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Quarta-feira, 18/9/2002
Uma conversa com Reinaldo Moraes
Rennata Airoldi

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Um fim de tarde, um escritório, uma cervejinha, um tira-gosto: - Gosto de tratar bem a imprensa! - diz o sorridente e carismático Reinaldo Moraes. (Devo confessar que estou gostando desse lance de fazer entrevistas). Para quem não conhece o autor, além de ter escrito "Tanto Faz" e "Abacaxi", fez traduções importantíssimas como "Mulheres" de Charles Bukowski, pela editora Brasiliense e "Vineland" de Thomas Pynchon, pela Companhia das Letras. Falando sobre o "Tanto Faz", Reinaldo me disse em poucas palavras: - É rapidinho, pega um ônibus até Araçatuba que você lê. Sem duvida o livro é uma delícia. Sobre um sujeito que vai para Paris trabalhar com uma bolsa do governo e acaba por viver, intensamente, relacionamentos e exercitar o tal ócio criativo! Em meio a encontros e desencontros, filmes, botecos e muita arte, o livro, através da narração de Ricardo (o protagonista), traz à tona muitas questões: o que fazemos de nossas vidas; quais as escolhas que temos de fazer; ou até porque não vivermos, simplesmente, sem compromissos. Ah, Paris! Pena que o livro já tenha saído de catálogo. Agora, é uma raridade que se encontra em sebos e afins. Continuando a série de entrevistas com autores adaptados por Mário Bortolotto, para a "II Mostra de Teatro 'Cemitério de Automóveis'", com vocês, um pouco de Reinaldo Moraes: um paulista, com verdadeira adoração pelo Rio de Janeiro:

Foi a primeira vez que você teve sua obra adaptada?

Na verdade, não. O cara que é meu colega aqui no escritório, o arquiteto Dênio Benfatti fez um filme "Super 8" interessantíssimo em Paris. Baseado no "Tanto Faz", ele fez "O Mistério da Borboleta", super bem feito. Tem mais ou menos meia hora e ele andou passando aqui em casa, também em bares. Hoje em dia ninguém mais sabe o que é "Super 8". É muito bacana, pouco dialogado, onde você vê uma Paris dos anos 80. Ele tá tentando em recuperar o material. Então, na verdade, foi a primeira vez que eu vi aquele personagem transportado para outra linguagem. Agora, para teatro, foi a primeira vez. Eu fiquei até com medo porque o Mário tem aquele jeitão, todo escrachado, todo debochado, e eu fiquei achando: "Pô, esse cara não sabe nem falar Português, quanto mais escrever um livro!". E aí ele fez uma super adaptação, bem bacana.

Quando você conheceu o Mário?

Ele leu o "Tanto Faz" e me procurou para fazer uma entrevista para um jornal de Londrina. Depois encontrei com ele em 1994 e foi quando a gente ficou mais amigo mesmo. Ele veio aqui com um amigo louco dele chamado Robocop, a gente tomou um puta porre, o cara quase morreu, e aí a gente virou chapa! Mas ele ainda estava começando a escrever.

O "Tanto Faz" já havia sido adaptado e apresentado na "I Mostra", há dois anos atrás. Como foi para você, ver a obra em cena pela primeira vez?

Foi de uma grande alegria. Primeiro que era uma coisa já distante, eu escrevi este livro em 79/80 e ele só saiu em 81. Então já tem vinte anos... É curioso também porque, se você perceber nessa mostra, talvez o "Tanto Faz" seja a única peça mais alegre e otimista. É... (não sei onde foram parar meus adjetivos, devem estar em algum lugar!)

(Eu tento ajudá-lo, por ter participado da peça como atriz) É uma comunhão!


Comunhão! A idéia do ócio. É uma peça que valoriza o ócio como uma opção de vida, uma opção alegre, não como uma desistência. Como se você optasse pelo ócio, o que é uma impossibilidade para a gente... Mas para o personagem, não, porque ele vive uma situação extremamente particular: é um bolsista que manda para o diabo a bolsa e resolve vadiar. Ele é um sujeito que é o resultado de uma fratura no sistema. Ele simplesmente gazeteia e faz apologia da farra. O personagem bebe, transa tanto quanto os outros personagens das peças do Mário, mas talvez ele seja o único que tenha uma certa alegria, o que é o ponto inicial e onde também se encerra a história.

O Ricardo (personagem que conduz a narrativa de "Tanto Faz") é o seu alter-ego?

Acho que todos os personagens são "alter-egos" dos autores. Nenhum autor vai escrever uma autobiografia . Eu brinco no livro que estou fazendo uma "conficção": uma fronteira entre a ficção e uma confissão! Mas, na verdade, tudo é texto, não importa se você viveu aquilo ou não. Não que isso dê nobreza e qualidade a um texto.

Ver os personagens saírem do livro e ganharem vida no palco: o que mais te surpreendeu e o que mais te decepcionou na montagem?

Eu achei as meninas, que fazem os papéis femininos, muito mais bonitas do que as que eu conheci em Paris. Nada me decepcionou: eu fiquei extremamente gratificado e surpreso com o resultado. E essa linguagem do Mário de usar um espaço cênico despojado, traz toda a carga teatral e dramática para o texto. Tem poucos recursos cênicos que ele utiliza de forma extremamente sofisticada e refinada. Tudo, até os gestos dos personagens, está ancorado no texto. Do meu ponto de vista (nada modesto), é uma grande homenagem ao texto.

Quando você foi assistir a peça, como foi sentir os aplausos no final?

Eu fiquei com vergonha. Muita vergonha, fiquei com vontade de fazer xixi na calça.

Onde você acha que o Mário acertou e onde está mais distante do que você imaginava?

O Mário fez uma seleção bem legal dos momentos mais emblemáticos do livro. O que eu acho é que, às vezes, eu não sei se é um vício do espetáculo ou do texto, a fala é muito "textual". No livro, você releva isso porque está lendo. Não sei, talvez alguns maus momentos dos diálogos do livro passaram para a peça, então tem umas coisas da escrita, como por exemplo: "Ele encontrou-a", que estão nas falas da peça. A "gramaticalidade" passou um pouco para a cena. Mas acho que nem vale à pena falar, já que o resto está tão bom...

(Então iniciamos uma longa conversa sobre o Rio de Janeiro, devido à minha ignorância em relação ao Reinaldo, já que eu achava que ele havia morado lá... Mas, para ele, o Rio é uma cidade mítica! Um lugar onde as pessoas são mais despojadas. Onde um segundo movimento modernista surgiu, com uma literatura de "sarjeta", mais marginal... Reinaldo me mostrou uma revista antiga do Rio, com fotos, ilustrações, etc. Ficamos folheando e eu tendo uma verdadeira aula de anos passados que não vivi...)


São Paulo é muito careta até hoje. Nos anos 70, era pior! A maneira de se vestir, a ditadura, a relação com o corpo. No Rio, não. As pessoas estavam quase peladas na praia! São Paulo era a ditadura e o Rio, o jardim do éden, o Paraíso... Ipanema... As pessoas se alimentavam da cultura que produziam. No livro, tem uma grande brincadeira com o Rio... Até na maneira de se falar. No Rio, tinham as gírias e aqui era aquele português careta ou meio cantado da Móoca! Hoje eu até acho engraçado. Expressões como "fazer a cabeça" e "dançou" eram importadas do morro do Rio

Voltando a entrevista: você já escreveu para teatro, cinema, TV?


Sim. Numa certa época, havia uns concursos na Secretaria de Cultura, em que você ganhava uma grana para fazer um roteiro. Eu fiz vários mas só um foi filmado. Chamava-se "Real Desejo". Recentemente, fiz um infantil que foi o maior sucesso: "Tainá"...

(Olha aí a minha ignorância mais uma vez...)


Fiz novela com o Mário Prata, uma adaptação de "Helena" de Machado de Assis, em 87, na Manchete. Em 96, fiz uma muito legal chamada "O Campeão", que não obteve muito sucesso mas que era ótima porque tinha um super elenco. Me deu know-how na linguagem da televisão. Apesar de ser uma coisa menor, vagabunda, que não se compara com literatura: na novela, você escreve e uma semana depois está no ar. É um grande exercício da escrita. Tudo é improvisado na novela. O autor faz um improviso de texto, o ator um improviso de interpretação e o diretor um improviso de direção. E aí o público faz um improviso de audiência... Em teatro eu fiz três coisas. Uma adaptação que ficou uns três meses no TBC, "O Bebê Furioso", meio "punk". Um bebê que falava palavrão. Fiz uma tradução meio adaptada, em 93, no TBC, "O legítimo Inspetor Perdigueiro", que ficou um ano em cartaz, eu até ganhei um dinheirinho... Agora, fiz uma outra tradução de uma peça que a Marília Pêra quer dirigir. Mas uma coisa é traduzir uma peça, outra é escrever. Eu escrevo como um roteiro, estou acostumado a colocar todos os detalhes, até o lado que o ator entra em cena, como está vestido, tudo é muito rubricado, diferente do teatro em geral...

Bom, depois do "Abacaxi", o que você escreveu?

Eu comecei várias coisas, uns dez romances que nunca foram pra frente. Eu tenho um livro de contos que é só "dar um tapa" e publicar. É que eu tinha de trabalhar com tradução, escrevendo, o dia inteiro, roteiros... Chega à noite, você não quer, não consegue escrever mais, você quer cair num balde de cerveja, ver um filme... (Olhando para mim diz:) Pode chorar... Também quando eu tive a possibilidade de escrever, eu caí no vício! Escrevia duas linhas a noite toda. Eu escrevi um romance no meu primeiro computador mas ele fritou! Perdi tudo. Não sei se a literatura brasileira perdeu grande coisa. Ou se foi um alívio! Mas estou finalizando um novo romance, já está com umas 300 páginas.

O que te dá mais prazer na literatura?

Escrever, escrever... Poder escrever... Quando meus pais morreram eu torrei um apartamento inteiro, toda a grana. Hoje eu teria mais cabeça. Agora, fico na espera de uma nova possibilidade, tropeçar numa mala cheia de dólares!... É fogo! Mas eu vou acabar meu livro... Hoje passei o dia numa tradução, uma reunião para um piloto de um programa de decoração, lá em São Bernardo, então... Eu reclamo demais, né? Fico achando que alguém vai chegar: "Pô, Reinaldo, toma um dinheiro, pára de fazer tradução, vai escrever..."

(Mais uma cerveja. Toca o telefone... Pausa. Abro o livro, "Tanto Faz", tiro de dentro um pedaço velho de jornal falando do Lula, pode?) Sabe que o "Tanto Faz" é uma das peças de maior sucesso na mostra? Na cena da festa, tem cada vez mais gente! Quando você vai aparecer por lá?

Então... Eu quero falar uma frase que eu acho que é a melhor frase do livro. Primeiro; que o Mário diz que a frase não está no livro, mas está; logo depois, ele acha que a frase é uma porcaria. É assim: o Ricardo está vendo uma 'baby'( como eles costumavam chamar as gatinhas...) e diz: "Pô, a adolescência é o corpo certo na idade errada!". O Mário me disse: "- Vai lá, olha uma menina e fala..."

Quais são os planos futuros?

Quero terminar esse romance... É complicado porque tem que sentar, escrever e não adianta um dia ou dois. Precisa de seis meses, um ano. Um texto não é só escrever e pronto. Escrever é reescrever! Tem um romance juvenil chamado "A órbita dos Caracóis - Uma novela Gastroespacial" que vai sair pela Companhia das Letras.

(Chega o tal Dênio, aquele apaixonado por cinema que rodou o filme em Paris, e junta-se a nós!)

- Bom, eu queria terminar...

- Eu cantando "Aquarela do Brasil!", tornei-me um ébrio, recitando Batatinha...

- É, sei lá... Falando alguma coisa...

- Uma declaração filosófica! Não, eu tenho vontade de terminar o livro...

(Voltamos então para a polêmica da apologia ao ócio que está no "Tanto Faz"...)

Na verdade, eu criei um personagem que mandava tudo para o saco! Eu não, eu cumpri todas as metas da bolsa. Eu trabalhava na Fundap, e fui para Paris fazer um curso em planificação econômica, era um convênio que tinha. Comecei a não ir, no inverno principalmente. Eu queria voltar mas não podia porque tinha um convênio que ia ser quebrado. Um outro cara ia de início. Era um cara que tinha se separado da mulher. Mas nas vésperas da viagem, eles voltaram e a mulher dele ficou grávida. Tinha que ir outro no lugar! Me chamaram. Era uma escola para estrangeiros, tudo muito chato!

Aí, arranjei um orientador na área de Urbanismo. Eu me formei na Getúlio Vargas e depois fiz mestrado em letras na UNICAMP. Então acabei fazendo a minha monografia com um cara muito legal. Logo no primeiro encontro ele marcou comigo num bar. Ele me perguntou: - "O que você quer fazer?" Eu disse que estava escrevendo um romance. Ele disse: - "É isso aí!". Eu tinha lido, no "Viagens aos Confins da Noite", uma frase que um personagem diz, ao ver Nova York do navio: - "É a primeira cidade em pé que jamais tinha visto". Na Europa, todas as cidades são deitadas, baixinhas. Então eu falei isso para o cara: -"Quero fazer um estudo. Comparar as cidades deitadas com as cidades em pé e como as cidades deitadas se erguem". Ele disse: - "Maravilhoso, genial, faz isso e me liga daqui a seis meses!" Aí, não consegui falar com esse cara nunca mais... Fiz a monografia. Daí, acabou a bolsa, acabou a grana, e eu voltei. Mas o personagem, o Ricardo, realiza no livro este projeto de vadiagem muito mais que eu. Eu fui lá, falei com o cara, cumpri as metas, tive a sorte de pegar um cara gente boa como orientador! Já o Ricardo, se desliga de todo e qualquer compromisso!

(Aí, ficamos conversando até que o Reinaldo soltou:)

Você vai Ter saco de ouvir essa fita?

(Estávamos terminando quando ele lembrou de um acontecimento importante. Escreveu uma das primeiras novelas via Internet. Aliás, quem quiser, é só acessar o UOL e entrar em novelas. Chama-se "O Moscovita". São trinta capítulos com três páginas cada, com quatro ou cinco 'clicks' em cada uma. É meio precário comparando com o que se faz hoje, pois foi feita em 96. Ganhou um prêmio em 1997 por estar entre os 10 melhores trabalhos de ficção em Internet.)

Ufa! Está aí: feito! Então quem quiser conferir a peça ainda dá tempo: "Tanto Faz" está em cartaz no Centro Cultural São Paulo, sempre sábado às 21hrs., até o dia 29 de setembro. Para conferir o resto da programação da mostra é só acessar www.cemiteriodeautomoveis.hpg.ig.com.br


Rennata Airoldi
São Paulo, 18/9/2002


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