De Middangeard à Terra Média | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 10/4/2018
De Middangeard à Terra Média
Celso A. Uequed Pitol

+ de 3200 Acessos

O nome de J.R.R. Tolkien provavelmente ressoa no ouvido da maioria das pessoas como o autor de “O Senhor dos Anéis”, a trilogia épica adaptada para o cinema em 2001 pela mão competente de Peter Jackson. Entretanto, poucos saberão que se trata também do reconhecido professor de Oxford, colaborador do monumental Oxford English Dictionary e figura de grande destaque em sua disciplina de atuação, a filologia germânica. E isto não é nada anormal: a atividade extraliterária de Tolkien desenvolveu-se num meio restrito e mesmo o trabalho de um nome com a sua fama dificilmente chegaria ao ouvido do leitor não-especializado. No entanto, este desconhecimento faz com que passe ao lado da maioria a ligação que há entre a atividade do filólogo Tolkien, especialista em literatura anglo-saxônica, e do ficcionista Tolkien. Esta ligação – ou melhor: o resultado dela – é o objeto do estudo que ora apresentamos: como, quando e de que maneira a língua e a literatura anglo-saxônicas se fizeram presentes na obra de J.R.R. Tolkien, mormente em O Senhor dos Anéis, e quais as particularidades que cercam esta presença.

Esta gigantesca obra, que inclui romance, novela, poesia e muito mais, tem como cenário a Terra-Média (Middle-earth, em inglês), um mundo com povos, geografia, história e idiomas criados e minuciosamente descritos pelo autor. Tanto o idioma quanto a literatura anglo-saxônicos estão lá presentes, o que, conforme veremos, é admitido pelo próprio Tolkien em várias passagens de seus livros e cartas. Esta presença dá-se de duas formas: por um lado, através do idioma anglo-saxão, na toponímia, no nome dos personagens, em algumas canções e na criação de idiomas; por outro, através da literatura anglo-saxônica, de onde Tolkien toma a caracterização dos lugares, dos personagens e da própria idéia de Terra Média. Idioma e a literatura estão conectados na cátedra que Tolkien ministrava em Oxford: a filologia. Tendo em vista a notória redução do interesse por esta disciplina em nosso meio acadêmico (a ponto de ter sido eliminada do currículo de grande parte das faculdades de Letras do Brasil) e a grande dificuldade que muitos têm em conceituá-la apropriadamente sem confundi-la com outras ciências, talvez seja importante deixar claro o que aqui se quer dizer com filologia. Para tanto, adotamos o conceito dado por Heinrich A. W. Bunse em seu Iniciação à filologia germânica, segundo o qual filologia é o “estudo e conhecimento das línguas enquanto instrumento ou meio de expressão das emoções artísticas de um povo, fixadas em seus documentos literários”. O conceito alarga-se quando o professor Bunse define a filologia germânica, sua matéria de estudo, dando-lhe sentido lato e estrito: lato sensu, é “a ciência que estuda a cultura dos povos que falam línguas germânicas, isto é, o estudo da vida intelectual e espiritual dos povos germânicos através de sua língua, literatura, arte, religião, usos e costumes, direito, etc”. Stricto sensu, é “a ciência que estuda as línguas e literaturas germânicas”.

É tarefa do filólogo trabalhar neste intercurso entre língua e literatura, com vistas a – nas palavras de Bunse – chegar ao “estudo da vida intelectual e espiritual dos povos germânicos”. Ou, no dizer de Lucia Stegagno Picchio em trabalho dedicado à matéria, “reproduzir em si o processo histórico e o momento intuitivo que levou àquela expressão linguistica e poética ou , como dizia como uma bela imagem de Willamowitz, ‘captar uma personalidade alheia”. O que certamente não é fácil. Os séculos passam, o mundo muda e os ruídos entre nós e aqueles de quem pretendemos “captar a personalidade” aumentam a cada dia, chegando ao ponto de, muitas vezes, já não sermos capazes de ouvir-lhes a voz. Não foi, contudo, o que aconteceu entre Tolkien e o mundo anglo-saxônico. Em uma de suas cartas, ele afirma ter-se sentido familiarizado com o anglo-saxão logo da primeira vez que tomou contato com o idioma. Tolkien era um filólogo no sentido mais literal possível do termo, o de amante das palavras (philos, amizade, amor; logos, palavra), e não foi outra a sua atitude diante da língua e da literatura de seus ancestrais. Tratemos, portanto, da presença da língua anglo-saxã. Também chamado de inglês antigo ou velho inglês (Old English), era o idioma falado na Inglaterra entre os séculos V e XI, tendo sido levado para a ilha pelos invasores germânicos provenientes de áreas que fariam hoje parte das atuais Alemanha e Dinamarca. Isto explica o estreito parentesco que o anglo-saxão guarda com a estrutura das línguas destas regiões: tinha quatro casos (dativo, acusativo, nominativo e genitivo), três gêneros (neutro, masculino e feminino) e apresentava uma estrutura essencialmente sintética. Diferenciava-se, portanto, do inglês moderno e aproximava-se, sob este aspecto, da maioria dos idiomas germânicos.

Grande parte dos nomes das personagens em “O Senhor dos Anéis” é de origem anglo-saxônica e isto não é gratuito. “Para mim, o nome vem primeiro, e a história, depois”, disse Tolkien. Ou seja, através da palavra e do nome, chega-se à história e ao personagem, o que, de acordo com os estudos de Ernst Cassirer, é característica das antigas narrativas míticas das quais O Senhor dos Anéis é um assumido descendente. Cassirer afirma que nelas o nome da personagem tem status de invocação de qualidades pessoais e de comportamento, definindo a sua trajetória dentro da história:

“A identidade essencial entre a palavra e o que ela designa torna- se ainda mais evidente se, em lugar de considerar tal conexão do ponto de vista objetivo, a tomamos de um ângulo subjetivo. Pois também o eu do homem, sua mesmidade e personalidade, estão indissoluvelmente unidos com seu nome, para o pensamento mítico. O nome não é nunca um mero símbolo, sendo parte da personalidade de seu portador;

Os exemplos de como se dá este processo são muitos. Frodo, o protagonista, provinciano habitante do Condado que aos poucos se revela um corajoso líder, recebe seu nome da palavra anglo-saxônica fród, que significa “sábio por experiência”. Já o nome de seu simplório e bondoso amigo, Samwise, significa “meio sábio, simplório” em anglo-saxão. Saruman, o mago corrompido pelas forças do mal, quer dizer “homem habilidoso”; mora em Isengard, que significa “lugar construído em ferro”, e comanda criaturas malignas chamadas “orcs” - “demônios”, em anglo-saxão. E a lista segue. Fazer um levantamento de todos os termos anglo-saxônicos em Tolkien é um tanto contraproducente: eles estão em toda parte e o trabalho reduzir-se-ia a mera coleção de nomes. Em vez disso, preferimos deter nossa atenção em um trecho de uma obra que dá prova desta conexão especial que, em Tolkien, há entre a palavra (e, com ela, a literatura e a própria a cultura dos anglo-saxões) e a criação. A obra é o poema Christ, do poeta anglo-saxão Cynewulf, e o trecho é o seguinte:

Eala Earendel engla beorohtast
Ofer Middangeard monnun sended

Uma tradução possível seria:

Ave, estrela da manhã, o mais brilhante dos anjos Em direção ao mundo enviado aos homens

O trecho divide as opiniões dos filólogos: para alguns é uma referência a Jesus Cristo, a “estrela da manhã”, a “Luz do Mundo”, que é enviada aos homens para iluminar a Terra; para outros, trata-se de São João Batista, o profeta que anuncia a chegada do Messias. Duas palavras chamam-nos a atenção: Earendel e Middangeard, traduzidas aqui algo livremente como “estrela da manhã” e “mundo”. Cuidemos na primeira delas. Trata-se de um vocábulo antigo, que aparece em diversos contextos dentro da literatura anglo-saxônica (referindo-se a Cristo, Maria, João Batista ou qualquer outro que a imagem de “estrela da manhã” pode sugerir) e também fora dela, em cognatos de outras literaturas germânicas (o nórdico antigo Aurvandil, o lombardo Auriwandalo, alemão antigo Orentil e muitos outros), pertencendo, ao que tudo indica, a um imaginário comum proto-germânico. Tolkien veio a conhecê-lo pela primeira vez em 1913, quando, ainda aluno de Oxford e debruçado pela primeira vez diante do Christ de Cynewulf, apaixonou-se imediatamente pela beleza do termo e pelo significado que ele trazia. Pôs-se a estudar-lhe a origem e, no ano seguinte, escreveu o poema narrativo “A viagem de Earendel”, sobre a trajetória de um marinheiro que, presenteado com uma jóia iluminada, vê seu navio elevado até os céus, onde até hoje carrega a luz que lhe foi presenteada. A história está presente no Silmarillion e na canção “Earendil foi um marinheiro”, entoada por Bilbo Bolseiro em O Senhor dos Anéis, além de outros momentos da obra de Tolkien.

A outra palavra é Middangeard, traduzida aqui como “mundo”. Na mitologia anglo-saxônica pré-cristã, o termo era usado para designar o mundo dos homens (nórdico antigo Midgard, gótico Midjungards, islandês Midgardur). Sua tradução literal para o português é a mesma de sua descendente direta em inglês moderno, Middle-earth: Terra-média. “A Terra-Média” – diz Tolkien – “não é uma invenção minha. É uma modernização ou alteração (N [ew] E [nglish] D [ictionary], uma “perversão”) de uma palavra antiga para o mundo habitado pelos homens, o oikoumenç: média por ser vagamente imaginada como localizada entre os Mares circundantes e (na imaginação setentrional) entre o gelo do Norte e o fogo do Sul”. Temos aí outro exemplo de como a palavra (e a investigação filológica a ela relacionada) inspira e fundamenta o processo criativo do autor.

Voltamos a nossa atenção agora para uma das criações de Tolkien que ilustram essa aproximação filológica de que falamos na caracterização de regiões da Terra Média: o reino de Rohan. Situado em uma imensa planície que limita ao sul com Gondor e a sudeste com Mordor, seus habitantes, os rohirrim, são conhecidos como excelentes cavaleiros. O idioma que falam, o rohirric, é descrito como mais arcaico do que o westrom (a língua geral da Terra-Média em que a obra é narrada), da mesma forma que o anglo-saxão é arcaico em relação ao inglês moderno. Aqui se verifica o mesmo fenômeno descrito anteriormente por Cassirer: o rei de Rohan chama-se Théoden, “líder, chefe, rei” em anglo-saxão; seu filho é Éomer, significa “famoso pelos cavalos”, uma referência à sua conhecida habilidade no manejo dos animais e sua filha chama-se Éowyn, que significa “amante dos cavalos”, também por este motivo. A si mesmos os habitantes de Rohan chamavam-se “eorligans”, ou seja, filhos de Eorl, lendário rei de Rohan, cujo nome também tem um significado em anglo-saxão e quer dizer “nobre, chefe de tribo ou clã” – ou seja, a mesma coisa que a palavra “Earl”, sua descendente direta, significa em inglês moderno.

O leitor mais versado em história inglesa poderá se surpreender com essa ligação entre os cavaleiros de Rohan e os anglo-saxões. Se tomarmos, por exemplo, aquela que é a principal característica dos rohirrim, ou seja, a habilidade no uso dos cavalos, não encontraremos correspondência nas práticas militares dos anglo-saxões, que nunca se destacaram como cavaleiros - aliás, foi justamente a falta desta habilidade que os levou à derrota na célebre Batalha de Hastings, em 1066, diante dos normandos comandados por Guilherme, o Conquistador. Como se pode dizer, então, que a inspiração para a criação de Rohan foi a Inglaterra anglo-saxônica? Tolkien nos indica o caminho num dos apêndices de O Senhor dos Anéis, quando alerta que o fato de os rohirrim falarem o anglo-saxão e terem nomes inspirados por este idioma não implica numa semelhança com a arte, a cultura ou o modo de guerrear deste povo. Logo, não devemos procurar associações entre os anglo-saxões e os rohirrim dentro da história. E onde devemos procura-las? Na literatura. Tolkien procede como filólogo e ao filólogo, conforme vimos, interessa o texto literário. O momento histórico é, aqui, secundário, a não ser como acessório para a sua compreensão mais aprofundada. As fontes de Tolkien não são os livros de história, mas sim as páginas de The Wanderer, Beowulf e tantos outros textos com os quais ele trabalhou intensamente ao longo de sua vida. E ali se encontra, por exemplo, várias referências a cavalos, como o trecho de The Wanderer onde o cantor pergunta sobre o paradeiro do “cavalo e do cavaleiro”, ou quando Beowulf é recompensado com um cavalo pela rainha Wealtheow, ou as numerosas referências a guerreiros montados em outros poemas. Como sabemos, Beowulf se passa no que hoje seria a Dinamarca – logo no começo do poema há referência aos “lanceiros dinamarqueses”, dos quais “se ouviu contar feitos memoráveis” – e são vários os traços em comum entre as narrativas nas antigas literaturas germânicas, independentemente do idioma ou do local em que foram narradas. Para o leitor daquela época, Beowulf ressoava um passado anterior, da terra dos ancestrais, onde, entre outras coisas, fazia-se uso freqüente de cavalos. O próprio chefe dos anglo-saxões quando da invasão da província romana da Britânia chamava-se “Horsa”, literalmente “cavalo” em anglo-saxão (horse, em inglês moderno).

A maneira como Tolkien descreve o seu processo de criação é testemunho definitivo do modo como se aproxima da lingua e da literatura dos anglo-saxões:

“Olhando para trás analiticamente, devo dizer que os ents são compostos de filologia, literatura e vida. Devem seu nome a eald enta geweorc do anglo-saxão e à sua ligação com as pedras. ”

Embora este trecho fale somente dos ents (árvores que falam e se movimentam), podemos, mutatis mutandis, aplicar a mesma fórmula à obra inteira de J.R.R Tolkien e, em especial, a O Senhor dos Anéis. Homem e artista animado pelas palavras, ele percorreu o itinerário da língua e da literatura anglo-saxônicos guiado pela filologia. Fizemos o mesmo em nosso percurso da Middangeard anglo-saxônica até a Middle-earth de Tolkien, inclusive – e talvez principalmente - no puro sentido etimológico que filologia pode assumir: o de devoção e amor pela palavra, fonte criadora de personagens, línguas e mundos.


Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 10/4/2018


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