A última discoteca básica | Wellington Machado | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 21/6/2011
A última discoteca básica
Wellington Machado
+ de 5100 Acessos

Aperto o play no aparelho de som e o Hammon Organ começa lentamente a embalar o blues arrastado "Come rain or come shine". Em seguida, entram as guitarras de B.B.King e Eric Clapton, sucessivamente. E na mesma ordem, começam a cantar. Escolho a música como "fundo de texto" e inspiração para escrever sobre minha discoteca básica, mesmo sem ser um estudioso ou teórico da música. A palavra "discoteca" remete a disco - de vinil ou cd. As novas mídias substituíram o objeto disco por arquivos digitais, muitos deles de músicas avulsas. Estamos virando uma página na história da música. O escritor americano Jonathan Franzen, autor do romance Liberdade, fez o diagnóstico em entrevista concedida à Lúcia Guimarães: "o arquivo mp3 transformou completamente o uso cultural da música(...) fez dela uma espécie de goma de mascar e também um tipo de droga, muito longe de uma experiência singular e coerente (...) quem ouve um álbum completo hoje em dia?". Falei aqui nessa perda de unidade conceitual em um texto anterior. Talvez escritos como este (discoteca básica) percam sua função; possivelmente falaremos de coletâneas. Um amigo mais radical afirma que a música "acabou" no fim dos anos 70. Mas vamos aos discos.

Minha discoteca é eclética e extensa. Dou graças a alguma divindade por ter crescido ouvindo os discos do meu tio Daniel. Aliás, sou grato a dois tios próximos pelas minhas preferências culturais como adulto. O tio Paulo me fez gostar de literatura (falarei dele um dia); e meu tio Daniel me encurtou os caminhos em matéria de música. Cresci ouvindo Bob Dylan, Simon and Garfunkel, Creedence, Tina Turner, Genesis, Chico, Caetano, Gil.

Começo com o blues. Sou do blues. Ando com a música "Come rain ou come shine" no meu sangue. Convido o leitor a buscá-la na internet e ouvi-la pelo menos uma centena de vezes. Ela é só uma das várias músicas do monumental Riding with the king(2000), uma espécie de jam session com B.B.King e Eric Clapton. Esse disco tem uma curiosidade: o Eric, de forma elegante, estende o tapete vermelho para B.B.King: ser coadjuvante de um mito já lhe basta. A própria capa do disco estampa o guitarrista dirigindo um conversível com o "chefe" King no banco de trás. Interessante que, nas gravações, Clapton canta como se estivesse no fundo do estúdio (sua voz é mais suave). Tamanha reverência é de emocionar. Meu outro clássico, também do Clapton, é o From the cradle(1994), um disco de blues "puro sangue", com uma guitarra impecável, que cai bem em um pub esfumaçado às três da madrugada.

Ouço diariamente música clássica - inseparável companheira nas minhas leituras. Li O vermelho e o negro (Stendhal) ouvindo os Concertos 1, 2, 3 e a Paixão segundo São Mateus, de Bach. Não sei explicar o que me levou a ler Dante ao som das Quatro estações, de Vivaldi. Mas sei justamente o que me levou a venerar Haendel: o filme "Anticristo", de Lars Von Trier. Em música clássica, fico no básico. Guio-me pela beleza.

Em jazz, não há como não começar por Kind of blue(1959), de Miles Davis. Se Deus existe Ele está ali, no encontro perfeito entre som e silêncio. Sou do jazz. Aperto o play e o piano de nada menos que Bill Evans anuncia o trumpete de Davis, que reveza com nada menos que John Coltrane em "So what". Ponto. Para acompanhar um jantar, não abro mão do Duke Ellington & John Coltrane - The new wave of jazz on Impulse(1962) e do Oscar Peterson plays the Cole Porter song book(1959). Jazz é trilha sonora pra qualquer ambiente. Não sei falar tecnicamente de música, só sei que meu tio Daniel não escutava música sertaneja; curto os discos que me foram entrando pelos poros e não sei até que ponto eles são bons. Transpiro "Come rain or come shine". Eric Clapton é generoso em ser o motorista de B.B. King. Quando estou feliz ouço Time out - The Dave Brubeck Quartet(1959), e nos momentos de tranqüilidade Stan Getz / João Gilberto(1963) tocando Tom Jobim. E sobre o jazz de New Orleans, nada de Louis Armstrong, Sidney Bechet ou Lionel Hampton; escuto mesmo um dos meus cineastas favoritos: Woody Allen, em Wild man blues(1998). E por falar em poros, transpiração e divindade, qualquer coletânea de Billie Holiday me faz crer que sua música transcende qualquer tipo de sensibilidade estética.

Kind of blue está tocando mansamente. Os discos estão espalhados sobre a mesa. Buena Vista Social Club(1997) é um dos mais belos discos, resultado de um dos mais belos documentários a que assisti, dirigido por Win Wenders. E Nova York, a ponte do Brooklyn, Manhattan e todo o glamour da cidade está em Frank Sinatra sings the select Cole Porter(1996). E sou grato ao cinema, que me deu várias dicas musicais - em especial ao Woody Allen do filme Manhattan(1979), que me apresentou Rhapsody in blue, de George Gershwin. Grato ao meu tio Daniel, que não ouvia funk. Ao Eric Clapton, que é generoso.

Não abro mão também dos quatro primeiros discos do Led Zeppelin, nem de qualquer folk do Neil Young. Falar em folk, o clássico do meu tio - e meu até hoje - é o disco Simon and Garfunkel - The concert in Central Park(1981). Meu amigo ignora qualquer música pós-70. Baseado em seu argumento, não pego a estrada sem ouvir Desire(1974), de Bob Dylan. Nunca o rock, o blues, o folk combinou tão bem um violino, uma encantadora voz feminina e a rouquidão de Dylan. Pra contrariar meu amigo, já que estou na estrada, não abro mão do Eddie Vedder - Into the Wild(2007), trilha sonora do filme Na natureza Selvagem(2007), de Sean Penn.

E volto a ouvir B.B. King e Eric Clapton, trilha sonora do meu texto. A boa música tem o poder de entrar pelos ouvidos, ser processada no cérebro, ativar as ligações nervosas e eriçar os pelos dos braços. Isso ocorre também quando ouço Sticky Fingers(1971) e Exile on main street(1972), dos Rolling Stones. Dos seus "rivais", os Beatles, elejo o clássico dos clássicos Sgt.Pepper's Lonely Hearts Club Band(1967). Junte-se a ele o Revolver (1966) e o Rubber Soul(1965). Placar: 3 a 2 para Liverpool. O meu amigo é purista; o Johathan Franzen diz que não há mais álbuns antológicos. B.B. King é o chefe que faz um solo de guitarra inesquecível em "Come rain or come shine" com o guitarrista Eric Clapton . Miles Davis é Deus. Billie Holliday, uma encarnação de uma coisa de outro mundo.

Não posso deixar de citar alguns discos brasileiros. Em matéria de samba, acho que o centro de tudo e todos foi Cartola, mais especificamente o disco Verde que te quero rosa(1977). Ele é a ligação entre Noel Rosa e Paulinho da Viola. O sambista influenciou todo mundo, na minha opinião. Nada de revolucionário aconteceu depois. O Cartola é o Kafka do samba. O meu tio Daniel não ouvia pagode. Meu pai, pernambucano, escutava Luiz Gonzaga. Nunca dei muita bola ao baião até assistir ao essencial documentário O homem que engarrafava nuvens(2010), de Lírio Ferreira. O filme é uma espécie de genealogia da música brasileira, que certamente não seria a mesma sem Luiz Gonzaga e seu parceiro Humberto Teixeira.

Numa discoteca básica brasileira não pode faltar o disco Secos & Molhados(1973), com a foto das cabeças sobre a mesa de jantar na capa. O grupo, principalmente através da expressividade de Ney Matogrosso, conseguiu afrontar a ditadura de uma maneira no mínimo exótica: os integrantes se apresentavam maquiados, seminus, e o vocalista cantava com voz de mulher. Os militares não entenderam bulhufas. Não menos importante, a trupe que gravou o disco Tropicália ou Panis et Circenses(1968) revolucionou a música popular brasileira. Esse disco, na minha concepção, equivale à Semana de 22. Nessa mesma leva, tenho total apreço também pelos discos Os Mutantes(1969) e Loki(1974), de Arnaldo Baptista.

Ouço menos atualmente, mas não posso deixar de mencionar o trio Caetano-Chico-Gil. Ouvindo o disco Transa(1972) me vem à mente um Caetano esquálido, hippie, cabeludo, macrobiótico e em pleno vigor intelectual; em transe. É o disco do exílio, da solidão, da melancolia; do choque entre o calor baiano e o frio londrino. Talvez seja o melhor disco do cantor. Dele gosto também, influenciado (outra vez) pelo cinema, do Federico e Giulieta(1999), gravado em Rimini, terra de Fellini. Do Chico Buarque é difícil escolher. Entre tantas pérolas, escolho Meus caros amigos(1976), já que todas as músicas são impecáveis e a gravação de "O que será", com Milton Nascimento, é antológica. E o disco Chico Buarque(1984) é uma ode à abertura política. Xô ditadura! Encaixar a palavra "paralelepípedo" em uma música ("Vai passar") não é pra qualquer um.

Do Gilberto Gil gosto do A gente precisa ver o luar(1981) por causa da música "Palco", que marcou época. E não deixo de escutar sempre o Unplugged(1994), o precursor da onda "desplugado" no Brasil. Todos os acústicos lançados no país são filhos dele. "Tempo rei" é uma obra-prima, uma rara união entre filosofia e música. E como mineiro, não posso deixar de citar os álbuns Maquinarama(2000) e Cosmotron (2003), os mais originais do Skank.

"Come rain or come shine" ainda ressoa no meu quarto. Eric Clapton é o motorista de luxo de B.B.King. Escrevo sobre música baseado na sensibilidade; não sei estética musical (os críticos vão me matar por não ter citado Frank Zappa, The Velvet Underground ou The Clash). Valho-me da intuição, cujo DNA remete ao tio Daniel e ao meu pai escutando Luiz Gonzaga. Peneirando isso tudo, gosto mesmo é de jazz e blues; música clássica pra ler. Se eu só puder escolher dois discos para entrar no céu (ou no inferno) levarei Kind of Blue e Sgt Pepper's. Atualmente, ando escutando Murmur(1983), do R.E.M. e The life pursuit(2006), do Belle and Sebastian. Jonathan Franzen decretou o fim dos álbuns - e por conseqüência de textos como este. Meu amigo purista pode estar certo. Eric Clepton é humilde.


Wellington Machado
Belo Horizonte, 21/6/2011

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