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COLUNAS

Segunda-feira, 13/4/2009
O Gabinete do Dr. Caligari
Gian Danton
+ de 11200 Acessos

Recentemente, o grupo DOMO lançou em banca a coleção de DVDs Clássicos do Terror. No primeiro número, tivemos duas obras-primas do expressionismo alemão: Nosferatu, uma sinfonia de horror e O Gabinete do Dr. Caligari.

Pouco conhecido no Brasil, O Gabinete do Dr. Caligari é uma das mais importantes obras do cinema mundial. Antes dele, o cinema era diversão das classes pobres, algo a ser totalmente ignorado pelas camadas mais intelectualizadas da população. Ao definir uma nova relação entre o cinema comercial e as vanguardas artísticas, Caligari chamou atenção de todos aqueles que até então desprezavam essa nova linguagem. Para a Alemanha, a importância foi ainda maior. Depois da I Guerra Mundial, o cinema germânico enfrentava um bloqueio cultural das outras nações. Foi Caligari que rompeu esse bloqueio e abriu caminho para grandes cineastas, como Fritz Lang conquistarem fama internacional.

A origem do filme foi o roteiro escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer. Janowitz nasceu em Podebrand, Boêmia, em 1890 e passou a infância em praga. Talento precoce, ele era escritor e crítico de teatro. Muito cedo travou conhecimento com o expressionismo, colaborando com a revista Arkadia, de Max Brod. Em 1914 ele alistou-se como voluntário no exército, chegando ao posto de capitão. Mas essa experiência só contribuiu para lhe insuflar uma feroz aversão à guerra. Em 1918 foi apresentado por um amigo de infância a Carl Mayer. Este era filho de um homem rico que perdera toda a fortuna no jogo e despejou os filhos na rua, com uma pequena quantia.

Quando a guerra eclodiu, Mayer começou uma batalha com o psiquiatra do exército, pois não queria lutar numa guerra que considerava criminalmente insana. Para não lutar, ele argumentava que era mentalmente desarranjado. Mesmo assim, o psicólogo tentou de todas as formas levá-lo a lutar. Mesmo sendo dispensado por causa de uma lesão no pé, a má experiência o marcou profundamente. O psiquiatra representava a pressão autoritária que era aplicada sobre os jovens alemães e serviria de modelo para Caligari.

Em 1918, Mayer apresentou Janowitz à atriz Gilda Langer, que serviria de inspiração para personagem Jane. Gilda sugeriu que os dois trabalhassem juntos num roteiro cinematográfico, que seria estrelado por ela. Na mesma época eles consultaram uma cartomante que predisse que Janowitz voltaria vivo da guerra, mas que Gilda morreria. As duas previsões se realizaram, mais um acontecimento que teria influência sobre a elaboração do roteiro de Caligari.

Os dois escritores começaram a trabalhar no texto em 1918. A história partiria de duas premissas: 1) a atmosfera de mistério de Praga, cidade em que Janowitz cresceu; 2) um incidente que este observara em uma feira.

O roteirista estava em uma feira em Holstenwal quando viu uma jovem muito bonita e se apaixonou por ela, seguindo-a. Quando ela entrou num bosque, ele acabou perdendo-a de vista, mas não antes de ver que ela era seguida por um burguês. No dia seguinte, leu no jornal que a jovem havia sido morta. Ao comparecer ao seu enterro, viu o burguês escondendo-se atrás de uma coluna. Quando o viu, o homem fugiu. Era o assassino. O personagem Cesare teria sido inspirado num espetáculo assistido em Berlin pela dupla, no qual um homem hipnotizado demonstrava extrema força e fazia previsões sobre o futuro de pessoas da platéia.

Esses dois eventos montaram a espinha dorsal do texto. Mas faltava um nome para o vilão da história. Este surgiu das páginas de um livro raro de Stendhal, no qual ele afirmava ter conhecido um oficial italiano de nome Caligari.

O roteiro contava a história de um hipnotizador, Caligari, que comete vários crimes usando para isso o sonâmbulo Cesare. Mas Cesare apaixona-se por uma de suas vítimas, Jane, e morre por conta disso. No final, descobria-se que Caligari era o diretor de um hospital psiquiátrico, revelando-se assim a face ditatorial e perniciosa da autoridade.

Os dois tinham pressa de vender o roteiro, pois estavam sem dinheiro. A situação era tão ruim que eles tiveram de empenhar suas cigarreiras de prata para poder comer.

Por intermédio do cineasta Fritz Lang, Janowitz conhecera Erich Pommer, chefe de produção da produtora independente Decla Bioscop. Janowitz e Mayer bateram à sua porta e resistiram a todas as tentativas que este fez para se livrar deles. Como não teve êxito, Pommer pediu que eles deixassem o roteiro com ele. Os dois recusaram, insistindo para que o texto fosse lido ali mesmo, por Mayer.

Pommer ficou tão impressionado que decidiu assinar um contrato na hora. Os dois roteiristas tinham decidido que o preço seria 10 mil marcos, mas acabaram aceitando quatro mil. Os dois estavam entusiasmados com as qualidades estéticas da história, mas o produtor ficou mais interessado no fato de que a produção seria barata e chamaria atenção por seu ar gótico.

Fritz Lang (Metropolis) foi o primeiro diretor escalado para o projeto, e, de fato, chegou a trabalhar numa segunda versão do roteiro, mas logo precisou abandonar o Caligari para se dedicar à segunda parte de seu seriado Die Spinnen. Robert Wiene, cujo roteiro para Satanás, de Murnau, já havia demonstrado uma predileção para o fantástico, assumiu a direção.

Se por um lado o produtor via em Caligari uma produção barata com grande chance de se tornar um sucesso, por outro incomodava-se com o fato do filme ser uma denúncia da autoridade. Assim, ele encomendou uma mudança no roteiro. A solução encontrada foi colocar uma moldura, na qual o personagem Francis (namorado de Jane) aparece contando a história para um homem. No final do filme, voltamos à moldura e se revela que o narrador na verdade é um louco. Essa mudança foi feita por Fritz Lang, pouco antes deste abandonar o projeto. Os roteiristas não gostaram da alteração, que exaltava quem deveria denunciar (a autoridade, simbolizada por Caligari) e condenava o seu antagonista como um demente. Eles protestaram abertamente e chegaram a orientar seus advogados a tomar as medidas cabíveis.

Essa moldura é um dos aspectos mais discutidos e criticados em Caligari. O historiador Kracauer, no livro De Caligari a Hitler, afirmou que ela deformou completamente o sentido do roteiro. Mas muitos autores chamaram a atenção para o fato de que os cenários deformados, símbolos da loucura, não voltam ao normal ao se revelar que Francis é louco. Falha da produção ou não, o fato é que isso dá abertura para outras leituras, entre elas a de que Caligari é, de fato, um tirano. Além disso, a moldura, ao invés de acomodar a o espectador, incomoda-o, pois este perde a principal referência de uma história, o fato do narrador estar contando uma história verdadeira. Em uma história, o narrador é a autoridade em quem se deve acreditar e o narrador louco de Caligari perturba as certezas do receptor. Nesse sentido, a moldura é absolutamente revolucionária ao mostrar uma realidade imaginária. É surpreendente que, em 1919, ainda na aurora da criação da linguagem cinematográfica, um filme mostrasse não um mundo objetivo, mas uma realidade subjetiva. Além disso, o roteiro inovava ao apresentar pelo menos duas estratégias narrativas totalmente inovadoras. A moldura apresenta um insert imaginativo que só se tornou comum muito recentemente. Além disso, mesmo sem a moldura, o filme apresenta um flashback, na cena em que vemos a chegada de Cesare ao hospital e a alegria de Caligari ao recebê-lo. Essa junção de estratégias narrativas cria uma história que foge completamente da narrativa cinematográfica da época.

Tal estratégia revolucionária só poderia acontecer em um filme expressionista e, nesse sentido, a atuação dos atores, cenários e até as roupas são essenciais. Esses elementos em conjunto fizeram com que o filme se transformasse numa pintura expressionista em movimento.

Os cenários pintados em pano e madeira criavam um clima onírico de pesadelo, colocando em prática a ideia expressionista de ultrapassar os limites de realidade, tornando-se expressão pura da subjetividade psicológica e emocional.

Depois do sucesso do filme, todos quiseram ser autores da proposta, até mesmo o produtor, que, segundo a maioria dos relatos, havia sido contra os cenários pintados. Janowitz sempre afirmou que os cenários expressionistas faziam parte da proposta do filme desde o roteiro. Outros creditam a ideia dos cenários ao diretor, e outros, finalmente, ao cenarista-chefe da Decla, Herman Warm.

A quantidade de supostos pais mostra a importância do cenário para esse filme clássico e uma mudança de paradigma: até então os cenários eram apenas um enfeite sem importância narrativa. Caligari mostrou que os cenários eram parte da linguagem do cinema e podiam ser usados para ajudar a contar a história.

Outro fator que salta aos olhos de um observador mais atento é a interpretação expressionista dos atores, em especial dos personagens principais, Caligari (Werner Krauss) e Cesare (Conrad Veidt). Os dois já tinham aparecido no palco juntos no drama expressionista Seeschlacht, dirigido por Reinhard Goering.

Quando chegou para o primeiro dia de filmagem, Krauss se reuniu com os atores e disse: "Temos de usar outra maquiagem. Olhem os cenários!". Assim, ele pediu ao maquiador que fizesse uma linha grossa debaixo de cada olho.

Havia uma loja na cidade, num porão, onde vendiam roupas velhas. Krauss comprou um cobre-nuca e uma cartola, além de uma bengala com punho de marfim, tudo fora de moda e estranho.

Os papéis secundários também revelam detalhes expressionistas, como o secretário da Câmara Municipal em seu tamborete alto, ou os guardas que se movimentam sempre em estranha simetria. Os criados de Jane, ao acordar com seus gritos na cena em que ela é raptada por Cesare, também revelam uma perfeita sincronização, acordando e levantando ao mesmo tempo (um detalhe curioso é que as camas dos dois não estão paralelas, mas inclinadas uma na direção da outra, de forma a destacar o efeito estranho).

Mesmo os personagens mais "certinhos", como Alan (Hans-Heinz Von Twardowski) e Francis (Friedrich Feher) revelam aspectos curiosos de interpretação. Twardowski interpretou seu personagem com rosto estranho e atormentando e Feher fazia movimentos amplos e angulares.

A influência de Caligari pode ser vista até o dias de hoje, em filmes como os de Tim Burton e nas histórias em quadrinhos de terror.

Nota do Editor
Gian Danton é autor do blog Ideias de Jeca-tatu.


Gian Danton
Macapá, 13/4/2009

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