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Quarta-feira, 18/5/2011
Thor
Guilherme Pontes Coelho

+ de 4100 Acessos

Tudo parecia estar a favor de Thor, o filme do herói escandinavo da Marvel. Seria a história do popular deus quadrinesco contada na era do cinema em três dimensões ― a mais nova joia do entretenimento shopping center.

Pelo que percebia nos trailers, o filme seria sobre a família real de Asgard, Thor, Loki e Odin. E se falamos de realeza, mesmo que alienígena (e não divina, você verá por quê), alguém com conhecimento shakespeareano, familiarizado com Elsinore e Dunsinane, seria bem-vindo para dirigir a película. Este alguém é Kenneth Branagh. Apesar dos filmes medonhos que Branagh fez na América, eu acreditava que ele faria um bom trabalho com Thor. Ele poderia ter um crédito eterno comigo por ter feito aquele Henrique V de 1989 e o Hamlet de 1996. O universo de Thor, o herói da Marvel, é rico e, em teoria, é um prato cheio para um Branagh dispondo de um orçamento astronômico.

Também me animava a presença de J. Michael Straczynski entre os roteiristas. Straczynski escreveu dois dos meus quadrinhos prediletos, Rising Stars e Poder/Esquadrão Supremo. Ele e Mark Protosevich escreveram a story de Thor, o filme. Protosevich roteirizou A Cela, um filme interessante, muito bom para ser ruim, mediano demais para ser alguma coisa, mas, enfim, interessante. Um story para cinema a cargo destes dois escritores teria tudo para ser, no mínimo, atraente.

O roteiro de Thor propriamente foi escrito por Don Payne, roteirista de O Quarteto Fantástico e o Sufista Prateado, e Zack Stentz e Ashley Miller, ambos roteiristas e produtores das séries Fringe e Exterminador do Futuro: As Crônicas de Sarah Connor. Nenhum deles escritor excepcional, mas muito bem escolados em ação, super-heróis, tramas instigantes, mistérios. Os cinco escritores envolvidos prometiam alguma qualidade ao filme. Eu faço parte da quase extinta categoria de cinéfilos que acredita na importância de um roteiro bem escrito.

Pois bem, Thor é um filme de super-herói. Não qualquer super-herói. Falamos de Thor. Escolher um ator para ele, alguém que lhe desse cara, torso e cabelos loiros, seria crucial. Seria um ator de carne e osso, e não uma animação, para um herói desmascarado. Seria catastrófico para Thor emular a insipidez e a pusilanimidade de Brandon Routh em Superman - O Retorno (dos rivais Warner/DC) ou a angústia e a fragilidade de Eric Bana no Hulk de Ang Lee (gosto deste filme). Eu não sei quem esteve envolvido diretamente no casting, nem quanto Branagh influenciou nas escolhas dos atores, mas Chris Hemsworth nasceu para ser o Thor da Marvel.

Os demais atores do elenco não fazem feio, mas também não brilham. Talvez Tom Hiddleston, a quem eu não conhecia, mereça um cafuné e um pirulito pelo Loki que incorporou. Foi divertido vê-lo exibindo aquele tanto de momices afetadas e as estampando, sem o menor pudor, na cara do seu personagem ardiloso e dissimulado. Achei essa atuação muito apropriada e quero acreditar que Branagh teve papel decisivo nisso. Como é de se esperar, o capitalizante Anthony Hopkins fez um trabalho eficiente como Odin. A beleza de Rene Russo foi perfeita para Friga. Já a oscarizada e trabalhadora Natalie Portman, depois deste filme, deveria pensar se tem mesmo traquejo para papéis light, desses sem dores ou conflitos existenciais. O personagem de Stellan Skarsgard foi um mero remendo. O "núcleo" dele precisava de um homem, só isso. E Colm Feore serviu bem como modelo aos jotuns digitalizados, embora o crédito seja dos animadores. (Produziram excelentes efeitos. A concepção arquitetônica de Asgard ficou maravilhosa).

Em suma, Thor tinha tudo para ser um bom filme de super-heróis. Personagens, elenco, roteiristas, diretor. Cenários, efeitos, figurinos. Mas é um filme ruim.

Thor não é medonho como são Demolidor, Elektra e Wolverine - Origem, mas é ruim. Aparentemente, deve ter sofrido uma série de mutilações no roteiro para agradar a produtores (aquele lugar-comum de sempre). Também parece ter sido submetido àqueles testes de audiência para se adequar ao paladar do cinéfilo pipoca-e-refrigerante. O roteiro é mais atabalhoado que o de G.I. Joe e é cheio de falhas, como o primeiro atentado dos jotuns, que é extremamente mal explicado no decorrer da narrativa. Algumas cenas de ação são sofríveis e desnecessárias, como a briga na lama de Thor contra um militar, com câmera lenta e trilha apoteótica, uma cena digna de Elektra. O próprio Thor se comporta como um retardado enquanto está na Terra: se ele sabe que está na Terra, por que se comporta como se não estivesse ou como se não soubesse onde está?

Resposta: porque o filme foi feito para quem acha Friends engraçado (muita gente). Rechearam o filme de piadas de sitcom, muitas delas óbvias. Quase todas. Como aquelas de The New Adventures of Old Christine. Exceto pela piadinha que os agentes da S.H.I.E.L.D. fazem sobre o grupinho que vem resgatar Thor no interior do Novo México, todas as demais piadas do filme só ficaram adequadas na boca da personagem de Kat Dennings, a estagiária Darcy.

Achei interessante uma fala do personagem Fandral, na qual ficava subentendido o quão bobos são os terráqueos aos olhos dos asgardianos, porque bastava lançar um raio sobre eles "para eles nos tratar como deuses". (A propósito, Thor, na Terra, se comporta como Joey Tribbiani). No universo do filme, terráqueos, mortais e humanos são a mesma coisa. Nós somos mesmo. Mas isto sugere o seguinte: Asgard e seus habitantes são antes alienígenas que divindades.

Dependendo do seu credo e do que você acha dos geóglifos de Nasca, deuses e alienígenas podem ser a mesma coisa. O próprio Thor tenta explicar a Jane (Portman) que ciência e magia são a mesma coisa. Mas o interessante nessa fala de Fandral, que revela a concepção do universo da película, é que ela isenta o filme de algumas escolhas de elenco. Os personagens Heimdall e Hogun são interpretados, respectivamente, por Idris Elba, um negro, e Tadanobu Asado, um asiático. Estas escolhas motivaram manifestações de conservadores norte-americanos contra o filme, por terem feito um negro personificar um deus nórdico. O argumento seria válido. Seria correto se houvesse manifestações contra um Oxóssi interpretado por Brad Pitt, ou um Ares/Marte interpretado por Lou Diamond Phillips. Estas divindades são a própria etnia a que estão ligadas.

Contudo, Thor tem uma Asgard multirracial. Não me atrai muito os critérios políticos que embasaram esta escolha, mas o técnico. Os asgardeanos do filme são alienígenas e a mitologia nórdica usada no filme é não é um retrato fiel, mas apenas inspirativo. Na verdade, nem nos quadrinhos seria um retrato fiel, porque Tór (assim mesmo, a grafia portuguesa do deus nórdico, não do personagem da Marvel), o autêntico deus do trovão, nunca se juntou a gente como Tony Stark para conversar bobagem, até porque Tór não saberia falar inglês. Este filme é sobre Thor, o herói escandinavo da Marvel, e não Tór, o deus da mitologia escandinava.

Enfim, deus ou herói, eu esperava um bom entretenimento quando fui ao cinema assistir Thor. Sabia que não assistiria a um bom filme com super-herói, como são os filmes recentes da franquia Batman, mas esperava um bom filme de super-herói, como Homem-de-Ferro. Não foi dessa vez.


Guilherme Pontes Coelho
Águas Claras/Brasília, 18/5/2011


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