Entre São Valentim e os Lupercais | Adriana Baggio | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 14/2/2002
Entre São Valentim e os Lupercais
Adriana Baggio

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+ 2 Comentário(s)



14 de fevereiro. Mais um Dia dos Namorados. Pelo menos no hemisfério norte. Enquanto o nosso Dia dos Namorados, comemorado em 12 de junho, tem uma origem assumidamente comercial, o Valentine´s Day já teve uma motivação religiosa. Em uma das teorias, o surgimento da data comemorativa remonta à Roma. No século III da nossa era, o padre Valentim teria ido contra as ordens do imperador Claudio, que havia proibido o casamento dos soldados durante a guerra acreditando que os solteiros lutavam melhor (alguma relação com o celibato imposto aos jogadores às vésperas das partidas de futebol?). O padre continuou celebrando casamentos, foi condenado à morte e virou mártir. Uma outra teoria, nessa mesma linha, diz que Valentim era bispo, e não padre, e quem acabou casando foi ele mesmo. Enquanto esperava a sentença de morte na prisão, conheceu a filha cega do carcereiro e apaixonou-se por ela. O amor do bispo fez a jovem recuperar a visão, e no dia da execução, ele deixou um bilhete para ela assinado “de seu Namorado”. Ah! O dia da morte de Valentim é 14 de fevereiro, claro.

No entanto, dia 14 também era véspera de uma comemoração mais, digamos, pagã. Dia 15 começavam os lupercais, um festival romano (essa Roma, hein?), em homenagem a Juno, deusa da Fertilidade e do Casamento, e Pã, deus da Natureza. Um dos rituais desta comemoração era a “passeata da fertilidade”, onde os sacerdotes saíam pelas ruas batendo em todas as mulheres com correias de couro de cabra para garantir a fertilidade delas (como se só as mulheres fossem responsáveis pela geração de filhos, e como se os padres tivessem alguma coisa a ver com isso...). Existe ainda uma outra versão, mais romântica pelo menos. Na Idade Média diziam que 14 de fevereiro era o primeiro dia do acasalamento dos pássaros. Os moços então aproveitavam o “clima” da data para deixar mensagens de amor na soleira da porta das amadas.

Já o Dia dos Namorados brasileiro é bem mais recente. Surgiu em 1949, quando um publicitário criou a data para alavancar as vendas de uma loja. O dia escolhido foi 12 de junho porque, além de ser véspera do dia de Santo Antônio e as moças estarem mais predispostas ao assunto, o mês não era dos mais movimentados para o comércio. O que interessa é que, no hemisfério sul ou norte, e sendo motivada em sua origem por sexo ou dinheiro, a data pegou e continua sendo das mais comemoradas.

A ambigüidade da origem da comemoração – uma linha religiosa, outra pagã – parece que dá o tom do Dia dos Namorados até hoje. Apesar de toda a liberalidade e busca da individualidade, passar o dia 12 de junho ou 14 de fevereiro sozinho ainda incomoda muita gente. Por mais que os solitários durante o ano consigam driblar a frustração por não terem um companheiro ou companheira, nessas datas a mídia não deixa ninguém esquecer sua condição. E haja auto-estima para estar sozinho e bem nessa data, quando tudo a nossa volta prega a felicidade da vida a dois.

E o sofrimento por estar só no Dia dos Namorados começa logo cedo. Quantas meninas não estarão chorando durante o recreio deste Valentine´s Day? Enquanto as amiguinhas ganham ursinhos de pelúcia, as outras ficarão olhando, com um misto de inveja e despeito, se perguntando porque elas também não fazem parte daquele grupo. Quando chega a adolescência, as coisas pioram. Além dos ursinhos ainda é preciso aturar os beijos. E haja casaisinhos juntinhos nos pátios dos colégios, fugindo do inspetor! Mais tarde, quando já somos adultos, fica mais fácil disfarçar o ridículo dessa situação. Podemos contar com analistas e livros de auto-ajuda para tentar nos fazer acreditar que não é tão mal assim estar só neste dia. Podemos apelar para nossos amigos também solteiros, e para os vapores etílicos, e denegrir ao máximo a tríade brega e abjeta de todo Dia dos Namorados: presente-jantar-motel. A salvação é que, com o aumento do número das pessoas sós, criou-se um mercado fantástico para aquelas festas destinadas aos solitários no Dia dos Namorados. Melhor do que ficar em casa se remoendo à la Dorothy Parker.

Os capitalistas que criaram essas datas comemorativas não têm idéia da bagunça que fizeram com a cabeça das pessoas. Dia das Mães, por exemplo. Mesmo que você esteja extremamente irritado com a sua, sente-se obrigado a relevar tudo, comprar um presente e levá-la para almoçar fora. Não que elas não mereçam, a maioria merece. Mas e seus sentimentos, como é que ficam? Depois, haja anos de análise para resolver o recalque de um conflito sublimado. Por outro lado, como temos a tendência de nos tornar cada vez mais duros, frios e insensíveis com o passar da idade, é até bom que exista uma data na qual somos obrigados a tentar ser pessoas melhores.

Já com o Dia dos Namorados é diferente. Quem está com alguém não precisa de data para comemorar. Também não precisamos de data para agradar nossas mães, mas com elas temos uma espécie de relação que transcende os sentimentos. Não podemos “terminar” com nossas mães. Exceto em alguns casos, sempre deveremos ser gratos à elas. Mas e aos namorados? Se não existe clima para comemorar, o Dia dos Namorados não serve para nada. No máximo para tentar resolver as coisas. Mas como já disse antes, isso pode ser feito em qualquer dia. No entanto, o prejuízo que a data causa para aqueles que estão sós é terrível! E é por isso que falo no mal causado pelos criadores e incentivadores desta data infame. Em resumo, queria dizer que o Dia dos Namorados não refresca em nada a vida de quem namora, e prejudica demais a vida dos temporariamente avulsos.

Todo esse blábláblá acima foi para tentar exemplificar a tal ambigüidade da data no dias de hoje. Estamos muito mais para os lupercais do que para o dia de São Valentim. No entanto, a abordagem da comemoração ignora o aspecto das relações como são atualmente e atém-se exclusivamente ao lado “religioso”. Por mais que a publicidade relacionada ao Dia dos Namorados insinue ou explicite o sexo, a mensagem em um nível mais profundo é sempre a mesma: a sociedade exige que você esteja com alguém. Ao lado do Dia dos Pais e Dia das Mães, o Dia dos Namorados é mais do que uma data na qual você vai ser levado a transformar sua afeição em dinheiro. É a legitimação pelo sistema de uma situação social na qual as pessoas precisam estar com alguém, e por conseqüência, “produzir” um outro alguém. E isso é um absurdo nos dias de hoje. Não que eu seja contra a constituição familiar tradicional. É que, talvez infelizmente, ela não corresponda mais à realidade, e esteja cada vez mais perto de um ideal.

Para encerrar: dizem as estatísticas que o dia de maior movimento nos motéis é... o Dia da Secretária. Pensou que fosse o Dia dos Namorados, hein? A conclusão que eu tiro disso é que, no Dia da Secretária, as pessoas estão indo ao motel com outras das quais realmente gostam, e não com as que se sentem obrigados.

P.S.: ainda bem que o Dia dos Namorados no Brasil é só em junho. Quem sabe, até lá...
P.P.S.: adoro jantar fora no Dia dos Namorados!
P.P.P.S.: também adoro ganhar flores e presente no Dia dos Namorados!


Adriana Baggio
Curitiba, 14/2/2002


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/6/2002
19h19min
Adriana, encontrei algumas informaçoes sobre o dia dos namorados. |Marlete|
[Leia outros Comentários de Adriana]
14/6/2002
15h37min
Adorei a explicação e o seu ponto de vista bem descontraido. Parabéns
[Leia outros Comentários de Marcio Hypólito]
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