No chão em que você pisa com seu salto agulha | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 28/2/2008
No chão em que você pisa com seu salto agulha
Elisa Andrade Buzzo

+ de 5500 Acessos
+ 2 Comentário(s)


foto: Sissy Eiko

Nem Saint-Jacques, nem Saint-Sernin. A peregrinação em voga passa por centros comerciais e caminhos a céu aberto. É de um glorioso tilintar a revoada às compras no primeiro dia de soldes em Bordeaux.

Pois quando ouro banha as fachadas da cidade, você deve estar preparado para chorar em ver aquela peça ser levada por outras mãos, a angústia do botão único da calça querida não fechar, o vestido tubinho não passar nem pelo peito, nem pelo quadril; e rir, rir muito da patética aventura pelas araras de desconto enquanto mendigos reais ou falsos estendem suas latinhas, ou se ajoelham no mesmo chão em que você pisa com seu salto agulha.

No entanto, é com serenidade que os franceses se esbaldam nestas liquidações dignas de nome. Nada de 20% ou 30%. Fala-se em 50%, 70%. Só não espere que a Hermès ou a Sonia Rykiel entrem na onda da baciada...

Nesta cidade prepotente, preparado à base de vinho, casacos de pele e misto quente, você se reúne com suas amigas para as compras. Mal estala dois beijinhos. Touca de lã sintética na H&M, luvas de couro de porco na Camaie. O inverno já está terminando, mas melhor se prevenir e estocar, estocar, estocar.

Bonjour mesdames, c'est le premier jour des soldes, n'hesitez pas, mesdames, profitez...

Foi um 13 de janeiro que começou quente com a primeira remarcação de etiquetas. Lojas lotadas, guerra de cabides. Você repara que a estratégia adotada é comprar nos primeiros dias de soldes as melhores peças, embora mais caras, e deixar para depois a raspa do tacho... sabor beterraba.

Aliás, nada de shoppings. No máximo um centre commercial, St. Cristoly, Mériadeck... arremedos de shooping center sem praça de alimentação, mas voilà, très sympa.

Faites-vous plaisir, mesdames!

Nesta cidade nesga de sol, encimesmada em escadas labirínticas e romances presidenciais, você foge da mendicância como quem se arrepende da riqueza. Não tem certeza do que talvez seja apenas uma modalidade de vagabundagem francesa. A liquidação segue durante pouco mais de um mês, e a rue Saint-Catherine se esvazia na expectativa da terceira remarcação de etiquetas.

Lá, Nico, o gato, estende sua latinha enquanto o dono com pinta de holandês roda a manivela da caixa de música. Vez ou outra, o gato dorme entufado num cobertor azul bebê, ou mastiga uma comida desenlatada. Você aprende rapidamente a lógica das coisas e lhe dá umas moedas, enquanto acaria sua cabecinha peluda. E também reconhece que ele não é uma mercadoria, ainda que continue visitando as lojas de enlatados. Todos também à altura de suas mãos.

Se até o gato Nico, de raça pura e raríssima, se inquieta e, não fosse sua boa educação, sua patada acabaria num arranhão. Ele se esforça a mostrar simpatia, e você se pergunta que outra modalidade é essa em que se usa um gato quase amestrado para ganhar uns trocados.

Au bord de l'eau

Em dia translúcido, Bordeaux, que se envolta por vidro fosse aquática, Nico daria patadas homéricas nos humanos-peixes... os heurtoirs sairiam nadando, jóias saltariam dos cofres e virariam tesouros submarinos. Os inúmeros desenhos forjados em metal das sacadas derreteriam em linhas de algas rugosas.

Nada disso. A realidade aparente mostra que Nico e você vêem Bordeaux de baixo e só podem comprar em liquidações. A "nova coleção", soberana, empurra as míseras araras de desconto. Leves, sobretudos beges, saias floridas ou cáquis. Tendências ainda enrijecidas pelo frio.

Os dias continuam mais curtos e as noites mais longas, ainda que o sol reflita nas pedras claras, criando uma ilusão dourada. Sensação irreal, espetáculo diminuto e perecível.

As soldes acabam numa derradeira braderie. Um final de semana com direito aos descontos finais e muitos camelôs... chuva colorida de roupas, música envolvente escorrendo dos alto-falantes. Bordeaux, cidade de pedra e sem peito, de repente fica popular e brilhante. Vendedores de lojas metidas a besta expõem artigos em banquinhas. Outros usam até microfone para explicar as maravilhas de um cortador de batata, cenoura, tudo. Uma multidão à la Ladeira Porto Geral se aglomera verde e amarela. Uma outra esperança desponta. Você se sente em casa, mas certa aversão a tudo aquilo faz você entrar em ruas paralelas e se dispersar...

Agora, veja as ruas num domingo de manhã: elas cheiram a urina e cerveja vazia. Na segunda-feira, as árvores de Quinconces irão espetar os sonolentos ao trabalho. O rio brilhará num espreguiço de correntes gigantes.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 28/2/2008


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
29/2/2008
13h35min
Senti nesse texto uma outra França, tão verdadeira quanto poética, como deveria ser; a cidade francesa que a gente imagina timidamente, mas que raros estrangeiros têm a capacidade de ver, entender e narrar. Os sutis toques de humor, uma ironia muito fina e madura. Tudo o que faltou em Henry Miller, nas suas andanças em Paris mas, ao mesmo tempo, compactuando com a visão dele, no sentido de que é também uma visão em profundidade, que faz com que o cenário se mova e o narrador permaneça junto com o leitor, ensinando a forma ideal de se observar uma cidade, estrangeira, mas que se torna, pelo poder dessa mesma narrativa, algo familiar. O título é também um achado e, Elisa, que belíssima crônica.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
2/3/2008
20h20min
A descrição da crônica me pareceu expor sentimentos ambíguos em relação à França, mas foi apurada e bela.
[Leia outros Comentários de Luiza Amorim]
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