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Quinta-feira, 15/5/2014
Shakespeare e as séries na TV
Eugenia Zerbini

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Os 450 anos do nascimento de William Shakespeare (1564-1616) são comemorados neste ano. Coincidência (ou não), durante um encontro em abril, em São Paulo, debateu-se a influência do dramaturgo e poeta inglês na produção dos atuais seriados televisivos. O evento, fruto de uma parceria entre a revista Brasileiros e a Livraria da Vila , reuniu, de um lado, Rodrigo Lacerda (escritor, ganhador por duas vezes do Prêmio Jabuti) e, do outro, Mauricio Stycer, colunista da Folha de São Paulo, sob a mediação de Daniel Benevides, editor do caderno de literatura da Brasileiros. Por caminhos diferentes chegaram à conclusão de que se o bardo vivesse hoje, estaria escrevendo series para a HBO.

Kevin Spacey já assumiu que se inspirou em Ricardo III para interpretar Frank Underwood, de House of Cards (por sinal, o ator já assumiu a pele do famigerado rei do "inverno do descontentamento" nos palcos ingleses e norte-americanos). Mas é de Iago, de Shakespeare, que o roteirista emprestou o molde para o senador. Em Otelo, tudo tem início quando o "mouro de Veneza" promove Cássio, preterindo Iago. É fácil transpor as palavras deste último para os lábios de Underwood, quando o recém eleito presidente dos Estados Unidos nega-lhe o cargo de chefe do Departamento de Estado:

"Só continuo sob as ordens dele para servir meus propósitos a seu respeito. Nem todos podem ser amos, nem todos os amos podem ser fielmente servidos. Observarás muitos desses canalhas, obedientes e de joelhos flexíveis, que, adorando sua obsequiosa servidão, empregam o próprio tempo exatamente como se fossem o burro do próprio dono, somente pela forragem e, quando ficam velhos, são demitidos. Chicote nesses patifes honestos! Há outros que, afetando observar escrupulosamente as formas e visagens da obediência e ataviando-se com a fisionomia de respeito, guardam nos corações a preocupação de si mesmos, só dando aos seus senhores a aparência do próprio zelo, utilizando-os para seus negócios e, bem forradas suas roupas, prestam homenagens a si mesmo. Esses camaradas tem certa inteligência e a semelhante categoria confesso pertencer" (Otelo, Primeiro Ato, Cena Primeira, diálogo entre Iago e Rodrigo).

Não é difícil identificar Lady Macbeth sob a cabeleira curta e loura de Claire Underwood. Francis - como apenas ela se dirige ao marido -, na segunda temporada de House of Cards, até comentou não saber se sente amor ou medo por Claire. Em Família Soprano, Tony Soprano, por sua vez, parece ter sido inspirado por Rei Lear, um soberano confuso e contraditório num reino que se desgoverna. E o espírito de Lord Macbeth estaria por trás da máscara de Walter White, de Breaking Bad, ambos vítimas de suas próprias escolhas, numa corrida sem freios em que o primeiro erro conduz a uma coleção de outros.

Abrindo o bate-papo da noite da noite de abril, Daniel Benevides, entusiasmado, alertou que quebraria as regras de mediador do debate. De pronto, adiantou que não tinha dúvida da influência de Shakespeare nas séries televisivas. A audiência que lotava o The Globe, onde o bardo encenava suas peças, era formada por pessoas do povo. Do mesmo modo que as séries são vistas por grandes audiências. Tanto na dramaturgia shakesperiana como nas três séries citadas, os enredos retratam dramas humanos, com personagens complexos, fugindo da superficialidade até então reinante na televisão.

Stycer avalizou a opinião do mediador. Seria até possível traduzir o alto nível dos seriados nos últimos anos em uma terceira edição dos Anos Dourados da televisão. Ponderou ele que a primeira ocorreu nos anos 1950, quando pela TV eram transmitidos concertos, óperas, peças clássicas e grandes entrevistas. A segunda, um breve período de excelência na programação das emissoras nos anos 1980. A terceira, a atual maré de ótimos seriados, cuja primeira onde foi Família Soprano, seguida de A sete palmos e Mad men. Ao assim periodizar a história da experiência televisiva, Mauricio Stycer reportou-se à classificação realizada no livro recém publicado no Brasil de Brett Martin, Homens Difíceis (os bastidores do processo criativo de Breaking Bad, Família Soprano e Mad Man e outras séries revolucionárias) (SP, Aleph, 2014), cuja leitura é quase tão prazerosa quanto assistir a uma temporada de uma dessas ótimas séries.

The last but not the least, Rodrigo Lacerda tomou a palavra. Com humor, arriscou discordar daqueles que o antecederam. Em primeiro lugar, sublinhou que, apesar de respeitar a opinião de Harold Bloom, expressa em A invenção do humano (RJ, Objetiva, 2000), não acredita na tese de que Shakespeare inventou o homem, ao nomear seus sentimentos, medos, fraquezas, fantasmas por meio de seus personagens. O homem não aprendeu a sentir ciúmes com Otelo. Aliás, observou Lacerda, passado o sucesso que suas peças experimentaram nos séculos XVI e XVII, no século seguinte Shakespeare caiu no esquecimento. Será resgatado, no século XIX, pelos românticos - afinal, haveria maior romântico do que Hamlet com suas questões sobre o ser ou não ser? - e pela publicação, em 1807, do All tales from Shakespeare, de Charles e Mary Lamb, em que o casal de irmãos colocou em prosa as peças do dramaturgo.

Continuando, o premiado autor de O mistério do leão rampante(SP, Ateliê Editorial) e O fazedor de velhos(SP,Cosac) apontou várias diferenças entre a dramaturgia de Shakespeare e as séries de TV. Longe de negar a genialidade do grande clássico, Rodrigo Lacerda lembrou que, se por um lado, os seriados primam por tramas originais, o autor inglês sempre recuperou seus enredos do passado. Às vezes, na crônica histórica, do seu país ou da Antiguidade Clássica. Por outras, em obras que o antecederam: Hamlet é uma antiquíssima lenda escandinava, ao passo que a história explorada em Rei Lear pertence ao folclore anglo-saxão. A principal fonte para Macbeth foi The Chronicle of England and Scotland, publicada em 1557 que, por seu turno, tem base em registros ainda mais antigos.

Prosseguindo, Lacerda esclareceu que, ao contrário do que se pensa, as peças de Shakespeare não são realistas. O maravilhoso desempenha papel importante em quase todos os contextos. As bruxas e a aparição em Macbeth; o fantasma em Hamlet; duendes, sátiros e ninfas, em Sonhos de uma Noite de Verão. Encenados em um palco despido de recursos cênicos, os textos são repletos de indicações de tempo e de espaço, possibilitando à plateia situar-se na cena. Por exemplo, em Romeu e Julieta, esta última pontua a passagem do tempo em uma de suas falas:

"O relógio soava nove horas, quando a ama partiu. Prometeu-me voltar em meia hora. Talvez não tenha podido encontrá-lo! Não, impossível! Oh! Ela é coxa! Os arautos do amor deviam ser os pensamentos, que correm dez vezes mais depressa do que os raios solares, quando expulsam as sombras das colinas nubladas. Por isso, puxam o carro do amor rápidas pombas e Cupido, semelhante ao vento, possui asas. Agora o sol está sobre o mais alto monte da jornada diária e três horas intermináveis transcorreram de nove às doze" (Romeu e Julieta, Ato II, Cena V, no Jardim dos Capuleto, fala de Julieta).

Nas séries, salientou Rodrigo Lacerda, onde o realismo impera, ancorado em recursos técnicos abundantes, essas marcações são desnecessárias. Indo além: segundo ele, nas séries, a construção e seus encaixes são perfeitos. Shakespeare, nesse ponto, é meio displicente, deixando mais de uma vez pontas soltas. O exemplo clássico é a morte de Polônio. Hamlet, em conversa com a rainha sua mãe, pressente alguém escondido atrás da cortina. Saca da espada e mata essa pessoa. Com horror, descobre tratar-se de Polônio, pai do seu amigo, Laerte. Mas na cena anterior, Hamlet não conversava com Polônio,a grande distância desse aposento? Haveria passagens ocultas, que permitiriam a movimentação escondida pelo castelo? E o que Polônio fazia no quarto da rainha?

Um amigo repetia que Shakespeare deveria ser um péssimo caráter pois só assim poderia dar vida à Ofélia, a desventurada noiva de Hamlet, que morre louca de amor, e, ao mesmo tempo, à inescrupulosa Lady Macbeth. Words, words, words, observaria Lord Polonius, se ainda estivesse vivo atrás daquela cortina hameltiana. Shakespeare inspirou desde óperas (Macbeth e Falstaff, via As alegres comadres de Windsor, as duas de Verdi; ) a musicais na Broadway (Kiss me Kate, do fabuloso Cole Porter, cuja fonte foi A megera domada); de música da câmara (o trio para piano e cordas nº 70/2 de Beethoven, conhecido como "trio Fantasma", sobre o qual já se escreveu aqui) a um sem numero de filmes, de Woody Allen a Kurosawa. Cada época com seus pássaros, cada pássaro com sua canção: por que não Shakespeare nas séries de TV? Além da bardolatria, o público só tem a ganhar.

Enfim, até outubro, a Brasileiros e a Livraria da Vila continuarão a promover debates mensais em que a literatura será a grande atração. A programação completa está no site dessa parceira, batizada como Projeto Vila Brasileiros. Gratuíto, sempre na Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915, das 19h30 às 21h30.


Eugenia Zerbini
São Paulo, 15/5/2014


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