foi. (A propósito, já aviso que não considero arquitetura, instalações, ou música pop como "arte", e o cinema, que poderia muito bem ser uma, somente esporadicamente chega a ser entretenimento).
Pequeno parêntese: utilizo, neste texto, a situação da arte no Brasil, para me referir à situação dela no mundo, pois nosso país, como comentou certa vez o colunista Fabio Danesi Rossi, é realmente o país do futuro: "debruçando-se sobre ele, como uma vidente sobre uma bola de cristal, podemos ver o futuro do mundo". A vulgarização dos costumes, o desprezo pela estética, o descaso pelos valores elevados, a repulsa pela filosofia e o desdém pela sofisticação, qualidades estas que afloram em nossa fauna desde que Cabral cá caiu, estão sendo cada vez mais absorvidas pelo mundo dito civilizado, e nós, os bárbaros, sem derrubar os muros de Roma, sem cortar cabeças de reis e rainhas, conquistamos os civilizados: eles se tornam cada vez mais mal-educados e acéfalos freqüentadores de rodeios e desfiles de carnaval. Fecha parêntese.
O primeiro motivo, e o de maior relevância, que pode ser facilmente comprovado por qualquer um que conheça quatro ou cinco brasileiros, de preferência paulistanos, de classe média, é o preconceito generalizado que existe contra arte, e contra o pensamento. "Artista" virou sinônimo de uma pessoa homossexual e drogada que ou procura uma vaga na trupe do Zé Celso ou quer aparecer numa novela da Globo; pensar demais é visto com ressalva; e dedicar seu tempo a fazer "bobagens" que “jamais serão vistas, lidas ou ouvidas pelos outros” é "imbecilidade", "desperdício". "Vai trabalhar, vagabundo" deve ser o comentário mais ouvido (claro que disfarçado - ou não - por inúmeros eufemismos) por um artista (brasileiro, ou não) em início de carreira nos dias de hoje. Michelangelo foi chamado para decorar a Capela Sistina, pelo Papa himself; a ambição de Shakespeare era virar sonetista da corte inglesa. Hoje em dia, quem quer escrever para um presidente, ou um governo? A ambição maior do artista de nossos dias parece ser tomar um chá vestindo o fardão da Academia Brasileira de Letras, ou ter sua casa em Angra mostrada na Caras. Ser artista não dá mais status, ou respeito. Conseqüentemente, para quê ser artista? É mais fácil conseguir um empreguinho por aí, trabalhando das 9 às 6, juntando um dinheirinho para viajar pra praia no final do ano, e não ter que se preocupar com as terríveis agruras filosóficas e econômicas que sempre afligiram o artista.
Outro motivo é o descabimento, o "vale-tudo", que tomou conta do cenário artístico desde a primeira metade do século XX, quando charlatões como Deschamps, e Warhol, na pintura, e Philip Glass e Stockhausen, na música (sem comentar nada da escultura e outras, se é que existem, artes plásticas), se aproveitando de novidades que surgiam na arte - movimentos geniais como o abstracionismo, o cubismo e o dodecafonismo - acharam que tinha "liberado geral", que valia tudo. Assim, enquanto Picasso e seus pares passaram boa parte de sua vidas retratando com perfeição irrepreensível pessoas e lugares que o rodeavam, antes de tentarem partir para vôos mais altos, o artistinha que iniciava sua carreira à sombra desses gênios achava que já podia sair rabiscando uma tela. Daí pra achar a lata de Campbell's obra de arte foi um pulinho só. No Brasil a onda não tardou a chegar, com a malfadada semana de 22, e seus horrendos antropofagismos e Abaporus. Para se subverter uma arte, é necessário, antes de tudo, dominá-la ao máximo. Stravinsky compôs obras bastante comportadas antes de fazer sua Sagração da Primavera; Schoenberg escrevia paráfrases de Bach antes de completar o seu Verklärte Nacht. Mas a partir do momento que o primeiro filisteu ouviu uma dessas obras, e não as compreendendo, exclamou: "Assim até eu!", a arte começou sua caminhada sem volta rumo ao precipício.
Quanto à literatura... há a falta de recursos e motivações para que os artistas ponham seus pequenos cerebrozinhos em funcionamento; como é bem sabido, situações adversas sempre contribuem, paradoxalmente, para o desenvolvimento artístico de uma nação. Mas vivemos numa era única na história da humanidade (por pior que esteja o Brasil), de imensa prosperidade e conforto, o que faz com que as pessoas de vida confortável, classe média, que são e sempre foram as que vão tentar sua sorte com a arte, não tenham muito sobre o que escrever - e acabem escrevendo sobre draminhas e afliçõezinhas do cotidiano, desperdiçando tolamente seus talentos, como têm feito os mais talentosos escritores da atualidade... apesar disso, ainda tenho esperança que a literatura perdure por um bom tempo, por ser das artes a que menos exige condições materiais para sua realização – um cérebro, um papel e uma caneta. A literatura é nossa última esperança.

Mais bárbaros que os criminosos
Domingo, 26 de agosto. Matéria sobre o monstruoso assassinato dos seis empresários e turistas sexuais portugueses em Fortaleza, cometido com requintes de crueldade por um patrício amigo (muy) deles e alguns capangas. Manchete da matéria? "A pau, pedra e bala". Notícias populares? Não, não, Veja mesmo.
Meu Deus, que tipo de pessoas trabalham para a soi-disant "revista de maior circulação do Brasil"?

O Rio de Janeiro continua engraçado...
O governador Anthony Crentinho, do RJ, ofereceu ajuda do governo e da polícia do Rio para o seqüestro de Patrícia Abravanel, filha de Senor, AKA Sívio Santos. Só pode ser brincadeira. O Rio oferecendo assessoria em assuntos de segurança pública! O que Tony propõe, enviar aquela fantástica “trupe” de policiais que resolveu de maneira tão brilhante aquele seqüestro do ônibus no Jardim Botânico? Falando sério, carioca prestando auxílio a alguém, só se for pra ajudar a passar bronzeador ou a abrir um coco pra tomar água...

Imprestável imprensa
Aliás, a cobertura dada pela imprensa ao seqüestro da filha de SS (e a todos os sequestros de um modo geral; ao contrário do que chefes de redação idiotas possam dizer, seqüestro não deve e não pode ser noticiado se a família e a polícia não o quiserem), e o comportamento dos patéticos e estúpidos repórteres, ávidos por um “furo” - gritando a qualquer um que aparecia na porta da casa, batendo-se e atropelando a linha de isolamento preparada para eles, destruindo o jardim da casa do apresentador - quando da “coletiva” dada por sua recém-liberada filha, da varanda de sua casa no Morumbi, só serviu para confirmar uma antiga suspeita minha (e principal motivação para que eu abandonasse o curso de jornalismo na PUC): os jornalistas só ficam abaixo dos políticos, e advogados no quesito “seres humanos mais desprezíveis”. Tão ali, logo ao lado dos policiais e dos seqüestradores.
Então é pra isso que servem quatro anos de faculdade? Para que o sujeito fique ali, empertigado e empolado, com seu terninho amarfanhado e seu microfonezinho na mão, e pergunte: “E aí, Silvio, o que você está sentindo?” Que profissãozinha ingrata, hein?


Rafael Azevedo
São Paulo, 31/8/2001


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