Sinédoque São Paulo | Duanne Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
70777 visitas/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Clube do Conto Apresenta: Criaturas, de Carol Bensimon
>>> Vancouver Animation School apresenta webinário gratuito de animação
>>> Núcleo Menos1 Invisível evoca novas formas de habitar o mundo em “Poemas Atlânticos”
>>> Cia O Grito faz intervenção urbana com peças sonoras no Brás
>>> Simbad, o Navegante está na mostra online de teatro de Jacareí
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Blue Origin's First Human Flight
>>> As últimas do impeachment
>>> Uma Prévia de Get Back
>>> A São Paulo do 'Não Pode'
>>> Humberto Werneck por Pedro Herz
>>> Raquel Cozer por Pedro Herz
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
Últimos Posts
>>> Renda Extra - Invenção de Vigaristas ou Resultado
>>> Triste, cruel e real
>>> Urgências
>>> Ao meu neto 1 ano: Samuel "Seu Nome é Deus"
>>> Rogai por nós
>>> Na cacimba do riacho
>>> Quando vem a chuva
>>> O tempo e o vento
>>> “Conselheiro do Sertão” no fim de semana
>>> 1000 Vezes MasterChef e Nenhuma Mestres do Sabor
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Como o Google funciona
>>> A boa literatura brasileira
>>> Sebo de Livros do Seu Odilon
>>> História da leitura (III): a imprensa de Gutenberg
>>> Talk Show
>>> Para ler o Pato Donald
>>> Isto é um experimento
>>> Em quem a Tropicália vai votar
>>> Toscanini e o Hino da República
>>> Vida virtual, vida real
Mais Recentes
>>> City of Bones de Michael Connelly pela Vision (2003)
>>> The Last Coyote de Michael Connelly pela Grand Central (2007)
>>> The Terminal Man de Michael Crichton pela Harper Usa (2009)
>>> Angels Flight de Michael Connelly pela Grand Central (2000)
>>> Micro de Michael Crichton pela Harper Usa (2011)
>>> Sapphique de Catherine Fisher pela Children's book (2012)
>>> Danny the Champion of the World de Roald Dahl pela Puffin Books (2007)
>>> O Brasil Ainda Se Pensa - 50 Anos de Formação da Literatura Brasileira de Ana Laura dos Reis Correa pela Horizonte (2012)
>>> The Search de John Battelle pela Portfolio
>>> Curso de Desenho e Pintura - Acrílico, Pastel e Guache de Vários Autores pela Globo (1985)
>>> I Am Legend de Richard Matheson pela Tor Books (2007)
>>> Música Eletrônica: uma Introdução Ilustrada Ed. 2 de Eloy F. Fritsch pela Ufrgs (2013)
>>> Curso de Desenho e Pintura - Desenho à Lápis de Vários Autores pela Globo (1985)
>>> Curso de Desenho e Pintura - Desenho a Tinta e Carvão de Vários Autores pela Globo (1985)
>>> Curso de Desenho e Pintura - Pintura à Óleo III de Vários Autores pela Globo (1985)
>>> Curso de Desenho e Pintura - Pintura à Óleo 1 de Vários Autores pela Globo (1985)
>>> História Geral das Civilizações - V O Século XVIII Vol. 1 de R. Mousnier e E. Labrousse pela Difusão Europeia do Livro (1970)
>>> História Geral das Civilizações - I O Oriente e a Grécia Vol. 1 de A. Aymard e J. Auboyer pela Difusão Europeia do Livro (1970)
>>> História Geral das Civilizações - VII A Época Contemporânea Vol. 2 de Maurice Crouzet pela Difusão Europeia do Livro (1970)
>>> História Geral das Civilizações - I O Oriente e a Grécia Vol. 1 de A. Aymard e J. Auboyer pela Difusão Europeia do Livro (1979)
>>> Curso de Desenho e Pintura - Aquarela III de Vários Autores pela Globo (1985)
>>> História Geral das Civilizações - VI O Século XIX Vol. 2 de Robert Schnerb pela Difusão Europeia do Livro (1975)
>>> Curso de Desenho e Pintura - Aquarela II de Vários Autores pela Globo (1985)
>>> História Geral das Civilizações - II Roma e seu Império Vol. 3 de A. Aymard e J. Auboyer pela Difusão Europeia do Livro (1979)
>>> Crime and Punishment de Fyodor Dostoevsky pela Second Edition (2012)
COLUNAS

Terça-feira, 15/3/2016
Sinédoque São Paulo
Duanne Ribeiro

+ de 2300 Acessos

O espetáculo está acontecendo agora: olhe à sua volta. Ao passo em que você atravessa a rua da avenida movimentada, entra na fila da lanchonete para o seu lanche usual, por acaso levanta os olhos do livro ou celular para espiar o mundo — está acontecendo. Corpo_Cidade_Rotinas, peça dirigida por André Capuano, não precisa ser montada: sua matéria é a urbe, e nós estamos inscritos na urbe. Menos uma composição cênica e mais a disposição de cotidianos particulares, vidas comuns que devemos perseguir pelas vias e praças por algumas horas, a montagem parece extrair sua força, no entanto, do fato de que as experiências possíveis da cidade se mediocrizam em ruído branco — a obra, como que se opondo a isso, procura nos devolver a vivência. Ensinar ritmos, curiosidades e pontos de vista. Responder: como voltar a ver?

Capuano começou as pesquisas que desembocariam na peça de que tratamos em 2005. De estudos sobre teatro e performance, âmbitos público e privado, espaços de grande circulação de pessoas, cunhou o nome Corpo_Cidade em 2013. Em 2014, com a bailarina Paula Petreca, realizou Corpo_Cidade_Bom_Retiro, montada no bairro paulistano de mesmo nome. O projeto Rotinas foi iniciado em 2015. Fazem parte do elenco Erika Kobayashi, Evandro Zampiere, Gilka Verana, Jennifer Glass, Rodrigo Rodrigues. O grupo mantém um perfil no Instagram.

O espetáculo acontece até o fim de 2016 nas imediações da Praça da República, em São Paulo; percorre as ruas Barão de Itapetininga, Dom José de Barros, 24 de maio e a avenida Ipiranga. Os interessados se inscrevem pelo site e recebem por e-mail instruções sobre como assistir à peça. Devemos nos posicionar em certo ponto de um dos logradouros citados no horário marcado. “Sentar, ficar e observar” por 23 minutos. Então, um “atuante” (não um “ator”) nos encontrará; devemos segui-lo por uma hora e dois minutos. Pela hora seguinte, poderemos seguir qualquer um dos outros atuantes, ou não seguir nenhum. Nos sessenta minutos finais, temos de voltar a perseguir apenas um deles. Além disso, recomenda-se que nós estejamos sós com a narrativa, que a experiência seja “individual”; e proíbe-se filmar ou fotografar.

É a rigidez formal de um ritual; pede uma entrega, uma seriedade, e inspira alguma estranheza. Pois bem. Estou às 14h à frente de uma porta de ferro, típica de loja, marcada com a tipografia do pixo. Há dois bancos de plástico branco, sem encosto, como na foto que me enviaram como orientação. Sobre um deles, há um jogo de tabuleiro (isso é parte da peça?). Sento-me. Vejo as várias barracas dos camelôs formando um corredor atabalhoado de objetos margeado de rua. Duas crianças, uma negra e uma branca, aparentemente filhos dos comerciantes informais, se aproximam: são os donos do jogo de tabuleiro (isso é parte da peça?). Uma construção fechada de tapume está a minha direita, também as manchas de mijo nas pedras portuguesas, os toletes de bosta de cão ou de gente. O cheiro chega a mim às vezes. Lembro de uma música:

Aqui estou eu
Há meia hora parado
No cruzamento da Brigadeiro Luiz Antônio com a Avenida Paulista

Que dialoga tão de perto com a experiência que parecem me propor. O menino branco pega um cabo de vassoura quebrado, cutuca a merda e ameaça passar no outro, rindo. Uma mulher loira e gorda ralha com eles alguma coisa; possivelmente é a mãe. Os meninos levam o banco com o jogo de tabuleiro para o outro lado da barraca (isso é parte da peça?). Eu devaneio assistindo à variedade de pessoas que passa; quanto tempo são vinte e três minutos, não? De repente, vem um rapaz de roupa social preta e se agacha ao meu lado. Ou é doido ou é o atuante. Mantenho-me indiferente por via das dúvidas. Então, ele começa a descrever-se cada passante. “Todo dia eu ando pela rua olhando no celular”; “Todo dia eu limpo o nariz quando passo na frente da loja fechada”. Vê — e narra a multidão em primeira pessoa (seria essa a chave da peça?).

Parte do que declama se refere propriamente ao personagem: todos os dias, bebe um suco em tal lanchonete, liga, do celular, à namorada que está no Japão, e, do orelhão, para uma prostituta. Quando se ergue, se não estávamos, estamos na narrativa.

Desacelerar, Repetir, Compilar
O rapaz de roupa social anda vagaroso pela rua. Sigo, tanto a frente, tanto atrás, esperando; um corpo educado pela pressa é inquieto. Caminha pé ante pé; telefona: “Tentativa de te acordar nº 1”; confere as propagandas: Fábia Chupetão (1,80, carioca, morenaça, oral até a última gota, anal na faixa), Índia Coroa 47ª (peluda, ativa e passiva, chupo sem, faço anal); bebe um suco de caixinha. Repete; repete outra vez. Primeiro, rompemos com a velocidade; segundo, rompemos com a novidade, o evento — nada está acontecendo, ou nada “novo” está acontecendo. Sobra a cidade palmilhada e repalmilhada. As voltas sucessivas no mesmo lugar me entregam lugares diferentes: o quarteirão de imigrantes africanos, o negro da sua pele tão intenso, os vestidos de estampas geométricas; o camelô de rosto todo tatuado; a loja que anunciava calças com preços ao meu gosto; o vendedor de quadros de personalidades pop.

A lembrança retorna coesa e íntegra, mas foi fragmentária: o que me foi invisível na vez inicial, pode ser visto nas seguintes. Ver é desacelerar, ver é repetir, ver é compilar?

Ao fim da primeira hora, reúnem-se os atuantes em um espaço aberto, encontro de vias. Como que param no tempo, pés, pernas e braços flexionados, gestos paralisados. Por si só, trata-se de uma performance; os habitantes no centro param para ver (uma mulher com uns quarenta anos empaca na frente de um deles, debochada, imitando). Na sequência, seguirei uma menina baixa e japonesa, acompanharei sua pausa para fumar, seu almoço no quilo (a atuante pede para ela e para mim duas linguiças, comemos com limão, estava ótima); sentarei no meio-fio com o moço magrelo que vende origamis, expondo-os em um caixinha colorida escrito “Quanto vale?”; irei à livraria e verei a menina que faz pesquisas de opinião pedir Toda Poesia, do Paulo Leminski (é o aniversário dela, descobre-se quando ela faz o cadastro; e há lá um senhor que aniversaria no mesmo dia ou próximo; eles se congraçam). O corpo, a essa altura, educou-se contemplativo.

É como se pudéssemos pegar o bonde de uma das vidas que passam por nós. É difícil precisar a categoria de visibilidade em que estamos. Observadores? Muito focado e objetivo — sendo que a urbe vaza dentro o tempo todo e não sabemos bem o que estamos fazendo. Espiões, voyeurs? Há pragmatismo e reificação de menos no nosso olhar. Espectador, público? Mas só de maneira débil se reconstroem os distanciamentos de um palco, pois estamos na mesma ação, e a quem está de fora devo ser tão curioso quanto o ator (por essa possibilidade, sinto alguma vergonha). Flâneurs? Não há frivolidade forçada. Turistas? Não há peculiaridades pré-montadas. Um tipo de vazio, portanto, é construído por Corpo_Cidade_Rotinas: apenas veja. Interessado, às vezes, ou nunca; desatento, se quiser. Uma liberdade tamanha e irregular como a cidade.

O espetáculo é “chato”, pois sem justificativa, sem uma desculpa para o “o que eu estou fazendo aqui”; e é profundamente curioso, porque toda uma fertilidade nos é apresentada. Na dialética entre esses dois sentimentos está talvez o maior valor da peça.

O Avesso do Avesso do Avesso do Avesso
O personagem central de Sinédoque Nova York, do diretor e roteirista Charlie Kaufman, em dado momento professa: “Há quase 13 milhões de pessoas no mundo. Tente imaginar esse tanto de pessoas! Nenhuma dessas pessoas é coadjuvante. Eles são os heróis das suas próprias histórias. Eles devem receber o que lhes é devido”. Uma compreensão de que toda vida é preciosa: existe um pouco disso em Corpo_Cidade_Rotinas também. A figura de linguagem que dá nome à obra de Kaufman também lhe cai bem: “sinédoque”, todo pela parte ou parte pelo todo — na película e na peça, é por pedaços da urbe que se mostra a urbe (aqui, pelas vidas que seguimos nas ruas; lá, pela reprodução monumental da cidade).

Os percursos valiosos de cada um se cruzam — a cada vez em que os atuantes passam um pelo outro, eles se observam, imóveis, por um instante. Novamente, a música:

Pessoas com mundos totalmente diferentes
mas que, naquele momento, naquele cruzamento, se cruzaram.
Interessante, né?

Os artistas da peça usam o termo “fricção” para designar um dos elementos que exploram. É o que se passa aqui, de fato, com as resistências e permeabilidades que a palavra implica. Eles se imobilizam também frente aos locais dos quais o espetáculo parte (a minha porta de ferro e os demais). Esses lugares deixaram de ser passagem, pano de fundo, pontos insignificantes, estão potentes de sentido — sabemos que poderiam nos levar a descobertas diversíssimas. Conforme a montagem se aproxima do final, esses “marcos” vão se tornando mais frequentes, o ritmo fica sincopado.

Podemos ver todos os atuantes na extensão da rua, indo de um lado ao outro, parando em frente às lojas, sentando-se nos cafés; um momento, uma atividade. Acelerados, singulares e despedaçados — como continuar vendo? Eles se alinham em uma reta, depois partem à cena final. Persigo-os, em particular a atriz mais bonita, que eu tinha escolhido seguir por último. Os atores estão espalhados, de um lado e outro da avenida Ipiranga, distantes quarteirões um do outro, até que o devir se detém definitivamente à beira da avenida São João. A imagem é forte — as esquinas, o canteiro central, pontuado, enriquecido de atores. E quem vem de um sonho feliz de cidade, reaprende depressa a chamar o que se deixa ver de realidade.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 15/3/2016


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Sarkozy e o privilégio de ser francês de Celso A. Uequed Pitol
02. E se Amélia fosse feminista? de Ana Elisa Ribeiro
03. As Memórias de Viktor Frankl de Ricardo de Mattos
04. Paulo Francis não morreu de Tais Laporta
05. Era uma vez... de Rafael Fernandes


Mais Duanne Ribeiro
Mais Acessadas de Duanne Ribeiro
01. Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem - 2/10/2012
02. Manual para o leitor de transporte público - 29/3/2011
03. Bailarina salta à morte, ou: Cisne Negro - 15/2/2011
04. O que mata o prazer de ler? - 21/12/2010
05. Pra que ler jornal de papel? - 18/5/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A Celebração na Vida Cristã
Claude Duchesneau
Paulinas
(1977)



Coleções do Brasil - Museu de Arte Assis Chateaubriand Pb
Marcus Lontra Costa ( Curadoria )
Ccbb
(2001)



Máxima Mínimas e Outros Textos: um Caminho para Alguns
Suffit Kitab Akenat
Landy
(2003)



Vozes do Chicão
Váios
0000
(2013)



Negócios de Familia
Vincent Patrick
Klick
(1997)



O Caçador de Pipas
Khaled Housseini
Nova Fronteira
(2003)



Como Amar um Libriano - 1ª Edição
Mary English
Pensamento
(2014)



Cadernos de Anotações I - Contos do Alquimista
Paulo Coelho
Caras
(1999)



Minha Ginástica Sexual
Maria Lúcia Rezende
Art
(1993)



Laser B1+ Student S Book Updated For the Revised Fce Com Cd
Steve Taylore- Knowles
Macmillan
(2008)





busca | avançada
70777 visitas/dia
2,4 milhões/mês