Nós, os afogados, de Carsten Jensen | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

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Segunda-feira, 19/10/2015
Nós, os afogados, de Carsten Jensen
Ricardo de Mattos

+ de 2800 Acessos



"O mar é habilidoso desenhador de ausências"(Mia Couto)

Senhoras e senhores, excelente livro!

Apesar de nunca especialmente atraídos por livros nos quais o mar fosse o cenário, diante de Nós, os afogados, do jornalista e escritor dinamarquês Carsten Jensen, sentimos o mesmo impulso notado outras vezes diante de obras desconhecidas. Será o chamado do mar tão intenso a ponto de contaminar um livro e torna-lo irresistível? Podemos comparar o avanço da leitura com a exploração do mar a partir da praia: molha-se o pé, sentindo-se a sensação agradável da água. Logo mergulhamos até a cintura e não dá vontade de sair. Mais um pouco e temos apenas a cabeça fora d'água. Encerrada a leitura, incita-nos a ideia de que testemunhamos a chegada de um clássico, de que podemos compreender melhor a experiência do leitor de outrora ao terminar livros como Crime e castigo, ou Dom Casmurro. "Este fica"!

Jensen foi sábio. Iniciou seu épico com a face histriônica de Laurids Madsen, "que, para começo de conversa, nunca tivera muito respeito por nada". Bem-aventurados os que conta-gotejam humor nos dias atuais. Por arte de Laurids, um falso alarma de guerra é dado e desenvolve-se uma comédia. Tomando parte nos preparativos para a batalha decorrente de seu "serviço", vai para casa armar-se devidamente: "Onde você guarda a frigideira grande?", pergunta à esposa. "Nem chegue perto dela", ela responde. Revelado o engano e afastado o perigo, uma moradora de Marstal questiona: "Fico imaginando quem de vocês fez gente decente sair da cama no meio da noite para ir à guerra".

Neste ponto já estávamos fisgados e cremos que não seremos os únicos. As quase setecentas páginas do romance sucedem-se rápidas. As divisões do texto foram feitas de tal forma que pequenas cenas encadeiam-se, formam um mosaico maior e sempre é possível "ler mais um pouco" antes de dormir ou de trabalhar.

E tal como avançar dentro do mar, a profundidade também aumenta. Laurids Madsen sai de cena. O olhar recai sobre a cidade dinamarquesa de Marstal, seus personagens e a diversidade de suas relações. O mar é a presença constante, que a todos chamará, mas poucos devolverá. Há guerras durante as quais é necessário fazer o frete. Há disputas entre os componentes da tripulação. Há calmaria. Nós, os afogados parece uma tela de Brueghel narrada cena a cena. Por quem narrada? Isto parece evidente desde o título: pelos próprios afogados. Por aqueles cujos esforços trouxeram as riquezas do mundo à pequena Marstal e facultaram-lhe o crescimento. Por aqueles que ficaram e com a própria vida acrescentaram algo ao grande painel. A História compõe-se dos que partiram e dos que ficaram - em todas as conotações -, dos que prejudicaram e dos que favoreceram, dos que amaram e dos que odiaram. Dos que se afogaram ao sair para o mar e dos que se afogaram ao permanecer inertes no turbilhão da vida - quiçá o pior afogamento. Jensen demonstra que estamos inseridos em contextos onde forças conflitantes podem coexistir. E, por vezes, as presenças insuportáveis serão justamente as garantidoras da sobrevivência diante de um mal comum e maior, como no caso do personagem Hermann Fradsen. Jensen lembra que a exclusão de um, ou de alguns, conferirá aos restantes uma incômoda falta. As muitas vozes reais e fictícias justificam a constante mudança da narração, como um Oratório em que se revezam solistas e coro.


Albert Madsen

Viktor Frankl disse que o ser humano é aquele que construiu a câmara de gás, mas também é aquele que entrou nesta mesma câmara recitando o Shemá ou o Pai Nosso. Cada indivíduo traz em si estas duas possibilidades, cabendo-lhe escolher entre construir a câmara de gás ou destruí-la, assumindo toda responsabilidade decorrente da escolha. Na parte mais profunda da obra, Jensen consegue mostrar este trânsito entre luz e sombra. Hermann Fradsen é apresentado como vilão desde seu surgimento. Todavia, não fosse por ele, o navio capitaneado pelo personagem Knud Erick seria vítima de um torpedo. Este último, por mais que se considerasse justificado em sua repulsa, ao menos resigna-se e admite-o na tripulação. Fradsen tem seu passado revelado, mas é aceito pelos demais membros da tripulação do navio de Erick. Há um inimigo maior em relação ao qual unir forças. O menino apelidado "Dente Azul" diverte-se com aquele que aprendeu a conhecer como "Velho Engraçado" e ninguém se preocupa em protege-lo do agente tornado inócuo.

Nós, os afogados trata da orfandade sanguínea e da filiação social ou espiritual, como queira o leitor. A orfandade sanguínea decorre da busca de sustento no mar, seja como pescador seja como marujo de navio mercante ou de guerra. Muitos partem e, após certo tempo sem notícias, seus familiares começam a desconfiar da resposta mais plausível. E as viúvas acabam por terminar de criar filhos que seguirão os passos paternos. Parece natural que entre Albert Madsen - filho de Laurids -, Knud Erick e o menino apelidado "Dente Azul" estabeleça-se este parentesco. Como si este elo artificial, mais intenso que o sanguíneo, viesse completar as questões sobre a origem e o destino de cada um. "Tinha se tornado um desconhecido ... Precisava encontra-lo para poder me despedir", reflete Albert a respeito da busca pelo pai, cujo desfecho o leitor poderá conferir, bem como sobre qual objeto o velho Madsen depositou sua atenção.

Necessário acrescentar o papel marcante a violência no romance de Jensen. Há violência na guerra verdadeira travada por Laurids, que lhe tolheu o ânimo brincalhão. Há violência na escola de Albert, comandada pelo professor Isager: do professor para com os alunos, na reação destes para com o professor e entre eles mesmos. A violência escolar revela-se um preparativo para a violência que a vida adulta os espera. No seu primeiro navio, Albert lembra-se do professor primário. Reconhece na vida a bordo os ensinamentos práticos fornecidos por Isager. Práticos, mas incompletos: "Foram dez meses no inferno. Eu já havia estado lá. Mas encontrar a saída foi algo que o desgraçado do Isager nunca nos ensinou". Há violência nas duas guerras mundiais que couberam no período histórico selecionado por Jensen. A atitude de personagens como Albert Madsen e Knud Erick mostra que, si o sofrimento e a violência fazem parte da existência, conferem-nos o desafio de não permitir que neles converta-se a própria existência.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 19/10/2015


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