A Criação em tempos de Crise | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
75243 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Conto HAYEK, de Maurício Limeira, é selecionado em coletânea da Editora Persona
>>> Os Três Mosqueteiros - Um por Todos e Todos por Um
>>> Sesc 24 de Maio recebe o projeto Parlavratório - Conversas sobre escrita na arte
>>> Cia Caravana Tapioca faz 10 anos e comemora com programação gratuita
>>> Eugênio Lima dirige Cia O GRITO em novas intervenções urbanas
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
>>> A história de Chieko Aoki
>>> Uma história do Fogo de Chão
>>> BDRs, um guia
>>> Iggor Cavalera por André Barcinski
>>> Dave Brubeck Quartet 1964
>>> Conrado Hubner fala a Pedro Doria
Últimos Posts
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
>>> Indistinto
>>> Mais fácil? Talvez
>>> Riacho da cacimba
>>> Mimético
>>> Cinema: Curtíssimas terá estreia neste sábado (28)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Literatura e cinema na obra de Skármeta
>>> Literatura e cinema na obra de Skármeta
>>> A todos que passem por aqui
>>> João Paulo Cuenca e seu Corpo Presente
>>> Neruda, oportunista fantasiado de santo
>>> VTEX e Black & Decker sobre transformação digital
>>> Apresentação
>>> Fetiches de segunda mão
>>> Em busca do vampiro de Curitiba
>>> Millennials
Mais Recentes
>>> Marcas de Nascença de Nancy Huston pela L&Pm (2007)
>>> A Reportagem de Danillo Nunes pela do Autor (1980)
>>> Eu Fico Loko de Christian Figueiredo de Caldas pela Novas Paginas (2015)
>>> A Cidade de Melanie Wallace pela Benvira (2012)
>>> As Belas Coisas, Que é do Céu Contê-las de Dinaw Mengestu pela Nova Fronteira (2008)
>>> O Beijo das Sombras de Richelle Mead pela Rocco (2021)
>>> O Beijo das Sombras de Richelle Mead pela Rocco (2021)
>>> Pesadelos e Paisagens Noturnas - Vol.I de Stephen King pela Objetiva (2011)
>>> Temas de Psicologia Juridica de Leila Maria Torraca de Brito pela Relume Dumará (2005)
>>> Evangelho por Emmanuel - Comentários ao Evangelho Segundo Mateus de Francisco Cândido Xavier pela Feb (2015)
>>> A Casa do Califa de Tahir Shah pela Roça Nova (2008)
>>> Personagens da Boa Nova de Federação Espírita do Paraná pela Fep (2010)
>>> Personagens da Boa Nova de Federação Espírita do Paraná pela Fep (2010)
>>> Francisco - o Sol de Assis de Divaldo Franco e Cezar Braga Said pela Leal (2014)
>>> Salomé - o Encanto das Mulheres Que Surgem do Céu de Sandra Carneiro pela Vivaluz (2014)
>>> Eight early tantras of the great perfection - elixir ambrosia de Christopher wilkinson pela Christopher wilkinson (2016)
>>> O Homem Que Amava os Cachorros de Leonardo Padura pela Boitempo (2014)
>>> O fogo invisível: O segredo mais importante da humanidade está prestes a ser revelado de Javier Sierra pela Planeta (2018)
>>> Moreira da Silva: O último dos malandros de Alexandre Augusto pela Sonora (2013)
>>> O Bairro: Viva a Nossa Turma - Geografia e História de Aracy do R. Antunes; Maria de L. de A. Trindade pela Access (2013)
>>> Antes de Nascer o Mundo de Mia Couto pela Companhia das Letras (2016)
>>> Teogonia: A Origem dos Deuses- edição revisada e acrescida do original grego de Hesíodo pela Iluminuras (1995)
>>> Bíblia de Jerusalém - Média Encadernada de Deus e Vários autores pela Paulus (2004)
>>> Madame Bovary de Gustave Flaubert pela Abril Cultural (1979)
>>> Gente pequena também tem direitos de Malô Carvalho pela Autêntica (2012)
COLUNAS >>> Especial Crise

Quinta-feira, 19/2/2009
A Criação em tempos de Crise
Marcelo Spalding

+ de 4000 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Muito já se escreveu e foi dito, se escreverá e se dirá sobre a Crise Econômica Mundial, que parece realmente digna do banalizado termo. Queda nas bolsas, inadimplência, demissões, retração. Obama, de certa forma, já é um produto da crise, tanto sua eleição quanto a enorme expectativa gerada em torno dele. Assim como o desprestígio do antes queridinho Sarkozy na Europa, a confusão das eleições israelenses, a aceleração do nosso PAC. Até a demissão do Felipão pelo Chelsea tem alguma coisa a ver com a crise... Mas permitam-me esquecer, neste fórum de debates culturais, dos números, das bolsas que caem ou sobem, dos empregos perdidos e das empresas que se aproveitam da onda para demitir, enxugar. Quero me concentrar no processo criativo, na criação em tempos de crise.

Quantos contos não nasceram de uma perda?
Quantas músicas não surgiram de uma traição?
Quantos tratados não foram escritos por raiva, vingança?

Henry David Thoreau, o fundador do anarquismo, teria escrito A desobediência civil depois de ser preso por sonegação de impostos. Machado de Assis, o gênio brasileiro, escreveu seu melhor conto, O Alienista, e seu melhor romance, Memórias Póstumas de Brás Cubas, num período de grave debilidade física. Vinicius de Moraes, o poeta do "eterno enquanto dure", casou e descasou diversas vezes para viver (ou para compor?) algumas das mais belas canções da nossa música. E se assim o é com os gênios, que dirá conosco, os mortais.

Caio Fernando Abreu já dizia que escrever é vomitar, vomitar aquilo que há de mais oculto em nosso interior, vomitar fantasmas, medos, iras. Clarice Lispector, em sua derradeira e emocionante entrevista, conta que quando não está escrevendo, está morta, vazia. Porque o ato da criação é, em geral, muito particular, muito inspiração, sentimento, ainda que cada vez mais se exija técnica mesmo dos não-gênios, como nós. Um bom texto, uma boa música, não é apenas uma construção tecnicamente perfeita, é também aquela pitada da nossa existência que compartilhamos, que deixamos naquela história, naquele poema, naquela canção. É a dor que o poeta sente, ou não sente, como diria Pessoa, que dá alma à criação, que a diferencia de uma tese de doutorado, de um processo criminal, de uma notícia de jornal. Criar é se expor, é transbordar-se, e nada melhor que um momento de crise para criar.

Porque a crise, para os jornais, é a bolsa que cai, a economia que enfraquece, o preço do filé que diminui pela menor procura, o preço do petróleo que cai porque menos gente poderá comprar carro, os milhares de empregos perdidos e a frase mal dita pelo presidente. Mas no dia a dia a crise é uma criança começando o ano letivo em escola pública porque faltou dinheiro para a particular, a esposa em vias de pedir o divórcio para o marido que agora passa as tardes em casa, a vovó que fez um empréstimo consignado para ajudar o filho na prestação do carro e agora não sabe como pagar o remédio que subiu de novo. Crise gera dor. E inegavelmente a dor é uma das mais frutíferas musas inspiradoras.

Evidentemente não se está aqui propondo que uma pessoa com dificuldades econômicas, porque a crise tão anunciada é eminentemente econômica, torne-se menos feliz. Nada disso. As realidades individuais são múltiplas e cada qual terá uma reação às dificuldades, muitos inclusive encontrando oportunidades em meio a crise que os deixarão ricos (e à mercê da próxima crise), outros cientes de que crise é momento de aprendizado. Mas não podemos negar que o planeta como um todo, se fosse o planeta um ser, estaria agora mais triste, abatido, cansado, deprimido. Assim como a criança, a esposa ou a senhora questionam dificuldades que veem diante de si, nosso planeta agora questiona suas escolhas, seus líderes, seus valores.

Se serve de consolo, assim como é no momento de crise que o artista faz sua melhor obra, é em períodos de crise que a sociedade produz suas melhores narrativas. Os doutos tentam provar isso nos fazendo lembrar que o melhor romance do século XIX é o francês (país que enfrentara constantes revoluções), ou o russo (país com graves dificuldades econômicas e sociais), e do século XX, o latino-americano (continente em busca de identidade e alguma autonomia). Sem essa pretensão universalista, vou buscar meus exemplos aqui na estante, e três belos romances caem nas minhas mãos como testemunhos de momentos de crise, crise social canalizada pelas mãos do artista.

O Vermelho e o Negro, de Stendhal, escrito em 1830, representa na ambição e nos amores de Julien Sorel toda a tensão de uma sociedade dividida, desigual e tensa, que custara tantas coroas e cabeças, mandatos e vidas no coração da Europa. Sob este pano de fundo político-social, entretanto, Stendhal constrói uma das narrativas mais interessantes do romance realista, abrindo caminho, de certa forma, para o grande Baudellaire (inevitável lembrar, aqui, do poema em prosa "Os olhos dos pobres") e para a obra-prima que Flaubert lançaria dezoito anos mais tarde, Madame Bovary.

Saga, de Erico Verissimo, é um romance publicado em 1940, abertamente marcado pela Guerra Civil Espanhola e que de certa forma antecipa a tragédia que seria a Segunda Grande Guerra. Mesclando cenas de guerra com cenas do cotidiano porto-alegrense, Erico abre caminho para o que seria o mais antológico romance do Rio Grande do Sul, O Tempo e o Vento, uma reconstituição histórica que também serve de reflexão sobre os acontecimentos políticos e sociais do século XX.

Mais recente e de uma sensibilidade única, Extremamente alto & Incrivelmente perto, do nova-iorquino Jonathan Safran Foer, é outro romance que de uma tragédia social, de uma verdadeira crise sem precedentes, tira uma história particular e universal. No livro, o menino Oskar perde o pai tragicamente, no atentatado de 11 de Setembro, e acha no bolso de um casaco do pai uma chave, iniciando uma busca monumental pela fechadura que aquela chave abriria. Mais do que a busca pela fechadura, aos poucos percebemos que a busca de Oskar é por novo sentido na vida, num tempo de perdas e violências. Não apenas para Oskar.

Por estas e por outras é que eu talvez prefira ler sobre a crise na literatura, no cinema, na música, e não necessariamente nos jornais. O mundo não vai acabar, as bolsas, as cidades e os países não vão quebrar, as empresas talvez fechem, mas outras vão abrir e a roda vai continuar girando. Mas com a dor, ah, com a dor não se conseguirá mesmo acabar. Haja a riqueza que houver. E é para amenizar a dor, seja ela fruto de uma crise mundial ou particular, que a arte continuará existindo.


Marcelo Spalding
Porto Alegre, 19/2/2009


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A pintura do caos, de Kate Manhães de Jardel Dias Cavalcanti
02. Melhores exposições de 2010 de Jardel Dias Cavalcanti
03. Cigarro, apenas um substituto da masturbação? de Jardel Dias Cavalcanti
04. Legião fala a língua dos outros de Ram Rajagopal
05. Conselhos Místicos Ao Jovem Escritor de Ricardo de Mattos


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2009
01. Quanto custa rechear seu Currículo Lattes - 5/3/2009
02. O melhor da década na literatura brasileira: prosa - 31/12/2009
03. Literatura para quê? - 17/12/2009
04. Literatura e interatividade: os ciberpoemas - 10/9/2009
05. Era uma vez o conto de fadas - 2/4/2009


Mais Especial Crise
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/2/2009
23h39min
Como notavelmente já afirmara Walter Benjamin (em 1933!), a humanidade, de uma forma bárbara, abandonou as peças do patrimônio cultural pela moeda míúda do "atual". Quiçá, Marcelo, diante da crise econômica, a humanidade se prepara para sobreviver à cultura. Abraços do Sílvio. Campinas, é verão de 2009.
[Leia outros Comentários de Sílvio Medeiros]
20/2/2009
08h27min
É preciso esquecer a crise e criar, sem tempo pra interomper o processo de criação.
[Leia outros Comentários de manoel messias perei]
5/3/2009
20h50min
Acho que é por aí, sim, que muita coisa legal acontece... sou um pouco mais velha do que você, convivi - sendo mais jovem e menos engajada - com as energias de criação de incríveis artistas nos longos anos de ditadura no Brasil e aprendi muito. "Pasquim", Henfil, Millôr, letras e melodias, textos e espetáculos teatrais, Ferreira Gullar, uma overdose: contribuição inestimável, amigo ;-)
[Leia outros Comentários de Gisele Lemper]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O Leitor de Almas
Paul Harper
Paralela
(2012)
+ frete grátis



Psicologia do Desenvolvimento
Ercília Maria Angeli Teixeira de Paula e Outro
Iesde
(2010)



Casamento , Término & Reconstrução - 8ª Ed - Revista e Atualizada
Maria Tereza Maldonado
Integrare
(2009)



Febem, Família e Identidade - o Lugar do Outro - 1ª Edição
Isabel da Silva Kahn Marin
Escuta
(1999)



O Morador de Ipanema e Outros Contos Cariocas
Elieser e Borba
Do Autor
(2014)



O Poço do Calabouço
Carlos Nejar
Record
(1983)



Ven Espiritu Santo Renueva Toda La Creacion
Emilio Castro
La Aurora
(1990)



Cidade Dos Ossos - Os Instrumentos Mortais - Vol. 1
Clare,Cassandra
Galera
(2013)



@ pra Ser Feliz
Lisete Frohlich
Sermais
(2016)



Diário de Zuma
Tiago de Melo Andrade
Ao Livro Técnico
(2004)





busca | avançada
75243 visitas/dia
2,2 milhões/mês