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Segunda-feira, 14/2/2011
Felicidade
Daniel Bushatsky

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+ 1 Comentário(s)


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Era um belo dia. De cinema. Pessoas na rua. Ônibus no horário. Bondes idem. Asfalto perfeito. Compras em dia. Crianças na escola. Marido no trabalho. Era um belo dia.

Mas algo a incomodava. Faltava um dia para a viagem do marido. Já havia repassado a lista de compras, limpado a casa, dado comida ao cachorro e ido à academia. Ocorreu-lhe quanto tempo passava na ginástica todos os dias, as conversas fúteis com as amigas atletas e a pressão social pela magreza. Quarenta anos nesta rotina, com felicidades e tristezas esperadas para uma senhora bem casada, sem grandes ambições, com filhos crescidos e bem-sucedidos e netos de comercial de televisão.

Seu principal passa tempo era a farmácia. Há lugar melhor para saber da evolução da indústria e da felicidade e tristeza das pessoas. Um lugar completo para matar a angústia e tranquilizar a mente.

Enfim, uma vida sem grandes percalços, naquele país neutro, chamado Suíça.

Seu marido, gerente geral de uma empresa distribuidora de chocolate, viajava uma vez por mês para a matriz, a 1 hora de trem de Zurique, sempre na primeira terça-feira do mês. Era amigo e afetuoso, mas já não praticavam outro exercício que não a comida farta e vinho francês há tempos.

Carinhoso, ele sempre elogiava sua forma física, seu desprendimento de roupas e jóias caras e sua especial atenção aos filhos e netos.

Mal poderia ele imaginar o segredo de toda primeira terça do mês.

Nestes dias ela se arruma por inteiro. Coloca um longo vestido preto, um casaco de pele, se muito frio, seu melhor colar, relógio e pega do armário sua única bolsa de marca. Ficava pronta exatamente às 10h30, mesmo horário que o marido ligava avisando que a viagem de trem não atrasara, tinha sido tranquila e que ele chegava, provavelmente, às 18h30 para jantar. Era sempre nesta ordem, sempre estas frases e sempre este horário.

Saía de casa, pegava o bonde para o centro e passeava pela rua principal. Olhava as novidades e consumia as vitrines. Pensava se o marido ficaria muito triste com o que ela fazia naquelas terças: sonhar com um mundo que não tinha. Ou se ficaria triste se ela entrasse em uma daquelas luxuosas lojas e se desse um presente. Não qualquer presente, mas o presente, algo que ele, comedido com dinheiro, para dizer o mínimo, nunca lhe dera.

Ela apostava que as pessoas reparavam sua elegância ultrapassada e pensavam que aquele colar deveria ser bonito em alguma época.

Mas ela não podia atrasar. Sempre que se via distraída, apressava o passo, colocava a mão na bolsa para conferir as moedas e chegava ao lugar combinado, uma loja de doces chamada Sprüngli. Ela tinha dois andares. No primeiro, vários chocolates a preços estrondosos e outras guloseimas que fariam qualquer terráqueo ficar de joelhos.

No segundo andar, um salão de madeira nobre, mesas pequenas e garçonetes simpáticas e orgulhosas de trabalharem na melhor doceria suíça, várias vezes campeã de concursos internacionais, cujo objetivo era atestar que o melhor chocolate suíço era realmente suíço.

Pedia uma mesa para dois e cumprimentava as garçonetes, que a conheciam e no íntimo a invejavam. Uma mulher daquela idade, fazer o que ela fazia, não era fácil, pensavam, sem certeza e sem convicções.

Para ela era um sonho estar lá. Quando pequena, os pais controlavam o chocolate e outras coisas mais, e, quando grande, as amigas controlavam o chocolate e outras coisas mais.

Sentava, olhava para o lado, colocava a bolsa na sua frente e pedia o cardápio. Já sabia o que queria, mas não custava ver se havia alguma novidade no cardápio que não mudava há mais de 30 anos.

Escolheu um sanduíche de frango, com molho tartar e batata rosti. Para beber, uma Coca-Cola Light, para não abusar.

Nunca conseguia comer sem achar que a estavam observando. Nunca achava que deveria estar fazendo aquilo. E se o marido chegasse antes? E se ela não conseguisse disfarçar o prazer daquele dia sem responsabilidade, sem ninguém dizendo o que ela deveria fazer ou as amigas atletas contando calorias, naqueles almoços chatos de toda quinta-feira?

Pior: e se ela encontrasse com o médico dela (e do marido)? Que bronca. Que vergonha. Que decepção. Como ela poderia estar comendo tudo aquilo?

Mas, de repente, ele chegava. Devagar, sendo invejado por todos, mas principalmente pelas mulheres de 30 anos, que o olhavam cobiçando, ciumentas daquela dádiva inalcançável e proibida. Como ela ousava?

Na mesa, só dava ele. Grande e bem decorado, não lhe faltava atributos para dar felicidade a quem quer que seja. Era o momento de decidir trair ou não. De se dar felicidade ou não.

E ela, mesmo sabendo da contravenção, não resistia... pegava uma pequena colher, abria um sorriso encabulado, não fitava ninguém para ninguém lhe descobrir, e inseria, com cuidado, a colher naquele mousse, e deliciava-se com a qualidade do chocolate por um bom tempo.

Recuperada, sorria com ar alegre de criança aprontando e decidia-se novamente a fazer aquela arte.

Era provar ao mundo que eles estavam errados e que ter um segredo não só não faz mal a ninguém, como é o que a deixava viva!

Pegava as moedas, sem contar, e pagava a conta. Levantava e às 18h30 estava pronta para dar o jantar ao marido e a sonhar com sua próxima viagem.


Daniel Bushatsky
São Paulo, 14/2/2011


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/2/2011
10h24min
Aqui no Brasil também já está difícil comer sem culpa um belo mousse de chocolate (ontem mesmo, dividi com mais duas pessoas para ser aceitável). Ou beber alguma coisa fora de casa e dirigir. Sem falar em fumar. Presentear-se ainda é tolerável. Até quando?
[Leia outros Comentários de José Frid]
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