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Sexta-feira, 9/2/2018
Os Doze Trabalhos de Mónika. 12. Rumo ao Planalto
Heloisa Pait

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Leia a primeira aventura de Mónika, À Beira do Abismo.

Uma das tarefas de Mónika era a participação em bancas de mestrado e doutorado, onde se exigia o máximo de um professor universitário: demonstrar erudição sem desagradar o orientador, que numa próxima banca poderia se vingar reprovando seu aluno. Não era tarefa fácil. Ainda mais para Mónika, que se envolvia com os assuntos tratados de um modo visceral demais.

Essa banca em especial apresentava desafios adicionais, mas na sua carreira isso não se traduziria em pontos extra. O aluno havia entregue a tese no prazo, mas a tese era uma bosta. Aí, uma semana antes da defesa, enviou por email outro texto, pouco mais curto, pedindo que a banca ignorasse o anterior. Na defesa, indiferente aos apelos do orientador, insistia em ser avaliado pelo segundo texto que, ele dizia, era a sua grande obra, começada ainda na época da graduação.

Pelo que relatava, o aluno tinha tido duas trajetórias paralelas: uma, entregando o que os professores queriam, e outra escrevendo o que lhe dava na telha. Falou de uma monografia alternativa, que era simples descrição de toda a geografia da América do Sul. Tinha uma tese de mestrado alternativa, recuperando viagens solitárias pelo globo, especialmente as feitas por mulheres. E, no doutorado, empreendera ele mesmo a viagem, que relatava no texto.

– Descobri que agora é questão de vida ou morte, professores. Se eu defender essa bosta que vocês nos obrigam a escrever, me acabo no álcool, na sarjeta. Droga não curto. Mas bebo. – E completou, solene: – Meu pai morreu na garrafa.

A banca argumentava. De uma coisa Mónika estava certa. A tese original era uma bosta.

– Colegas, o rapaz tem razão. A tese é uma bosta.

O aluno não esperou. Aproveitou a deixa e começou a apresentar o segundo texto. O doutorando os levava para o extremo sul do continente, o último canto do planeta a ser colonizado. Falava das montanhas, dos bichos, das gentes. Falava muito dos caminhos, das pousadas onde parava, ficava semanas, se tornava um local, arrumava amigos, namorada, padrinho e trabalho. Sabiam todos que estava de passagem, e talvez por isso colocassem nele todos os desejos. As mulheres se entregavam para sempre, pois sabiam que não o acompanhariam na velhice. Os padrinhos lhe davam todas as bênçãos, pois não teriam tempo para se decepcionar. Tudo era eterno, sublime, verdadeiro, fugaz. As velhas lhe contavam segredos de família, tomavam-lhe as mãos e batiam-nas de leve com as palmas, como se sedimentassem um elo fortíssimo. Que se romperia. Ou não.

Andava pelo Andes, experimentava coisas. Comia raízes e rezava com os locais. Não antropologizava. Não pesquisava, não analisava, não tratava de objetos de pesquisa nem de sujeitos da ação. Apenas vivia e descrevia como um fantasma vivo. Dormia quando tinha sono, comia quando tinha fome, transava quando surgia quem e escrevia quando não tinha nada. Sua metodologia era essa: vou escrever quando não há mais o quê fazer, quando for a única coisa que resta.

Nas cidades, não escrevia, portanto. Ia se jogando de casa em casa, fazia bicos e de vez em quando verificava num internet café se a greve já tinha terminado, pois não podia perder a matrícula. Nas cidades sempre havia o que fazer.

Morou 3 semanas numa favela em Cochabamba, ajudando um vendedor de miçangas a carregar suas coisas pelos bairros nobres e fugir da fiscalização quando preciso. Comeu bem lá, engordou, seguiu viagem. Numa tese normal não diria, mas no relato pode dizer: não gostou de Cochabamba. Achou tudo triste, pobre e melancólico. As roupas coloridas e as almas cinzentas. E estava no texto: em Cochabamba eu acordava triste, passava o dia triste e ao final do dia a tristeza beirava o intolerável. Se eu não saísse logo dali, talvez não conseguisse sair mais. Então saí.

O relato escrito era excelente. Mas o relato ao vivo era excepcional. Mónika ria, chorava, pensava, sonhava, seguia com o aluno os passos pelo continente. O melhor é que não havia política. Não havia tese. O melhor era ver aquele desprendimento todo, que podia ao invés de garantir, lhe roubar uma carreira. Olhou para o aluno com espanto e sofrimento. Não havia grupos, gados acadêmicos como nas outras teses, apenas gentes. Deu-se conta de que um verdadeiro scholar estava lhe dando o privilégio de ouvi-lo. Interrompeu o relato sem pensar:

– Vocês está nos dando o privilégio de lhe ouvir.

Os colegas ficaram um pouco incomodados. A idéia era sempre adular o orientador e humilhar o candidato com leves reparos. O aluno percebeu que tinha um interlocutor. Retomou gaguejando até assimilar o elogio.

Mónika tinha o olhar sério, a testa franzida. Quem diria, olhando para ela, que se imaginava retribuindo o prazer que ele lhe dava agora com aquela viagem ao fim do mundo? Nenhum documentário, nenhum livro de história, nada levaria Mónika tão longe, nada. Nem mesmo se ela pegasse a mochila e fosse agora para Cochabamba. Talvez aquela fosse a primeira vez que de fato aportava na América, aquela defesa em Ambaíba. Estava entregue.

O relato acabou. A banca queria ainda discutir se ia avaliar esse ou o outro trabalho. Mónika atropelou a conversa e perguntou para o doutorando:

– E esse texto é todo seu? – ela temia apenas o plágio.

– Tudo menos o que não é.

Havia uma cena onde o aluno relatava escalar um pico com um australiano que o estuprou, a quem ele teve que seguir por dois dias inteiros pois se não o fizesse se perderia na montanha. Mónika havia lido relato idêntico num livro de viagens.

– O que não é?

– A cena do estupro, veja na nota de rodapé.

Nota de rodapé era uma coisa que Mónika não lia por princípio. Mas, de fato, havia uma única nota. Dizia: Essa história copiei de um livro. O resto não. Acho que fui fiel aos fatos, ou ao que me lembro deles.

– Por que você copiou uma história de um livro?

– Pra saber se o resto é verdade.

Os dois sorriram. Estavam exaustos. Perceberam naquele momento que o texto era verdadeiro. A prova era o trecho plagiado, uma mentira em cor distinta. Olharam-se satisfeitos. A nota era dez, para os dois. Penélope e Ulisses.

– O resto é verdade – ela confirmou. E ia então garantir, com inesperada habilidade, a aprovação do trabalho junto aos demais membros da banca. Continuou:

– Agora, por que você não botou no texto a parte em que você pega o ônibus lá em Pelotas, vai até Goiânia e depois anda até Brasília? Bonito ouvir você contar da sua exaustão – um Cristo planaltino? – desboroando no concreto da Praça dos Três Poderes.

– Não sei professora. Não sei. – Era aquele momento onde o autor percebe que o leitor leu seu texto, por ter feito a mesma pergunta que ele. – Será que senti essa parte meio falsa?, não sei. O concreto quente, eu exausto, mas não era ápice algum, eu só pensava em água, banho, sorvete. Eu não estava ali...

– A viagem tinha acabado.

– É, pode ser. É, a viagem tinha acabado...

– E não pode dizer isso no texto? – Mónika pergunto brava – Não pode incluir? Tem até a ver com seu trabalho original sobre o neoliberalismo e os condomínios fechados.

– Acho que sim. É só escrever, né? Uma palavra, e aí a outra...

Como o ritual mandava, o candidato saiu da sala e com ele o cachorro que o acompanhou ao longo do doutorado. Ficava em Ambaíba durante as viagens, melancólico, mas sabia que o dono voltaria. Agora, havia escutado atento a defesa. Pressentia, talvez, algum fim. O dono seria doutor. Aguardaram nas escadas do prédio, um olhando para o outro, o rabo do cão inerte.

Mónika impôs ao orientador sua condição: aprovava se o candidato finalizasse a tese com a peregrinação à Brasília. Era seu jeito de fazer política, invertendo as coisas. Quem queria a aprovação era ela, mas com a exigência eles que entravam na defensiva.

E que custava escrever umas linhas tortas sobre Brasília?

Está no ar o epílogo dos doze trabalhos de Mónika, A Copa de Ambaíba.

Esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência


Heloisa Pait
São Paulo, 9/2/2018



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