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Quinta-feira, 15/12/2016
O quanto podemos compreender
Guilherme Carvalhal

+ de 2400 Acessos

Quem utiliza de redes sociais ou arrisca a própria sanidade mental lendo a área de comentários de um site de notícias provavelmente já se deparou com algum tipo de má informação substanciando alguma opinião, de gente mentirosa ou interessada em provocar celeuma ou de psicopatas propriamente ditos. Nem é preciso estar conectado para receber conteúdo assim, pois ele sai das redes digitais e entra no dia a dia. Em uma recente conversa com um grupo de amigos, uma pessoa não tão amiga levantou com aquela pose de sabichona para afirmar que um trecho da letra de Menina Veneno diz “abajur cor de carmim” ao invés de “abajur cor de carne”, algo que o próprio autor da canção negou, criticando a própria incapacidade do brasileiro em conhecer a pronúncia correta de suas palavras.

Esse festival de desinformação, de discussões e de brigas que até chegam às vias de fato originam-se de uma série de fontes. A falta de senso crítico é uma das mais notórias, aliando-se ao cretinismo de produzir e compartilhar mentiras. Muita gente aceita conteúdo falso sem checar, sem se certificar das fontes, sem gastar tempo em digitar no Google antes de saber. Isso é um pote de ouro para pessoas que motivadas pelas mais variados e inescrupulosas intenções desejam espalhar algum conteúdo desse tipo.

A educação está diretamente ligada a essa aceitação. Temos uma base fraca de questionamento, algo que o sistema escolar é incapaz de providenciar, sem nenhuma outra instituição gerando tal virtude. Até porque família, igreja, time de futebol e partido político não são ambientes muito propícios para esse tipo de formação, estando mais interessados em indivíduos que creem e obedecem sem questionar.

Como muitos exames mostram com recorrência, o saber matemático, ciência base do pensamento lógico, não é muito expressivo no Brasil. Junte isso ao resultado igualmente frágil em interpretação de texto e o resultado é a falta de senso crítico. Comparar com países com melhores índices ajuda a esclarecer: 67% dos brasileiros usuários do Facebook afirmam que se informam através dessa plataforma, enquanto essa porcentagem no Japão é de 12%. Isso esclarece bastante coisa.

À parte essa questão educacional, podemos identificar outros fatores, que obviamente se associam aos índices escolares. Um deles é o pensamento dual. Não que seja exclusividade do Brasil (quantos não devem ser os países em que apenas dois grupos políticos disputam as eleições?), mas é algo que notamos de maneira corriqueira. É algo próximo ao maniqueísmo, pensar a existência apenas como preto ou branco, sem a existência de diversas tonalidades de cinza entre os dois extremos.

Um exemplo de caso que apareceu nas redes sociais foi a reverberação do programa da Fátima Bernardes, em que se lançou ao público uma pergunta, se em uma situação não especificada, salvariam um policial levemente ferido ou um traficante em estado grave, parte do marketing de uma produção de TV em que os personagens se encontram nesse dilema. Não assisti ao programa, mas os comentários deram a entender que a maioria das pessoas respondeu que daria prioridade ao traficante.

Páginas relacionadas a policiais e segurança pública, até mesmo de políticos relacionados a esses movimentos, questionaram tal enquete. Alguns comentários afirmavam que se tratava de uma inversão de valores, de uma sociedade que valorizava o bandido ao invés do policial, que a Rede Globo está manipulando as pessoas, etc.

Essa questão foi um caso de pensamento por duas vias bem claro. A questão coloca apenas duas opções, salvar um ou outro. Não são especificadas as condições de nenhum deles, apenas se sabendo que um tem ferimentos leves e o outro graves, termos bastante subjetivos. Ferimento grave é até algo compreensível dentro das circunstâncias, sendo alguém baleado na barriga, peito ou cabeça. Já o leve, pode ser algo bem amplo. O policial torceu o pé, tomou um soco, levou um tiro de raspão? Isso fica em branco e a resposta é dada assim mesmo.

Havendo apenas duas opções, sem margem para explicações, qualquer resposta causa polêmica. Quem olhar o problema levando em consideração quem seria a vítima, optaria pelo policial. Se você colocar a ótica da gravidade do ferimento, a escolha seria pelo em estado grave. O próprio sistema de saúde tem determinações de atendimento. Ou se ambos chegassem no hospital, o policial com pé torcido e o traficante com um tiro na barriga, o único leito de UTI seria concedido ao policial?

Assim, quem opinar sempre causará uma reação negativa do outro lado. Quem optar por salvar o traficante, vai gerar o comentário negativo do defensor da polícia. Quem optar pelo policial, parecerá desumano negando atendimento a quem está em estado pior. E a discussão jamais chegaria a um senso comum.

Esse modelo de pensamento está constantemente presente em debates nas esfera digital. Pensa-se por exclusão, por associação de um ou outro. Criticou o Temer? Obviamente é esquerdista. Apoia a 241, agora 55? Obviamente é de direita. E assim seguem os debates pouco construtivos.

Outra constante é a herança do sebastianismo no Brasil. Sebastianismo é uma cultura antiga do Brasil, que remonta ao século XV e ao rei português Dom Sebastião. Morto precocemente em uma batalha, surgiu o mito de que ele retornaria vitorioso para conduzir Portugal à gloria triunfal, um pensamento que persiste no Brasil até hoje.

O sebastianismo é essa peculiaridade do brasileiro de conceder a um líder a autoridade e esperar deles tomadas de decisões, algo que se verfica na vida privada e na pública. Antônio Conselheiro e Padre Cícero são alguns casos notórios, mas essa influência se dá de toda forma, como o presidente do clube em relação ao torcedor, o prefeito sobre os cidadãos, o pregador sobre o rebanho, e por assim vai.

Havendo essa lógica de obediência a algum líder tão enraizada, aceitar sem questionamento uma informação de algum meio que apresente autoridade é uma consequência esperada. Quantas páginas não conseguem atingir dezenas de milhares de usuários, reforçando seus pontos de vista, os abastecendo com opiniões que de maneira isolada jamais conseguiriam expressar? Eis a função do meme: subsidiar as pessoas com opiniões que elas não conseguem externar com as próprias palavras.

Um dos processos que estão envolvidos na comunicação é aquele que o filósofo Jesús Martín-Barbero denominou de mediação. A mediação é quando a pessoa recebe alguma mensagem (um texto de jornal, uma notícia na TV, uma propaganda, um reclame no rádio, etc) e essa mensagem é filtrada e recodificada por todas as suas opiniões pretéritas, gostos, experiências. Por exemplo, a frase “A presidente Dilma sofreu processo de impeachment”. Um partidário seu ficará com raiva, vai protestar, reclamar, chorar. Um opositor vai festejar, soltar rojões, zombar de quem a apoia.

Parece um processo simples, mas uma mensagem é codificada por uma série de filtros existentes na pessoa até se tornar uma opinião. Ainda no caso do impeachment: imagine uma pessoa que discorda da política de Dilma, que não aprova seu governo, mas que a considere inocente. Ou uma outra, que goste de suas políticas, mas a avalie como culpada. Como elas reagiriam a essa mesma frase? Raiva? Alegria? Indiferença?

É esse processo de mediação que se associa aos outros pontos já apresentados e monta um painel mais amplo para compreendermos essa formação de opiniões. Pessoas com as mais diversificadas experiências de vida, saídas de situações variadas, recebem muitas e muitas informações e se deparam em um mesmo espaço virtual. Os diferentes processos de mediação levam a posicionamentos diferentes, com todo tipo de informação distorcida e a própria vontade de crer naquilo que seja conveniente.

Pegue o caso da mulher que dia desses pensou que uma bandeira do Japão no Congresso Nacional fosse uma versão comunista da bandeira brasileira. Tomada por um forte discurso de que o Brasil vem sido tomada pela invasão comunista — a mesma parece ser a favor de uma nova ditadura militar, ou da volta da antiga — e recebendo conteúdo constante, ela tomou isso como uma verdade. Se o Brasil está em um processo desses, associar a bandeira do Japão ao comunismo foi uma consequência de toda sua formação, com uma dose razoável de falta de bom senso.

Foi ao ler algumas discussões com argumentos sem pé nem cabeça envolvendo política que me chamou a atenção um determinado fator que parece pertinente a esse panorama: qual será o impacto das editorias de notícias internacionais entre a população brasileira?

Coloco esse ponto porque é perceptível o quanto há uma certa dificuldade em situar o contexto do Brasil dentro de um plano internacional, bem como em assimilar as condições dos países estrangeiros sem passar pelo crivo brasileiro. É como se o as notícias internacionais ou fossem ignoradas ou então passassem pelo processo de mediação com todo teor de brasilidade. Olhando boa parte dos pontos de vista, a gente tem até a sensação de que o Muro de Berlim permanece de pé.

As eleições estadunidenses foram um caso curioso. A dualidade existente nos EUA foi comparada como uma cópia equivalente do sistema político brasileiro para alguns grupos de pessoas. Assim, Clinton seria uma manifestação do PT, do esquerdismo, do comunismo e do estatismo e Trump um reflexo do PSDB, de um pensamento ao mesmo tempo privatizador e demolidor dos direitos sociais. Essa postura facilmente se desmantela: os grupos de direita liberal do Brasil se associam mais a Clinton que a Trump, o pensamento da candidata e do partido Democrata não guarda muitas semelhanças com o esquerdismo brasileiro (como se esse partido apoiasse Cuba ou a causa palestina) e a proporção de votos em Clinton foi maior entre os grupos de maior renda, ficando Trump com os candidatos de renda menor, o oposto que se verifica no Brasil com seus supostos equivalentes.

Edward Said escreveu em sua obra Orientalismo que o Oriente Médio não se representa, mas é representado pelos outros. Seu comentário se referia a um caso específico, a maneira como a Europa retratou e retrata essa região, mas ele aponta que essa abordagem pode ser relacionada a qualquer outra localidade.

Isso influi diretamente na visão que construímos: nossa percepção de mundo, o que recebemos nessa sociedade de comunicação em massa tem todo um contexto europeu e estanudinense por trás. Estamos diretamente ligados a um polo do mundo do qual emerge um conteúdo que é filtrado por agências de notícias desses continentes. Assim, o conteúdo já vem ressignificado.

Sabemos do atentado de 11 de setembro de cor e salteado. Sabemos que Osama Bin Laden foi o mentor. Recentemente nos comovemos com os ataques ao Charlie Hebdo e ao Bataclan em Paris. Mas os atentados do Boko Haram e do Anti-Balaka são bem menos claros. E o que podemos dizer sobre a guerra civil do Sri Lanka, que durou 26 anos, ou então dos conflitos na Somália? Esse seria apenas mais um conflito em um país africano, cujos nomes poucos distinguem.

Recorrendo aos debates nas redes digitais, qualquer notícia que envolva conflitos no Oriente Médio acompanhará algum preconceito. Alguém vai dizer que são pessoas atrasadas, que são bárbaros, que é a falta do cristianismo que leva à existência de conflitos. Sobre a África, um conceito pré-concebido de miséria vai aflorar. Lembro do uma pessoa comentar ao ver um jogo da seleção da África do Sul na Copa de 1998. “Ué, tem brancos na seleção deles?”, exclamou ignorando completamente o que foi o Apartheid.

Essa talvez seja um parte significativa do problema, a má informação que dá brechas para uma série de preconceitos. A ignorância que abre espaço para processos de mediação pautadas pelo senso comum. E será que o jornalismo funciona para alterar essa percepção?

Por esses dias saiu uma notícia de que um homem do Malauí foi contratado para purificar mulheres e crianças através do sexo, uma prática comum na cultura do país. Porém, ele escondeu uma informação, que era soropositivo, e foi condenado pela justiça. Notícia interessante, mas carregada de construção de identidade. Uma prática que vista aos olhos do ocidente (o crivo da mediação) é encarada como tribal, como algo pouco evoluído. Isso somado ao processo de pena que o noticiário sobre países da África tende a provocar.

Aproveitei e pesquisei no G1 outras matérias sobre o Malauí. Bruno Gagliasso e a filha malauiana que adotou, notícias trágicas sobre seca e enchente, processo eleitoral, uma viagem de Madonna ao país. Saindo desses lugares comuns temos um Globo Repórter sobre o país, um concurso de beleza apenas com albinos, leis contra homossexuais.

Por curiosidade, digitei Malaui no link de busca do Ego. A maioria das referências estavam na filha de Gagliasso e na visita de Madonna ao país. Alguns outras ditas celebridades também viajaram para lá. Mas não há nenhuma celebridade do Malauí em destaque.

É esse tipo de discurso com os quais a construção de mundo é recorrente. Os Estados Unidos e a Europa conseguem produzir a fineza, a sofisticação, o bom gosto. Pessoas desses locais são capazes de grandes feitos. Os capazes de grandes feitos na África ou no Oriente Médio estão dentro do contexto das questões políticas e sociais de seus países, como Malala e Nelson Mandela.

Apesar de vivermos em uma sociedade em que o fluxo de comunicação é constante e abundante, muitos problemas anteriores persistem. O sonho de um rede digital livre dos parâmetros da grande imprensa não bastou para mudar o panorama da comunicação. Blogueiros africanos e de outras localidades esquecidas ou tipificadas pela imprensa tradicional se expressam, mas seu coro não basta para gerar alguma mudança de percepção em outros cantos do mundo. Algumas exceções como Yoni Sanchéz existem, mas seu discurso foi abraçado pela imprensa tradicional, reverberando em conflitos políticos que causam dilema no ocidente. Ou será que conseguimos prestar atenção em algum blogueiro do Myanmar?

Imprensa é um produto. As empresas que gerem veículos de comunicação precisam de lucro. Para ter lucro, qualquer um sabe, é preciso agradar ao freguês. Esse contexto gera fortes choques éticos, sobre quais os limites da comercialização dentro de um site, jornal, rádio, TV, etc. Mas, qualquer um sabe, para vender é preciso atrair o leitor, ouvinte ou telespectador.

Essas necessidades financeiras regem a imprensa desde sempre. A imagem do garoto na esquina gritando “Extra! Extra!” reflete isso: é preciso conseguir uma manchete bombástica para chamar a atenção. E é a nossa atenção que eles buscam.

Isso gera alguns exercícios de autocrítica, estendida também ao nosso entorno. O quanto da nossa criação nos leva a considerar mais relevante o divórcio de Brad Pitt e Angelina Jolie ou as transações de jogadores dos clubes europeus do que um conflito em um país cuja localização não sabemos identificar em um mapa? O quanto estamos abertos a compreender a cultura do outro em sua alteridade, e não na nossa? O quanto permitimos que nossas experiências se transformem em preconceitos capazes de denegrir ou de ignorar a expressão do outro?

São perguntas complexas e difíceis, ainda mais em um tempo de imersão tecnológica em que abundam conteúdo e falta reflexão. As redes digitais produzem boas reflexões, mas é abundante a quantidade de preconceitos e ignorância. Os sonhos de um mundo melhor informado se mostrou mais uma utopia, e como toda utopia, deixou seus sonhadores perplexos e com a impressão de “o que foi que deu errado?”.


Guilherme Carvalhal
Itaperuna, 15/12/2016


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