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Segunda-feira, 14/7/2014
O Brasil não é a Seleção Brasileira
Diogo Salles

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Do pachequismo ao viralatismo: na hora da derrota,
"patriotas" queimam a bandeira nacional

Oito de julho de 2014, terça-feira, 17 horas. Todos as atenções estão voltadas para o Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Em jogo, uma vaga na final da Copa do Mundo. O país transborda euforia e otimismo. O hino cantado à capela (e às lágrimas) abre alas para duzentos milhões entrarem em ação, empurrando o país em mais uma conquista. Com o brasileiro, não há quem possa. É assim que somos. Passionais, patriotas. Aqui é Brasil. Ame-o ou deixe-o.

Vinte e nove minutos depois, o horror. Os gols saíam aos borbotões, sem qualquer esforço (ops, mais um!). Nem nas peladas+churrasco da "firrrma" se vê algo parecido. Não mais que de repente, o placar mostrava 5 x 0 para o adversário e o nacional-pachequismo era varrido do território brasileiro como um tufão. Em menos de meia hora, esse mesmo povo que "amarra o amor na chuteira" estava queimando bandeiras do Brasil na rua. Ao mesmo tempo, o grito "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" dava lugar ao "vergonha desse paisinho infeliz, bando de fracassados". Enquanto a pátria de chuteiras ardia em chamas, pachecos mais incautos se convertiam em vira-latas de uma ferocidade quase fabulosa.

Esse momento merece algumas reflexões. E aqui já faço uma revelação que, na dor da derrota, pode incomodar a muitos: eu torci contra a Seleção Brasileira nessa copa. Mas essa anti-torcida não foi casuística. Foi um processo de três longos anos. Começou em 2011, primeiro com as politicagens em relação aos estádios, depois com os espetáculos aborrecidos dos amistosos da seleção amarelona. Os desdobramentos e as cifras da (des)organização do evento fizeram o resto. Durante todo esse tempo, me mantive inquebrável nessa decisão. Comemorei secretamente o título na Copa das Confederações em 2013, porque sabia que fazia parte do roteiro do auto-engano (somos tricampeões desse torneio insignificante ao mesmo passo que perdemos três copas seguidas).

Os coronéis da bola conseguiram extirpar os últimos resquícios de simpatia que me restavam pela Seleção Brasileira, mas não conseguiram sequestrar meu amor pelo futebol e pela Copa do Mundo. Pela primeira vez na vida, eu assistiria a uma copa de fora da festa e podendo escolher vários times para torcer. Senti-me como uma criança numa loja de brinquedos. No Brasil da "Copa das Copas", eu era o ceticismo dos ceticismos. Observei cada detalhe, cada reação, como se fosse fazer uma charge a respeito. Obviamente não passei incólume. Ao saberem de minha empreitada contra o time da CBF, amigos e familiares me lançavam olhares que iam da indignação à repulsa. Não julguei ninguém por torcer a favor, mas fui sumariamente julgado por torcer contra. "Como assim, você está torcendo contra o seu país?!", "Isso é um absurdo! Você deveria se envergonhar!"

Eis o ponto: eu não acho que o Brasil seja a Seleção Brasileira. Quem é brasileiro sabe (ou deveria saber) que somos muito mais do que o estereótipo futebolístico-carnavalesco. Torcer pela seleção não torna ninguém mais ou menos brasileiro. É certo que as histórias pessoais dos jogadores ― muitos vindos de infância pobre ― criam o elo entre a seleção e o Brasil Profundo (e o hexa poderia representar a vitória desse Brasil esquecido pelos donos do poder). Mas, de novo, serei obrigado a discordar, pois os jogadores já são vencedores em suas vidas. Cada um deles soube enfrentar as dificuldades, aproveitar as oportunidades e prosperar pelo próprio esforço. Hoje são profissionais bem sucedidos que foram ganhar a vida fora do país e concretizaram o sonho de todo jogador profissional ao jogar uma Copa do Mundo. É uma ingenuidade tratá-los como "heróis da pátria de chuteiras que vão transformar o Brasil num país melhor e mais próspero".

Ingenuidade que se refletiu na declaração do zagueiro David Luiz após o histórico 7 a 1 frente a Alemanha: "Só queria ver meu povo feliz, pelo menos por causa de futebol". Sua frase, inundada de lágrimas, levanta uma ótima questão: o que esse título traria de bom para "o povo"? Uma felicidade momentânea, um dia agradável, uma bebedeira, um churrasco, talvez. Uma injeção de botox na autoestima, no máximo. No mais, a vida de todos os brasileiros seguiria exatamente igual e produzindo os mesmíssimos efeitos práticos que a derrota nos impinge agora. Olhando em retrospecto, vivemos o mesmo day after em todas as copas que jogamos, ganhando ou perdendo. Da mesma forma que a vitória não nos tornaria um país melhor, essa derrota não nos faz pior.

Nem vou entrar na questão estrutural e no legado nefasto que essa copa vai nos deixar, com seus hediondos 10% de obras de mobilidade entregues, seus bilhões em dinheiro público desperdiçados e seus elefantes brancos em Manaus, Natal, Cuiabá e Brasília. Sigo olhando para a questão hamletiana do "torcer ou não torcer".

Todos os dias de jogos nessa copa, eu abria meu armário em busca de uma camisa diferente para vestir e torcer. Camisas de outras seleções que aprendi a respeitar e admirar, ainda que à distância: Alemanha, Holanda, Itália, Uruguai, Argentina. Nenhuma do Brasil. As amarelinhas que eu tinha se foram. Hoje estão nas mãos de quem faz um melhor uso delas (na verdade, o problema não era a camisa, mas o escudo da CBF). Aí a ficha caiu. A única camisa que restou que traz as cores e a bandeira do Brasil é a do instituto onde faço trabalhos sociais. Conclusão: vejo muito mais o Brasil no que acreditamos que podemos fazer por ele do que numa atitude passiva de torcer pela seleção numa copa. Essa é a minha forma de me enxergar como brasileiro.

De um modo geral, acho que nos falta uma perspectiva maior do que é de fato amar o seu país. Essa copa nos trouxe exemplos flagrantes de como a nossa noção de "pátria" foi canibalizada pelo fanatismo do futebol e de como brasileiro não gosta de esporte, gosta apenas de quem vence. Nessa copa, vi pessoas se sentindo mais brasileiras porque xingaram a presidente da República, vaiaram o hino do Chile e fizeram ameaças e insultos racistas ao colombiano que tirou Neymar da copa. Embora pareçam aleatórios, esses episódios compõem um mesmo personagem, que chamo de "brasileiro médio". É através desse personagem que percebemos como nos falta uma visão de país e uma noção de civilidade e respeito ao próximo (seja ele brasileiro ou não).

Falta a esse "brasileiro médio", sobretudo, a atitude de querer fazer algo relevante para o seu país, em vez de canalizar todas as suas esperanças e despejar todas as suas frustrações no futebol. Nesse sentido, a nossa cultura do "vale tudo", de selfies e de ostentação nas redes sociais é sintomática (quando falo em ostentação, me refiro tanto ao pessoal dos rolezinhos quanto aos coxinhas e novos-ricos da "área vip"). Curioso que nosso "patriotismo" se manifeste apenas de quatro em quatro anos, enquanto que a busca pelo "status" seja um exercício diário.

É espantoso como o "brasileiro médio" é incapaz de fazer qualquer distinção entre futebol e pátria, igreja e estado, público e privado. Para ele tudo é uma coisa só, é uma extensão de sua família, com todos os fatores se embaraçando (e se anulando). Gente que torce contra (ou a favor) a seleção numa copa querendo derrubar (ou reeleger) o presidente da República. Gente que escolhe candidatos para votar devido a suas crenças religiosas. Gente que não vê problema "pagar um café" a um agente público para obter algum favor em troca.

Em artigo recente, o professor da USP Renato Janine Ribeiro defende que o Brasil chegou à sua "quarta agenda democrática". Depois de derrubarmos a ditadura nos anos 80, a inflação nos anos 90 e de melhorarmos os índices sociais nos anos 2000, a quarta agenda agora decorre do sentimento das ruas nas manifestações de 2013: precisamos de serviços públicos decentes. Como fazer isso? É aí que cada brasileiro deve entrar e dar a sua contribuição, com ideias, propostas e ações concretas, e não com o chorume político-partidário que alaga as redes sociais.

Todo mundo já se manifestou contra tudo, por meio das redes sociais. Um governante, um partido, uma ideologia, um jornal, uma revista, um jornalista, uma instituição, um serviço mal prestado. Chegou a hora de falarmos sobre o que somos a favor. De nada adianta derrubar ideias velhas se não tivermos ideias novas para pôr no lugar. E chegou o momento em que o nosso "brasileiro médio" precisa parar de apontar dedos e achar que o problema está apenas "nos outros". O primeiro passo para tornar válida uma crítica é incluir-se nela (esse é o caminho que leva à autocrítica).

Enfim, o Brasil perdeu a copa em sua própria casa. Uma tragédia!, gritarão alguns. Um injustiça!, dirão outros. Pois eu digo que essa derrota não foi tragédia alguma e, ao contrário, fez-se justiça ao melhor futebol. E também fez-se justiça pela contundência do placar de 7 a 1, porque derrotas brutais como essa nos obrigam a repensar algumas práticas. Esse é o momento de discutir seriamente uma reestruturação no futebol brasileiro, a começar pela CBF. É também uma boa oportunidade para que a imprensa e a torcida possam finalmente assimilar uma derrota sem recorrer à caça às bruxas e teorias da conspiração que nos é peculiar. E a quem me perguntar, garanto que torcer contra o time da CBF (ou não torcer a favor) é uma experiência libertadora. Recomendo a todos que quiserem estender o pensamento crítico da política para os campos de futebol.

Esqueçam o hexa. O hexa pode esperar. Perder uma copa não é o fim do mundo, assim como vencê-la também não seria o paraíso. Já ganhamos cinco copas. Nenhuma outra seleção do mundo tem tantos títulos. Enquanto as outras seleções correm atrás dessa marca, nós precisamos correr atrás de outros títulos fora do futebol. Trazer a população para o grande debate sobre o Brasil ― esse foi o grande legado que a "Copa das Copas" nos deixou. Sejam todos bem vindos ao seu país.

Nota do editor
Diogo Salles é autor do livro Trágico e Cômico - os protestos em charges (2014 - Primavera Editorial)


Diogo Salles
São Paulo, 14/7/2014


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