Para que serve a poesia? | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
51146 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Evoluir celebra o mês das crianças com contação de história
>>> Editora H1 chega com proposta de modelo híbrido de apresentação de conteúdo
>>> CONCERTO OSESP MASP TEM NOVA APRESENTAÇÃO GRATUITA DIA 20 DE OUTUBRO
>>> 14ª Visões Urbanas tem Urbaninhas com quatro espetáculos para crianças
>>> Visões Urbanas permanece online em sua 14ª edição
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
Últimos Posts
>>> Mundo Brasil
>>> Anônimos
>>> Eu tu eles
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O samba de Donga na Festa da Penha
>>> José Moutinho
>>> Palavra na Tela – Crítica
>>> Paternidade
>>> Soul Bossa Nova
>>> Walking Dead - O caminho dos mortos na cultura pop
>>> Anomailas, por Gauguin
>>> Público, massa e multidão
>>> Saints and Sinners
>>> Teledramaturgia ao vivo
Mais Recentes
>>> Quando Nietzsche chorou de Irvin D. Yalom pela Ediouro (2005)
>>> História das Sociedades Americanas de Rubim Santos Leão de Aquino, Nivaldo Jesus Freitas de Lemos, Oscar Guilherme Pahl Campos Lopes pela Record (2004)
>>> O Clima em Transe - Vulnerabilidade e Adaptação da Agricultura Familiar de Marcel Bursztyn - Saulo Rodrigues Filho (Orgs.) pela Garamond (2016)
>>> Cidadania no Brasil - O Longo Caminho 13ªed. de José Murilo de Carvalho pela Civilização Brasileira (2010)
>>> El Trabajo del Actor Sobre Si Mismo de Konstantin Stanislavski pela Alba Editorial (2010)
>>> A Ciência da Informação de Yves-François Le Coadic pela Briquet de Lemos (2004)
>>> Curso Teorico Para Operadores de Usinas Hidrelétricas de Departamento Municipal de Eletricidade pela Dme
>>> Circuitos Elétricos 2E de Aline Palhares(Editora) pela Instituto Monitor (2004)
>>> Conforto Espiritual de Dora Incontri pela Mente Aberta (2012)
>>> Progressos na Cirurgia de Jamel Bruno de Mello, Irany Novah Moraes, Pedro Nahas, Rubens de Arruda e Nelson Abrão(Editores) pela Hospital jaraguá farmion (1979)
>>> Você Pode fazer os Seus Milagres de Napoleon Hill pela Record (1971)
>>> Aurora da Minha Vida de Alvaro Basile Portughesi pela Clareon (2006)
>>> Feridas da Alma de Pe. Reginaldo Manzotti pela Agir (2013)
>>> Um Milagre de Natal de Paul Gallico pela Nova Época (1975)
>>> Os Insondáveis Caminhos da Vida de Jorge Andréa pela Societo Lorenz (2003)
>>> O Homem Que Ouvia Estrelas de Adeilson Salles pela Ceac (2013)
>>> Compreender Lévinas de B.C. Hutchens pela Vozes (2009)
>>> Fantasma Edição Histórica Nº22 de Lee Falk e Wilson McCoy pela Saber (1996)
>>> Fantasma Especial Nº31 de Lee Falk e Wilson McCoy pela Globo (1989)
>>> O segredo de Helena de Lucinda Riley pela Arqueiro (2018)
>>> Fantasma Nº20 de Lee Falk e Ray Moore pela Saber (1995)
>>> Fantasma Nº29 de Lee Falk e Wilson McCoy pela Globo (1991)
>>> A casa das orquídeas de Lucinda Riley pela Novo conceito (2012)
>>> Espiritismo Para Jovens: A história de Jesus e o livro dos espíritos para iniciantes da doutrina espírita de Eliseu Rigonatti pela Pensamento (2018)
>>> A Mente Educada de Kieran Egan pela Bertrand Brasil (2002)
COLUNAS

Sexta-feira, 26/6/2015
Para que serve a poesia?
Ana Elisa Ribeiro

+ de 11000 Acessos

A pergunta não se cala, assim como o texto não silencia nunca. Em muitas ocasiões, a pergunta surge, ora com ar de curiosidade mesmo, ora com jeito de desafio. Quem disse que pergunta é só pergunta? Geralmente, não é. Deviam ensinar, desde a escolinha, que interrogação não sinaliza só questionamento. Pergunta também serve para provocar, para desestabilizar e para sugerir. Até para ofender. Pergunta redimensiona, alerta e contém. Pergunta rejunta. Pergunta separa. Pergunta perturba. O que quer quem pergunta? É o que devemos perguntar. E quem pergunta para que serve a poesia? O que quer? Depende.

Um escritor novato esteve às voltas com a dificuldade de publicar. Anterior a isso é a dificuldade de escrever. Mas de desafio também é feita a literatura, desde o começo. O escritor novato, então, sente um certo desânimo e passa a se perguntar sobre a serventia das coisas. Que lógica é essa? É que há uns elementos no mundo que já nascem com essa resposta na ponta da língua. Para que serve o pente? Para pentear os cabelos, se você os tiver, diria o careca. Para que serve a luva? Para proteger as mãos. Do frio, diria o esquimó; dos cortes, diria o mecânico; do asfalto, diria o motoqueiro. Para que serve a chave de fenda? Para atarrachar e desatarrachar parafusos, mas apenas os que têm na cabeça uma fenda. Há outros para outras chaves, diria o especialista. E aí vem minha avó dizer que usou chave de fenda para abrir tampa de vidro de azeitona. A empregada disse que fez uso da chave para desentupir um buraco ou para limpar uma greta. Vai ficando difícil dizer, ao certo, para que serve uma coisa qualquer.

Para que serve a poesia?, pergunta o escritor novato. Eu poderia, risonhamente, responder a ele, com jeito incentivador, que "para nos dar trabalho". E não me referiria exatamente ao trabalho como ocupação, como labor pelo qual eu deveria receber dinheiro ou marcar ponto, mas ao trabalho no sentido do custoso, da peleja, do esforço. Uma espécie de nadar contra a corrente, que é cada vez mais viciada.

Vem o gestor de cultura e pergunta para que serve a poesia? Ele provavelmente, se for um pouco inteligente, não perguntará isso de qualquer jeito, a qualquer um. Talvez prefira o recinto fechado e o secretário puxa-saco. Vão dizer: a poesia não serve para nada, meu caro colega. Mas é preciso mostrar aquele verniz. Poesia é verniz, e dos bons. Faz brilho em quem parece sabê-la. Poesia não abre lata e nem limpa pia. Poesia não penteia, não desparafusa e não guarda presunto. Poesia não esquenta água nem esfria cerveja. Poesia não liga e desliga.

Mas a garota inteligente vai dizer assim aos queridos colegas que, sim, é preciso saber metáfora para entender um pouco melhor o que pode fazer a poesia. Poesia acende e esquenta, ela dirá a ele, olhando-o nos olhos. Sabe por que um país se apaga do mapa? Porque seus cidadãos não vêm luz em nada. Quando eles usam a inteligência, pode ser que fiquem mais possantes. Mas não usarão enquanto não puderem se entender e se expressar. A poesia alerta, incendeia, clareia. Se alguém é capaz do espanto, gostará da poesia de um e de outro. A poesia perturba. Não sei se é uma experiência comum, mas é forte. O leitor lê um poema e sente, de verdade, um mal-estar. Um aperto, um susto, um descompasso. E faz perguntas, daquelas de desestabilizar: será? Mas será? Mas é isso? E quando o leitor começa a se ligar? É isto! É isto! E consegue compreender que há uma coisa chamada identificação.

A poesia pode tratar do mundo. Mas não desse mundo das chaves e dos pentes - embora também o possa. Conheço poeta que fala de mesa, de cadeira e de lápis. No entanto, nessa poesia, as coisas não são só elas e nem apenas o que parecem. As coisas extrapolam olhares restritos. A poesia serve também para isso. A poesia ressignifica o que parecia estar quieto ali, sem grandes afetações, por uma vida inteira.

O que seria o amor, sem a descrição poética? O amor serve para quê? Diríamos, talvez, em uníssono: "para nos dar trabalho". Pode ser. Às vezes, não é. Para que servem os filhos? Depende. Para nos arrimar, para trazer chinelo, para resolver nossas vidas mal resolvidas, para dar preocupação, para dar beijo. Há coisas que se formam de uma complexidade de serventias tão, mas tão grande, que nós preferimos não questioná-las.

Para que serve a literatura? Para nada. Se não serve para nada, por que a perseguem? Por que ela precisa ser limpinha e corretinha para adentrar a escola? Por que ela precisa ser inocente para ser comprada pelos editais públicos? Por que ela precisa ser ecológica para ser tratada em aula? Por que ela precisa ser evitada? Por que ela precisa ser regulada, em termos de idade, temas, registros de linguagem? Deve ser porque ela não serve para nada.

Eu fiquei brava, dia desses, porque a escola indicou um livro no "projeto literário". Quando li, junto com meu filho, fui torcendo o nariz para aqueles ensinamentos sobre efeito estufa. Era tudo, servia para muita coisa, sem dúvida, mas não era literatura. Não era arte, não era nada. Que fosse para o projeto ecológico, para o projeto de ciências, para outra coisa. Não podia estar no projeto literário. Assim, meu filho não saberá nunca o que é literatura e como ela é perturbadora. Prefiro, quando for o caso, que ele leia Ignácio de Loyola Brandão ou outro que possa tratar das mazelas do mundo por meio da arte, que serve, podemos dizer, para acender, aquecer e perturbar.

Uma vez, na escola, li um poema que me bateu. Chocou-me ao ponto de eu paralisar a leitura e não conseguir retomá-la, por um tempo. O poema me varreu do meu lugar, me sugou, me empurrou - para frente. Com algumas poucas palavras, o poema me derrubou. Mas derrubou e me deu as mãos, em seguida. Eu me levantei mais forte. Não tinha palavrão, não falava de morte, não era um poema assassino nem prostituto. Não precisava ser, mas poderia ter sido. Era um poema bom, com o qual eu me identificava, naquele momento. Era um poema que me dizia coisas que ninguém diria. Porque muitas coisas importantes e interessantes estão escritas e não serão ditas. A poesia me demoveu ou me convenceu. Pode ser que eu use um poema para conquistar, para ofender e para ensinar. Pode ser que não. É que a poesia é palavra. E a palavra, bom, parece que serve para tudo neste mundo.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 26/6/2015


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Meu pé quebrado de Luís Fernando Amâncio
02. Lendo Dom Quixote de Julio Daio Borges


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2015
01. Para que serve a poesia? - 26/6/2015
02. A pomba gíria - 1/5/2015
03. Como ser um Medina - 16/1/2015
04. Momento ideal & conciliação - 25/9/2015
05. Leitura, curadoria e imbecilização - 11/9/2015


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Deuses do Olimpo, Os: da Antiguidade aos Dias de Hoje
Barbara Graziosi
Cultrix
(2016)



A Tarântula e Outros Contos
Eloá França
Independente
(2017)



Natal de Ouro Nº 17
Walt Disney
Abril
(1995)



Açúcar Amargo
Luiz Puntel
Atica
(2000)



Historia do Mundo sem as Partes Chatas - 1ª Edição
Dave Rear
Cultrix
(2013)



O Caminho de Volta
Rose Tremain
Rocco
(2010)



A dieta de Beverly Hills
Judy Mazel
Record
(1983)



Negima volume 26
Ken Akamatsu
Jbc
(2005)



Os Subterrâneos do Vaticano
Andre Gide
Abril Cultural
(1971)



A Serpente Emplumada
Albert Beuttenmuller
Ground
(1999)





busca | avançada
51146 visitas/dia
1,8 milhão/mês