Obscura paisagem em peça de Mirisola e Oliveira | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
74982 visitas/dia
2,1 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Festival Aparecida Criativa surge para transformar a produção cultural de Sorocaba
>>> Com 21 apresentações gratuitas, FLOW Literário celebra presença da literatura nas artes
>>> Com 21 apresentações gratuitas, FLOW Literário aborda multi linguagens da literatura
>>> MASP, Osesp e B3 iniciam ciclo de concertos online e gratuitos
>>> Madeirite Rosa apresenta versão online de A Luta
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> Fio desemcapado
>>> Verbo a(fiado)
>>> Janelário
>>> A vida é
>>> (...!)
>>> Notívagos
>>> Sou rosa do deserto
>>> Os Doidivanas: temporada começa com “O Protesto”
>>> Zé ninguém
>>> Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Frederico Trajano sobre a retomada
>>> Marchand da resistência
>>> Evasivas admiráveis, de Theodore Dalrymple
>>> Cinema em 2002
>>> Ser intelectual dói
>>> Eu não pulei carnaval
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Grüβ Gott
>>> Blogs vs. sites de notícias
Mais Recentes
>>> Tijon, Gongón e Outros Escritos de Miguel Ángel Asturias pela Labortexto (1999)
>>> Vista do Amanhecer no Trópico de G. Cabrera Infante pela Companhia das Letras (1988)
>>> Moha o Louco Moha o Sábio de Tahar Ben Jelloun pela Francisco Alves (1985)
>>> A Neve do Almirante de Alvaro Mutis pela Companhia das Letras (1990)
>>> O Pau de Sebo de René Depestre pela Marco Zero (1983)
>>> O Misterioso Desaparecimento da Marquesinha de Loria de José Donoso pela Difel (1984)
>>> O Itinerário da Derrota de Ruy Carlos Ostermann pela Artes Ofícios (1992)
>>> Cem Anos de Paixão - uma Mitologia Carioca no Futebol de Cláudia Mattos pela Rocco
>>> Evolução na Comunicação de Giovanni Giovannini pela Nova Fronteira (1987)
>>> Mito e Sexualidade de Jamake Highwater pela Saraiva (1992)
>>> Revista Educar transforma Ano 01 Nº01 de Vários pela Ática / Scipione (2015)
>>> Português em outras palavras : Jogos de RPG de Rosana Rios e Maria Sílvia Gonçalves pela Scipione
>>> A Formação do Homem de Estelle Friedman pela Fundo de Cultura (1964)
>>> O Homem e a Evolução de John Lewis pela Paz e Terra (1968)
>>> A Demolição do Homem - Crítica à Falsa Religião do Progresso de Konrad Lorenz pela Brasiliense (1982)
>>> A Demolição do Homem - Crítica à Falsa Religião do Progresso de Konrad Lorenz pela Brasiliense (1982)
>>> A Demolição do Homem - Crítica à Falsa Religião do Progresso de Konrad Lorenz pela Brasiliense (1982)
>>> Farsa Ecológica de Roberto Freire pela Guanabara (1992)
>>> Operação Trotski de Jose Ramon Garmabella pela Record (1980)
>>> A Busca - uma Jornada pelo Caminho Interior de Jean Sulzberger pela Pensamento (1995)
>>> A Revolução Brasileira - Perspectivas Em 1977 de Caio Prado Júnior pela Brasiliense (1978)
>>> A Encomenda de A. M. Homes pela Nova Fronteira (2007)
>>> Haiti, Depois do Inferno - Memórias de um Repórter no Maior Terremoto de Rodrigo Alvarez pela Globo (2010)
>>> Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social de Fernando Braga da Costa pela Globo (2004)
>>> Sonhando a Guerra de Gore Vidal pela Nova Fronteira (2003)
COLUNAS

Terça-feira, 26/11/2013
Obscura paisagem em peça de Mirisola e Oliveira
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3900 Acessos

A natureza do desejo não é composta de uma paisagem tranquila. Ela pode ser tanto trágica como cômica. Por vezes, uma sopa caudalosa e obscura dos dois elementos juntos. Mais ainda, é um circuito duplo que parece existir para se retroalimentar. Na ordem do desejo, será que os dois elementos existiram em algum momento separadamente? Parece que não. Esse é o caráter da peça Paisagem em Campos do Jordão, de Marcelo Mirisola e Nilo Oliveira, editada em formato digital pela E-Galáxia.

Contendo apenas dois atos, a peça coloca em cena quatro personagens. Dois amigos, Leo e Guga; Bia, a esposa de Leo; e sua filha, a menina Lili. O texto se abre com os dois amigos tomando uísque e ouvindo o cantor brega Elymar Santos. Em seguida, uma revelação feita por Leo ao amigo Guga. É a partir desta revelação que se desdobrarão todos os outros fatos da peça. O segundo ato é a consequência que o fato revelado tem na vida do casal Leo e Bia.

A conversa entre os dois amigos é hilária, primeiro pela sinceridade de Leo em revelar algo "inusitado" para Guga; depois trágica, pelo conteúdo e pelos desdobramentos que tal fato causou na vida de Leo. O que casa os dois elementos é a forma com que os autores descrevem a situação. A pista para se entender o "clima" da situação é a abertura com música (qualquer que seja) de Elymar Santos. Música do amor safado. É o sinal visível de que entramos em campo suspeito.

O título da peça, no mínimo irônico, serve para nos enganar a respeito do que nos espera. Ao contrário da paisagem de Campos do Jordão, que remete a uma vida bucólica, área de descanso de uma burguesia tranquila no reino dos seus desejos domesticados, o que a peça propõe é justamente o contrário, uma paisagem à margem desse mundo. Lugar onde os afetos são livres, ou se permitem entrar, ou acabam entrando, no reino de sua desordem e luxúria. Mas isso só se revela lentamente, em conta-gotas, quando acompanhamos o relato dos fatos pela boca de Leo e o desfecho dado por Bia.

Não há comedimento na fala dos personagens. Eles encarnam sua própria classe, sendo personagens com um devir real de seres humanos concretos em circunstâncias concretas (Lukács tremeu no inferno agora). Clareza e concisão fazem de suas falas o lugar também do desprendimento do desejo livre, de pessoas que não precisam se conter nas suas revelações. Afinal, são amigos há uns vinte anos, que sempre partilharam experiências e o relato das mesmas, vivendo suas putarias em circunstâncias "normais", como acreditava Guga. Ou seja, como sempre participaram de centenas de putarias juntos, pressupõe-se que não só podem se abrir um com o outro como têm quase certeza de que se conheçam intimamente. Nem tanto, pois é a novidade da revelação de Leo que inscreverá um novo capítulo na história dessa intimidade. A questão que Leo se coloca, nesse sentido, é de que não sabe se o mais bizarro é ter feito algo "anormal" ou contar o que fez ao amigo. Essa bizarrice é relatada em termos extremamente cômicos, dada a defesa hilária que justificaria sua "causa".

É aí que entram as categorias insanas do desejo, seu devir marginal, sua espacialidade deslocada, mesmo para quem pensa que está tranquilo em casa (ou numa casa de campo em Campos do Jordão).

Descrente das justificativas do amigo, Guga se agarra a uma série de condenações irônicas e surpresas com a nova atividade sexual do amigo:

"GUGA: Sob o signo da Rainha do Mar, o traveco chupava seu pau... Adivinhei?".

Mas o amigo tenta provar que há uma lógica nesse "desvio" que se apresenta.

"LEO: Para pra pensar, Guga. Você passou a vida inteira com um pau na mão. O seu pau."

Mas tal assertiva é imediatamente reprovada:

"GUGA: Sim. Para meu uso exclusivo. E para a felicidade das mulheres".

Dessas conversas que vão a cada momento se tornando mais hilárias, o que se torna claro é a propensão do desejo a tirar o chão dos personagens. O fato inusitado é a presença da menina Lili, que serve na peça para ser a mediadora e reveladora do beco sujo do desejo. Ao mesmo tempo que é quem revela para Bia, através da arte (um desenho escolar), o lugar impróprio onde Leo mergulhou, é também que acaba por desvelar aquilo que deveria ser secreto, mascarado, tornando a situação de crise o lugar apropriado para que se revele o verdadeiro segredo do desejo dos dois adultos. O rei está nu. A angústia, segundo Kierkegaard, é a vertigem da liberdade.

Desencadeada a crise, as revelações insuportáveis vêm à luz do dia e se tornam, agora, a límpida clareza do que cada um é, o que escondeu de si e do outro. E, principalmente, o que desejam um do outro. A escolha certa foi feita: descobrem-se verdadeiramente amantes.

O desejo oculto estava guardado no quarto do casal, desejo este que se revela apenas na crise das estruturas estabelecidas. Não seria essa peça uma alegoria da arte? Lugar onde o desejo pode viver às claras, fazer-se ouvir, liberar quem com ela toma contato? O desenho feito por Lili, afinal, foi quem desencadeou a revelação.

Nota do Autor:
Optou-se aqui por não se revelar o conteúdo total da peça para não se tirar o prazer do leitor de ser levado, aos sustos e rindo, para dentro de uma paisagem bastante distante da de Campos do Jordão.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 26/11/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A maldade humana de Gian Danton
02. O luto e o luto de Valter Hugo Mãe de Wellington Machado
03. livros não salvam o mundo. nem as pessoas. de Ítalo Puccini
04. Seamus Heaney, poeta de reconciliação de Celso A. Uequed Pitol
05. Relendo 'O Pequeno Príncipe' de Sabrina Ferreira


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2013
01. A Última Ceia de Leonardo da Vinci - 12/2/2013
02. Mondrian: a aventura espiritual da pintura - 22/1/2013
03. Gerald Thomas: arranhando a superfície do fundo - 26/2/2013
04. Cinquenta tons de cinza no mundo real - 3/9/2013
05. O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães - 18/6/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Terrorista
John Updike
Companhia das Letras
(2007)
R$ 35,00



Aprenda a Velejar
João G. Schmidt
Ediouro
(1979)
R$ 40,00



Os Autores Latinos do Colegio Universitario
Orlando Fonseca
Companhianacional
(1938)
R$ 39,00



A Fúria - Diários de um Vampiro
L.J. Smith
Galera
(2010)
R$ 8,00



Literatura Comentada Gonçalves Dias
Beth Brait
Nova Cultural
(1988)
R$ 12,00



Vínculos e instituições
Olga B. Ruiz Correa
Escuta
(2002)
R$ 30,00



iv - XvIII Siegle les Grands Auteurs Francais Du Programme
Andre Lagarde e Laurent Michard
Bordas
(1959)
R$ 50,00



Medalhão Mágico
Mariana Lucera
Ársis
(2013)
R$ 10,00



Felizes para Sempre: a Ciência para um Casamento Perfeito!
Tara Parker-Pope
Universo dos Livros
(2010)
R$ 12,90



Organic Chemistry
Wiliam Albert Noyes
Hery Holt and Company
R$ 46,00





busca | avançada
74982 visitas/dia
2,1 milhões/mês